sábado, 27 de dezembro de 2014

Aurora: Capítulo 46 - O Brilho Mais Forte


 Dalan bateu com as costas na parede, o sangue espirrando de sua boca. Viu uma figura se mexendo no quarto escuro e tentou se abaixar para se defender, mas não era rápido o suficiente. O soco veio na direção de seu rosto, tão forte que o fez atravessar a parede atrás de si, caindo entre os destroços do outro quarto. Cuspiu mais um pouco, conseguindo apoiar um braço no chão, mas antes que fizesse qualquer outra coisa foi virado de costas e uma sombra veio em seu pescoço. Fechou os olhos em resposta à morte veloz, mas não sentiu nada. Abriu uma das pálpebras desconfiado, e avistou Desaad acima de si. Ele estava em pé, segurando o que parecia um bidente, que prendia o pescoço do rapaz no chão. Sorriu de forma zombeira.

 - Eu te disse... - Começou, largando a arma fincada no piso. - Não fiquei parado depois de nosso desencontro na Caverna dos Reclusos. Treinei o suficiente para garantir minha superioridade. - Ele se abaixou, o capuz se remexendo por cima de seu rosto alongado e cabelos quase brancos de tão loiros, penteados perfeitamente para trás. - Se não conseguiu me derrotar antes, não terá nenhuma chance agora.

 Dalan rangeu os dentes e pôs as mãos no bidente. Ele era feito de um material metálico e vermelho, o que parecia repelir seus poderes. Tentou desprender a arma do chão com todas as suas forças, o que entreteu o adversário.

 - Pra quê tanto esforço? - Perguntou, andando calmamente até o outro lado do quarto. Se sentou numa poltrona empoeirada, reclinando as costas nas almofadas. - Eu não quero te matar, portanto se acalme. Vamos apenas passar o tempo.

 O garoto o encarou, vermelho pelo esforço e a humilhação. - Cale a boca. - Era tudo o que tinha. Voltou a se concentrar em se soltar, enquanto que o membro do Culto Púrpura o encarava com o queixo apoiado na mão. Se esticou para frente.

 - Sabe, eu realmente estou curioso. - Perguntou com os olhos atentos. - Já deixei claro que não está em perigo. Mesmo assim, quer voltar a lutar e arriscar sua pele. - Voltou a se encostar na poltrona. - Por quê?

 Dalan ficou calado por alguns segundos, recuperando o fôlego. - Você nos sequestrou. - Voltou a tentar arrancar a arma. - Não ache que vou ser enganado. Não depois de tudo que aconteceu conosco. - Suas mãos tremiam no suporte do bidente. - Não vou deixar que machuque meus amigos de novo.

 - Não... quero dizer, sim, claro. Seus amigos. Só que no fundo, o que realmente te motiva? - Indagou Desaad, um pouco agitado. - Digo, pra quê entrou na Aurora? O que te faz ser um membro de guilda? - O rapaz não respondeu, preferindo se concentrar em sair dali. O outro, no entanto, sorria tranquilamente. - É sobre Gamora, não é?

 Dalan parou, os olhos arregalados. Era como se o mundo tivesse congelado, tentando voltar a entrar nos eixos. Ele se virou lentamente para Desaad, ainda repetindo a frase em sua cabeça para ver se tinha entendido direito. - O quê? - Perguntou, a garganta subitamente seca.

 - Gamora! - Respondeu como se fosse a coisa mais simples do mundo. Endureceu o queixo, apontando as mãos para o chão. - Estamos em cima dela no momento. Digo, no lugar que ela ficava. Se não me engano, é aqui que ficava a Cordilheira dos Perdidos.

 - Como sabe... - Estava ficando difícil para o garoto respirar, mesmo com o espaço que o bidente proporcionava ao seu pescoço. - O quê aconteceu com ela?

 O líder do Culto Púrpura sorriu. - Ah, não sabe? Sua preciosa Aliança tentou sumir com esse lugar. - Ele se levantou, começando a andar ao redor do rapaz. - Exilaram o arquipélago para outra dimensão, ansiosos em se livrarem para sempre de qualquer menção dele. Usaram magia poderosa, criança, coisa que corrói a memória das pessoas e qualquer registro físico. Acho que por agora todos os mapas foram alterados, e apenas os Gamorianos conseguem se lembrar desse lugar. - Ele parou ao lado de Dalan. - Quer dizer, exceto os que usam magias tão poderosas quanto. - Esfregou a barra do manto com dois dedos, e apontou para o braço do rapaz com a mão livre. A marca da Aurora o encarou.

 - Eu... - Era demais para o garoto. Não estava esperando por aquilo. Desaad sabia sobre Gamora, perguntou para si mesmo. E o que tinha acontecido com ela? Estava falando a verdade? A Aliança tinha algo a ver com isso? Desviou os olhos, procurando entender a reviravolta que havia acabado de presenciar. 

 O outro sorriu ao ver a confusão no rosto de seu adversário. - Sabe, acredito que pessoas como nós são movidas por sonhos. - Se virou e começou a se afastar, abrindo os braços enquanto falava. - É a força que nos mantém seguindo em frente. E, por um acaso do destino, nossos sonhos se entrecruzaram, pequeno Dalan. 

 - O quê.... o quê você quer? - Perguntou o rapaz, se agitando. - Pra quê nos resgatar? Pra quê atacar a Aurora e tentar manipular o prefeito de Helleon? Pra quê se vender para demônios? Pra quê usar magia proibida e criar uma fortaleza flutuante no meio do mar? - Agora segurava com mais força as pontas do bidente. - O QUE QUER AFINAL, DESAAD? 

 O homem olhou para trás, o rosto de repente impassível. - A mesma coisa que você quer. - Disse, o manto roxo e prateado cobrindo suas costas. - Resgatar Gamora.

AURORA
CAPÍTULO 46: O BRILHO MAIS FORTE

 - O... o quê? - Perguntou o garoto. Não podia acreditar no que estava ouvindo.

 - Você sabe! Resgatar sua casa! - Ele se agachou, encarando o outro com olhos bastante abertos e animados. - Acredite, eu descobri o que tinha acontecido por sorte. Depois de nosso... desencontro, me recolhi para descristalizar meus companheiros. Tive de reformar os mantos deles, e foi quando percebi algo estranho. - Ele esperou Dalan dizer alguma coisa, em vão. - Bem, o que descobri foi que havia uma contra-magia estranha neles. Sabe, eu tinha feito diversas barreiras genéricas, porém poderosas, contra diversos feitiços da Aliança, mas tinha algo a mais do que simples contra-encantos de localização. Havia um que nunca tinha visto antes.

 - A partir daí, pesquisei. É algo bastante erudito e complexo, descobrir as especificações de uma magia a partir de um contra-encanto, mas afinal consegui. - Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo. - O tal feitiço da Aliança era a pista que eu precisava. Sabia que eles estavam tentando esconder a localização de meu mestre, e tudo parecia se encaixar com o feitiço de apagar vestígios. Se chama Caelaredon, caso esteja interessado. - Dalan não estava. - Só que há uma peculiaridade nele. Pessoas com memórias fortes sobre o local produzem contra-encantos naturais, que vão se desgastando com o tempo. Procurei rapidamente por algo assim, e meus caminhos me levaram novamente à Aurora. O destino é realmente inexorável. - O garoto engoliu em seco. Tinha os colocado na mira do Culto Púrpura.

 - E então... nos sequestraram? - Perguntou.

 - Bem, depois de nossos confrontos, seria muito difícil simplesmente chegar e pedir por apoio. - Desaad se levantou, se dirigindo até uma janela. O vidro estava imundo, quase bloqueando a visão da rua, mas mesmo assim ele se prostrou à sua frente. - Portanto, precisava de um plano. Pesquisei as missões passadas da Aurora, e contratei a ajuda de Jones e seus Libertadores. Tinham a motivação que eu precisava. Só que eu não queria chamar a atenção em um ataque direto. 

 - Felizmente estávamos abençoados. Soubemos que o famoso Tom Burstin teria uma missão perto de Helleon, portanto o capturamos, ferido, e fizemos uma simples indução mental nele. Já deve ter esquecido disso, provavelmente, mas o mandamos convidar vocês para uma viagem de navio. Quem desconfiaria dele? - O homem parou de sorrir, algo inédito nos últimos minutos. - Peço desculpas pela... truculência, mas garanti que ninguém fosse morrer. 

 - E o que quer da gente aqui? - Ofegou Dalan. Era muito para ele absorver, principalmente na situação que estava, mas percebia o buraco que tinha metido os amigos.

 - Bem, vocês estão aqui pelo contra-encanto. - Respondeu o outro, levantando um dedo. - Estamos o replicando e absorvendo a cada segundo, e com isso poderemos localizar onde está Gamora. Veja, a Aliança parece ter feito um trabalho bem porco, e o arquipélago está entre nosso plano e o Mundo Oculto, então...

 - E pra quê sequestrar meus amigos? - Interrompeu o rapaz, agitado. - Vocês só precisavam de mim, não era? Pelo meu contra-feitiço natural ou o que quer que seja! Pra quê envolver o restante da Aurora?

 - ... você realmente não sabe no que se meteu quando entrou na guilda, não? - Se virou novamente para o garoto após alguns segundos de silêncio. Caminhou tranquilamente em sua direção, e segurou seu braço. A marca da Aurora estava entre seus dedos, as três curvas e a estrela brilhante. - Isso aqui não é uma simples identidade. É magia poderosa, que une cada um de vocês. Pela alma e pelo sangue. Com isso, o seu contra-encanto foi passado para seus companheiros assim que você foi marcado. - Ele voltou a sorrir. - Acredite, isso facilitou em muito nossa vida. Com mais de vocês, mais rápida é a absorção.

 - Então eu... - Era verdade, concluiu Dalan. - Eles... estão aqui por causa de mim. Estão arriscando suas vidas... por minha causa. - Não tinha mais forças para se livrar do bidente, e deixou as mãos caírem.

 - Bem, eu pedi a meus subordinados que não os matassem, mas há uma maneira mais fácil de garantir isso. - Ele retirou a arma do pescoço de Dalan com facilidade. O garoto se manteve parado, sem saber o que fazer. Ficou ainda mais desconcertado quando o adversário estendeu a mão para o ajudar a se levantar. Recusou a ajuda, mas ficou de pé mesmo assim. - Dalan, você pode pedir a seus amigos que desistam. Essa batalha é inútil. - Colocou a mão no ombro do rapaz. - Não vamos matá-los, apenas queremos que continuem nessa fortaleza. E depois disso... - Olhou fundo nos olhos do outro. - Você sabe o que vai acontecer.

 - Gamora... - Respondeu o membro da Aurora, olhando para baixo.

 - Sim! Você terá sua ilha de volta! Não era o que sonhou? - Desaad estava com o rosto animado, segurando firmemente o ombro do garoto. - Bem, a hora é agora! Garanta a sobrevivência de seus amigos e traga sua casa do limbo! - Respirou fundo, mal conseguindo conter a ansiedade. - E está tudo nas suas mãos. O que me diz?

 Dalan não tinha algo a dizer naquele momento. Se lembrou de sua casa, a vizinhança que morava bem perto da praia. Seus pai, sua mãe, a vida que levava. Acordar todos os dias para ver os barcos zarparem, o vento salgado sujando seus cabelos, o gosto do peixe de cada dia. A monotonia do vilarejo, a floresta perto de sua vila, as caminhadas solitárias que costumava dar.

 Foi naquela floresta que encontrara Adam, não? O encontro que mudou sua vida. Foi por causa dele que entrou na Aurora. Foi acolhido na guilda. Wieder, Koga, Sophie, Dominic... até Amanda. Seus novos companheiros estiveram sempre do seu lado. E agora parecia a chance de retribuir, pensou. Garantir que continuassem vivos. Por eles e por sua casa, por seu pai e sua mãe. Começou a levantar o queixo para falar com Desaad, mas seus olhos pararam na barra de seu manto. O mesmo manto roxo e prateado que causara tanto sofrimento. Se recordou de Sophie no leito do hospital, de Sasha ensanguentada no saguão da Aurora, do ataque ao Intrépida Saída. Fechou a mão em um punho trêmulo. 

 Sabia o que fazer. 

 Esticou a mão e ativou seus poderes, congelando o chão aos pés do adversário. Desaad olhou para baixo, surpreso, e o garoto chutou seu estômago. O homem foi jogado para trás, caindo entre os móveis. - Se acha que vou ignorar tudo o que fez conosco... - Começou Dalan, a raiva renovando suas forças. - Pode esquecer. Não vou deixar nada em suas mãos, nem meus amigos e nem Gamora! - Gritou as últimas palavras, e o outro se levantou de forma silenciosa.

 - Bem, é uma pena. - Disse, e em um ínfimo de segundo disparou para frente, jogando o rapaz contra a janela. Ele caiu na rua, coberto pelos cacos de vidro. Com um dos olhos, percebeu uma figura alta ao seu lado. - Vou ter que fazer isso do jeito mais difícil, então. Espero que saiba que está... - Foi impedido de falar por uma gigantesca mão de ronatto que o socou para dentro do edifício. Dalan se levantou debilmente, identificando as pessoas ao seu redor. Eram Wieder, Sasha e Sophie.

 - Vocês... - Começou a dizer, mas Sasha se adiantou. Era estranho vê-la de cabelo curto, mas não tinha tempo de perguntar o que aconteceu.

 - Esteja preparado, Wieder. Ele já deve voltar. - Ela e o golem ficaram de costas para o garoto, mirando o buraco pelo qual Desaad havia sumido. Sophie por sua vez foi até Dalan, limpando um ferimento em sua testa. Um de seus braços estava preso em uma tipoia de pano cinza, mas ele nem percebeu. 

 - Prestem atenção! - Tentou dizer ele, se afastando da companheira. - Ele nos sequestrou para--

 - Já sabemos. - Interrompeu Wieder, ainda de costas. - Estávamos aqui, procurando uma maneira de atacá-lo.

 - Então... vocês sabem o que aconteceu! - Disparou o garoto, o suor escorrendo por sua testa. - Que foram sequestrados por minha causa! Que estamos aqui por causa de mim! É tudo minha culpa! - Sasha virou a cabeça para o lado, os olhos em sua direção. Por um instante ela o encarou de forma gélida, fazendo o companheiro estremecer. No segundo seguinte, contudo, já estava olhando para frente.

 - Sophie, leve ele até o barco. Precisamos tirá-lo daqui o quanto antes. Se o Culto Púrpura o quer, estará mais seguro fora dessa fortaleza flutuante. - Sua voz era impassível, e a outra garota se adiantou para puxar o braço de Dalan, que protestou.

