quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

RN Nuzlocke Y - Capítulo 5: A primeira queda

RECINTO NERD NUZLOCKE - Y - 
CAPÍTULO 5: A PRIMEIRA QUEDA

 - Eu disse que deveríamos ter saído mais rápido da rota 2. - Disse Frog, segurando um pedaço de pão na pata. - Aprendeu agora?

 - Frog, se você falar mais uma palavra, quem vai pro fogo é você. - Reclamou Kari, carrancuda. Era noite, e o grupo estava reunido ao redor de uma fogueira, jantando as sobras do que havia na mochila da treinadora. Kari, Frog e Paola estavam acompanhados por Peter, o Pansage que haviam capturado na floresta, e Bob, um Burmy que havia se juntado à equipe naquele mesmo dia.

 - Nós podíamos ficar uma refeição sem brigar? - Perguntou Paola, mordiscando o pão, irritada. - Só uma vez?

 - Isso mesmo, gente. Um pouco de paz, por favor. - Disse Peter, bocejando. Ele reclinou na tora de madeira onde estava sentado enquanto Kari e Frog trocavam olhares ameaçadores. - Ei, novato! Você não vai comer não? - Ele se dirigia à Bob, que estava um pouco mais afastado, e sua comida, intocada.

 Como se tivesse acabado de sair de um transe, o Burmy se assustou, olhando ao redor. Quando viu o resto da equipe o encarando, ele começou a comer, embora se mantivesse afastado.

 - E então? O que faremos amanhã? - Perguntou Frog, terminando seu prato. - Não temos o suficiente para comer por nem mais um dia. Não pra todo mundo.

 - Teremos que nos adiantar. - Respondeu Kari, limpando a boca com as costas da mão. - Se tivermos sorte, poderemos recolher algumas frutas à beira da estrada.

 - É isso? - Estranhou o Froakie, franzindo a testa. - Em que época do ano você acha que estamos? Acabamos de sair do inverno.

 - Não vejo você dando uma sugestão. Que tal começar a fazer isso, ao invés de reclamar o tempo todo? - Disse a treinadora, ríspida. Paola e Peter se entreolharam, tensos.

 - Q-que tal um p-pequeno jogo? - Disse o Pansage, nervoso, tentando melhorar o clima. - Ou uma conversa saudável? Ou adivinhas? Caramba, adivinhas são... - Naquele momento o pequeno estômago do Pokémon roncou audivelmente, e ele se calou. - Oh, que coisa...

 Naquele momento, Kari ficou sombria. Ela levou o prato para mais perto da fogueira, se levantando em seguida. - Comam a minha parte. Perdi a fome. - Mesmo com os protestos de Paola, ela começou a se afastar para o norte, caminhando com passos firmes. Não parou até chegar a um barranco, de onde fitou o caminho que os aguardava. O céu imensamente estrelado cobria a estrada serpenteante, e um pequeno conjunto de luzes ao longe marcava o destino deles. Santalune.

 Kari se sentou, deixando as pernas ficarem soltas no desfiladeiro. As coisas definitivamente não pareciam promissoras. Mal tinham comida para passar a noite, que dirá o resto da estrada, pensou. Seu estômago vazio se retorceu, embora o motivo fosse muito diferente da fome. A quem queria enganar, se perguntou a garota. Tentou se forçar em uma aventura com um objetivo bastante tênue, e agora três vidas estavam dependendo dela, e a cada segundo os colocava mais em perigo. Burra, burra, burra.

 Envolta em seus próprios pensamentos, não percebeu a chegada de Paola ao seu lado.

 - Kari... você está bem? - Perguntou a Pokémon. A treinadora demorou para responder, com os olhos fixos no horizonte.

 - Eu juro que vamos chegar na cidade sãos e salvos. - Disse ela, sem saber para quem.

 - Nós sabemos. - Kari se virou para a Pidgey. - Ninguém ali duvida de você. Nem mesmo Frog. Digo, ele tem algumas... desavenças em relação ao jeito de liderar, mas se ele ainda não desistiu, é porque realmente te respeita.

 Kari soltou uma risada pelo nariz. - Acho que Frog não desistiu porque ele teria que me matar para conseguir fazer o que quer. E por enquanto isso daria um belo trabalho.

 - Bem, então de qualquer jeito todos estamos presos com você, não? - Riu Paola. - Vamos lá, Kari. A jornada acabou de começar, não adianta ficar depressiva com todos os pequenos obstáculos que encontrarmos. Afinal, temos motivos para sermos Campeões, não é?

 Mesmo com suas ressalvas, Kari se viu obrigada a levantar. Paola tinha razão, se fosse ficar lamentando por cada erro que cometer, nunca chegaria ao final. - E qual é o seu motivo para seguir em frente, Paola? Digo, pra que ser Campeã?

