sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os melhores de 2012

Bem-vindos de volta, senhoras e senhores, a mais um post do Recinto Nerd! Sentiram minha falta? Sim, eu sei que sentiram. Bem, devo dizer que a faculdade é uma vadia ciumenta, meus caros. Ela me fez dar atenção apenas a ela durante essas semanas. Só que estou a traindo nesse momento, pois tenho um post a escrever!

Vocês devem estar cansados das minhas crônicas sem fim, portanto decidi fazer algo mais normal e, ouvindo reclamações, mais curto. Então, façamos um simples melhores do ano, e, para apimentar algumas coisas, um exemplo horrível.

Sem mais delongas ou rodeios, vamos ao post!

CINEMA

5 - Batman: The Dark Knight Rises



Antes que falem alguma coisa, sim, eu gostei do Bátima. Só que não tanto quanto outras pessoas. Veja, os filmes do Nolan são conhecidos por darem uma visão mais realista do Cruzado Encapuzado. Só que o terceiro filme da trilogia nos deu uma visão mais, digamos, super-heróica de Nolan. E isso deu suas falhas. Erros de roteiro espalhados pelo cenário, incongruências e, acima de tudo, um tom mais estranho comparado aos outros filmes fizeram TDKR perder pontos.

E antes que os cuequinhas verdes fiquem putos, EU GOSTEI DO FILME. Só que não tanto quanto os outros.

E sério. Correr que nem malucos em cima de caras com armas não foi o melhor plano, né Bátima?

4 - Mercenários 2



BAM BAM BAM BAM RATATATAATATATATATA SHAKABOOOOOOOM POW PIM BAM BAM BAM BAM KABOOM NHEEEEEEE SCARAKABOOOOOM TSSS BOOM POW POW POW BAM BAM RATATATATATATATA AAAAAAARGH.

Não tem como não gostar de Mercenários 2. E eu duvido achar uma crítica mais certa do filme quanto a que eu escrevi.

Deal with it.

3 - Skyfall



Os filme de Daniel Craig como 007 conseguiram me surpreender. Quando eu era uma criança insolente, disse que não teria graça um James Bond sem Daniel Craig. Oh, como eu estava errado. Skyfall é, junto com Casino Royale, o melhor filme do novo Bond. Dessa vez, o esquema mais realista dos novos filmes parece ter tido sua última mostra em grande estilo, colocando pontos importantes da mitologia de 007 na construção da história.

No mais, foi um filme do Batman melhor que TDKR.

BURN.

2 - Vingadores



A questão com os Vingadores é que ele não se propõe a ser uma obra de arte ou algo do tipo. Ele só quer ser divertido, um filme de super-herói no nível mais primordial. E é isso que ele consegue. Não há coisas aqui que insultem sua inteligência (tipo Transformers), e há muita porradaria. De fato, a melhor cena do cinema no ano foi o pega pra capar com todos os Vingadores.

Você soltou uma pequena lágrima. Admita. Aquela cena foi feita para fãs de quadrinhos.

1 - O Hobbit



E chegamos ao melhor do ano. Eu não tinha lido Senhor dos Anéis quando os filmes saíram, então tive essa oportunidade com Bilbo Bolseiro e seu absurdo número de amigos anões.

A melhor parte do filme foi sua ligação com outras obras de Tolkien, especialmente com Silmarillion. Ver Gandalf ser chamado de Mithrandir, os Istari, tudo isso me faz ficar extremamente animado para os próximos filmes.

-1 - Prometheus



Ufa. Chegou a hora de falar mal. E puta que pariu, que filme confuso. Prometheus não dá nenhuma resposta, conclui pouquíssimos plots, tem umas viradas sem sentido, os personagens são estúpidos ao cúmulo (escolha: o biólogo medroso que brinca com uma cobra-vagina espacial ou o arqueólogo que fica triste quando descobre uma civilização alien).

Só falar desse filme me faz ficar temeroso com a futura reformulação de Blade Runner (melhor filme da história) pelo cada vez mais senil Ridley Scott.

VIDEOGAMES

5 - Hotline Miami



De todos os jogos esse ano, esse teve as músicas (originais) mais viciantes de todas. Um "stealth" (entre aspas porque eu nunca usei stealth no jogo) com gráficos pixelados e violentos, visão dos primeiros GTA's e uma história tão maluca que nem agora, com meses de meditação, consegui entender completamente. Mas algo me diz que ela é muito boa. Chame de sentido de aranha se quiser, eu gosto disso.