 - O quê? Vocês não estão entendendo! - Ele se livrou de Sophie, dando um passo à frente. - Vocês não tem mais que lutar por mim! Eu que causei tudo isso, não tem que--

 - CALE A BOCA! - Gritou Sasha, fazendo o outro se silenciar imediatamente. - Você acha que estamos de brincadeira aqui? Que fazer parte de uma guilda é tão simples assim para desistir de uma hora pra outra? O que foi que eu disse para você em nossa primeira missão, Dalan? - Ele abaixou a cabeça, tentando se lembrar, mas não houve tempo para isso. - Nós da Aurora protegemos uns aos outros. E você é nosso companheiro, algo que não vai ser quebrado apenas por sua vontade. Nunca duvide disso. - Ela esticou o queixo, o cabelo cortado balançando ao vento. - Já tivemos muitos membros desistindo nesses anos. Não ouse repeti-los.

 - Vamos. - Pediu Sophie, puxando seu braço. O garoto, ainda relutante, aceitou. Os dois correram por entre as ruelas, sumindo de vista, mas Sasha e Wieder continuaram onde estavam, iluminados pelos raios cada vez mais frequentes.

 - Isso não adiantará. - Disse uma voz nas trevas. Um relâmpago surgiu nos céus, iluminando o encapuzado Desaad no interior do edifício. - Não vão conseguir ganhar tempo o suficiente.

 - É o que você diz. - Retrucou Sasha. Seus ferimentos não a deixavam mover o braço direito, mas isso não a incomodava. - Agora, nos diga. Qual é o seu real motivo de trazer Gamora de volta?

 - E não nos venha com esse papo maleável que você estava tendo com Dalan. - Adicionou o anão.

 Desaad apenas sorriu, mas a garota tinha uma ideia. - Tem algo a ver com Zemopheus, não é? - Wieder a encarou com a boca entreaberta, e ela o olhou de volta. - Não podemos deixar ele sair daqui.

 - O sentimento é recíproco. - Interrompeu o homem, abrindo os braços. Sua capa esvoaçou, como que turbinada por uma força oculta. - Vocês... parecem saber demais, e não posso deixar que comuniquem isso àquele rapaz. Ainda anseio por sua ajuda. - Sasha e Wieder deram um passo para trás, sentindo um peso gélido descer pelo estômago. O líder do Culto Púrpura sorriu. - Agora... comecemos.

 Enquanto isso, Dalan e Sophie caminhavam pelas ruas negras, a garota puxando o braço do distraído companheiro. Finas gotas de chuva começavam a cair, formando pequenas poças na calçada e tornando o caminho acidentado. Chegaram a uma bifurcação, e a garota parou para tentar se localizar, agitada. O cabelo loiro e molhado brilhava, e o companheiro avistou por fim seu braço enrolado na tipoia. Isso aconteceu por sua causa, dizia silenciosamente. Dalan se virou para o outro lado, a culpa o corroendo por dentro.

 - Acho que devemos seguir pela orla, não? - Perguntou Sophie, se virando para o companheiro. Viu que ele estava de costas, e se aproximou. - Dalan, temos que correr.

 - Enquanto os outros estão lutando?! - Disparou o rapaz, cerrando os punhos. - Enquanto um monstro tenta trazer de volta minha ilha e eu viro as costas? Enquanto ele ameça todos vocês por minha culpa? - Se virou com raiva para a amiga, que deu um passo para trás, assustada. Ele a encarou furioso por alguns segundos, até que socou com força a parede mais próxima. Sua raiva diminuiu como um balão furado, e abaixou o queixo. - Eu não sei o que fazer. - Admitiu com a voz pesarosa. - Eu realmente não sei o que fazer.

 - Dalan... - Começou Sophie, se aproximando. - Eu...

 - Ora, ora, ora... - Disse uma voz conhecida atrás dela, e os dois viraram a cabeça naquela direção. Desaad estava na bifurcação. - Vejo que consegui alcançá-los.

 - Oh, céus. - Disse Sophie com as mãos na boca, e Dalan se adiantou.

 - O que fez com eles? - Perguntou o rapaz, e o outro sorriu.

 - Não se preocupe, estão vivos. Só que eu cansei de bancar o bonzinho. - Ele puxou o capuz, deixando os cabelos loiros à chuva. - Da próxima vez que você recusar minha proposta, um de seus amigos irá morrer. E adivinhe quem será? - Ele virou o rosto para Sophie, estreitando os olhos. - O que me diz agora?

 O rapaz também se virou para a companheira, que encarava o adversário com os olhos arregalados. Não tinha escolha. Respirou fundo e endureceu o queixo. - Desaad, eu... - Começou a andar pra frente, mas foi impedido. Sophie estendeu o braço sadio, bloqueando sua passagem. Ela tremia, mas mantinha o queixo erguido. Dalan tentou afastá-la. - Sophie, eu preciso ir. - Ela balançou negativamente a cabeça, nervosa demais para falar. O companheiro sentiu o desespero tomar conta de seu corpo. - Ele vai te matar! - Berrou, mas mesmo assim ela não se moveu. Se virou para ele, os grandes olhos verdes sérios como nunca tinha visto antes.

 - Dalan, eu... - Começou, o lábio ligeiramente trêmulo. - Por minha vida inteira, eu deixei que os outros me protegessem. Ninguém... tinha confiança em mim. Até você chegar. - Ela abaixou minimamente o braço, se virando para frente. - Não posso deixar você se render assim. Hoje sou eu quem vai te proteger.

 - Sophie... - Tentava dizer o rapaz, mas infelizmente não estavam sozinhos.

 - Que assim seja. - Avisou o líder do Culto Púrpura, disparando para frente. Sophie empurrou Dalan para o lado, mas ele não era o alvo. Desaad agarrou seu pescoço e a levou para o outro lado do beco. Levantou-a, tirando seus pés do chão.

 - SOPHIE! - Gritou Dalan, se levantando e correndo para frente. O adversário atirou a capa para o alto, revelando o traje branco que usava por baixo. O manto se agitou e voou para o garoto, enrolando em suas pernas e o derrubando. Seu rosto bateu em uma poça, espirrando água para os lados. - SOLTA ELA! - Gritou, levantando a cabeça.

 Desaad não pareceu escutá-lo, jogando o corpo da garota com força no chão. Mesmo longe, Dalan conseguiu ver o sangue espirrando contra a chuva. - SOPHIE! - Tentou congelar o manto que o prendia, mas não conseguia. Desesperado, olhou para os lados em busca de alguma coisa, qualquer coisa. Enquanto isso, o homem pisava no peito de Sophie, e o barulho das costelas partidas rompeu o ar. - PARA COM ISSO! EU ME RENDO, FAÇO O QUE VOCÊ QUISER, MAS PARA COM ISSO! - Percebeu que chorava, as lágrimas se misturando às gotas de chuva. Desaad o encarou, e ele pode ver seus olhos. Estavam tomados pela loucura mais uma vez, e seu coração pareceu parar.

 - Já te dei chances demais, moleque. - Levantou novamente a membro da Aurora, desta vez inerte e ensanguentada. - Acho que um pouco de coerção vai te ajudar. - Fechou a mão em palma, e moveu-a na direção do coração da garota. Dalan gritou, e de repente o mundo pareceu explodir.

 Pois uma parede de energia verde acertava Desaad com força, fazendo-o largar sua presa e ser atirado para longe.

 - DESAAD! - Gritava uma voz nova, vinda do alto. O garoto levantou a cabeça e viu uma elfa curvilínea descer do segundo andar de um prédio próximo. Ela vestia o manto roxo e prata do Culto Púrpura, e parou à sua frente. O garoto tremeu um pouco, sem saber o que fazer. A mulher parou ao seu lado, e conjurou um feixe verde. Fechou os olhos, temendo um ataque, mas ela passou por ele e seguiu adiante na rua. - VOCÊ ME USOU! - Gritava a cada passo. Dalan se virou para vê-la sair, ainda sem entender nada.

 - Dalan, aqui! - Essa era uma voz conhecida. Amanda estava do outro lado do beco, ajoelhada ao lado de Sophie. - Preciso de ajuda! - Pediu, e ele correu em sua direção. O rapaz olhou para suas pernas, e percebeu que o manto havia sumido.

 Correu até as companheiras. - Ela está...? -  Sophie estava com o rosto coberto de sangue, e a visão fez o ar sair de seu corpo.

 - Ela está viva. - Tranquilizou a outra garota, sentada de uma forma estranha no chão molhado. Sua perna direita estava estranhamente dobrada na altura do joelho, mas pareceu ignorar. - Só que temos de tirá-la daqui. Agora.

 - O que está aconte... - Naquele momento um estouro surgiu da rua atrás deles. Se viraram, vendo que Desaad havia sido derrubado por Alana.

 - VOCÊ NÃO VAI ME DIZER NADA? - Gritava a elfa, lançando mais um golpe de energia no ex-líder. - ME RESPONDA! VOCÊ REALMENTE ME USOU POR TODOS ESSE ANOS? DESAAD!

 - Chega. - Disse o homem. Fez um gesto com a mão, e seu manto surgiu da esquina, se enrolando ao redor do corpo da mulher. O próprio manto dela também se agitou, mantendo-a imóvel.

 - Alana! - Amanda já estava se levantando, mas Desaad se virou para os membros da Aurora. Seu olho brilhou em amarelo, e os dois ficaram no chão, paralisados por um medo colossal. O temor não os deixava pensar, apenas observar a cena à frente.

 Um brilho verde surgiu do corpo da elfa, e ela rasgou os mantos com uma explosão de energia, deixando apenas seu vestido preto à mercê da chuva. Se virou para seu adversário, o olhar repleto de fúria. Esticou a mão, mas ele se aproximou com tanta velocidade que estava à sua frente em um piscar de olhos. - Você ousa me trair. - Agarrou seu braço, dobrando-o para baixo. Em um instante o osso do antebraço se partiu em dois, surgindo em uma cascata de sangue. Alana gritou, e embora Dalan e Amanda quisessem muito desviar o olhar, não conseguiam. Apenas observavam.

 A elfa caiu de joelhos, e Desaad a chutou no peito com tanta força que ela cuspiu sangue quando acertou a parede, formando uma pequena cratera. - Vou lhe mostrar o que acontece com quem tem a audácia me trair. - Ele parecia mais ameaçador do que nunca, a fúria fria o controlando por inteiro. Alana tentou levantar o outro braço para atacar, mas o homem pisou em seu membro. Era difícil enxergar o que acontecera pelo ponto de vista dos membros da Aurora, mas ouviram alguma coisa cair na água, além do novo jorro de sangue. Alana gritou mais alto.

 - Quer saber o que eu fiz com você? - Perguntou ele, dando-lhe um soco no estômago. - Pois bem, vamos começar. Fui eu quem matou sua família. - Uma joelhada no rosto, e dois dentes voaram. -Seus pais haviam descoberto que eu trabalhava com Zaulin, e eu fui à sua casa naquela noite para matar todos vocês. - O nariz se quebrou com uma cotovelada. - Só que eles me contaram sobre você. Sobre seus poderes. PEDIRAM PARA QUE EU TE LEVASSE AO INVÉS DE MATÁ-LOS! - Dalan e Amanda tentaram ao máximo fazer alguma coisa, qualquer coisa, nem que fosse desviar o olhar daquele espancamento brutal. Em vão. - Só que eu decidi que não. Poderia usá-la como um plano reserva. - Ele a agarrou pelo pescoço, jogando-a contra a parede. Alana cuspiu, muito mais sangue que saliva. Havia um corte em sua testa, e o rosto estava empapado do líquido vermelho.

 O homem segurou seu rosto, olhando bem fundo em seus olhos. Havia um verde opaco ao redor das órbitas, e ele franziu o cenho. - E você acabou usando o Indramara hoje, não? Tanto esforço para nada. Nem sequer derrotou sua oponente. Bem... - Ele se aproximou, tão perto que manchou seu rosto com o sangue. - Sorte que ninguém consegue ativar isso duas vezes ao dia, não?

 - Seu... - Alana chorava de raiva, e chutou o adversário, sem efeito. Ele fechou as mãos em palma, sorrindo uma última vez.

 - Sabe o melhor de tudo? - Perguntou, sem esperar resposta. - O golpe que eu te ensinei? Foi o mesmo que usei para matar seus pais. - Houve apenas tempo da elfa arregalar os olhos antes dos dedos de Desaad eviscerarem seu peito, O coração foi partido em dois, o golpe tão forte que atravessou a coluna. Ela nem mesmo mudou a expressão, e o brilho da vida se esvaiu de seus olhos. O líder do Culto Púrpura a deixou cair, seu corpo se esparramando no chão. Ele se virou de volta para os membros da Aurora, o sangue nas vestes brancas sendo lavado pela chuva. - Agora, vocês.

 Amanda foi a primeira a se recuperar do feitiço. Ela imediatamente conjurou seus poderes, jogando água nos olhos do adversário. Ele parou para se limpar, gerando míseros segundos que teriam de servir. - Anda! - Gritou por entre os dentes para Dalan, agarrando seu colarinho. Ele também pareceu acordar, virando o corpo para trás. Agarrou a desacordada Sophie e disparou pelo beco, os braços de Amanda ao redor de seu corpo. Ela mancava pela perna quebrada, mas procurava acompanhar o companheiro.

 Ouviram passos na poça atrás deles. A garota olhou para frente, vendo a extensa rua adiante. Puxou o rapaz pelo pescoço e se jogaram através de uma porta adjacente, entrando em um apertado cômodo escuro. - Anda, anda. - Pediu desesperada, e os dois correram para dentro do edifício. Assim que saíram daquele aposento, ouviram uma porta se abrir com violência.

 Decidiram entrar em um aposento à direita, procurando voltar para a rua. Assim que fecharam a porta, no entanto, perceberam o beco sem saída. Não havia janelas.

 - Ah, não... - Disse baixinho enquanto que Dalan depositava Sophie em uma cama. Ele ficou de costas para ela, os punhos cerrados enquanto que a outra tentava pensar em alguma saída. Já era tarde demais para darem a volta, e tudo que lhes restava era a esperança de que Desaad não os encontrasse. Não parecia provável.

 Pense Amanda, pense, urgiu para si mesma. Era apenas ela e Dalan, sozinhos contra um monstro que parecia imbatível. Não podiam esperar por nenhum apoio. O único que tinham era Alana, e ela fora destroçada. Oh, céus, Alana. O choque de sua morte finalmente a atingiu, e ela quase vomitou. Lágrimas caíram de seu rosto enquanto se recuperava com a mão na boca. Se ao menos ela tivesse conseguido alcançar o Indramara novamente, talvez...