 A Pidgey sorriu, voando até o ombro da treinadora. - É engraçado, mas um pouco vergonhoso. Talvez um dia eu te conte. - A garota seguiu pressionando enquanto andava de volta à fogueira, mas não obteve sucesso. De qualquer forma, o princípio de depressão havia sumido. Por ora.

 No dia seguinte, a equipe começou a descer a rota em direção à cidade de Santalune, ao norte. A estrada possuía diversas curvas e descidas íngremes, portanto Kari não esperava chegar ao seu destino ainda naquele dia. No entanto, suas reservas de comida estavam assustadoramente críticas, e a pressa era fundamental. Assim, eles seguiram com passo apertado, movidos pelo desejo de comida de verdade.

 O sol já estava se pondo no oeste, e o cansaço era plenamente visível neles. Kari tentava liderá-los, mas as pernas já não conseguiam caminhar sem ameaçar desabar.  Estava vestindo uma das duas únicas roupas que Shauna havia lhe dado, uma camisa preta e sem mangas, que se colava em seu corpo magro, e uma saia vermelha, presa perto do umbigo e que descia até um palmo acima dos joelhos. Não era exatamente uma vestimenta que agradasse à garota, mas não havia muita escolha. As outras roupas haviam se rasgado na floresta.

 Estava tão cansada que nem viu a patinadora chegar.

 - Cuidado! - Gritou Paola, mas já era tarde. Uma outra garota veio descendo pelo declive acima, e estava rápida o suficiente para evitar o choque. A Pidgey se jogou para proteger a treinadora, empurrando-a para o lado e a desequilibrando. Kari, exausta, acabou caindo no mato ao lado da encosta, se embrenhando no mato alto. Ela bateu a cabeça com força em uma pedra, e antes de desfalecer sentiu o sangue escorrer pelo ferimento enquanto o corpo rolava. Sem forças, não conseguiu exclamar um som.

 Acabou acordando poucos minutos depois, envolta de grama rasgada e terra revolvida. Se apoiou no cotovelo direito, colocando a mão na cabeça com cuidado, sentindo o sangue ainda úmido na testa. Suas pernas e braços doíam, e o vestido havia rasgado na coxa direita. Mesmo assim a adrenalina a fez levantar, olhando ao redor em busca de sua equipe.

 - Frog? - Gritou, alheia à dor. - Paola? Peter? - Ela girou em torno de si, aguardando uma resposta. O mato era quase de seu tamanho, e a única direção que tinha era o caminho que pelo qual havia caído,

 - Kari? - A voz de Peter conseguiu ser ouvida baixinha, quase que imperceptível. A garota se virou para os lados, tentando identificar de onde vinha. - Kari? - Esquerda. Com certeza. Ela correu, afastando as plantas que teimavam em impedir seu progresso. Conseguiu ver o familiar tom azul de Frog ao longe, e começou a correr mais rápido.

 Quando chegou à clareira, não percebeu que havia parado, nem que havia caído de joelhos. Pois à sua frente, envolta por um círculo composto do resto da equipe, havia o corpo de Paola. A Pidgey estava ligeiramente queimada, mas seus olhos estavam abertos, fitando o vazio.

 - O... o... - Kari não conseguiu completar a frase. Naquele momento uma outra cena brotou em sua mente, onde um Bellsprout jazia morto no chão. Ela levou as mãos à cabeça, e a cena mudou, indo para uma fuga corrida de uma caverna, e ela estava gritando. Gritou também no mundo real, e novamente a cena se alterou, e estava segurando uma Jolteon falecida em seus braços.

 De repente não havia mais nada em sua cabeça, mas ela não se levantou. Agarrou com força a grama, arrancando-a com truculência. Pois, mesmo prometendo que levaria todos de forma sã e salva até Santalune, ela havia mentido. Mesmo sabendo que Paola tinha um motivo para seguir em frente, nunca saberia. Mesmo com todos aparentemente confiando nela, havia cometido um erro.

 E seu erro havia custado uma vida.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Aurora: Capítulo 4 - Quatro Luas

AURORA
CAPÍTULO 4: QUATRO LUAS

 O beco era um lugar sujo e apertado. Paredes de tijolos negros se encontravam inconfortavelmente próximas uma da outra, presas a um chão ladrilhado e levemente irregular. Os prédios altos em volta impediam que a luz do sol chegasse com toda sua força, tornando a água fétida no piso terrivelmente gelada. Um pé pisou com força na poça, respingando as gotas fedidas por todas as direções. Dalan sequer se importou, correndo para não perder seu alvo de vista. Dobrou a esquina, apressado, mas acabou por perder o rastro do animal que perseguia. 