4 - Last Story



Pelo que eu vi dos reviews esse ano, Last Story só está na lista porque ainda não joguei Xenoblade. De qualquer jeito, é um JRPG bastante inovador em seu gênero, com mecânicas de jogabilidade combinando cover e stealth. E tem um tigre branco, por tudo que é mais sagrado. Gotta respect that. 

3 - Final Fantasy Theathrhythim



Nome difícil, jogo irado. Tealgumacoisa é o maior tributo a Final Fantasy, um jogo de ritmo onde você rabisca seu 3DS, que compila as melhores do músicas da série (o que é muita coisa) com gráficos adoráveis e bela curva de aprendizado.

Saco, disse gráficos adoráveis. Esqueçam isso por favor.


2 - Mark of The Ninja



Estou jogando esse jogo enquanto escrevo esse post. E posso dizer que foi a melhor experiência stealth que eu já tive esse ano, que dirá na minha vida. Um jogo 2D que te coloca como um ninja motherfucker que utiliza os poderes ninja de verdade. Sem essas viadices de jutsus e afins, só necessitamos de uma katanas, kunais e sombras para matar e aterrorizar.

1 - XCOM



Finalmente, o jogo do ano. Se você gosta de jogos de estratégia que te brutalizam por qualquer erro, essa é a sua musa! XCOM envolve política, manutenção de recursos, decisões em cima da hora, personagens aleatórios e morte, morte, morte. E já que sou um fã do desafio nuzlocke (como você pode ver aqui), nada melhor do que horas de gameplay seguidas de choros intermináveis porque seu personagem favorito morreu por um erro estúpido seu.

-1 - Home



Oba. Um jogo de terror pixelado por 2 reais. Oba, Lone Survivor é parecido, então deve ser bom. Bora jogar.

Cinco minutos depois.

Não entendi porra nenhuma. Nada acontece. Oh, Deus, onde me meti. O que eu tenho que fazer? O QUE EU TENHO QUE FAZER?

QUADRINHOS

5-  Wolverine and the X-Men


A premissa era horrível. Mais uma equipe com o Wolverine, provavelmente centrada no carcaju de forma a ignorar os outros membros da equipe (vide X-Men 3). Só que algo bizarro ocorreu e veja, essa foi uma das melhores coisas do ano. 

O lance aqui é o humor, jogado em baldes em cima dos membros da nova escola para mutantes, o Instituto Jean Grey. E temos de tudo: seres do futuro sendo professores e aterrorizando os alunos, ataques na escola a torto e a direto, monstros servindo como jardim, e claro, Doop, que pelo visto realiza atos sexuais com homens e mulheres.

4 - Animal Man


Indo totalmente na direção contrária, temos o Homem-Animal com suas histórias de terror. Seguindo o excelente começo em 2011, esse ano tivemos a história um pouco mais parada, embora no segundo semestre tenha dado uma acelerada. Se você quer comprar algo da Panini, procure o Homem-Animal. 

Falando nisso, estou livre para me vender fazendo jabá, se alguém se interessar.

3 - Invincible


É difícil encontrar algo melhor que Invencível no quesito super-heróis. Ao mesmo tempo uma história padrão e algo que joga conceitos novos de coisas antigas, junto com uma porradaria absurda, é melhor aproveitar enquanto não chega a edição 100.

Onde o autor diz que todo mundo morre.

E ele é o mesmo escritor de Walking Dead, onde na edição 100, bem...


Ops, spoilers.

2 - Batman



De volta à Marvel e DC, temos o Bátima! Sim, ele, o cara vestido de morcego que passou o ano apanhando de corujas e palhaços. Embora eu não considere essa nova fase do Morcego algo lendário como vejo muita gente falando, é bem acima da média, chegando ao nível de excelente no meu medidor de fodacidade de histórias em quadrinhos.

E não quero dar spoilers, sobre as últimas edições, mas...

Eu acho que o Robin morreu.

Ops.

1 - Hawkeye



Quem diria. Quem diria que o Gavião Arqueiro, um dos maiores buchas da história, conseguiu protagonizar a melhor revista de 2012? Seguindo os passos do bucha-mor, Aquaman, o membro mais inútil dos Vingadores conseguiu dar excelentes momentos esse ano. Histórias simples, com bela arte, personagens cativantes e um humor sórdido, você pode apostar em mim: compre e seja feliz. 