 Espera... é isso. A garota abriu os olhos, a mente em polvorosa. A única forma de lutar contra Desaad era atingir o Indramara. Mas como? Precisariam de um choque emocional bastante forte e temperado com uma extrema vontade de lutar para isso, e ela não parecia a melhor candidata para tal. Não era assim que as coisas a atingiam. Sophie ainda estava desmaiada, o que a deixava apenas com uma opção. Dalan.

 Ela se aproximou, mancando, pensando em todos os momentos que havia passado com o garoto. Em algum lugar ali, deveria haver alguma coisa que pudesse trabalhar. - Dalan... - Sibilou, as duas mãos em punho apoiadas nos ombros do companheiro.

 - Amanda? - Perguntou ele, mas foi ignorado.

 - Eu sei que... - Ela engoliu em seco antes de continuar. - Desde que você saiu de Gamora, as coisas ficaram meio difíceis. Aquele lance de não saber como se portar com as outras pessoas, a pressão de ter que salvar sua ilha sozinho... eu sei. Sei de tudo. - Apoiou a testa no peito do outro. - Toda essa frustração deve ser horrível. Eu tentei te ajudar do meu jeito, mas... - Sorriu. - Mas hoje tenho um conselho diferente.

 - O quê? - Perguntou o rapaz, e a garota levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos.

 - Solte tudo que está dentro de você, Dalan. Tudo que tem guardado desde que Gamora sumiu até hoje. - Não chegou a piscar, o castanho se encontrando com o negro. - Alana me contou do plano de Desaad. Sei que deve ser... terrível para você, mas não tente mais guardar nada. Por favor. Não hoje.

 - Amanda, eu... não estou entendendo. - Ah, é claro que ele não entendia. Típico de Dalan. Ela voltou a encostar sua testa na roupa cinza dele, pensando. Só lhe restava uma opção, concluiu enquanto encarava o chão com os olhos arregalados de tanto pensar.

 - Me desculpa, Dalan. - Soltou, antes de se apoiar na ponta do pé sadio e beijá-lo com toda a sua força. Suas mãos agarravam sua camisa, puxando-a para si. Beijou-o de forma demorada, intensa, depositando toda a sua esperança nele. Esperou ser retribuída.

 Ouviu a porta atrás de si se abrindo, e abaixou a cabeça. - Dalan, eu... - Naquele momento algo passou pela suas costas, soltando um som asqueroso. Sentiu o sangue quente na garganta, as mãos perderem a força e largarem a camisa do outro. Olhou para baixo, trêmula. Havia uma mão a atravessando, um pouco ao lado do umbigo, completamente ensanguentada. Conseguiu soltar um som abafado antes dela sair de seu corpo, tirando-lhe o apoio que descobriu que necessitava. Caiu nos braços do companheiro, sem conseguir se levantar.

 Dalan enquanto isso estava apenas com os olhos arregalados, a mente em choque. Ele olhou para a garota que segurava inconscientemente, o sangue pingando no chão mais abaixo. Sua cabeça estava em branco, mas havia um pequeno pensamento, bem no fundo, que conseguia ser ouvido.

Amanda?

 - Essa é a primeira. - Disse Desaad, limpando a mão. - Se não quiser que isso continue, peça para seus amigos se renderem. Ouviu? - Só que Dalan não estava escutando. Amanda perdeu as forças nas pernas, e caiu em cima dele. O rapaz se ajoelhou, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo. A cabeça dela estava em seu ombro, e ele passou a mão por seus cabelos. Sentiu as lágrimas caírem, e virou o rosto dela para olhar em seus olhos. Não conseguia ver um brilho.

A-Amanda?

- O que me diz, garoto? - O líder do Culto Púrpura, segurou seu queixo, tentando forçá-lo para cima. - Quer continuar matando seus amigos? Ou se render de uma vez?

 Dalan começou a tremer violentamente, levantando a cabeça de forma lenta. Ele encarou Desaad com um olhar completamente preenchido de ódio, tão forte que poderia abrir um rombo no ar.

 E de repente, um minúsculo relâmpago azul faiscou neles.

 Desaad foi catapultado para fora do edifício, atravessando duas paredes e caindo no centro de uma praça. Ele limpou o sangue da boca, assustado, e percebeu algo estranho em seu braço. Era gelo. Olhou para o buraco de onde tinha saído, onde seu adversário estava prostrado.

 Ele estava segurando Amanda nos braços, a chuva fina os envolvendo. Seus olhos estavam cobertos por um azul-claro, e pequenos raios saiam deles de vez ocasionalmente. O líder do Culto Púrpura sentiu algo estranho passar pelo estômago. Era medo.

 Pois Dalan havia alcançado o Indramara.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Aurora: Capítulo 45: O Lema


AURORA
CAPÍTULO 45: O LEMA

 Sasha caminhava com os passos firmes, secando discretamente a região ao redor dos olhos. Com o coração apertado, se lembrou de Marcus e olhou ao redor, como se pudesse enxergar onde o companheiro estava. Não fazia muito tempo desde que saíram juntos da torre, pensou. Talvez se corresse, poderia alcançá-lo e... não... 

 Contorceu o rosto e virou a cabeça para o lado, como se pudesse se afastar fisicamente da ideia. Tinha um adversário a enfrentar. Teria que confiar em Marcus para tomar conta do seu. E, além do mais, se ela corresse com sua luta, poderia depois ir ajudá-lo. O pensamento a animou, fazendo-a pisar com mais força no chão, as maria-chiquinhas azuis balançando por cima das roupas cinzas. Tinha que agir como uma líder. Especialmente agora. Fazer o seu trabalho e garantir que todos voltassem vivos para a Aurora.

 Caminhou por alguns minutos, até que se viu em uma praça redonda, cercada pelos casebres negros. Não havia nenhum monumento ou qualquer tipo de construção para decorar o local, mas havia alguém a esperando. Ele vestia um manto roxo com detalhes em prateado, cobrindo-o de tal maneira que parecia muito maior do que o necessário. O capuz cobria seu rosto magro, deixando apenas a parte inferior à mostra. Havia um nariz adunco e um traço no lugar da boca, cobertos por uma barba ralada e branca. Parecia pouco para identificá-lo, mas a membro da Aurora tinha certeza. Era James Jones, líder dos Libertadores e atual componente do Culto Púrpura.

 - Jones. - Disse ela sem emoção. Aja como uma líder, pediu para si mesma ao mesmo tempo em que se irritava por ter de ser lembrada daquilo. Foco, exigiu de si mesma. - Renda-se agora para acabarmos logo com isso. - Cerrou o punho para extravasar a raiva emergente. Ainda se lembrava da humilhação que sofrera em Wildest. Caminhou até o meio da praça, onde viu que o adversário estava sorrindo. Parou, desconfiada. - O que é tão engraçado?

 - Ah, nada... - Começou o velho, abrindo o sorriso. - Só não imaginava que... você fosse apenas uma garota com saudades do pai. - Ele levantou a cabeça, mostrando os olhos injetados e bem abertos. Sasha estreitou as sobrancelhas. Não gostava nem um pouco daquilo. 

 - O que quer dizer com isso? - Perguntou. Jones abriu os braços, deixando a capa esvoaçar.

 - Achei seu sonho muito bonito! - Disse ele, maleficamente animado. - Sobre ter seus amiguinhos todos reunidos, aplaudindo você! Seu pai estava lá, não? O querido Adam Alba? - Ele empinou o queixo. 

 - Do que você está falando? - De algum modo, ela já sabia a resposta. Segundo Koga, haviam acabado de ter sido presos em uma ilusão que refletia os sonhos mais profundos. Duvidava que Jones não tivesse algo a ver com aquilo.

 O outro estalou a língua, parecendo muito contente consigo mesmo. - Sabe... você conhece um demônio chamado Kruegiller? - Ele não esperou resposta, apenas riu de desprezo. - É claro que não. Kruegiller é um ser cujos poderes são de retirar algo do sonho das pessoas e manifestá-los no mundo físico. Claro que há limites, mas os resultados são bem satisfatórios. Por isso pedi a Desaad esse poder. - Ele estendeu a mão para frente de forma pomposa, como se ela fosse de ouro. - Agora... passado isso... você reconhece esse poder?

 As unhas de suas mãos instantaneamente cresceram, formando garras longas. Sasha soltou a respiração, o coração batendo mais forte. Conhecia aquelas garras e, do jeito que Jones falava, a semelhança não era uma mera coincidência. Eram iguais às do seu pai.

 - O quê... é isso? - Perguntou através do esforço de controlar seu ódio, tão forte que tremia. Ver a marca registrada de seu falecido pai nas mãos de um ser imundo como Jones era ultrajante, para dizer o mínimo. 

 - Então você reconhece? - Riu o velho. A garota contorcia o rosto pela ira, sentindo o estômago borbulhar como um caldeirão incandescente. Havia sido atacada em um navio, iludida com seus próprios sonhos, seus amigos estavam lutando batalhas mortais, Marcus parecia confortável com sua própria morte, tinha que enfrentar um dos homens mais odiosos que havia encontrado e agora isso. Tudo que queria era disparar e enfiar o rosto do outro com tanta força no chão que ele nunca mais sorriria. Especialmente daquele jeito.

 - Você está preso. - Conseguiu dizer por entre os dentes. - É o chefe de uma milícia criminosa, fugiu da prisão e está mancomunado com uma organização terrorista. Vou pedir apenas mais uma vez. - Ela respirou fundo, procurando se controlar. - Renda-se agora.

 - Render? Só que eu acabei de começar a minha vingança! - Ele por um momento pareceu animado, mas imediatamente adotou uma postura séria e fria. - Vocês, vermezinhos, invadiram a minha casa e me humilharam. Quase destruíram a organização que fundei há cinquenta anos e me jogaram em uma cela suja. Se não fosse Desaad e minha promessa de que usaria o restante dos Libertadores para ajudá-lo a capturar vocês para seu plano, ainda estaria apodrecendo atrás das barras. Portanto, se acha que eu vou desistir antes de ver o desespero nos seus olhos, pode desistir. - Deu um passo à frente, e um raio cortou os céus. - Você, aquela putinha de cabelos castanhos e o imbecil que roubaram meus Recons. Farei com que vocês e seus amigos, assim como aquele inferior e a criatura escamosa que acabaram de contratar, observem o que ajudaram a criar. Então os torturarei, e um dia talvez morram. - Abaixou o capuz, revelando seu cabelo curto e grisalho. - Disso eu tenho certeza.

 - Então você não me deixa escolha. - Ela girou um pouco para o lado, estendendo as mãos à frente do peito. Analisou brevemente a situação e correu o mais rápido que podia, prendendo seu braço no pescoço do adversário e jogando-o contra a parede mais atrás. - Renda-se! - Cuspiu com raiva. O outro estreitou os olhos, ainda com o sorriso.

 - Vá à merda. - Ele esticou o braço para atacar, mas a garota percebeu aquilo bem a tempo. Saltou para trás, e no espaço entre os dois um punhado de fios azuis se agitou no ar. Sasha levou a mão à testa, onde puxou uma mecha de cabelo cortado. Felizmente, não haviam ferimentos.

 - Que seja. - Grunhiu. Abaixou a cabeça e voltou a atacar. Jones tentou a acertar com um golpe de baixo para cima, mas ela usou de sua supervelocidade para saltar para a direita e fincar o pé no chão, juntando impulso para girar o corpo e desferir um soco no rosto do velho, tão forte que sentiu os dentes trincarem. Isso é pela minha humilhação em Wildest, pensou. Antes que ele caísse, ela se adiantou e pôs a mão em seu rosto, jogando-o contra a parede e arremessando-o para a praça na volta. A maior ameaça eram as garras, pensou. Tinha que mantê-lo afastado e bater forte quando pudesse, para que terminassem rápido aquela luta. Esperou o outro levantar e disparou mais uma vez, sempre de olhos em suas mãos.

  O membro do Culto Púrpura girou o braço direito para tentar acertá-la, mas a garota deslizou de joelhos para evitar ser acertada. Viu a mão esquerda de Jones bem próxima do seu rosto e jogou a cabeça para trás em resposta. A garra passou tão perto de seu nariz que podia sentir seu cheiro, mas no momento seguinte já estavam afastados. Ela rolou para o lado e cessou a escorregada, mantendo o velho em seu campo de visão. Ele estava com o corpo virado para o outro lado, mas sua face a encarava com raiva. Correu para atacá-la, mas Sasha já tinha se afastado para o centro da praça.

 - Você vai voltar para a prisão, Jones. - Alertou, deixando que o adversário viesse ao seu encontro mais uma vez. - E dessa vez não haverá Desaad para te libertar! - As garras miravam seu pescoço, mas ela se abaixou e rapidamente deu um chute no outro. O homem ofegou e ela lhe deu um encontrão, arrastando-o até o outro lado. Acertaram a parede e sentiu o sangue dele pingar em seu nariz. Estava quase no fim, concluiu.

 Ele tentou acertá-la mais uma vez, mas a garota deu um passo para trás. - Desista logo! - Ordenou, vendo o estado deplorável do velho. Sua boca estava sangrando e o corpo encurvado pela dor, ofegante. Estava na cara que o homem nunca fora um lutador, apenas conseguira os poderes vendendo o que necessitasse por aquele manto roxo, pensou Sasha. Os poderes de seu pai. Obtidos apenas para tentar desestabilizá-la. Franziu o cenho e se preparou para atacar mais uma vez, até que uma sensação a parou.

 Era como se algo frio e pegajoso estivesse cobrindo seu corpo, vindo do norte. Olhou naquela direção, sabendo o que era aquilo. Energia negra, concluiu. Fizera muitas missões com Marcus para identificar aquela sensação. Só que estavam longe um do outro. Se conseguia captar aquilo à distância, teria ele retirado o tapa-olho? Se fosse isso... não... Um peso gélido desceu pelo seu estômago. Marcus.

 - Ei! - Ela olhou para o lado e viu Jones a atacando. Oh, não, pensou, se livrando do estupor e colocando instintivamente as mãos à frente. Viu o sorriso do outro com seus olhos arregalados, e logo percebeu que havia se condenado. Três dedos do adversário transpassaram sua palma direita, jogando-a na parede. Sasha arfou e conseguiu agarrar o pulso livre do homem, mas estava presa. Seu sangue pingava, o buraco na mão ardendo e agonizando a cada movimento do outro.