 Ofegante, ele se sentou na calçada para recuperar o fôlego, soltando os braços por cima dos joelhos. O centro da cidade de Helleon possuía os mesmos prédios altos altos da vizinhança onde ficava a sede da Aurora, mas esses eram pelo menos cheios de vida. Vida em sua maioria pobre e em grande quantidade. Todas as construções por perto eram feitas de tijolos, e as ruas eram ladrilhadas com pedras negras, constantemente pisoteadas por animais de carga e comerciantes barulhentos. Mesmo assim, a zona central de Helleon era onde a cidade pulsava, muito diferente do sudoeste, a área abandonada onde ficava a Aurora, e do norte, onde os poucos ricos e membros do governo moravam. O mar banhava aquela parte com grande força, e o comércio portuário mantinha a cidade em pé.

 Toda essa agitação acabava por atrapalhar a missão de Dalan. Havia aceitado a tarefa sob o pretexto de que iria procurar algo muito importante que uma mulher, chamada apenas de Senhora Cattuveis, havia perdido. Quando chegou em sua casa, ela revelou o que era: um gato malhado. Dalan havia gastado metade do dia procurando o felino, e finalmente o achou alguns minutos antes. Agora, no entanto, o havia perdido de vista. E o sol começava a se pôr no oeste.

 Deveria ter descansado, censurou o garoto a si mesmo. Havia passado dias na estrada antes de chegar em Helleon, e ainda lutara com Sasha de manhã. Parecia que esses acontecimentos estavam semanas longe um do outro, mas seu corpo sabia a verdade. Suas pernas estavam doloridas e o estômago ainda doía dos golpes da garota, principalmente depois de correr. Talvez seja melhor descansar antes de continuar, concluiu ele.

 Antes mesmo de fazer menção de se levantar, Dalan sentiu um corpo peludo e quente em sua bochecha direita. Se virou apressado e viu o gato malhado o encarando de forma mau-humorada, agarrado pela pele atrás do pescoço. Ele levantou a cabeça e percebeu que havia uma garota atrás dele. Reconheceu-a pela boina que usava como uma dos membros da Aurora.

 - Oh. - Disse ela, recuando um pouco pelo contato visual. Dalan se apoiou no joelho esquerdo e se levantou, tendo a oportunidade de analisar a pessoa agora à sua frente. A garota era baixa, com um metro e sessenta e poucos, uma cabeça de altura a menos do que Dalan. Era magra e bastante pálida, e aparentava possuir dezoito anos. Estava calçando uma bota de cor rubra e vestia uma calça negra e colada por baixo de uma saia vermelha presa por um cinto escuro. Também usava uma camisa branca e uma jaqueta vermelha, aberta no meio. Suas roupas pareciam torná-la menor do que realmente era. No entanto, o que mais chamava atenção era seu rosto. Tinha olhos grandes e verdes, juntos com um nariz pequeno e arrebitado. Seus lábios eram finos e com uma bela cor rosa natural. Seu cabelo era liso e loiro-sujo, assim como as sobrancelhas caprichadas, e desciam próximos do rosto até chegar ao queixo. Sua boina completava a visão, vermelha como a camisa. A garota pareceu assustada, desviando os olhos para o lado enquanto ajeitava uma mecha do cabelo para trás da orelha com a mão livre. - E-eu... você é o garoto novo, não é? - Perguntou ela com a voz suave.

 - Eu... sou! - Disse Dalan, recobrando a consciência, perdida com o rosto angelical da pessoa à sua frente. Ele pensou um pouco e estendeu a mão. - Meu nome é Dalan. Dalan Glacius.

 - Ah... Sophie Helder. - Ela segurou brevemente a mão do garoto e agarrou o gato com as duas mãos, segurando-o à frente de seu peito. - Você pegou a missão da senhora Cattuveis, não foi? - Ela levantou minimamente o gato até a altura do rosto, e apenas seus olhos eram visíveis através do felino.

 - Foi... era para pegar esse bichano. - Respondeu ele, apontando para o bicho. Quem diz "bichano" hoje em dia, se censurou Dalan imediatamente, franzindo levemente o rosto. Sophie esticou o animal até ele, que tentou segurá-lo. O gato se agitou e quase se soltou, mas o garoto o agarrou com os braços para impedir sua fuga. Sophie também agiu por reflexo, e acabou segurando o braço do rapaz. Ela rapidamente recolheu as mãos, ficando vermelha.

