domingo, 23 de novembro de 2014

Aurora: Capítulo 41 - Custe O Que Custar

 Marcus desacelerou assim que chegou ao primeiro andar, deixando seus companheiros dispararem pelo carpete vermelho. Ele parou ao lado de um dos castiçais, o fogo vermelho brilhando em seu traje negro, aguardando em silêncio até que Sasha surgiu da escadaria. Agarrou seu braço e a puxou para o lado, deixando que Sophie os ultrapasse com curiosidade.

 - O que foi? - Perguntou Sasha, iluminada pelas chamas, tentando se livrar do aperto.

 - Eu tenho algo a te contar. - Confessou Marcus, o rosto impassível. A garota tentou dar mais um puxão, os dentes mordendo o lábio inferior.

 - Você pode me contar isso depois. - Sua voz soou um pouco desesperada, e ela virou a cabeça para a porta, como se estivesse esperando que alguém viesse os interromper. - Vamos ter tempo para isso.

 - Talvez, mas escute. - O rapaz finalmente conseguiu a atenção da outra, que o encarou com os olhos arregalados. Ela deixou o braço cair, mas Marcus continuou o segurando pelo pulso. Reservaram um momento em silêncio enquanto que ele respirava fundo, ainda sem expressão. - Eu...

AURORA
CAPÍTULO 41: CUSTE O QUE CUSTAR

 Marcus corria pelas ruelas de pedra, um labirinto delimitado por casebres que se estendia além de onde sua vista alcançava. Era uma figura de ébano correndo nas pedras da mesma cor, vestido apenas com seu uniforme de prisioneiro, uma calça folgada e uma camisa manchada. As ruas possuíam curvas aleatórias e as casas tinham tamanho variado, aumentando a sensação de confusão. No entanto, tinha que correr até onde Zaulin havia caído. Virou bruscamente à direita e adentrou um beco tão escuro que era difícil separar as paredes cinzas do chão negro. Um raio cruzou as nuvens, iluminando o caminho à frente. Eles começavam a se tornar cada vez mais frequentes, e com eles vinha os sons de trovões e das lutas que já haviam começado.

 O rapaz sentia um fiapo de nervosismo crescendo a cada esquina. E se seu adversário tivesse se encontrado com alguns de seus companheiros? Não eram apenas os membros da Aurora que estavam procurando o Culto Púrpura, o oposto poderia acontecer também. Ainda estava pensando nisso quando sentiu um formigamento do lado direito do corpo, uma sensação particular de que algo grande se aproximava.

 Saltou para trás bem a tempo de se esquivar da enorme explosão que arrombou a parede daquele beco. Destroços catapultaram em várias direções e uma cortina de poeira voltou a encher sua visão, mas conseguia enxergar um vulto à frente, levitando de braços cruzados. Havia encontrado Zaulin.

 Deu um passo para trás e ajeitou sua posição, aguardando um ataque. O mascarado ficou imóvel, deixando que a poeira se esvaísse. Ao seu lado uma casa começava a ruir, o som se misturando com o de um trovão. O chão tremeu por alguns segundos, mas nenhum dos dois fez qualquer movimento, o único olho negro encarando os buracos vazios da máscara serrilhada. Marcus conseguia sentir os pelos do corpo se eriçando, sinal de que não estava enfrentando alguém comum. Era como Amanda havia lhe dito. Estava frente a frente com um verdadeiro demônio.

 - Não desejo matá-lo. - Alertou Zaulin sem descruzar os braços, a capa se esvoaçando com a chegada de um vento úmido e salgado. - Nenhum de nós. Embora vocês não nos tenham mais utilidade, Jones nos pediu que estivessem vivos para ver o que causaram. Embora sugiro que não nos tentem.

 - E o que exatamente nós causamos? - Perguntou Marcus. Algo frio desceu pelo seu estômago. O que havia acontecido enquanto estavam hipnotizados? Do outro lado, o encapuzado soltou um som abafado.

 - Não vejo motivos de lhe contar nosso plano agora. - Retrucou, a voz provocando calafrios. Um raio o iluminou brevemente, as sombras do capuz escondendo o topo de sua máscara. - Apenas saibam que vocês nos ajudaram de uma forma inexplicável. Particularmente um de seus companheiros.

 - O que quer dizer com isso? - Agora o rapaz estava ficando genuinamente nervoso, algo intensificado pela aura do adversário. Um gota de suor caiu perto de seu tapa-olho.