 - Eu acho que senti aquilo também. - Começou ele. - É um de seus amigos? - Não houve resposta no rosto contorcido de Sasha, e o velho perfurou seu dedo médio com uma das garras livres, rompendo o osso. Ela gritou, quase largando o pulso do outro. - Vou assumir que sim. - Jones riu, encarando a garota que tremia e mal se apoiava em pé. - Sabe que isso me lembra do seu sonho? Todo mundo reunido e alegre? - Enfiou a última garra no dedão dela, quase arrancando-o fora. A membro da Aurora fechou os olhos, trincando os dentes para não gritar novamente. - Bem, isso não vai acontecer. - Se aproximou dela, sibilando em seu ouvido. - Ao final do dia, todos estarão mortos. E farei questão que se lembre que isso aconteceu por terem se metido em meu caminho.

 Sasha abriu um dos olhos, tomada mais uma vez pela ira. Em algum lugar Marcus estava em perigo, e ela ali, presa por um velho. - Eu vou salvá-los. Todos eles. - Aproveitou a aproximação e cabeceou seu rosto, jogando-o para trás. As garras se largaram de sua mão, deixando espaço para um frio cortante nos ferimentos. A garota apertou a extremidade contra a camisa cinza, tentando estancar o ferimento. À sua frente, o velho se levantava mais uma vez, mas ela juntou todas as suas forças e o chutou no queixo, disparando para as ruas em seguida. Uma parte dela tentou puxá-la para trás, se lembrando de seu dever com sua missão de derrotar Jones, mas não tinha como continuar ali. Precisava encontrar Marcus, pensou. Era o mais urgente.

 Um barulho de destruição e aspiração encheu os ares, quase explodindo seu tímpanos e fazendo seu coração parar por alguns instantes. Não, não, não. Apressou o passo, correndo como nunca havia corrido. Estava difícil até mesmo fazer as curvas, mas não se importava. Eu tenho que chegar até ele, pensou com a camisa enrolada na mão dilacerada. Eu tenho de salvá-lo. Tenho. E então, virou uma esquina e viu seu companheiro.

 E o enorme buraco negro que o rapaz se aproximava.

 Era como se o mundo tivesse se desacelerado. Conseguia ver os destroços e a poeira sendo sugados na direção da esfera, dançando entre as paredes destroçadas. Zaulin estava de costas, sendo sugado. E Marcus estava de frente, empurrando o demônio e correndo na direção da morte. Ele não parecia capaz de enxergar a companheira, mas ela sim. Uma miríade de coisas passou por sua cabeça, mais rápidas que qualquer músculo em seu corpo. E, de alguma forma, não conseguia entender nenhuma delas. O choque a impedia, os olhos incapazes de acreditar no que estava acontecendo e no que iria acontecer.

 Conseguiu, minimamente, se livrar do transe. Deu um passo para a frente, usando toda sua velocidade. O corpo estava se inclinando para frente, os braços se posicionando para a corrida. Eu vou resgatá-lo, conseguiu pensar. Não iria deixar mais ninguém da Aurora partir. Iria arrancar Marcus dali, espancar Zaulin e dar um socos no garoto também. Lágrimas já caíam de seus olhos, a boca aberta para formar um grito de alerta. Seus cabelos, presos em longas maria-chiquinhas, ondulavam na direção da esfera negra.

 E, no instante seguinte, ela sumiu. Engolfou Zaulin e Marcus e desapareceu, como se nunca tivesse existido. Aspirada para seu próprio interior. A inércia tratou de derrubar os destroços ainda flutuantes, e Sasha caiu de joelhos. Não, dizia sua mente inerte. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO

 A garota colocou as mãos no chão, sequer se importando com a dor da direita. Seu sangue se misturou à poeira negra, onde a cascata de lágrimas caía. - Não... - Conseguiu dizer, rouca, em agonia interna. Era como se um pedaço de si mesma tivesse sido arrancado. Colocou a mão no peito, tentando abrir um caminho com as unhas entre os seios, como se quisesse retirar aquilo que tanto doía. O coração deu uma pontada violenta, e ela arfou com a dor. Não podia acreditar. Marcus... não poderia ter ido. Ela tinha confiado nele. Podia jurar que sairia vitorioso de sua luta. Afinal, a Aurora iria se manter unida, não? Todos vivos e salvos. Era o que tinha prometido a si mesma. Era... era... céus... não...

 Estava encurvada no chão, chorando copiosamente, até que alguma coisa agarrou suas maria-chiquinhas e puxou sua cabeça para trás. Ela berrou brevemente, e uma mão cheia de garras parou ao lado de seu rosto. Por um instante delirante, poderia jurar que pertenciam ao seu pai, cobrando a guilda que havia confiado à filha. Mais lágrimas se derramaram, e Jones parecia deliciado com aquilo. - Ora, ora, ora... - Começou o homem, pingando de satisfação. - Alguém morreu?

 A voz dele ligou alguma chave na cabeça da garota, e ela só conseguiu enxergar em vermelho. Começou a se virar para a esquerda, lívida como nunca antes. - Seu.... ugh. - Ela parou, o sangue espirrando de sua boca. Olhou para baixo, trêmula, e viu as pontas de cinco garras saírem do espaço um pouco abaixo de seu ombro direito, explodindo em uma cascata rubra.

 Sasha tombou para frente, só sendo impedida de cair pela mão em seus cabelos. Jones tirou as garras de seu corpo, e uma dor gélida preencheu as feridas. - Você não tinha dito alguma coisa sobre salvá-los? Sobre protegê-los? - Tinha, pensou a garota, contorcendo o rosto. Tinha feito uma promessa para protegê-los. O rosto de seu pai se manifestou em sua escuridão, tal qual a última vez em que se viram. Ele colocou a mão em sua cabeça, esfregando seu cabelo. Cuide da Aurora até eu voltar, tinha dito ele. Foram suas últimas palavras para a filha. Se lembrou que tinha concordado energeticamente, feliz com a responsabilidade aparente. E, dois anos depois, estava ali.

 Me desculpa, pensou arrasada. Não tinha conseguido cuidar da Aurora. Não conseguira evitar a saída de quase todos os membros da guilda. Não conseguira dar suporte à sua mãe. Não conseguira fazer a Aurora crescer, nem inspirar os membros remanescentes. Tentara fazer acordos com criminosos, pusera as missões acima das vidas dos amigos, deixara que fossem ameaçados por terroristas. E agora estavam em uma fortaleza no meio do mar, separados uns dos outros e sem nenhuma ideia do que tinha acontecido. E agora Marcus havia morrido, e talvez outros tivessem o mesmo fim. Tudo sob sua responsabilidade. Me desculpa, pai, disse às lágrimas. Me desculpa. Cuide da Aurora, ficavam repetindo as palavras em sua mente. Cuide da Aurora.

 Cuide da Aurora. Eram as palavras que formavam seu cerne. A frase que havia guiado todas as suas ações, cada batida do coração, cada respiração, desde que tinha dezessete anos. Cuide da Aurora. Ela ficou ressoando em sua cabeça, ganhando cada vez mais força e brilho. Cuide da Aurora. Era como uma prece. Era como uma ordem. Um pedido, um dever. Cuide da Aurora. Percebeu que não pareciam mais com as palavras de seu pai. Eram suas. Era seu mantra.

 Cuide da Aurora.

 - Pra quê usar isso? - Perguntou Jones. Ele estava ajoelhado ao lado da garota, segurando as maria-chiquinhas em sua mão esquerda, puxando a cabeça da outra. - Nunca te disseram que usar o cabelo assim é pedir para ser agarrada no combate? - O velho a provocava, contente em humilhá-la. Esperou tanto tempo por isso que queria aproveitar cada segundo. Estava tão entretido nisso que nem viu a mão da garota se esticar para o lado, agarrando um pedaço de vidro cortante.

 - Meu pai sempre me disse que gostava. - Disse ela, os lábios ainda manchados de sangue. - Só que você tem razão. - Se moveu como um raio, e o velho se jogou para trás, assustado. No entanto, o golpe não o tinha como alvo. Um maço de cabelo azul caiu no chão empoeirado, a mão esquerda de Sasha ainda ao lado do lugar onde eles haviam ficado por tanto tempo.

 A garota se levantou, a vontade exalando de seus poros como uma aura. Jones se afastou inconsciente, ainda caído no chão. A membro da Aurora estava de costas para ele, o rosto virado para a direita. Puxou a maria-chiquinha remanescente com a mão ensanguentada, e com a outra a cortou com um movimento forte. Deixou o caco de vidro se quebrar no piso.

 - Somos o brilho mais forte da noite mais escura. Quando as trevas estiverem em seu ápice, a Aurora não tardará, e iluminará todos que olharem para cima. - Recitou Sasha, virando o rosto para seu adversário. - Meu pai disse isso no dia em que fundou a Aurora. Por um tempo eu achei que entendia o significado, mas foi apenas hoje que decifrei o verdadeiro significado dessas palavras. - Se virou, o rosto pálido pela perda de sangue, porém obstinado. - Minha guilda é um símbolo. Somos a esperança na noite sombria, seja para os outros e para nós mesmos. Faremos o certo, não importa o custo. E enquanto mantermos isso... - Ela levantou o queixo. - Não conseguirão nos derrubar.

 - I-isso não importa. - Grasnou Jones enquanto se levantava, tentando manter a compostura. - Você falhou, não foi? Deixou alguém morrer!

 - Marcus derrubou o mais forte de vocês antes de morrer. - Disse ela, as lágrimas voltando a correr pelo seu rosto. Ainda era difícil, mas tinha que confiar no motivo pelo qual Marcus morreu. Cuide da Aurora. - Só que você tem razão. Ele se foi. - Cerrou o punho com força. - E eu adoraria descontar tudo que estou sentindo em alguém.

 O homem só teve tempo de arregalar os olhos antes de tomar um soco no rosto, caindo para trás. Uma sequência de golpes veio em seguida, sem chances para revidar. De vez em quando a garota berrava enquanto golpeava, mas os sons não eram discernidos pelo membro do Culto Púrpura. Conseguiu levantar o braço esquerdo e atacar uma vez, sentindo as garras rasgarem pele e músculo, mas rapidamente sua mão foi quebrada. Não havia espaço para gritar, apenas a onda de socos que varreram seu rosto. Perdeu a consciência, mas eles continuavam vindo.

 Sasha acertou propositalmente um soco no chão para parar, procurando retomar o controle. A outra mão estava ao seu lado, sangrando por Jones e por si própria. Respirou para recuperar o fôlego, as dores e os sentimentos voltando a acordar. Se levantou, deixando o ensanguentado adversário no chão. Aquilo deveria bastar.

 Andou até onde o pequeno buraco negro havia estado antes. O último lugar que vira Marcus. Parou ao lado, encarando o chão como se esperasse algo sair das rochas. Sentiu mais uma vez vontade de chorar, mas dessa vez controlou. Teria tempo para isso quando saíssem dali, tentou se dizer. Ficava mais fácil depois de ter descarregado toda aquela frustração. No entanto, ainda tinha algumas coisas para tirar do peito.

 - Quando você disse que poderia... - Começou em voz baixa, engolindo em seco. - Eu não entendi como você estava tão tranquilo. Fiquei com raiva... muito por... achar que tudo que passamos juntos não era importante para você. - Engoliu em seco mais uma vez. - Só que você na verdade você entendia melhor o conceito de guilda do que eu. Estamos todos arriscando nossas vidas por alguma coisa. E isso é o mais importante para nós. - Um nó na garganta a impediu de falar. Se lembrou das conversas com Marcus, das ajudas que se deram. Seu confidente. Seu maior amigo. - Eu...

 Me desculpe, dizia uma voz em sua cabeça. Olhou para o lado, como se conseguisse enxergar de onde ela vinha. Parecia muito com a voz de Marcus. Parou por um instantes, tentando entender o que estava acontecendo, até que viu os pilares curvados à distância, figuras gigantes ultrapassando os tetos dos casebres. Aquela visão a fez endurecer o queixo, a testa se franzindo. Limpou as lágrimas e o sangue do rosto. Ainda estavam sobre ameaça. O Culto Púrpura havia os trazido ali para um motivo, e seja qual for precisava acabar com isso e salvar seus companheiros. E teria de fazer isso agora.

 Olhou para trás, vendo o espaço onde Marcus havia sumido. Queria muito ficar ali, dizer alguma coisa para tirar o peso em seu coração. Só que tinha uma responsabilidade com o restante da guilda. E especialmente agora, não antes, era a hora de agir como líder deles. Por seu pai, pelo que ele acreditava, e por Marcus. Se lembrou do pedido de desculpas em sua cabeça, e sorriu triste.

 - Obrigada. - Disse baixinho, e se virou para correr.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Aurora: Capítulo 44 - Indramara


 Amanda saltou por cima de uma escrivaninha empoeirada, bem a tempo de se esquivar de um muro móvel de energia verde que destruiu os móveis atrás dela. Ele continuou seu caminho até acertar a parede de rochas negras e se desmaterializar, bem no momento em que a garota caía com os dois braços à frente para se proteger. Rolou no chão, sujando suas vestes cinzas e folgadas, para em seguida levantar a cabeça com medo. O quarto escuro estava arruinado, com poeira e destroços a toda vista. A garota fitou a janela à esquerda, do outro lado do aposento, e lá fora, na rua, havia uma mulher curvilínea e encapuzada, com um longo manto roxo e prata por cima do vestido preto. Ela a encarava.

 A membro da Aurora arregalou os olhos e se levantou com um salto, correndo até uma porta à sua frente. Um novo muro de energia veio em sua direção, explodindo a janela. Amanda enfiou o pé na porta para abri-la, bem a tempo para se esconder dos cacos de vidro e lascas de móveis atrás dela. Mais um estrondo chacoalhou o prédio, sinal de que o ataque havia se desintegrado. Contudo, haveriam mais.

 Nervosa, ela esquadrinhou o novo aposento. Escrivaninhas se amontoavam à direita, e havia uma escada à esquerda. Subiu em velocidade, os degraus de madeira rangendo e reclamando. Assim que chegou ao andar superior, viu uma janela à sua frente,mostrando um prédio bem próximo. Um plano maluco veio à tona e ela disparou, saltando com os braços no rosto. Quebrou o vidro e abriu os olhos enquanto estava no ar, tentando enxergar um lugar para pousar. Contudo, só conseguia ver a cor verde.