 - Eu... eu vi ele correndo pela rua, e imaginei que alguém da guilda estava procurando por ele. - Começou Sophie, desviando o olhar e ajeitando o cabelo. - Não é a primeira vez que a senhora Cattuveis pede por uma missão assim. Imaginei que... imaginei que você fosse precisar de ajuda... digo, não que eu não achasse que você precisar! - Acrescentou ela rapidamente, agitando as palmas para Dalan enquanto arregalava os olhos e ficava ainda mais vermelha. - É só que eu sou... sou boa com animais!

 - Na verdade eu provavelmente não conseguiria. - Admitiu o rapaz, cansado. - Tive uma semana longa, e esse gato corre muito rápido. - Ele inclinou minimamente a cabeça, franzindo o lado direito do rosto. Em suas mãos, o gato tentou uma nova fuga.

 - Ah. - A garota o encarou com seus grandes olhos. - Nós... nós estávamos indo jantar no bar Quatro Luas. Tivemos um dia difícil... - Ela voltou a encarar o chão, e Dalan se lembrou do homem que havia saído da guilda mais cedo. - .. mas... se quiser vir com a gente... - A voz de Sophie se tornou mais aguda conforme o fim da frase ia chegando, e o garoto notou que ela fez um meio círculo com a perna direita por trás da esquerda, apoiando-a com a ponta do pé.

 - Eu... eu posso. - Disse o rapaz, surpreso pelo convite. - Acho que eu vi esse bar quando passei pelo cais. É um pé-sujo no litoral, não é? - Parte dele esperou estar errado, considerando o estado deplorável do estabelecimento, mas Sophie concordou com a cabeça.

 - Então... estou indo para lá, tudo bem? - Ela girou o corpo, fazendo menção de ir. - Eu... digo, a gente vai estar te esperando lá. - Com isso ela saiu, andando apressadamente pela rua. Dalan esperou um pouco para ver se ela se virava, mas isso não aconteceu. Suspirou pesadamente e foi para o outro lado, em direção da casa de Cattuveis.

 - Não iria conseguir pegar o gato, não é? - Disse ele para si mesmo com a voz forçadamente aguda. - Que tal da próxima vez falar que não consegue dormir sem uma luz acesa? Isso iria impressionar as pessoas tão bem quanto. - Impediu o gato de fugir novamente e continuou seu caminho.

 Acabou chegando no bar meia-hora depois, com a comprovação de conclusão da missão no bolso e uma série de arranhões fundos nos braços. Era realmente um estabelecimento sujo e apertado, com diversas garrafas vazias decorando as paredes. Todos os móveis eram de madeira, e havia um odor impregnado de peixe e álcool em cada um deles. O bar estava razoavelmente cheio, e Dalan ficou procurando os membros da guilda. Eis que uma mão se levantou no meio das pessoas.

 - Aqui! - A voz não era conhecida, mas o rosto sim. Era uma das pessoas no saguão da Aurora, o rapaz com trança longa e comprida que descia por detrás de sua cabeça. Ele estava acompanhado em uma mesa redonda por Sophie e sua irmã gêmea, e as duas encaravam Dalan com sorrisos. Satisfeito, embora um pouco nervoso, o garoto desviou de pessoas e objetos para sentar na mesa. - Finalmente uma desculpa para sairmos desse assunto mórbido. - Completou o rapaz das tranças quando o outro se sentou. Ele estava vestindo uma simples camisa preta, que marcava seu corpo forte, porém magro. Seu rosto possuía um nariz um tanto quanto adunco, porém reto. Sua boca era grande e a pele era bronzeada, e para completar seus olhos eram grandes e negros. O cabelo, também da cor do ébano, era penteado para trás e enrolado para formar a já descrita trança, que descia longa por suas costas. Ele encarou Dalan com um sorriso alegre do outro lado da mesa.

 - Você acha tão fácil simplesmente ignorar o que aconteceu? - Perguntou a gêmea de Sophie, à sua esquerda na mesa. Ela não vestia boina, e usava uma camisa grossa da cor amarela, completa com pequenos botões brancos. De longe, parecia que a vestimenta era a única coisa que a diferenciava da irmã, mas um olhar mais atento revelasse a maior diferença entre as duas, a expressão. Enquanto Sophie tinha um olhar tímido e contido, sua gêmea mantinha uma expressão aberta, com um toque de severidade embora não fosse necessariamente ameaçadora.

 - Koga Sabin, ao seu dispor! - Disse o garoto das tranças, ignorando a outra garota. Ele se esticou por cima da mesa e estendeu a mão para Dalan, esticando as sobrancelhas enquanto aguardava com um sorriso.

 - Ah... - Se surpreendeu Dalan, olhando momentaneamente para a irmã de Sophie, que agora fuzilava Koga com os olhos enquanto ficava vermelha. O garoto notou um pouco de maquiagem borrada ao redor de seus olhos. - Dalan Glacius.