Então, gente, estou aceitando pagamentos pra fazer jabá. Tá ficando chato fazer isso de graça.

-1 - Prêmio honorário Liefeld



Olhe esse rostinho. Ele não vai te decepcionar, né?

Pois é. Liefeld esse ano aprontou poucas e boas. Brigou com metade dos escritores e editores, foi expulso de tudo que tinha direito e, principalmente, ainda não aprendeu a desenhar e se veste como um redneck bêbado.

Sem mais, sem menos.

Agora vou voltar a jogar Mark of the Ninja. Até 2013!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Chuva e o Sol - Especial Fim do Mundo

Opa, galerinha, tudo bom?

Não, pera, não é assim que eu começo os posts.

Fala, rapaziada, aqui é o Zoraman...

Não, também não...

Lambda, lambda, lamb...

Cacete, estou com problemas de memória. Não, pera, lembrei.

BEM-VINDOS, SENHORAS E SENHORES, A MAIS UM POST DO RECINTO NERD!

E HOJE É O FIM DO MUNDO!



Será que hoje batemos as botas? Os meteoros vão cair nas nossas cabeças? Elza Ramalho será capa da Playboy? Não sei, mas de qualquer jeito, temos mais um post para comemorar o fato de estarmos vivos, ou gastar nossas últimas horas de vida.

Então vamos lá! Eu escrevi essa crônica por causa de um livro colaborativo, e é claro que não ganhei. Só que eu agarantcho que é uma boa história! E chega de pontos de exclamação.

E tá escuro porque eu copiei do que escrevi, porque nem por dois coelhos felpudos eu vou reescrever tudo isso.

A Chuva e o Sol

Cinquenta e sete minutos.

Eu já estava parado em frente ao computador faz um tempo. 

Que e-mail imbecil. Fim do mundo? Quem é que acredita nisso hoje em dia? Parece que as pessoas precisam acreditar no apocalipse. Como dizem, o fim do mundo é pop. 

Cinquenta e seis minutos. 

Fico imaginando. Depois de 2012, qual será a data profética da moda? Qual será a data que as civilizações milenares escolheram? Qual será o ano que Nostradamus disse que o mundo ia acabar? Mas eu não vou cair nessa, não senhor. Pode anotar isso, ou meu nome não é Júlio. 

Cinquenta e cinco minutos.

Levantei para beber uma água. Esse tipo de coisa me deixa estressado. Quantas vezes ouvi que o fim dos tempos estava chegando? Sobrevivi ao Rock in Rio. Sobrevivi a 1999. Óbvio que vou sobreviver a 2012.

Cinquenta e dois minutos.

Meus pensamentos focaram no Natal. Novamente, ia passar essa data sozinho. Assim como os últimos três anos. Mas não me importava mais. Já estava acostumado. Meus pais morreram faz cinco anos, e terminei com minha namorada faz quatro. Eu não a amava. Aliás, não me lembro de ter amado ninguém na minha vida. 

Cinquenta minutos. 

Voltei ao computador. O e-mail me encarou quando me sentei. Quem é o idiota que fica mandando essas mensagens? Não tem nada melhor a fazer? Deve ser um desses pivetes que acham que são donos do mundo. Chequei o e-mail novamente. Ele veio de uma firma de construções que eu era cliente faz uns anos... cujo escritório estava a uns dez minutos da minha casa. Tentei voltar aos meus afazeres, mas o e-mail continuava lá.

Quarenta e oito minutos.

Chega. Hora de ter uma conversa com esse engraçadinho. Quem ele pensa que é? Isso não vai acabar assim. Me levantei do computador e fui em direção ao elevador.

Quarenta e seis minutos. 

Droga de elevador. Droga de família que atrasa os outros. Será que eles não tem consideração pelas outras pessoas? Acham que são os donos do mundo. Bem, talvez o fim dos tempos devesse chegar para eles. Comecei a andar mais rápido. O babaca do e-mail ia ver. Ele ia ouvir muito. Quem é que faz essas brincadeiras e acha engraçado? 

Quarenta minutos. 

Até que não demorei tanto. No entanto, havia um problema. O prédio tinha um porteiro eletrônico. Droga. Queria chegar de surpresa no escritório. Mas que se dane. Disquei o número.

- Alô? - Disse uma voz feminina. Um pouco trêmula, mas eu não tinha me importado com isso na hora. 

- É você que fica mandando e-mails sem graça para outras pessoas?

- Aposto que ela não esperava por isso. Quem fica aprontando brincadeiras de mau gosto nunca espera retorno. 