 Entendeu o que estava acontecendo apenas quando bateu de frente na parede de energia. Começou a cair e tentou segurá-la em desespero, mas havia outro feixe embaixo dela que a jogou para longe. Bateu de costas em um prédio, perdendo o ar e deslizando até o chão. Perdeu a consciência por segundos, talvez mais, mas quando se recuperou e ouviu passos calmos se aproximando, não tinha forças para agir. Sentiu um material quente e instável, como se feito de nuvens compactas, levantar seu queixo. Avistou uma elfa a encarando, os cabelos negros e negros saindo por baixo do capuz e um sorriso estampado no rosto.

 - Bem... - Começou Alana, a membro do Culto Púrpura, com a voz doce. - Se rende agora?

 A garota olhou para os lados, procurando uma forma de escapar. Havia um beco à direita, mas não conseguiria fazer nada com o feixe de energia prendendo-a na parede. Tentou forçar um pouco o pescoço para frente, mas a adversária redobrou as forças. Amanda rangue os dentes, sentindo que não havia saída. Nenhum improviso ou plano insano. Colocou uma expressão de derrota na face, o lábio manchado de sangue tremendo. - Sim. - Admitiu. - Eu desisto.

AURORA
CAPÍTULO 44: INDRAMARA

 O céu estava agitado, com nuvens carregadas cada vez mais baixas e o vento salgado cada vez mais veloz. A tempestade se aproximava, e as ondas vorazes martelavam a fortaleza flutuante, estourando e invadindo as calçadas negras. Amanda, que caminhava a duas ruas de distância do mar, quase escorregou nas pedras molhadas, batendo com as costas na parede verde.

 - Tome cuidado, por favor. - Pediu Alana, do outro lado do feixe de energia. Ela mantinha o construto com a mão esquerda, formando um muro de três metros de altura e cinco de comprimento. Ele servia para impedir que sua prisioneira fugisse, cumprindo o papel de algemas. Amanda se reequilibrou, fazendo um muxoxo. Era a terceira vez que tropeçava.

 - Por quê temos de vir por aqui? - Perguntou irritada, fazendo um beicinho. - Podíamos ter ido pelo interior dessa droga de lugar.

 - Desse jeito eu não me perco. - Respondeu a elfa, sorrindo calmamente. Ela procurava contornar o perímetro e chegar até uma estranha área ao leste da fortaleza, onde pilares afiados de quase seis metros se curvavam para o interior de uma plataforma plana. Depois do ataque de Marcus, ela havia caído mais distante do que os outros, ao noroeste, onde havia lutado com a membro da Aurora. As duas haviam então caminhado por quase meia hora, e ainda pareciam longe. 

 Muito da razão daquela demora era culpa de Amanda, que andava a passos arrastados e lentos. Ela olhou para trás, avistando a outra através da energia verde. Podia ser sua imaginação, mas tinha certeza de que havia visto gotas de suor. Voltou a cabeça para frente, pensativa. Aquele construto parecia bastante custoso de se manter, e a exaustão de sua captora era tudo que precisava. Só que tinha que ter certeza antes de fazer qualquer coisa.

 - Então... - Começou, a voz alta e animada. - Nós duas temos andado muito caladas. Que tal uma conversa para nos animarmos? - Não veio nenhum com exceção das ondas se quebrando à distância e os trovões cada vez mais frequentes, e a garota franziu o cenho. - Digo, podemos falar dos meninos, de nossas vidas, trocar figurinhas. - Virou a cabeça, encarando o rosto da outra. Ela apenas sorria tranquilamente por entre os longos fios escuros. Amanda inflou as bochechas antes de se virar para frente. - Você podia ser uma carrasca mais legal.

 Alana riu, colocando a mão na boca. Bingo, pensou a membro da Aurora. - Bem, eu não tenho muito o que falar. Desde que... bem... - Ela se manteve em silêncio por um tempo, mas Amanda não reagiu a isso. - Desde que fiquei sozinha, não fui de falar muito. Exceto com Desaad. - Ela levantou o queixo, sorrindo para o céu tempestuoso. - Ele me resgatou e me deu motivo para viver novamente. Não sei se posso definir nosso relacionamento, mas... poderia dizer que somos amantes. Feitos um para o outro.

 A garota ficou calada, analisando o que tinha ouvido. Conseguia identificar o cansaço na voz de sua captora, mas havia algo mais. Solidão, conseguiu discernir. Para ela, Desaad era sua única companhia. - Amantes? Parece algo sério.

 A elfa deu um outro risinho. - Bem, ele confia bastante em mim. Acho que mais até do que Zaulin. Iríamos compartilhar a Caverna dos Reclusos, sozinhos, e depois me pediu para sequestrar Tom Burstin para que o hipnotizássemos e pudéssemos trazer vocês até aqui. - Bem, isso era mais do que esperava ouvir, pensou a membro da Aurora. Agora sabia que Burstin não estava mancomunado com o Culto Púrpura. Infelizmente isso significava que haviam derrotado ele. Esperou ele estivesse bastante fraco quando isso ocorreu. 

 Após isso ficaram em silêncio. Amanda já sabia que a outra estava cansada, e só precisava de uma chance para escapar. As duas continuaram caminhando lentamente, até que avistaram um prédio em ruínas. - Céus, o que houve aqui? - Perguntou a encapuzada, parando um momento para ver a destruição. Já a outra também parou, mas o que viu foi a camada de poeira ao redor dos destroços. Sua chance.

 A garota conjurou rapidamente seus poderes, levantando uma cortina de poeira em cima delas. A elfa gritou e pôs os braços no rosto. Quando os abaixou, percebeu que sua prisioneira havia sumido. Olhou para os lados, sentindo o coração martelar seu peito.

 - Aqui. - Disse a voz de Amanda atrás dela. Alana mal conseguiu se virar antes do soco atingir sua mandíbula. Cuspiu sangue e caiu no chão, a mão levantada para conjurar um feixe de energia verde que varreu a poeira, mas que não atingiu seu alvo. A membro da Aurora já estava à sua direita, de onde disparou uma cotovelada no pescoço da adversária. 

 A elfa cuspiu mais de seu precioso líquido vermelho, perdendo o ar. Amanda aproveitou e montou em cima dela, desferindo dois socos no rosto da outra antes de ser agarrada pelo pescoço e jogada para o lado. - Sua... - Começou Alana, limpando o sangue da boca. Ela conjurou outro feixe e o derrubou como uma marreta, mas a garota era muito rápida. Rolou para trás para se esquivar do golpe e usou seus poderes para levantar uma nova cortina de poeira, acertando os olhos da outra bem em cheio. 

 - Aaargh! - Gritou Alana, segurando o rosto. Sua adversária aproveitou a situação e chutou sua face, arremessando-a para longe. O chão sujo se manchou de vermelho, e a encapuzada procurou se levantar, zonza e com o longo cabelo negro no rosto, de costas para cima. Foi o momento em que Amanda a puxou pelo colarinho e a agarrou pela cabeça. Manteve uma mão agarrada no capuz e com a outra desferiu um soco, tão forte que o som do nariz quebrado se propagou acima dos trovões. Sangue espirrou e Alana perdeu as forças, desabando.

 - Desculpa. - Pediu Amanda, esfregando o suor e a poeira que se misturavam no rosto. - Só que não posso demorar aqui. Preciso ir encontrar meus amigos.

 - Sua... - Começou Alana, o rosto coberto de sangue. Ela tentou conjurar outra faixa de energia, mas a outra garota se esquivou facilmente. Ela então se aproximou e montou em cima da elfa novamente, lhe dando um novo soco no rosto.

 - Eu não quero continuar com isso! - Implorou, sentindo a mão manchada de sangue. Sua adversária levantou o braço para atacar novamente, o que obrigou a garota a quebrar dois dedos dela. Um grito cortou os ares, e Amanda franziu o rosto. Não gostava daquilo. De fato, odiava aquilo. Só que tinha de sair vitoriosa dali. - Desista logo, por favor! Eu tenho que tirar meus amigos daqui!

 - Você... não pode... - Alertou a elfa com a voz embolada. Lágrimas desciam pelos seus olhos, e ela tentava levantar o outro braço. A membro da Aurora procurou não se defender, e aguentou o feixe de energia que a acertou no ombro e no rosto. Sentiu um corte perto da têmpora arder, e quando Alana estava prestes a atacar de novo, prendeu sua mão no chão. 

 - PARA COM ISSO! - Gritou, segurando a mão da outra com força. - APENAS ME DEIXE IR!

 - VOCÊ NÃO PODE! - Berrou de volta a encapuzada, e mais lágrimas foram derramadas. - Você não pode ir. A-a invocação não está completa. Não posso d-deixar vocês irem. - Continuou com a voz chorosa, os lábios trêmulos através de todo o sangue no rosto.

 - O que você quer dizer com isso? - Perguntou Amanda, mas não parecia que era ouvida.

 - Ele m-me prometeu. P-prometeu que iria trazê-los de volta. - A elfa olhou para cima, encarando as nuvens. - Disse isso quando estávamos na mesma cama! N-não mentiria para mim!

 - Desaad...? - Se lembrou de algo que Alana havia dito em Helleon. Sobre algo que parecia perturbar a outra. De repente, veio uma suposição. - Desaad prometeu trazer sua família de volta? 

 Foi a vez dos olhos castanhos da encapuzada se arregalarem, e Amanda percebeu, para seu imediato terror, uma faísca verde neles. - NÃO FALE SOBRE A MINHA FAMÍLIA! - Um muro de energia arremessou Amanda para trás, jogando-a contra os destroços do prédio. Ela rapidamente levantou a cabeça, apoiada com os dois joelhos no chão, e avistou a visão dos pesadelos à sua frente.

 A elfa estava de pé, o capuz recolhido. Seus cabelo negro estava derramado ao redor de seu rosto, e entre eles estavam seus olhos. Só que não haviam mais a pupila preta, a íris castanha ou o esclera branco. Só havia verde, um verde bem forte, que vazava das órbitas na forma de longos e constantes raios. Amanda sentiu os braços tremerem. Conhecia aquilo, vindo das histórias de Dominic, mas nunca havia visto cara-a-cara

 Alana havia alcançado um dos caminhos de Devayana, Indramara.

 A garota engoliu em seco e se levantou, tentando controlar seu pavor. Procurou se convencer do contrário, mas os olhos coloridos e raios não a enganavam. Se lembrou de Dom lhe contando sobre os Devayana, caminhos para se alcançar um poder inigualável. O mais frequente, embora ainda raríssimo, era o Indramara, que ele havia visto algumas vezes durante seu tempo na Fronteira. O Indramara era obtido quando o poder e a vontade da alma eram tremendamente aumentados devido a um choque emocional bastante poderoso, fazendo com que ela envolvesse o corpo e quebrasse os limites da força e das habilidades. E Amanda havia acabado de pressionar sua adversária até esse ponto. Idiota.

 - Tudo bem... - Começou, levantando as mãos. - Alana, procure se...

 A membro do Culto Púrpura a interrompeu, esticando a mão para frente. Um muro de energia, muito maior e mais denso que os outros, disparou na direção de Amanda. A garota pulou para o lado, mas foi arremessada para longe pela onda de choque, batendo de costas em um prédio. Olhou para onde estava, e havia um profundo sulco nas rochas da rua por onde o feixe havia passado. Sentiu o corpo tremer.

 Se levantou com um salto, procurando uma alternativa com as informações que já tinha. Talvez pudesse usar a conversa, mas a elfa parecia ter atingido o Indramara de forma relativamente fácil, o que implicava que ela era muito instável emocionalmente para aquele choque ter sido tão poderoso. O.K, essa era uma péssima informação. De volta à estaca zero. Se lembrou que Dominic havia lhe dito que, sem controle, o Indramara era bem curto. Essa parecia melhor.

 Alana estava atacando novamente, mas a garota já tinha se movido. Pulou para dentro de um prédio, quebrando a janela e se vendo em um aposento apertado e escuro. Se pudesse se esconder tempo o suficiente, a encapuzada se cansaria. Ainda estava se condecorando por ter pensado naquilo quando um feixe passou por trás dela, destruindo a parede e tudo mais que encontrou no caminho. A garota, arremessada para o outro lado do quarto, olhou para a destruição com os olhos arregalados. Talvez não tenha sido a melhor opção.

 - VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR DE MINHA FAMÍLIA! - Começou a elfa, martelando o prédio com golpes e mais golpes de energia. - DO MEU PAI! DA MINHA MÃE! DOS MEUS IRMÃOZINHOS! - Lágrimas começaram a cair em seu rosto, parecendo verdes frente à luz dos olhos. - NINGUÉM... N-NINGUÉM DEVE FALAR DELES ATÉ EU TRAZÊ-LOS DE VOLTA! EU VOU RESSUSCITÁ-LOS E VOCÊ NÃO VAI FICAR NO MEU CAMINHO! - Ela continuou atacando, até que o edifício começou a ruir. Dele veio uma nuvem de poeira, cobrindo-a por inteiro.

 - Acho que você deveria falar com alguém sobre seus problemas. - Resmungou Amanda, saindo dos destroços. Ela correu na direção da adversária, o punho cerrado. Não tinha como se esconder dela, não com aquele poder destrutivo, portanto deveria aproveitar aquela única chance. Conseguiu enxergar o vulto através da poeira. Era agora.

 - Isso não vai funcionar de novo. - Alertou Alana, e um brilho verde veio do céu. A garota olhou para cima e parou, abismada. Havia uma auréola de energia no céu, tão grande quanto a rua em que estavam. Percebeu que tinha parado de respirar, e olhou de volta para a elfa, mais visível através do pó que se esvaía. Ela estava com a mão levantada para o alto, e a abaixou em um ínfimo de segundo.

 A auréola desceu como um raio, destruindo o que encontrava e prensando Amanda no chão. A garota foi enfiada nas rochas negras, o corpo inteiro esmagado. Sentiu todos os ossos rangerem e o sangue cascatear do nariz e a garganta, sem forças para sequer mexer um dedo. Estava tão imersa em dor que nem reparou que a auréola havia se desfeito, mas sentiu quando agarram sua camisa, levantando-a da cratera em que estava.

 - Prometo ser rápida. - Disse a outra mulher, parecendo bem próxima de seu rosto. A membro da Aurora levantou minimamente a cabeça, encarando os olhos verdes de sua adversária. Foi jogada para trás, caindo de costas. Rangeu os dentes e arqueou o corpo, sentindo um vulto cobrir a luz do céu. Abriu os olhos, vendo que a elfa estava com a mão em palma, os dedos apontados para seu coração. - Até nunca mais, Amanda.