 - Dalan tem um ar... anão. - Disse Koga, virando o lado direito do rosto para o outro garoto com um sorriso e um franzir da sobrancelha. - E eu tenho certeza de que Glacius é élfico. De onde você veio, Dalan?

 - Você é impressionante. - Censurou a outra garota com um sussurro audível enquanto balançava minimamente a cabeça. - Qual é a sua incapacidade de demonstrar alguma emoção pela saída de Samuel? - Perguntou com um tom um pouco mais alto do que antes.

 - Estou tentando dar as boas-vindas ao novato, Julie. - Disparou Koga, e sua voz sibilou enquanto ele encarava de forma séria a garota, mesmo com as sobrancelhas esticadas. - Que tal nós simplesmente deixarmos isso de um lado, apenas por alguns instantes, só para oferecer um pouco do velho acolhimento da Aurora? - Não houve resposta, apenas um olhar gélido e demorado por parte de uma cada vez mais vermelha Julie, mas o garoto não esperou resposta. Se virou para Dalan, voltando a mostrar uma expressão alegre. - Então, Dalan. De onde você veio?

 - Ah... - Dessa vez ele olhou de relance para Sophie, como se esperasse uma confirmação dela. A garota estava com o rosto virado para ele, mas os olhos pousados em sua irmã. De uma forma ou de outra o silêncio já parecia atingir níveis muito longos. - Sou de Gamora, uma ilha no mar de Cellintrum. Não sei a ascendência exata do meu nome, mas...

 - Gamora? - Disse Koga, se inclinando para trás até apoiar as costas na cadeira, cruzando os braços por detrás da cabeça. - Já ouvi falar, mas nunca cheguei nem perto. É verdade que é um recanto de bestas?

 - Um pouco. - Admitiu Dalan. - Elas normalmente ficam mais pro interior da ilha. Como eu morava no litoral, não cheguei a encontrar muitos deles. - Novamente, a lembrança de sua casa o fez ficar quieto, e Julie pareceu ter notado.

 - Eu... soube o que aconteceu. - Ela o encarou, e estava claro que estavam pensando no mesmo assunto. - Sinto muito. - Disse, esticando a mão para segurar a dele. Dalan sorriu constrangido, tentando parecer melhor do que se sentia.

 - Tudo bem. - Ele pensou em retirar a mão, mas o toque era extremamente agradável. - Foi por isso que entrei na guilda. Preciso saber o que aconteceu com minha casa.

 - Temos um problema mais ou menos parecido. - Disse a garota, recolhendo sua mão até o queixo, passando a encarar a irmã. - Queremos saber o que aconteceu com nosso pai. Ele desapareceu quando tínhamos sete anos, e desde então... - Ela ficou quieta por alguns segundos, encarando a mesa como se as respostas da vida estivessem talhadas na madeira. - ... desde então nós o procuramos.

 - Ah. - Disse Dalan. A atmosfera da mesa rapidamente esfriou, com as gêmeas parecendo melancólicas e Koga, incomodado. Parabéns, disse o garoto sarcasticamente a si mesmo. - Sinto muito.

- Não precisa se preocupar. - Respondeu Julie, tentando trazer a animação de volta à sua fisionomia. - Todos na guilda estão lá por algum motivo, não? É só seguir em frente então. - Koga se movimentou, e quando Dalan o encarou novamente ele já estava com um sorriso no rosto.

 - Cacete, gente. Qual a dificuldade de manter a depressão para longe hoje, hein? - Ele se reclinou na cadeira, virando o rosto para o bar. - Ei, Harold! Vê pra gente uns quatro Lunares Extravagantes, por favor! Caprichados!

 - Dois, Harold! - Gritou Julie, sorrindo com para Koga. - Você sabe muito bem que eu e Sophie não bebemos essa droga, seu animal.

 - O.K, mas o novato bebe, não é? - Ele se virou para Dalan, levantando uma sobrancelha enquanto soltava um sorriso provocativo. - Quer dizer, se quiser seguir o exemplo das garotas, sinta-se à vontade.

 - Tudo bem. - Disse Dalan, olhando de relance para Sophie. - Não pode ser mais forte do que as misturebas que fazem nos portos ao norte de Cellintrum.

 - Na verdade são. - Disse Sophie, sorrindo timidamente enquanto falava baixinho. - O Dom, lá da guilda, já rodou por todo o mar e disse que o Lunar Extravagante é a coisa mais forte que ele já bebeu.

 - Lembrando que Dom é um beberrão e que o bar é cheio justamente por causa dessa bebida em particular. - Acrescentou Julie, cruzando os braços enquanto sorria. - Não são sinais animadores, Dalan.