- Q-Quem é você? Você recebeu o e-mail? 

- Claro que recebi o e-mail, cacete! Eu vim aqui tirar satisfação! Abre esse portão para termos uma conversa, sua babaca!

A voz ficou em silêncio.

Trinta e oito minutos.

O portão abriu. Hora do show.

 rinta e sete minutos. No elevador, fiquei pensando. Não esperava que fosse uma mulher. Achava que seria um pivete que se achava a última bolacha do pacote. Nem pra isso essa vaca fez as coisas direito. 

Trinta e seis minutos.

Toquei a campainha. Já estava preparado para gritar, quando a porta se abriu e eu fiquei paralisado. A mulher que abriu a porta era jovem, de uns 25 anos, talvez, e tinha longos cabelos negros, que chegavam até a cintura. Aliás, uma bela cintura. E belos quadris, descendo um pouco mais a visão. Ela vestia uma camisa social branca e uma saia escura, que descia até os calcanhares. De fato, tinha um belo corpo. Voltei a visão para o rosto. Ela tinha lábios pequenos, assim como seu nariz, um pouco arrebitado. Mas foram os seus olhos que me paralisaram. Eram olhos grandes, de um verde incrível. E, sob os olhos, havia maquiagem borrada. Ela estava chorando.

- Então? Não vai fazer nada, valentão? Vamos, grite comigo! Anda! Eu mereço, faça alguma coisa!

- Disse ela, me encarando com aqueles olhos verdes. Malditos olhos verdes.

- E-eu... - Excelente. Que modo de lidar com as situações, Júlio. Você não ia gritar com ela? Pois bem, faça como a moça disse. - Veja bem, você... - Eu não conseguia. Na minha mente, ela tentaria dar uma de esperta para cima de mim. Não ficaria omissa, esperando o esporro. Ela me fitou por mais uns segundos, e voltou para o escritório, fechando a porta com um estrondo arrebatador. Depois do trovão que a porta fez, o silêncio. E soluços do outro lado dela. 

Trinta e cinco minutos.

Abri lentamente a porta. Ela estava sentada no sofá, com o rosto nas mãos. Sentei-me ao lado dela. 

- O que você quer, afinal? - Começou ela, com a voz abafada pelas mãos que cobriam a face. 

- Foi... foi você que enviou o e-mail? 

- Sim. Eu recebi de uma outra pessoa, e precisava passar para alguém. Seu e-mail estava no cadastro, acho. Apenas digitei umas letras aleatórias e o computador me mostrou seu e-mail. - Ela tirou as mãos do rosto e olhou para mim. - Me desculpe. Juro que não queria fazer mal, apenas... apenas precisava... fazer alguma coisa. - Ela voltou a afundar o rosto nas palmas das mãos. 

- Você acredita no fim do mundo? 

- Como eu não poderia? Você leu o mesmo que eu. Eu não sabia o que acreditar agora. Continuava achando uma baboseira, mas a ideia ia penetrando lentamente no meu cérebro. O fim dos tempos...

Trinta e três minutos. 

- Sabe... eu nunca fiz nada de útil na minha vida. - Ela tirou novamente o rosto das mãos e passou a fitar a tela do computador, como se todas a sua vida estivesse passando pelo monitor. - Nunca me apaixonei... nunca fiz nada de especial. Só estudei, passei na faculdade, e parei aqui. Meus pais sempre me deram tudo que eu precisava, nunca lutei por nada. Nunca dei valor a nada. Gastei minha vida à toa.

Nós dois ficamos quietos. Incrível como, revendo toda a minha vida, eu também nunca fiz nada de especial. Namorei sem amar. O mundo não me conhecia. 

Trinta minutos. 

Não. Deve haver algo. Algo que faça com que minha vida tenha sentido. Algo que mostre que minha existência mudou o mundo de algum jeito. Comecei a repensar toda a minha vida. Em algum lugar, em algum momento, eu devo ter feito algo. Algo especial. Algo significativo. Não posso ter gastado minha vida à toa.

Vinte e seis minutos.

A luz do fadado mundo lá fora banhava palidamente a sala. A luz do sol. O sol. É isso. Sempre me senti bem com o sol. Não tenho como explicar, apenas gosto dele. Seu calor, seu início, seu fim. Talvez ele me dê as respostas. Talvez seja tudo que eu preciso.

- Qual é o seu nome mesmo? - Disse enquanto me levantava do sofá. 