 - NÃO, ESPERA! - Soltou a garota, levantando os braços. Talvez fosse hora de voltar ao seu primeiro plano, a conversa. Não parecia ter outras opções. - Você... espera, por favor. - Respirar era um ato extremamente doloroso, fazendo-a contorcer o rosto. Sua adversária a encarava, ainda imersa no Indramara. - Seus pais... - Essa ia ser arriscada, mas tinha que confiar em sua intuição. Alana parecia instável demais, mas ainda assim confiava plenamente em Desaad. Isso poderia ser natural ou manipulado. Restava rezar pela segunda opção. - Seus pais... já te... te ensinaram o que é certo?

 Um feixe de energia prensou sua perna direita, quebrando o joelho. Amanda gritou, a dor ressoando pelo corpo inteiro. - MAS É CLARO QUE SIM! - Gritava a outra. - ACHA QUE ELES FORAM PAIS RUINS? O QUE ESTÁ INSINUANDO?

 - Nada, é só... - Era difícil ficar acordada, quanto mais continuar falando, mas tinha que continuar. - Teve um homem que foi... um segundo pai para mim. Seu nome era Adam Alba, e ele... - Ela fechou os olhos com força, tentando esquecer da perna destroçada. - Ele me disse uma vez que... quando nossos amigos... passavam por problemas... nós tínhamos que ajudá-los a superar isso. Que não podíamos deixá-los sofrendo... mesmo que não soubessem.

 - O que quer dizer com isso? - Perguntou a elfa. Ótimo, eu acho que ganhei a atenção dela, pensou Amanda. Se forçou a rir internamente apesar da dor. Só não podia dar outro passo em falso.

 - Eu só quero saber... se alguém fez isso com você. - Abriu os olhos, encarando a adversária. - Se alguém te ajudou... com seus problemas.

 Alana ficou calada por um tempo. - Desaad esteve comigo. - Disse baixinho. - Ele sempre esteve ao meu lado.

 - Sim, mas ele chegou a conversar com você? - Por favor, que minha suposição esteja certa, rezou a garota. Por favor. - Chegou a se importar com seus problemas? Ou te deixou amargar isso sozinha?

 - Onde quer chegar com isso? - Disparou a elfa. Isso parecia promissor, considerou Amanda.

 - Estou dizendo que Desaad... nunca esteve realmente do seu lado. - Respirou fundo. - Ele só queria te usar, Alana.

 - Não fale do que não sabe! - Se enraiveceu a outra, agarrando o pescoço da outra. - Ele me estendeu a mão quando estive sozinha! Me salvou quando tudo parecia perdido! - Apertou, sentindo a garota engasgar. - Ele sabia de tudo que eu tinha passado, mas nunca, nunca...

 - Nunca te perguntou se você estava bem, perguntou? - Conseguiu soltar Amanda. As duas ficaram em silêncio, e as mãos da elfa diminuíram o aperto.

 - Ele não precisava... - Tentou dizer ela. - Eu sabia... sabia o que ele queria fazer por mim. E eu nunca quis conversar sobre mim mesma.

 - Alana, em algum momento de seu tempo com Desaad... você sentiu que estava melhorando? - A garota colocou as mãos suavemente nos braços da outra, tentando afastá-los de seu pescoço.

 - .... Não. - Admitiu a elfa. Deixou a outra mover seus braços.

 - Se ele fosse um namorado... diria que ele não estava em sintonia com seus sentimentos. - Ela sorriu para reconfortar a outra mulher, mas também havia uma pintada de orgulho no sorriso. Estava certa, no fim das contas. - Só que não era seu namorado. Ele era o líder do seu grupinho, e precisava que todos fizessem o que mandasse. E te deixar sofrendo sozinha parece uma boa forma de manipular seus sentimentos quando precisasse. - Ela ajeitou o corpo, sentindo a perna agonizar. - Agora, só uma pergunta, Alana. - Encarou bem fundo em seus olhos, mesmo apenas enxergando uma órbita verde. - Eu não conheço Desaad, mas você parece conhecer. Você acha que ele sabia que você estava sofrendo por sua família? Mesmo depois de... sei lá quanto tempo vocês passaram juntos?

 - Ele... - Alana abaixou o queixo, e lágrimas desceram por suas bochechas, até pingarem no corpo de Amanda. - Ele sempre sabia o que dizer para Rohr e... sempre soube controlar Jyll. Parecia entender muito de como a gente funcionava. - Sua voz estava cada vez mais embolada e aguda, até que ela encarou a outra garota com o rosto contorcido. - Ele sabia. Ele sabia que eu não estava bem.

 - E mesmo assim não fez nada. - Respondeu a membro da Aurora, também em pesar. Não conseguia imaginar o que a elfa tinha passado, ignorada pela única pessoa que confiava. Hesitou em continuar, mas tinha que revelar tudo que havia suposto, e que parecia mais verdadeiro a cada segundo. - Ele nunca queria que você estivesse bem, Alana. Só queria te manter controlada. Usou seu pesar por sua família para que entrasse no Culto Púrpura, não foi?

 - Foi... - Confessou ela, tentando conter a cascata de lágrimas. - Disse que ia... que ia trazer eles de volta.

 - E foi com isso que te manteve do lado dele. - Apertou a mão da outra. - Sinto muito.

 Alana a encarou, e uma faísca reacendeu em seus olhos. - AAAARGH! - Gritou, caindo para trás com as mãos no rosto.

 - ALANA! - Gritou Amanda, se arrastando para ficar ao lado dela. Dominic havia lhe contado que, sem controle correto, sair do Indramara era um processo extremamente doloroso. Portanto, foi uma surpresa quando a elfa se virou para se levantar, apoiando os braços no chão. Seus olhos estavam sangrando, mas ela ainda assim se virou para a outra garota.

 - Nós temos de ser rápidas. - Disse, se levantando com dificuldades. Piscou várias vezes, limpando o sangue com os dedos. - Não podemos demorar muito, Desaad está prestes a completar seu plano.

 - Então vamos acabar com ele e buscar meus amigos. - A elfa a ajudou a se levantar, passando o ombro por debaixo de seu braço. As duas se equilibraram e começaram a andar na direção da estranha área que Alana estava se dirigindo antes.

 - Desaad deve estar indo para o centro de invocação. Talvez possamos atacá-lo lá. - Ela se virou para o outro lado, apertando com força a cintura da garota. - E... Amanda... me desculpe por tudo.

 A outra arregalou os olhos, mas ouviu a fungada da elfa. Sorriu. - Depois de sairmos daqui, vamos ter uma conversa com a líder da minha guilda. - A mulher se virou temerosa para ela, as lágrimas se misturando com seu sangue empapado. - Vou tentar te colocar na Aurora. Lá eu vou poder te ajudar melhor.

 Alana arregalou os olhos, mas sorriu aliviada. As duas olharam para frente, sentindo a chuva fina começar a cair. E, juntas, seguiram em frente.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Aurora: Capítulo 43 - A Rocha


AURORA
CAPÍTULO 43: A ROCHA

 O mar estava revolto. Ondas gigantescas se quebravam nas muretas da negra fortaleza flutuante, espirrando cachoeiras para cima e encharcando a passarela mais próxima. De vez em quando raios iluminavam a área, fornecendo uma alternativa diante do céu cada vez mais escuro. Uma figura solitária caminhava no corredor que separava as casas do oceano tempestuoso à sua direita. Era alto, com quase dois metros e meio, e usava uma longa capa roxa e detalhada de prata cujo capuz escondia sua fisionomia. No entanto, o resto do corpo exposto entregava sua identidade. Era um ente, o corpo feito de madeira, com membros compridos e cobertos de musgo e raminhos. Um dos membros do Culto Púrpura, e seu nome era...

 - ROHR! - Gritou uma voz grossa, vindo detrás dele. O ente abaixou o capuz, revelando o rosto quadrado, e virou o corpo. Wieder o encarava do outro lado, os punhos cerrados e a barba encharcada. Vestia roupas cinzas que eram muito grandes para seu corpo diminuto, mas isso não parecia incomodá-lo. Ele começou a andar na direção do adversário, de vez em quando sendo impelido pelas ondas que se quebravam. Os tropeços só o deixavam mais nervoso, os olhos brilhando pelos raios ocasionais. - ROHR! - Repetiu com mais empenho. - Não importa o que eu faça, eu vou acabar com você. ESTÁ ME OUVINDO?

 O outro não respondeu nem sequer manifestou qualquer expressão, apenas deixou que o anão se aproximasse. Ele parou à sua frente, tão baixo que mal chegava à cintura do ente. Olhou para cima com puro ódio no olhar, consciente de suas chances. - Mesmo que eu tenha que me matar para isso, eu vou... - Ele parou ao ver que Rohr lhe estendia um objeto. Era uma pulseira dourada, familiar demais para ser confundida. O membro da Aurora levou o olhar do artefato até de volta aos olhos amarelados do adversário, um traço de confusão se misturando à raiva. - O que é isso?

 - Você sabe o que é. - Respondeu o ente. Olhou para a pulseira, o material dourado refletindo um raio distante. - Quando capturamos vocês, queriam destruir isso. Eu o mantive em segredo. - Encarou o anão, sem emoção no rosto. - Não seria justo.

 - Justo? - Rangeu Wieder. Ele girou o braço esquerdo e enfiou a mão na pulseira. Um brilho amarelado tomou conta dele e uma nuvem de poeira o rodeou, rapidamente expulsa pelo vento salgado. No lugar do anão havia um golem gigante, o corpo curvado na preparação de um golpe. Rohr nem teve tempo para reagir ao soco que levou no rosto, fazendo-o voar vários metros antes de cair de costas no chão. - JUSTO? Você tem a coragem de dizer que o que fizeram comigo foi justo?

 - Não foi você quem disse que eu só sabia resolver argumentos com violência? - Reclamou o membro do Culto Púrpura no chão, segurando o queixo.

 - Ah, cale a boca. - Soltou o anão, a voz gutural pela transformação. - Vocês não sabem o que aquela maldita enganação de vocês fez comigo. - Ele levantou o braço, apontando para o outro. - Valorizo bastante o que tenho. O que acredito. E ver meus sonhos sendo usados para me controlar... - Não conseguiu terminar a frase, tamanha a raiva que sentia.

 Do outro lado, Rohr ficou em silêncio por um tempo, até se levantar dolorosamente. - Eu sei. - Disse, pesaroso. - Não concordei com esse plano. Sei a importância do que acreditamos. - Ele evitava encarar o golem, preferindo fitar o chão. Uma onda estourou na mureta mais próxima, criando uma breve chuva em cima dos dois.

 - Então por que os defende? - Perguntou em voz baixa Wieder. Não houve resposta. - Hein? Se é contra o que fazem, por que ainda usa esse manto?

 - Porque são meus companheiros! - Gritou o ente, parecendo soltar um peso de seu peito. - Desaad me deu tudo que eu precisava! Me deu a força para seguir os meus próprios sonhos! Eu não posso dar as costas para eles agora!

 O anão absorveu aquilo, a boca cerrada como uma linha. - Então chegamos a um impasse. O seu grupinho quer atacar os meus companheiros, e não ficarei parado. - Levantou os punhos à frente do rosto. - Você sabe o que isso significa.

 - Sim... eu sei. - Admitiu pesaroso Rohr. Wieder aproveitou e disparou para frente, a raiva explodindo. Tudo o que queria era descontar suas frustrações e acabar logo com aquilo para ajudar os outros a saírem dali. Dois coelhos com uma cajadada.

 Deu um soco no rosto do adversário, quase o derrubando novamente. O ente rangeu os dentes e jogou o corpo em cima do outro, agarrando-o pela cintura. Começou a empurrá-lo, e Wieder olhou para trás. Viu uma onda quebrando na mureta e percebeu o motivo daquele ato. Firmou seus pés e parou, resistindo aos empurrões.

 - Nada disso. - Resmungou, soltando uma cotovelada nas costas de Rohr. Ele o largou por alguns segundos, e o golpe seguinte fez com que o ente caísse. O golem procurou chutá-lo, mas foi agarrado pela perna de apoio e caiu no chão.

 O membro da Aurora imediatamente cobriu a cabeça com os antebraços, se protegendo da rajada de socos que o acertavam. Madeira encontrava ronatto, batendo e batendo até soltar lascas dos dois materiais, varridas pela água.

 - Sabe, eu pensava em você enquanto nos reorganizávamos. - Começou Rohr, mantendo a pressão. Era difícil arrumar um contra-ataque, pois o ente não parava por um segundo. Wieder rugiu, a fúria começando a diminuir pela concentração em se manter protegido. - Quando Desaad nos descristalizou naquela caverna de emergência embaixo de Vertreit, sabia que tentariam se vingar. E eu só pensava em você e naquele homem tatuado.

 A menção de Vertreit fez com que o anão se desconcentrasse, o que era a oportunidade que o adversário estava esperando. Ele prensou sua cabeça no chão, formando uma pequena cratera nas pedras negras, e o jogou para longe. Wieder bateu de costas na mureta, e antes que pudesse se recuperar um pé de madeira caiu no seu peito. - Vocês chegaram a discutir naquele dia que lutaram comigo, não foi? As árvores me contaram.

 Ah, ótimo, pensou o golem. Nem privacidade tinha naquela floresta. - E daí? - Tentou resmungar, os dois braços tentando afastar o pé do outro. Atrás de si, a mureta começava a rachar.

 - Seu amigo... estava certo. - Outra onda bateu perto deles, encharcando-os. - Sobre a idade de tentar recomeçar a vida. De buscar um sonho. Você começou muito tarde.

 - O que você disse? - Rugiu Wieder, mas uma pedra desmoronando atrás dele o fez se calar pelo temor. Conseguia sentir o mar tempestuoso em suas costas.

 - Me desculpe. - Rohr aumentou a pressão no pé. - Mas será melhor para você morrer aqui do que seguir em uma busca infrutífera, cada vez mais desesperada. Não há discussão sobre isso. - Mais pressão, e a parede de pedras negras se decompôs. O membro da Aurora abriu os braços, sendo seguro apenas pelas mãos molhadas. Olhou para o adversário, encarando-o com temor, ódio e indignação. - Adeus.

 De repente o golem caiu na água, rapidamente afundando no mar revolto. Wieder imediatamente se destransformou para diminuir o peso, voltando à forma de anão. Tentou nadar de volta, mas já era presa fácil para as ondas. Elas o engoliram e o arremessaram contra a fortaleza flutuante, tal qual um brinquedo. Tentou respirar e acabou engolindo mais água do que ar, para novamente ser arrastado para o fundo.