 - Tudo bem, não há problema. - Agora não havia como voltar. - Além do mais, eu sou forte com a bebida. - Mentira.

 - Então não tem o que temer. - Disse Koga. - Só vou avisando: não venha me processar depois. Está avisado de que essa bebida é bem pesada. - Ele colocou as palmas na frente do peito, como se estivesse se protegendo.

 - Agora é você que parece querer desistir. - Zombou Dalan, se inclinando na mesa. - Sophie e Julie olharam para os rapazes com sorrisos no canto das bocas.

 - Novato, considere isso seu trote. - Um homem barbudo chegou na mesa, depositando dois copos na madeira. Dentro deles havia uma substância azul com brilhos brancos, densa o suficiente para não ser transparente. - Só estou com medo de você não achar o caminho de casa pra Aurora.

 - Veremos. - Dalan pegou o copo e brindou com Koga, bebendo-o em seguida.

 Na cena seguinte, ele se viu em cima de uma substância irregular, cheia de pequenas pedrinhas que pinicavam seu corpo. Havia uma dor de cabeça que parecia furar seu crânio, e qualquer movimento parecia amplificá-la. Dalan levou a mão aos olhos, pressionando-os fracamente com os dedos.

 - Você acordou! - Disse uma voz baixa, e ele abriu os olhos com dificuldades. Demorou um pouco para focalizar o céu estrelado acima de si, e muito mais para notar o rosto sorridente de Sophie contra às luzes.

 - O... o que houve? - Perguntou ele com a voz grogue, tentando se levantar de forma lenta. A garota o ajudou a se sentar, e Dalan notou que estava em cima de areia. Uma olhada ao redor o fez perceber que estava em uma praia, e havia um baú ao seu lado.

 - Bem, você bebeu. - Disse Sophie, sorrindo com a cabeça inclinada. - Depois do primeiro copo veio o outro, e no quarto Koga e você decidiram caçar tesouros. Acho que tinha alguma coisa a ver com piratas. Cada um foi correndo pra fora do bar, e eu te encontrei aqui depois de algumas horas.

 - De onde veio o baú? - Perguntou ele, mas Sophie apenas deu de ombros. Ela continuava a sorrir abobalhada. - O que é tão engraçado?

 - Ah, nada! - Ela começou a corar, desviando o olhar. O sorriso, no entanto, se mantinha em pé. - Só que... bem, foi bastante engraçado. Geralmente Koga fica bêbado sozinho, e isso geralmente termina com ele chapado na mesa. Acho que uma pessoa a mais torna tudo mais divertido.

 - Imagino. - A dor de cabeça já começava a diminuir, mas Dalan continuava se sentindo fraco. - Onde ele está?

 - Não sei. Julie foi atrás dele, e eu fui te procurar. - Ela esticou a mão, ajudando-o a se levantar. Logo depois Sophie ficou vermelha, falando rapidamente. - Quero dizer, normalmente é Julie quem sabe por onde Koga se esconde, e achamos melhor garantir que você voltasse pra guilda, e...

 - Tudo bem. - Tranquilizou Dalan, cansado. - Foi a melhor coisa a se fazer. Agora, se não se importa, vamos pra guilda. - Eles começaram a andar pela areia, indo em direção à cidade. Quando voltaram a pisar nas pedras negras, Sophie parou, quebrando o silêncio.

 - Dalan, é verdade que você já foi um pirata? - Perguntou ela. Dalan se virou, percebendo o olhar de admiração dela, com as pálpebras esticadas. Por um momento o garoto pensou em conservar a mentira, mas a voz da consciência o fez repensar a ação.

 - Sophie, uma dica para o futuro: - Ele mostrou o indicador, como se a ação validasse suas palavras. - Nunca acredite em nada do que eu digo bêbado.

 - Ah. - Os dois recomeçaram a andar, duas figuras solitárias na rua vazia. O sol começava a subir, iluminando o caminho. Dalan quase tropeçou, sendo salvo pelo braço de Sophie, que o agarrou pelo pescoço.

 - Obri... - Ele a encarou, e percebeu seu rosto incrivelmente vermelho. No momento seguinte ela acabou o soltando, e o garoto caiu com a cara nas pedras.