- Sophia. - Ela olhou para mim. - O que está fazendo?

- Sou o Júlio. Venha. Tenho uma ideia. Vamos ver o sol. 

- O quê? 

- Olha, eu não sei como explicar, mas venha comigo, por favor. Eu preciso ver o sol. Ele sempre me fez sentir bem. E é tudo que eu quero agora. Talvez eu encontre um significado para nossas vidas, não sei. Mas eu preciso tentar. 

- Mas...

- Venha logo, por favor! - Supliquei. Ela olhou para mim, com um ar de piedade nos olhos. Então me acompanhou. Entramos no elevador e fomos direto ao terraço. Precisava de uma visão clara do céu. Precisava do sol. Por favor, me dê respostas. 

Vinte e quatro minutos. 

As gotas pingavam no meu nariz.

- Eu... sinto muito. - Ela disse, se aproximando de mim. - Sei que no início não dá pra perceber de dentro do escritório se está chovendo ou não, mas eu já estou lá faz alguns anos. Sabia que estava chovendo. Sinto muito. 

- He... hehe... heheha... hahaa... HAHAHA! - Desatei a rir como um maníaco. Sophia não me acompanhou, ficando apenas olhando para mim. Como ela não estava vendo a graça na situação? Eu coloquei todas as minhas esperanças em algo que eu não tinha controle nenhum. Eu devo ser um idiota mesmo. 

Um idiota que vai morrer.

Meu Deus, eu vou morrer. 

Não percebi que tinha caído de joelhos. Não percebi as lágrimas no meu rosto, confundidas com a chuva que caía incessantemente. Eu ia morrer. Nunca fiz nada de especial, gastei toda a minha existência.

Entrei em desespero.

Vinte e dois minutos.

Gastei minha passagem na Terra. Eu vou morrer. 

Vinte minutos.

É isso? É assim que tudo acaba? Apenas mais um a viver, um entre sete bilhões que iriam encontrar seu fim?  

Dezoito minutos. 

Patético. Eu sou patético.

Quatorze minutos.

Eu vou morrer.

Doze minutos. 

Nunca fui um homem da Igreja. Não me lembro da última vez que rezei. Mas Deus, por favor, me dê uma luz. Me mostre que minha vida não foi em vão. Por favor. Por favor, me dê um sinal.

Dez minutos.

De repente, a luz. Parou de chover. O sol se abria em um pequeno espaço naquele mar de nuves, que se fastavam. É um belo jeito de morrer, não? No mínimo eu morro com o sol. O Sol.

Sentia como se houvesse um pensamento querendo ser notado. Como se houvesse um baú, e ele estivesse gritando para sair de lá. Hora de abrir o baú. 

Quatro minutos. 

É isso. Olhei para Sophia. Não percebi que ela ainda estava do meu lado, abraçada ao meu braço e fitando o chão.

É agora. É hora do tudo ou nada. 

- Sophia? - Disse, fazendo-a levantar.

- O quê? - Ela respondeu, com uma fisionomia derrotista. Precisava salvá-la. Precisava que ela visse o mesmo do que eu. 

- Veja, acho que... vi um sentido em nossas vidas.

- O quê? Como assim?

- Encontrei um sentido em nossas vidas. Algo de especial. 

- Mas eu já disse, nada ocorreu comigo. Você não me conhece. Não sabe o que aconteceu comigo. Acredite, eu apenas existi. Não vivi. 

- Isso é estúpido. Até pouco tempo atrás eu também acreditava nisso, mas veja! Não importa o que tenhamos feito, não importa se mudamos a forma de pensar do planeta ou apenas passamos na faculdade. Nossas vidas, todas as vidas, tiveram algo de especial, algo que tenha feito tudo valer a pena.

- Você está maluco.

Três minutos. 

- Não! Você apenas está tentando pensar em coisas grandes. Pensando que apenas vidas como a de Gandhi ou a de Einstein valeram a pena. Pense em coisas pequenas. Pense em pequenas conquistas. Ter visto seu time ser campeão, ter beijado pela primeira vez, ter passado um segundo, que seja, com a pessoa especial ao seu lado. São esses momentos que nos fazem sentir vivos, pequenos momentos. O que importa é o que compartilhamos. 

- Ainda não entendo. 