 Não, tentava dizer para si mesmo, os pensamentos à solta. Eu não vou deixar que isso aconteça. Não assim. Não aqui. Não de forma desconhecida. Ele levantou o braço e agarrou uma quina, apenas para ser arrastado pelas ondas. Sentiu ela explodir e espirrar para o alto, mas isso apenas o empurrou para baixo. Fechou os olhos pelo sal, sentindo a mente começar a falhar pela falta de oxigênio. Isso não pode acontecer. Isso não pode... acontecer...

 Não ainda.

 Um brilho dourado veio do mar escuro, meio que escondido pela espuma das ondas. Quase que no mesmo instante, um braço rochoso se ergueu, segurando a quina de rocha negra com tanta força que ela se rachou levemente. Um som gutural veio da água, e o rosto do golem emergiu. Ele gritava. Gritava com toda a sua alma, juntando todas as suas forças. Seus olhos pequenos e vermelhos estavam arregalados, a boca aberta e tomada por um vazio negro. Wieder colocou mais uma mão sob a água. Gritou mais forte, e seus ombros também subiram. Rohr deu um passo para trás, assombrado. O golem de quase trezentos quilos estava se levantando, através das ondas revoltas e escuras.

 Seu tronco saiu da água, e com ele veio um joelho. O mar deu a ajuda final, empurrando-o para cima. E assim, para total incredulidade do seu adversário, Wieder Henf conseguiu voltar à fortaleza flutuante. O esforço foi tão grande que ele voltou à forma de anão, respirando ofegante enquanto se apoiava no chão.

 O membro da Aurora, através da barba encharcada e as roupas escuras de tanta água, ergueu o queixo e mirou o ente, que continuava em silêncio. - Ainda... não. - Disse com a voz fraca. - Farei o meu nome primeiro, não... importa o que você diga. - Ele se apoiou em um joelho, juntando forças para se levantar. - Não importa o que minha família... diga. Não importa o que.... qualquer pessoa diga. - Ele ficou de pé, o olhar obstinado. Tocou a pulseira, voltando à forma de golem. - EU FAREI O MEU NOME!

 Ele disparou, movido por uma vontade sem igual enquanto que o ente não conseguia sequer formular uma reação. Agarrou-o pelo pescoço e o arremessou para trás, perto do mar. Rohr conseguiu ficar de pé, mas uma sequência de socos de Wieder o fez recuar. Cada golpe era um passo para trás, se aproximando cada vez mais do mar revolto. O ente não conseguia arrumar forças para se defender, apenas era golpeado sem perdão, até que seu pé não encontrou mais o chão.

 Caiu para trás, as costas encontrando as ondas. Seus olhos arregalados encararam o céu nublado acima, cortado por um raio. No entanto, no meio de sua queda, foi agarrado pela mão rochosa do golem. Ele o segurava pelo braço, os pés firmes no chão para poder segurá-lo. - Nada disso. - Soltou com sua voz gutural. - Você ainda tem muito o que responder.

 Wieder encarava o rosto do ente, fitando as nuvens sem expressão, e notou algo de estranho. Poderiam ser os respingos do mar, mas haviam fios d'água descendo dos olhos de Rohr. De repente ele fez força para baixo, forçando o anão a renovar a força. - O que pensa que está fazendo? - Perguntou alarmado, segurando-o com as duas mãos. O adversário começou a martelar seu próprio braço, parecendo desesperado. - Pare com isso!

 - Me deixe ir... - Choramingou Rohr. Wieder se assustou, e quase soltou o outro. - Eu... não aguento mais o que eles estão tentando fazer. Não aguento mais seguir o Culto Púrpura. - Ele bateu no cotovelo, arrancando lascas de madeira. - Só que não tenho como traí-los, então não sabia o que fazer. Pedi aos deuses que decidissem meu futuro nessa batalha e eles me escolheram. - Bateu novamente, e era impossível que o golem o impedisse naquelas circunstâncias. - ME SOLTE!

 - DEIXE DE SER COVARDE! - Gritou o membro da Aurora, e uma onda quase os derrubou. - Não procure a saída mais fácil, seu merdinha! Ainda tem tempo para mudar!

 Rohr riu, o braço estendido para seu derradeiro golpe. - Eu ainda acredito no que falei, senhor Wieder. - Abaixou a mão, tão forte que seu braço partiu em dois. - Às vezes é tarde demais.

 - ROHR! - O anão caiu para trás, se levantando rapidamente para voltar à borda. Só que o ente já havia sido tomado pelo impiedoso mar de Cellintrum. Conseguiu avistar uma forma marrom sendo arrastada para o fundo, a capa roxa e prateada balançando pela maré. Wieder o encarou, apoiado no que restou da mureta, alheio à tempestade que se intensificava. Ficou encarando as águas por um bom tempo, mesmo depois do jovem Rohr ter sumido. Se levantou dolorosamente, voltando seu olhar às casas negras da fortaleza flutuante. - Desaad. - Disse, voltando à forma de anão e caminhando para os prédios.

sábado, 29 de novembro de 2014

Aurora: Capítulo 42 - Crede In Te


AURORA
CAPÍTULO 42: CREDE IN TE

 Sophie caminhava entre os becos da fortaleza flutuante, escondida pela iluminação débil. Vestia um uniforme de prisão no mínimo dois números acima do seu, uma blusa cinza e folgada cuja abertura formava uma grande área entre os ombros e uma calça da mesma cor que precisava ser ajeitada a cada quinze passos. No entanto, a garota não se incomodava com isso, muito porque havia um sentimento tão predominante em sua alma que não deixava espaço para nada mais. Medo.

 O temor era visível em seu corpo. O estômago parecia imerso em um balde de gelo, e era difícil andar com a tremedeira dos joelhos. De vez em quando um trovão a fazia saltar pelo susto, isso quando era ouvido através da batida insana do coração. Cada passo da membro da Aurora era marcado pelo questionamento entre fugir e cumprir a missão que Sasha havia passado. Até agora não fazia nenhum dos dois, pois caminhava na direção em que sua suposta adversária havia caído mas se escondia a qualquer menção de proximidade. E isso a estava deixando louca.

 O que viera fazer ali, se perguntava. Em um momento estava no melhor sonho de sua vida, onde era a mais respeitada membro da guilda. Todos estavam lá, sua irmã, seu pai, Dalan... a aplaudindo e a respeitando. Só que de repente fora acordada e tudo era uma mentira, percebeu isso assim que Sasha disse para escolher um adversário do Culto Púrpura. Bastava uma olhada neles para destruir qualquer resquício de fingimento e acordá-la para realidade. Ela teria que enfrentar pessoas que quase mataram seus companheiros sozinha, e tudo que tinha era a capacidade de se tornar invisível. Parcialmente.

 Atravessou o beco e saiu em uma rua larga, sem notar realmente para onde estava andando. Só conseguia pensar na sua tal adversária, a fada que absorvia poderes. Julie havia lhe dito que ela era uma sádica. O coração de Sophie se encolheu, o medo a envolvendo. O que pensava que ia fazer? O que faria quando encontrasse a mulher? Como seus companheiros tiveram a coragem de mandá-la a essa luta? Estava sozinha como nunca antes.

 Um som abafado surgiu do fim da ruela, e quando ela virou o pescoço viu uma figura roxa disparar em sua direção. Pulou para trás por reflexo, esquivando por pouco de um soco que mirava sua cabeça. A recém-chegada no entanto girou o corpo e lhe deu um chute no estômago, fazendo com que a garota voasse até o beco atrás de si, batendo as costas na parede do outro lado.

 Tossiu um filete de sangue, a respiração débil minando suas forças. À frente, sua adversária se empertigava e sorria. - Fico feliz de ter te encontrado! - Dizia ela, as asas vibrando mesmo com a fada no chão. Seu nome era Jyll, como havia dito sua irmã. Tinha o cabelo curto e azul-escuro, coberto pelo capuz da capa roxa e de adornos prateados. A roupa cobria uma veste complicada, composta por um top decotado de linho roxo-escuro que terminava bem abaixo dos seios, de onde saía uma traje colado, marrom e transparente, com uma longa tanga ornamentada das cores da capa no quadril. - Eu queria muito lutar contra você ou aquele garoto de tapa-olho pelo que fizeram comigo nas montanhas de Tina. Até mesmo peguei os poderes de Rohr para isso. - Sophie limpou a boca com as costas da mão. Estava sendo confundida com Julie. Por um momento pensou em pegar a boina, mas se lembrou que havia a perdido no naufrágio.

 - Eu... - Tentou começar, se levantando com as costas grudadas na parede. Procurava uma bravata, uma provocação que os corajosos faziam frente ao perigo. Só que nada veio. Ao invés disso havia o medo, o temor pela vida que era intensificado pelo olhar intenso e arregalado de Jyll. A membro da Aurora arfou, os joelhos tremendo na vontade de cederem. Ela já havia enfrentado batalhas antes, mas normalmente estava escondida, invisível, imperceptível no calor da batalha. Hoje, as coisas eram diferentes. Era uma contra uma, e não havia como se ocultar sem que a outra percebesse.

 Seu medo era tão palpável que a fada, do outro lado, conseguiu perceber. E sorriu. - Ora, não sabia que havia causado uma impressão tão marcante na nossa primeira vez. - Zombou, deliciada pela situação. - Mas não se preocupe. Me aconselharam a não te matar, portanto vou parar um pouco antes. - Ela passou a mão pelos curtos fios negros, o brilho no olhar se acentuando. - Apenas quebrarei todos os seus ossos, Irei parti-los com lentidão e cuidado, para que você sofra a cada segundo. Pensando bem... - Ela parou, o vento salgado agitando sua capa e seus cabelos. - Talvez eu te mate mesmo.

 Naquele momento Sophie virou para o lado e correu, disparando com todas as suas forças. Um instinto primal de sobrevivência havia tomado conta de seu corpo, tornando até mesmo o pensamento difícil. Apenas fuja. Fuja porque essa luta só resultará em sua morte, e uma morte sofrida. A garota não concebia nem mesmo conceber essa ideia, mas ainda assim abandonou a batalha. Não havia como vencer.

 Do outro lado, Jyll ficou estupefata por alguns segundos, mas logo se recobrou. - Tudo bem... - Disse a si mesma, sorrindo. - É um jogo de gato e rato. - E voou pelo beco, perseguindo sua presa.

 Sophie disparou pelo corredor mal-iluminado, procurando se embrenhar naquele labirinto. Ouviu um som atrás de si e virou o pescoço, vendo que a fada estava disparando em sua direção. Gritou e se abaixou, deixando que a adversária a ultrapassasse. Ela pousou e deslizou em velocidade pelo chão negro, se virando para a membro da Aurora. - Ora... - Zombou em sua voz aguda, os olhos brilhando na semi-escuridão. - Nós já invertemos os papéis?

 A garota engoliu em seco e respirou com força, tateando as paredes em busca de qualquer presente dos deuses. Seus dedos da mão esquerda encontraram um objeto estranho, e girou a cabeça para identificá-lo. Havia sido recompensada. Era uma porta. Abriu-a e adentrou o edifício, para ira de Jyll.

 - Merda! - Gritou ela, voando para a abertura. Ela a explodiu com um punho, fazendo com que a outra gritasse. Estavam em um aposento repleto de estantes vazias, e Sophie tentava se esconder atrás de uma mais distante. A fada derrubou os objetos com raiva, mas não conseguiu achar a garota. - Eu vou acabar com Jones! - Gritou enquanto procurava sua adversária. - Ele e sua maldita ideia de cidade flutuante! Quando eu encontrá-lo, vou... - Uma porta se abriu em um dos cantos da sala, e uma calça cinza foi vista atravessando-a. - Volte aqui!

 Sophie correu pelo que parecia um depósito de caixas, tão desesperada que o coração vibrava. Avistou uma abertura à direita e desviou para lá, batendo os braços no batente do portal para desacelerar. Tropeçou na nova sala, abrindo mais uma porta para voltar às ruas. As sombras a abraçaram e ela avançou para um beco, onde se encolheu e ativou seus poderes. Agora era apenas um punhados de roupas agachadas, tremendo enquanto rezava para estar escondida. Por favor, que ela vá embora, repetia em sua mente. Que ela não me ache. Por favor.

 Uma trovoada surgiu do horizonte, fazendo-a saltar. Por um momento se viu de novo uma garotinha, se escondendo de ladrões nos becos de Helleon. Só que daquela vez não tinha Julie para a proteger. A irmã estava longe, e nem sabia que estava lutando. Estava sozinha. Lágrimas começaram a descer pelo seu rosto, a garota tentando prendê-las enquanto fungava. Iria ser descoberta se continuasse assim, mas a urgência em manter silêncio só a deixava mais nervosa, fazendo com que mais lágrimas caíssem.

 Uma porta foi aberta com violência à distância, e ela gemeu. - Saco! Cadê você? - Gritava Jyll, caminhando pela rua perpendicular à viela em que a membro da Aurora estava. Ela puxou as pernas contra o peito, fechando os olhos como se pudesse fazer todos os problemas desaparecerem. Não sabia mais se estava sendo perseguida por um bando de arruaceiros ou pela fada sádica, mas se sentia com treze anos, indefesa. O medo apertava seu coração, e as lágrimas desciam. Eu só quero que isso acabe, pensou com o rosto nos joelhos. Por favor, que isso acabe. Que alguém venha me salvar.

 - Você não era covarde assim! - Gritou a adversária, ainda a procurando. Ainda estava a confundindo com Julie. Julie realmente iria se levantar e lutar, mas Sophie não era sua irmã. Não era corajosa, e segundo as próprias palavras dela, era fraca. Apertou com mais força as canelas, torcendo para que a gêmea aparecesse e resolvesse as coisas. Que nem naquele dia em que fora perseguida pelos ladrões, tão vívido que se confundia com a realidade.

 - Tudo bem então! - Anunciou a fada, ainda oculta pelos edifícios. - Se não quer me enfrentar, vou ser obrigada a procurar seus companheiros. - Aquilo acertou Sophie como uma marreta, os olhos bem abertos através das lágrimas. Seus amigos estavam lutando contra inimigos poderosíssimos, e a presença de mais um membro do Culto Púrpura iria desequilibrar a batalha. Se Jyll fosse entrar em uma contenda, com certeza iria ganhar, e seguiria assim até que toda a Aurora tivesse tombado. Sasha, Amanda, Dalan, nenhum sobreviveria. E isso era um pensamento pior do que a morte para a garota.