 - Me desculpa, me desculpa, me desculpa! -  Repetiu Sophie, mas a consciência de Dalan voltou a se esvair. Não esperava que seu primeiro dia na Aurora fosse acabar assim, caído na sarjeta da cidade. Seu orgulho tentou buscar forças do além, bombeando energia para o corpo. No entanto, o cansaço finalmente o tomou, e ele desmaiou. Sophie, ao seu lado, continuava disparando desculpas. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

RN Nuzlocke Y - Capítulo 4: A Floresta de Santalune

RECINTO NERD NUZLOCKE - Y -
CAPÍTULO 4: A FLORESTA DE SANTALUNE

 A vegetação, de um verde vivo, crescia quase que selvagem, pressionando a estrada de terra de forma violenta, chegando até mesmo a invadi-la em determinados pontos. Um córrego corria à esquerda, separado por alguns metros de despenhadeiro da estrada. A região era normalmente tranquila, mas aquele não era um dia normal.

 - ESTOU DIZENDO QUE É PARA TREINARMOS AQUI ANTES DE AVANÇAR PARA A FLORESTA! - Gritou Kari, vermelha. A discussão já se prolongava por longos minutos, mas nem ela nem Frog pareciam estar cientes do tempo.

 - VOCÊ QUER FICAR AQUI PARA SEMPRE? ESTOU DIZENDO, JÁ DEVERÍAMOS TER SEGUIDO ONTEM! - Gritou de volta o Froakie.

 - Eeergh... - Começou Paola, a Pidgey. Ela havia sido capturada no dia anterior, e toda aquela explosão dos outros dois a deixava desconcertada. - Eu acho que -- Naquele momento, Frog e Kari a encararam com um olhar fulminante, e a pequena Pidgey se calou.

 -  Escute. - Começou Kari, tentando se acalmar. - Uma jornada dessas não é um simples passeio no parque. Precisamos nos preparar de forma adequada antes de arriscarmos nossas vidas.

 - E eu estou dizendo que há um limite para isso. - Respondeu Frog com a voz incisiva. - De quê adianta ficar treinando com peixes pequenos por tanto tempo? Nossos adversários precisam ser melhores para que possamos ser mais fortes ainda.

 - Gente... - Recomeçou Paola.

 - O QUE É? - Perguntaram Kari e o Froakie ao mesmo tempo, se virando para a Pidgey. Paola sustentou a encarada, mesmo engolindo em seco, e apontou a asa para trás deles.

 Os dois se viraram, bem a tempo de ver Calem e Shauna se aproximarem, conversando entre si. Shauna segurava uma Pokébola com as duas mãos, e parecia bastante feliz com o objeto. Kari imediatamente se arrumou, alisando com as mãos as roupas amarrotadas pelos dias na floresta. Percebeu que havia um pequeno galho em seus cabelos, e o arrancou com tanta violência que sentiu alguns fios indo junto.

 - Oh, vocês por aqui. - Disse Calem depois que levantou a cabeça. - Qual é a chance disso acontecer nessa estrada tão grande?

 - Kari! - Exclamou Shauna, se agitando. - Olha para isso, eu capturei um Pokémon! - Ela lançou a Pokébola ao chão, revelando um Skitty. - Ele deve ter se perdido, porque o hábitat dele é a Rota 4. Acho que foi meu dia de sorte! - Calem encarou Kari, e encolheu os ombros com suavidade.

  - Puxa! - Conseguiu dizer Kari, forçando um sorriso. A questão era que Skittys eram extremamente fracos, assim como sua evolução, Delcatty. Mesmo assim, Shauna parecia bastante satisfeita com sua captura. - Que bom, Shauna!

 A outra garota sorriu, mas parou ao ver Paola ao lado de Kari, adotando em vez disso uma expressão exasperada. - Você também conseguiu um, Kari?

 - É... - Na mente da treinadora, capturar Pokémon era um ato tão natural quanto respirar, mesmo com a amnésia bloqueando a origem do ensinamento. Era como se estivesse impregnado em seu ser. Shauna parecia não ter isso, ou era facilmente impressionável. Kari concluiu que era um pouco dos dois. - Fiquei acampando na Rota por algum tempo. Capturei-a ontem.

 - Uau... - A admiração dela já começava a assustar Kari, assim como Paola, que foi para trás da perna da treinadora. Frog ficou apenas a encarando com uma expressão séria no rosto.

 - Que tal entrarmos na floresta de Santalune? - Disse Calem, se colocando entre as duas. - Já estamos meio atrasados. Acho que Trevor e Tierno já estão muito na nossa frente.

 - O.K. - Concordou Kari, ao ponto que Frog a olhou exasperação.

 - Você só pode estar de saca -- Kari nesse momento lhe ofereceu um discreto chute, e começou a andar pela rota com os outros, enquanto as árvores ao redor ficavam mais densas. Paola voou para seu ombro, enquanto o Froakie os seguia mais atrás, resmungando.

 - Eu... vou tentar me esforçar. - Disse Paola no ouvido da treinadora. - Sei que você... adiou essa passagem porque eu não estava pronta.