- Veja! Há um momento em que você se sentiu feliz? Um momento que tocou a vida de outra pessoa? Pois são esses momentos que fazem a vida valer a pena! Esses pequenos momentos, que juntos se tornam algo muito maior do que tudo. Não importa o mundo, que se dane o mundo e o fim dele. O que importa são as outras pessoas. O mundo delas. Se passamos um momento especial com elas, por menor que seja, vale a pena. Pare de pensar em termos gigantescos, quase impossíveis de se realizar. Pense nas pequenas coisas, no aqui e agora. E o que eu quero no aqui e agora é que você entenda o que estou tentando passar. Pois nesse momento, você é o único mundo que importa para mim. Eu nunca amei, e não sei descrever o sentimento. Talvez o que eu sinta não seja amor. No entanto, saiba, que nada agora é mais importante para mim do que você. Eu preciso que você entenda. É o único mundo que eu quero mudar.

Ela ficou em silêncio.

Quase podia ver as engrenagens girarem atrás da testa dela. 

Dois minutos. 

Silêncio.

Um minuto.

De repente, eu vi compreensão nos olhos dela. Ela sorriu. Foi apenas um relance, pois em seguida eu só estava pensando em como os lábios dela eram macios.

Cinquenta segundos.

Um abraço. Um abraço tão apertado, quase parecíamos um. Sua língua era doce.

Quarenta segundos. Minhas mãos passavam pelos seus cabelos. 

Trinta segundos. Paramos para nos encarar. Seus olhos verdes. Continuamos o beijo.

Quinze segundos.

Como ela era linda. 

Meu Deus, como ela era linda. 

Zero.

sábado, 1 de dezembro de 2012

As Crônicas de Ona parte 5 - O fim

Sim, eu sei. Demorei muito mais do que o prometido. Por isso, me sinto na necessidade de me desculpar.

A questão é que eu queria que essa crônica fosse a minha melhor até agora. As crônicas de Ona me fizeram querer escrever e finalmente moldar mundos que estavam na minha cabeça há anos, e por isso quis que fosse a melhor coisa que já escrevi. Não sei se isso ocorreu ou não, apenas vocês poderão decidir.

Sei que isso não é motivo nem nada, já que eu disse que entregaria o final antes.

Agora vamos lá.

AS CRÔNICAS DE ONA

Parte 5: Fim.

Dor.

Ainda estava escuro. Parecia que sempre esteve escuro. As trevas abraçavam Ona com tal intensidade que pareciam uma manta, oprimindo-o de todas as sensações. Exceto a dor. A sentia em cada parte do corpo. Corpo. Que corpo? O que era isso? Parecia fazer tanto tempo desde que teve um.

E então veio o calor. Há mil anos atrás era dia, não era? Ou era noite? O que havia acontecido? Só lembrava de... não, não conseguia se lembrar. Apenas a dor, o calor e a escuridão. Estavam com ele desde sempre, não estavam?

Eis que a pressão chegou. Havia algo em cima dele. Vários algos. Ele se lembrou que tinha um corpo. Tentou se mover, se lembrava vagamente de como era isso. Só que não conseguia. Não podia.

Estava enterrado vivo.

Esse pensamento surgiu como um clarão na escuridão eterna. E com ele veio o pânico. O pânico lutou acirradamente com as trevas, encobrindo a dor e o calor, mas não a pressão, essa continuava lá. Só que o pânico conseguiu vencer as trevas, sugando o garoto de volta ao mundo exterior.

Ona abriu os olhos.

A primeira coisa que viu não fez muito sentido para ele. Sua visão estava semi-encoberta por destroços da carroça, mas via uma impressionante quantidade de orcs sentados em semi-círculo, bem distantes dele, e uma espécie de palco no centro. Não conseguia ver o que estava na frente deles devido a um pedaço desagradável de madeira, mas via Lisa sentada no chão, mantida presa por um orc. Tentou virar o rosto para ver melhor, percebendo o sangue em seu rosto, e percebeu Tony e Marcus na mesma posição. Lisa estava surpreendentemente ilesa, mas Tony tinha um grande ferimento na testa, empapada de sangue, e Marcus segurava um braço que pingava vermelho. Todos tinham correntes grossas penduradas no pescoço, seguradas por seus captores.

Ona se perguntou onde estava Loretta, e parecia que um dos monstros o ouviu, pois um orc entrou no seu campo de visão, arrastando a arqueira. Ela também parecia ilesa, mas o seu captor a colocou ajoelhada em frente a bizarra platéia, amarrada pelos pulsos e pelos tornozelos. Aquilo parecia estranhamente familiar a Ona, como se ele já tivesse lido sobre algo assim. O orc captor começou a falar uma série de dizeres na língua dele, enquanto os outros repetiam uma mesma palavra.