 Se viu dividida, tremendo naquele beco escuro. Por um lado queria ficar escondida, torcendo para que seus amigos conseguissem dar um jeito. Do outro, queria fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Não poderia deixar a fada sair dali. E a única que poderia fazer alguma diferença naquele momento era ela mesma. Olhou para sua mão, se rematerializando. Da última vez, era Julie quem havia a defendido. Uma parte de si queria desesperadamente que a irmã chegasse, mas o resto sabia que isso não era possível. Só que havia outra Helder ali.

 Teria que ser Julie naquele dia.

 - Ei! - Gritou, saindo do beco para a luz fraca da rua. Jyll sorriu e se virou, encarando-a, as duas separadas por cerca de cinquenta metros. A membro da Aurora tinha os olhos inchados e tremia levemente, mas os punhos estavam cerrados e o queixo estava firme. Sentia mais medo do que nunca, e se forçava a cada segundo para manter sua posição. Era o que Julie faria.

 - Isso sempre funciona. - Riu a fada, saindo do chão e disparando na direção da adversária. A garota ofegou e deu um passo para trás, mas uma ideia surgiu de forma instantânea em sua mente. Fechou a boca e estendeu a mão, tal qual sua irmã fazia para ativar seus poderes. Jyll viu aquilo e fechou os olhos, se defendendo da suposta rajada de luz que viria. Isso deu tempo para Sophie correr, pegando a rua para voltar à casa em que havia estado antes.

 Quando a membro do Culto Púrpura voltou a abrir os olhos, viu a adversária se afastando. - Ei! Fugindo de novo? - Gritou, se enraivecendo. A outra havia saltado pela janela, se escondendo no interior do recinto. A fada invadiu aquele lugar arrebentando o vidro, observando a sala escura. Daquela vez, não havia um grito.

 - Cadê vocêêê... - Falou em voz alta, se embrenhando a cada passo. Diversas caixas a rodeavam, mas não pareciam grandes o suficiente para esconder alguém. Talvez ela esteja em outra sala, pensou. Estava procurando uma porta quando viu uma caixa em sua direção.

 Já estava no chão antes de reagir, a quina do objeto pesado prensando seu pescoço. A dor era inexcrutável, impedindo qualquer tipo de respiração. Ela olhou para cima, vendo que o rosto da garota estava separado a um palmo de distância, contorcido pelo esforço de manter a outra presa. Jyll se enfureceu, a raiva lhe dando forças para jogar a adversária para longe.

 - Filha da... - Sua voz saiu tão fraca que mal conseguiu ouvi-la, a traqueia severamente ferida. Se levantou com esforço para voltar à luta, mas a garota havia corrido para outra sala. Correu para alcançá-la, mas quando entrou já havia a perdido novamente no aposento cheio de estantes que havia entrado há alguns minutos. Praguejou.

 Sophie por sua vez estava atrás de uma das estantes perto da saída. Segurava nas mãos uma lasca de madeira da porta destroçada, sua única arma na ocasião. Sua inimiga claramente não poderia ser derrotada com socos e chutes, pelo menos não dela. Era preciso uma abordagem diferente.

 Passos indicavam que a outra estava do outro lado do móvel. A garota respirou fundo e deu a volta, correndo rápida e silenciosamente. Viu a capa roxa, as asas que saíam dela e as costas do capuz à sua frente, como se estivessem a convidando para um ataque. Disparou com a arma nas mãos e a brandiu antes que a adversária pudesse reagir, enfiando a lasca na lateral direita da outra. A dificuldade de penetrar a carne lhe assustou e a arma deslizou para fora um pouco depois de entrar, mas sabia que fora o suficiente para um estrago. Jyll gritou e virou o pescoço para trás, vendo as roupas cinzas flutuando no ar. Sophie ainda estava invisível.

 Uma expressão de confusão se misturou à dor em seu rosto, apenas para serem substituídas pela ira gélida. Ela agarrou a camisa pelo colarinho e levantou vôo, disparando para o beco. Logo em seguida foi para cima, cruzando a linha dos telhados. Sophie estava aterrorizada, sem opção a não ser segurar firme em sua inimiga para não cair. As duas atravessaram algumas ruas em alta velocidade antes da fada diminuir a altura, pousando em um telhado plano e vazio, com o tijolo cinza formando pequenas muretas na borda. Despejou a outra em uma ponta e se afastou para a outra, as mãos no ferimento. O corte parecia profundo e estava sangrando bastante, um risco um pouco abaixo do seio. Só que isso não era nada, nada mesmo, comparado à fúria em seu rosto. Se virou para a outra, tão colérica que poderia abrir um rombo apenas com o olhar. Um raio cruzou os céus, dramatizando a situação.

 - Você não é... a garota que eu enfrentei no Vale das Cachoeiras, né? - Disse com dificuldade, respirando fundo. - É apenas uma pirralha que adora fugir. Pois veja bem... sua covarde. - Ela estendeu o braço livre, mostrando o telhado. - Não há lugar para você se esconder aqui. - E era verdade. Não havia nem um objeto que pudesse ser usado como arma. Sophie deu um passo para trás, espiando o beco abaixo. Longe demais para saltar, concluiu nervosa. Por um instante ouviu passos, mas havia preocupações maiores no momento. - E é aqui que você vai ser espancada. - Jyll disparou, a ira. A garota levantou os braços para se proteger, mas a fada pegou o esquerdo e o torceu, produzindo um audível som de estalo.

 - Ngh. - Grunhiu a membro da Aurora, mas haviam apenas começado. A adversária a esbofeteou no rosto, jogando-a para longe. Uma marca de sangue foi deixada no chão perto de sua face, a boca e as narinas cobertas pelo líquido vermelho. Do outro lado, Jyll se aproximava novamente, sua presa se contorcendo.

 - Jones nos disse que queria vocês vivos, mas acho que posso arrancar um olho. - Falar era doloroso para a fada, mas ela não conseguia se controlar. Chutou o estômago da outra antes que levantasse, arremessando-a contra a mureta. Sophie bateu de costas, cuspindo mais sangue. - Ou quem sabe um braço. Posso te deixar com esse quebrado se quiser. Talvez sua perna acompanhe! - Começou a chutá-la seguidamente onde a havia atingido antes, cada golpe levantando a garota minimamente no ar antes de acertar o pequeno muro e cair. Quando pareceu se cansar, a membro do Culto Púrpura se agachou e levantou a adversária pelo pescoço, o sangue descendo do rosto da outra até pingar em seu pulso.

 - Patética. - Soltou, arremessando a garota novamente para a longe. Ela deslizou de lado no chão, parando no centro do telhado, sem se mover. - Aquela outra que eu lutei era sua irmã, não? Pelo menos ela me divertiu um pouco. Batalhou frente a frente comigo. Já você... - Pisou na mão esquerda de Sophie, esfregando o calcanhar até os sons de ossos quebrados serem ouvidos. Não havia reação do outro lado, exceto o rosto contorcido de dor. - É uma vergonha. Se esconde melhor do que luta. Você me dá náuseas. - Chutou-a no peito, lançando-a contra a mureta mais uma vez. - Talvez eu procure sua irmã e mostre esse seu corpo arrebentado.

 Enquanto isso, do outro lado, Sophie tremia. Tentava juntar as forças que precisava para continuar lutando, mas sua mente estava uma balbúrdia. Não adiantava tentar buscar forças de outras pessoas, concluiu com pesar. Era apenas ela quem estava batalhando. Não havia irmã, amigo ou qualquer outra pessoa para lhe ajudar. Estava sozinha. O desespero voltou a crescer, e por algum motivo havia se lembrado de seu sonho, o sonho em que havia estado presa desde o naufrágio do Intrépida Saída. Se perguntou o que aquela Sophie do sonho faria, e tentou conjurar sua figura diante dela, como se estivesse a olhando deitada naquele chão ensaguentado. E o que viu foi seu rosto. Não era o de outra pessoa lhe dando forças, mas pela primeira vez era o seu próprio. A pergunta não era o que outra pessoa faria naquela ocasião.

 Era o que ela mesma faria.

 Se levantou debilmente, a mão direita segurando o braço destroçado. Tremia levemente, mas seus olhos haviam se enchido novamente de vontade. Se virou para Jyll, o sangue que saía da boca começando a secar. - Realmente, eu não sou Julie. - Começou, o queixo um pouco para baixo. - Meu nome é Sophie. Sophie Helder. Tenho dezoito anos, nasci em Genoble, filha de Nala Helder e Charles Helder. Faço parte de Aurora desde os meus doze anos. - Ela respirou fundo, levantando a cabeça. - E hoje você ameaçou a vida dos meus companheiros. E por causa disso estou aqui para te derrotar.

 - Hah. - Riu baixinho a fada. - A última sobrevida dos mortos, creio eu. - Zombou. Ela disparou novamente na direção da adversária, agarrando seu pescoço com as duas mãos e o prensando contra a quina da mureta. A outra rangeu os dentes e tentou se soltar, o ar cada vez mais difícil de chegar aos pulmões.

 Naquele momento um estouro surgiu perto delas, tremendo a base do telhado. As duas olharam para o edifício mais próximo, o vidro das janelas estourado e rachaduras se formando na fachada. Uma ideia maluca surgiu na cabeça da membro da Aurora, e era a única que tinha.

 Grunhindo, ela enfiou o pé no peito da adversária, afastando-a de si. Jyll tropeçou para trás e Sophie se levantou, apoiando a mão sadia no parapeito da mureta. Olhou o edifício e tentou calcular a distância entre eles. Os resultados não eram nem de longe satisfatórios, mas mesmo assim apoiou o pé e saltou, mirando uma das janelas maiores. No meio do caminho percebeu que estava longe demais, e o medo tomou seu coração como uma manta.

 - O que diabos pensa que está fazendo?! - Era a voz da fada, que se jogou contra a garota para agarrá-la. As duas caíram um andar abaixo do que Sophie estava planejando, onde as janelas ainda estavam de pé. Atravessaram o vidro e derraparam no chão, ambas explodindo de dor. - Te querem viva, sua vadiazinha. - Disse Jyll, se contorcendo no chão, até reparar que a outra havia se levantando e corrido para fora do aposento empoeirado. - Ei!

 Sophie disparou pelas salas vazias, o braço quebrado ardendo em agonia. O chão tremia aos seus pés, e de vez em quando um tijolo parecia mais solto do que o anterior. Virou uma esquina e se deparou com uma pequena abertura na parede, e do lado de fora havia um membro do Culto Púrpura, aparentemente flutuando no ar. Estava encapuzado e era difícil identificá-lo, mas apenas vê-lo foi o suficiente para paralisar a garota. Agora teria que lutar contra os dois, se perguntou.

 Não teve muito tempo para pensar, pois foi agarrada pela direita e derrubada no chão. Mal conseguiu identificar que Jyll estava em cima dela quando tomou o primeiro soco no rosto, tão forte que sentiu um dente rachar. Tentou se levantar, mas estava sendo presa pelos joelhos da adversária. Recebeu o segundo golpe, este abrindo uma ferida no lado da testa. Sangue espirrou e ela contorceu o rosto, completamente imobilizada.

 - Por favor, se mantenha acordada. - Pediu a fada em sua voz ferida, mas antes que pudesse desferir o terceiro soco, o chão embaixo delas cedeu. Parte do teto acima também ruiu, envolvendo a sala em uma cortina de poeira. Sophie sentiu o corpo começar a cair e girou para a esquerda, apoiando o braço sadio nos tijolos ainda firmes para não despencar.

 O edifício inteiro começou a tremer e rugir com o som dos condenados, as paredes se desintegrando e os rebocos em avalanche. A garota olhou para baixo em busca da adversária, e conseguiu vê-la caída no andar inferior. A visão, por sua vez, não era nada bonita. Ela estava de costas, o rosto esguichado de dor e uma poça de sangue cada vez maior a envolvendo, vindo do braço esquerdo. Ou pelo menos, o que sobrou do membro. Ele havia sido enterrado por um destroço particularmente grande do teto, e pelo visto havia sido completamente obliterado.

 Os olhos agoniados de Jyll se encontraram com os de Sophie, ainda se segurando acima. - S-s-s-sua... pi... - Tentou dizer, mas não conseguia ser ouvida através do rugido do prédio caindo. Procurou balançar as asas, mas faltava um pedaço de uma e a outra estava esburacada. Elas vibraram inutilmente.

 Mais um rugido e novos pedaços do interior do edifício caíram. A membro da Aurora caiu, felizmente amparada por uma pilha de destroços alta o suficiente para protegê-la. A fada por sua vez fora soterrada novamente, e a poeira a envolveu. Sophie olhou para onde a outra estava, sem saber o que fazer, até que um pedaço do teto caiu bem ao seu lado, lhe conferindo urgência. Hora de sair dali.

 Tropeçou e correu para fora, a visão comprometida pelo pó que dançava e rodopiava. Se lembrou do encapuzado do Culto Púrpura que havia visto do lado de fora, e procurou sair na outra direção. As paredes eram derrubadas e os andares superiores desmoronavam, mas ela sequer olhou para os lados. Havia uma janela à sua frente, os fracos raios de sol iluminando um caminho até ela. Rangeu os dentes e acelerou o passo, as dores do braço se tornando inescrutáveis. Só que estava perto demais para pensar em outra coisa. Eram só mais alguns passos. Doze, onze? O teto ruiu e ela foi obrigada a contornar os destroços, temendo perder o caminho. Sete, seis... Já conseguia sentir o ar salgado no lado de fora. Um reboco caiu em suas costas, a assustando como se fosse sua lápide. Três, dois... Saltou.

 Jogou o corpo contra o vidro e destruiu o que havia sobrado, caindo no chão. Atrás de si o edifício se desmanchava. Usou o braço sadio para se arrastar para longe, arfando e gemendo. A adrenalina lhe dava as forças necessárias para o último impulso, mas quando já estava distante o suficiente ela sumiu como se fosse drenada por um ralo. Sophie ficou de costas, encarando o céu nublado acima. O peito subia e descia como uma gaita de fole, a boca aberta e sangrenta em busca do ar extra. Conseguia ouvir sons de luta bem próximos, mas não tinha energia para levantar, que dirá batalhar novamente.

 Um raio a iluminou, sozinha em uma esquina de um beco qualquer. O vento salgado balançou seus cabelos empapados de sangue, e a garota começou a chorar. De início não conseguia saber o motivo, embora não demorasse muito para compreender. Havia vencido. Enfrentara um membro do Culto Púrpura sozinha, e era vitoriosa. Sozinha. Quem poderia acreditar?

 Levou a mão direita ao rosto para limpar as lágrimas, mas o cansaço a deixou ali. Agora eu só preciso contar para os outros, pensou com suas últimas forças antes da exaustão a derrubar, a única coisa que havia conseguido esse feito naquele dia.