 - Não precisa se preocupar com isso. - Disse Kari, girando a cabeça. - Realmente queria deixar vocês dois mais fortes antes de seguirmos... mas ficaremos muito para trás. Frog está certo.

 - Eu ouvi isso mesmo? - Gritou o Froakie atrás deles. A treinadora fechou os olhos e suspirou, tentando acertar um coice no Pokémon, sem sucesso.

 - Então, qual era o motivo de vocês terem demorado? - Perguntou ela para Calem e Shauna, se aproximando um pouco mais dos dois.

 - Acredite se quiser, mas alguém se perdeu em Aquacorde. - Disse Calem, sorrindo. - Procurei por essa pessoa por dois dias até achá-la choramingando perto da fonte.

 - Ei, não foi engraçado! - Reclamou Shauna enquanto o garoto mantinha o sorriso. - Eu só fui pra Aquacorde duas vezes. Como esperava que eu achasse o caminho certo?

 - Shauna, a cidade tem uma praça e duas ruas. Não é exatamente necessário um diploma em geografia para se localizar. - A garota amarrou a cara, e Kari soltou um sorriso também. Andaram até uma clareira, onde alguns Pokémon selvagens se encontravam. Um pássaro vermelho voou bem perto da cabeça deles, e se embrenhou na floresta.

 - Aquilo era um... - Começou Shauna, mas Calem a interrompeu.

 - Um Fletchling! Esperem aqui enquanto o capturo! - Ele saiu correndo, retirando a Pokébola do cinto. Kari olhou para o lado, e reparou que havia um pequeno Pansage a encarando.

 - Falando em capturas... - Ela lançou Paola para atacar. A Pidgey voou, e se chocou contra o adversário. Ele caiu, mas Paola conseguiu manter o vôo, subindo enquanto Kari lançava a Pokébola. Três segundos depois, havia um novo membro em seu time. Ela guardou a Pokébola, sorridente, e quando se virou encontrou Shauna boquiaberta.

 - U-uau... isso foi... tão rápido. - A admiração fez Kari corar, e ela desviou o olhar.

 - Ah... talvez. Um pouco. Foi fácil. - Ela acariciou a própria nuca, sem jeito. Shauna engoliu em seco, ainda mantendo a expressão de assombro.

 - Kari, você... você é incrível! Consegue ser mais incrível do que Calem, e ele era o melhor treinador de Vaniville! - Ela se aproximou, e Kari deu um passo hesitante para trás. - Caraca, eu mal te conheço, mas... eu acho que você conseguiria fazer qualquer coisa! De verdade!

 Isso estava definitivamente passando dos limites que consigo aceitar, pensou a treinadora, corando fortemente. Felizmente Calem saiu da floresta um pouco depois, rompendo o silêncio enquanto ajeitava o casaco cheio de gravetos.

 - Senhoritas, desconfio que tenho um novo Pokémon para batalhar. - Ele levantou a cabeça, e encontrou Shauna ainda encarando Kari. - O que aconteceu?

 - Nada, nada! - Respondeu a garota, se afastando e dando um último olhar de admiração a Kari. - Acho que você tem uma verdadeira adversária, Calem!

 - O que você quer dizer com isso? - Pela primeira vez desde que o conheceu, Kari viu desconcertamento na expressão de Calem. Naquele momento, no entanto, um som veio de mais à frente, revelando Trevor e Tierno.

 - Eeeei! Olha quem encontramos aqui! - Gritou Tierno. Shauna correu para eles, e Calem deu uma longa olhada para Kari, que encolheu. Os outros dois garotos novamente quebraram a tensão, se aproximando do restante do grupo.

 - Quais eram as probabilidades? - Perguntou Trevor, sorrindo. Calem desfez sua expressão e adotou um sorriso tranquilo, passando a conversar com o garoto ruivo. No entanto, de tempos em tempos desferia um olhar atento a Kari, como se a garota fosse fazer algo diferente. Desconcertada, ela se pôs a conversar distraidamente com Tierno, embora ainda encarasse o outro garoto. O que era aquilo, perguntou a si mesma. Era como se outra pessoa estivesse na pele de Calem, pensou.

 Ainda absorta em seus pensamentos, ela notou vagamente que Shauna estava os apressando, apontando para o restante da floresta. Se puseram a andar, e Calem parou de prestar atenção em Kari, o que não foi um ato recíproco. Desde que havia saído do Caminho de Vaniville, era a primeira vez que a treinadora havia encontrado tamanha hostilidade em um olhar, e sobretudo de quem menos esperava.

 Ajeitou a bolsa no ombro, quase derrubando Paola de sua posição.