Sh'akahar.

O sangue de Ona gelou, até mesmo o que estava do lado de fora de seu corpo. Sh'akahar era o nome orc para execução. Só que a execução orc não era limpa, nem simples. Consistia em uma série de tortura antes do condenado pedir a morte. Caso isso não ocorresse...

Ona sabia, em seu âmago, que Loretta jamais pediria a morte. Seu orgulho tomaria conta de seu corpo, a única coisa que a manteria em um pedaço durante a tortura. Só que, quando o processo do Sh'akahar era estendido, pedaços eram retirados. Ona tentou se mover, mas os destroços da carroça eram muito pesados, e o prendiam firmemente ao chão. Talvez tenha sido por isso que não o tinham achado. Uma benção e uma maldição ao mesmo tempo.

Ele se virou aterrorizado para o semi-círculo, enquanto o executor e torturador, chamado de Akahar, retirava uma faca do bolso. Ele a colocou na garganta de Loretta, segurando-a pelos cabelos. Resmungou algumas palavras em seu ouvido, que Ona não escutou, mas conseguiu ver o cuspe que ela soltou em cima do monstro. Revoltado, ele a socou, jogando seu rosto ao chão com uma velocidade absurda. De onde estava, Ona conseguiu ver o sangue dela voando.

A platéia começou a xingar e a bater os pés. O Akahar se prostrou em cima dela, e bateu sua cabeça no chão. A levantou pelos cabelos, e voltou a colocá-la de joelhos. Pegou uma faca, alisou-a, e a abaixou, cortando o ombro de Loretta.

Ela não fez nenhum som, mas Ona tentou desesperadamente se mover, parando quando os destroços pareciam desabar. Ele olhou, imponente, enquanto o Akahar colocou a lâmina inteira da faca, no corte de Loretta. Sangue espirrou, mas ela ainda não fazia nenhum som.

Ele sentiu a fúria correr por seu corpo, enquanto tentava se libertar em vão. Daria qualquer coisa para salvar Loretta, qualquer coisa...

 - Ona. - disse uma voz ao seu lado.

Se ele não estivesse coberto por quilos de destroços, Ona poderia jurar que tinha saltado meio metro. Virou rapidamente o pescoço, e viu Ankho ao seu lado, ajoelhado atrás do ninho de destruição que aprisionava o garoto.

Ele rapidamente transmitiu a raiva que sentia dos orcs para Ankho.

 - Você.

 - Sim. Ouvi uma explosão, e vim aqui conferir.

 - Ah, que ótimo. Talvez isso não tivesse acontecido se você tivesse vindo me procurar.

Ankho ficou visivelmente encabulado, e virou seu rosto para baixo.

 - Sim, eu sei. Ona, você é a manifestação de todos os meus erros. Eu poderia me desculpar o tempo todo, mas - ele olhou para o garoto, com uma expressão mais dura no rosto. - temos coisas mais importantes para nos preocuparmos agora.

 Ona concordou lentamente com a cabeça. Por mais que não aguentasse ficar perto do guerreiro, sabia que tinham que salvar os outros o mais rápido possível. Ankho levantou a cabeça e olhou para o Sh'akahar, observando a platéia, o torturador, e os outros. Sua expressão ficava mais sombria a cada instante.

Finalmente ele quebrou o silêncio.

 - Eu tenho um plano, mas você não irá gostar dele.

 - Diga.

Ankho se virou para ele. - Preste atenção. Tenho um pouco de explosivo comigo. Eu posso correr e me livrar do torturador e dos outros captores, mas há uma grande quantidade de orcs prontas para me matar no instante que perceberem. Eu poderia carregar o explosivo até eles, mas assim que perceberem que estou o segurando, vão se dispersar e talvez o dano não seja tão eficiente. Por isso, vou te dar a bomba, e seguirei na sua frente até chegarmos no meio deles. Ela deve explodir nesse momento.

Ona pensou no plano. Parecia fazer sentido, mas... - A bomba quando explodir deve nos acertar também.

Pela cara de Ankho, ele sabia. Ona gelou.

 - O quê? Esse é o seu grande plano?

 - O melhor que tenho. Eles não podem saber da bomba, e te cobrirei até chegarmos no meio deles. Se formos rápidos o suficiente, eles não te perceberão.