 - Vocês realmente não sabem o que estão se metendo. - Disse, inclinando a cabeça um pouco para trás, o capuz se mexendo.

 - Heh. - Soltou Marcus, uma risada abafada mais para soltar a pressão dentro de si. - É engraçado você dizer isso. Que eu saiba, um demônio reunido com raças da Aliança é quem realmente não sabe o que está fazendo. - Aquilo pareceu perturbar o mascarado. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, os trovões causando barulho em seu lugar.

 - Bem... verifique realmente se eu não sei o que estou fazendo. - Ele balançou o braço direito e a parede ao seu lado explodiu, os destroços arremessados na direção do membro da Aurora. Ele foi pego de surpresa e levantou instintivamente os braços para proteger o rosto. Um pedaço de rocha se chocou contra seu cotovelo, trincando-o audivelmente. Nem teve tempo de se recuperar, pois Zaulin já estava ao seu lado. - Apenas espero que não morra. - Ele soltou o cotovelo no queixo do rapaz, catapultando-o para longe. O rastro de sangue o acompanhou, e antes que uma gota caísse no chão o demônio disparou e o agarrou pelo pescoço, prensando-o contra a parede.

 - Ugh. - Marcus sentiu o sangue esquentar a garganta e começou a engasgar. Cuspiu o líquido desesperado, o olho arregalado pelo medo. Só conseguia enxergar um braço enfaixado de linho negro o segurando pela visão turva, mas conseguia ouvir o demônio falando.

 - Você fala de mim me unindo às raças da Aliança, mas não conhece metade da história. - Começou ele, as órbitas negras da máscara encarando o outro. - Já fui membro de um renomado esquadrão de demônios. Estávamos infiltrados nesse lado da Fronteira a pedido do próprio lorde Zemopheus.

 - É, e o que aconteceu para você virar uma babá? - Conseguiu dizer o garoto, as mãos no braço do adversário.

 - Eu... cometi um erro. - Admitiu após ficar calado por alguns segundos. - Fiz com que fossemos descobertos, e toda a minha equipe foi dizimada pelos seus malditos magos. Me exilaram após isso e fiquei preso aqui. - Ele pareceu perceber que estava soando fraco, e a voz se recuperou. - Mas não importa. Graças à vocês, eu trarei o meu senhor de volta e serei aceito novamente.

 - Pra quê... você quer voltar às pessoas que te exilaram? - Estava ficando cada vez mais difícil para Marcus respirar, que dirá falar. - Eles te deram as costas. Não há motivo para continuar fiel a eles.

 - Você não entenderia. - Respondeu o mascarado sem nenhuma emoção na voz.

 - Mais do que você imagina. - O garoto levantou o braço e o ar atrás de Zaulin começou a se dobrar. Ele não reagiu, mesmo quando a explosão o acertou pelas costas. Marcus arregalou o olho ao ver a total indiferença do adversário ao seu golpe à queima-roupa. Antes que pudesse fazer algo, foi arremessado de encontro ao chão com tanta força que gerou uma cratera nas rochas negras. Cuspiu sangue novamente, sentindo que duas costelas haviam se partido.

 - Acho que você está me subestimando. - Disse o membro do Culto Púrpura, a capa esvoaçando enquanto descia até o piso. - Não deveria fazer isso. Posso muito bem matá-lo se quiser. - Do outro lado, Marcus tremia. Há muitos anos não sentia um medo tão paralisante quanto aquele. Tentou recuperar a compostura respirando fundo, os dedos prensados nas pedras quebradas. Ainda havia uma chance de lutar, concluiu. Sua última cartada. Com pesar, soltou o ar que estava preso.

 Me desculpe, Sasha, pensou.

 - Sabia que esse dia chegaria. - Começou ele, se levantando debilmente. Falava mais para si mesmo do que para o demônio, juntando as energias que possuía para seu último impulso. - O dia em que precisaria protegê-las com a minha vida. Infelizmente para ti, Zaulin... - Ele desamarrou o tapa-olho, abaixando um pouco o queixo. Quando levantou, revelou seu outro olho. Era uma órbita totalmente negra, escura como o céu sem lua. - ... é você quem está no meu caminho.

 Seu adversário ficou em silêncio, tentando entender aquilo. - Você é um Exitud. - Cuspiu finalmente. O rapaz apenas concordou com a cabeça.