 - Ah, agora você quer minha ajuda? Você destruiu minha cidade e agora quer me mandar para o sacrifício?

 - Ona. - Ankho se aproximou dele. - Nada que eu possa fazer vai me perdoar por Aikon. Sei que trazê-lo para isso não é o certo, mas é o único jeito. Esses orcs provavelmente vão torturá-los, matá-los, e depois correr para a prisão. Se derrotarmos eles aqui, podemos garantir paz por mais tempo. Não é muito, mas é o que me disponho a fazer pelo que aconteceu em Aikon. Posso fazer sem você, mas talvez não funcione. Por isso te peço ajuda.

Ona olhou para ele. Olhou para seus olhos. Só havia dor. Ele percebeu que Aikon queria morrer assim, nem que isso jamais o perdoasse por ter abandonado sua cidade. Ele não conseguia mais viver pelo remorso.

Então Ona perdoou Aikon.

 - Certo. - Ele engoliu seco. - Vamos.

Ankho retirou lentamente os destroços que estavam em cima dele, e Ona rastejou até ficar atrás do guerreiro. Ele deu para o garoto a mesma argila negra que tinha começado a rebelião, no que pareciam ser anos no passado. Ona sentiu suas mãos tremendo, enquanto fitava o objeto como se as respostas da vida pudessem ser encontradas nas reentrâncias rudes que marcavam o relevo da bomba. Aquela era a hora. Ankho olhou mais uma vez para o cenário e se virou pela última vez para Ona.

 - Está pronto?

 - Sim.

Ona acendeu o pavio.

Aikon se levantou e começou a correr, com Ona em seu encalço. Os orcs pareciam não perceber sua investida, tão interessados na tortura. Ele tirou seus dois machados de arremesso das costas e arremessou contra os três captores de Lisa, Tony e Marcus. O primeiro machado arrancou a cabeça do captor de Lisa, enquanto o segundo cortou o pescoço dos outros dois, em um giro mortal. Os captores caíram, enquanto os prisioneiros ainda estavam em estupor. Ona olhou para eles. Tony e Marcus pareciam estupefatos demais para percebê-lo, mas Lisa o olhou nos olhos. Uma eternidade e um momento se passaram, e Ona quase desacelerou. Mas quando mil anos se passaram, se viu continuando correndo atrás de Ankho.

O pavio chegava na metade.

Os orcs pareciam não ter percebido a chegada do gigante, mas ele se fez aparecer com um movimento impiedoso, onde cortou no meio o Akahar. Sangue de orc espirrou, e a platéia se viu com um guerreiro de dois metros em cima deles. Começaram a correr, tentando se reorganizar. O elemento surpresa cavalgava novamente, levando Ankho e Ona pela última vez.

O pavio diminuía.

Ona passou por Loretta. Ela parecia em maus pedaços, mas olhou incrivelmente surpresa para Ankho. Percebeu por um milésimo de segundo a figura pequena de Ona correndo atrás dele, mas eles não chegaram a se entreolhar.

Ainda faltava muito do pavio? Ona nem se atrevia a olhar mais.

Alguns orc mais rápidos começavam a atirar flechas para o trem que era Ankho. Duas acertaram suas omoplatas, e outra perfurou seu joelho. Ele pareceu cambalear, mas continuou em frente. Mais flechas eram enviadas, e o corpo do guerreiro aguentava todas.

O pavio parecia que não acabaria nunca.

De repente estavam no meio dos monstros. Ankho saltou, e arrancou a cabeça de dois orcs em um único movimento. Mais flechas eram lançadas, e finalmente ele tombou.

Ona se viu no meio dos orcs. Tamanhos diferentes, armas diferentes. Só que todos estavam de repente olhando para ele. E todos olharam para a bomba.

Ele olhou para baixo. O pavio estava no fim. Obrigado.

E então o mundo explodiu.



Muito se falou sobre esse dia. Sobre como dois homens se lançaram à morte para defender honra, amigos, amantes. Sobre um ato que garantiu paz, o suficiente para humanos poderem se organizar e defender sozinhos suas terras. Sobre uma guilda de mercenários, que se mudou do deserto para lugares mais lucrativos. Sobre como um homem se viu diante de todos os seus erros, e lutou contra eles até o fim. Sobre o perdão entre duas pessoas que partilharam sentimentos de veneração, humildade, raiva e aceitação. E sobre um garoto que idealizava heróis, apenas para na derradeira hora, se tornar um.

Essas foram as crônicas de Ona.