 - Eu nasci em um vilarejo chamado Gwlayd, último filho de um clã que dedicava a existência a aprender os mistérios da energia negra. - Os pelos do braço se eriçavam com suas forças retornando. Um raio cruzou os céus. - Infelizmente eu nunca fui um bom aluno. Não conseguia manter a energia controlada, e meus pais nunca foram muito pacientes. Quando tinha onze anos, me marcaram para o exílio com o símbolo dos renegados e perigosos. - Ele levou um dedo ao olho descoberto, ardendo pelo primeiro uso após tantos anos. - Fiquei dois anos vagando, sendo temido e odiado por todos que encontrava. Até que um dia um homem chamado Adam Alba me encontrou.

 - Ele me tratou, alimentou e me levou até uma guilda chamada Aurora. - Continuou o garoto. - Eu perguntei o que queria após esse inesperado cuidado. O homem me disse que eu era um companheiro, e a única coisa que queria era que eu protegesse a guilda. - Ele fechou um dos punhos com força. Conseguia sentir uma energia despertar dentro de si, muito mais forte do qualquer outra coisa que tinha produzido sozinho. - Sua mulher me confeccionou um tapa-olho para que escondesse meu exílio e absorvesse parte de meus poderes. Disse que só deveria retirá-lo quando não conseguisse mais defender o que me era importante. - Marcus encarou a máscara de Zaulin, as unhas cortando a palma da mão em punho. - E hoje irei defender minha guilda, meus companheiros e a filha deles. Hoje irei soltar o que está preso há seis anos. - Conseguia sentir a energia negra rodeando seu punho, tão concentrada que era visível no espectro normal. - Custe o que custar.

 Ele estendeu o braço, conjurando um buraco redondo no meio do ar, escuro como a noite e grande como um cavalo. A capa de Zaulin esvoaçou na direção do vazio enquanto que ele tentava se manter onde estava, a poeira e os destroços o envolvendo enquanto disparavam para a esfera. Um som de aspiração preenchia o espaço, tão alto que encobria os trovões. O membro da Aurora usou toda a sua concentração para manter aquele construto, mas quando viu que o demônio estava conseguindo se firmar, fechou o punho. O buraco explodiu, um estouro de ar que destroçou as paredes mais próximas e catapultou os dois adversários para longe.

 - Não ache que apenas isso vai me derrotar! - Gritou Zaulin, voando na direção do rapaz. Marcus, ainda na trajetória de seu arremesso, girou o corpo e conseguiu bloquear o soco do adversário, os dois rolando através das ruas de pedra. O mascarado conseguiu ficar em cima, o cotovelo recuado para desferir mais um golpe. Marcus estendeu a mão para a direita e explodiu a casa mais próxima, o raio da detonação os atingindo também. Foram atirados para a outra calçada, onde se viram soterrados pelos escombros.

 Ferido e sangrando, o garoto se levantou apenas para ver que o demônio já estava o esperando. Foi recebido com dois socos no rosto e quase caiu novamente, cuspindo um dente quebrado. Iria receber o terceiro quando invocou um buraco negro em miniatura atrás do adversário, que parou para se firmar. Marcus cancelou a conjuração e o encapuzado caiu para frente, onde foi recepcionado pelo punho do rapaz em seu estômago.

 O membro da Aurora aproveitou a situação e girou o corpo para acertar uma cotovelada na máscara. No entanto, o adversário viu aquilo e girou o corpo, fazendo com que o antebraço batesse inofensivamente no artefato. O demônio então puxou sua mão para o lado e empurrou o cotovelo para frente, quebrando o braço com facilidade. O garoto gritou e foi chutado para frente, onde caiu entre os destroços.

 - Não irá conseguir! - Gritou Zaulin. Marcus limpou o sangue da boca e se levantou, juntando as forças para sua última cartada. Em algum espaço de sua mente, achou que iria ter medo, mas era algo que já havia aceitado. Levantou o braço e conjurou um novo buraco negro atrás do adversário, tão forte quanto o primeiro. - Eu já disse que... - Estava começando o encapuzado, até que ele viu o que estava acontecendo. O membro da Aurora estava correndo em sua direção, o corpo inclinando para frente.

 - AAAH! - Gritou o rapaz, expulsando qualquer ideia de hesitação de seu corpo. Estava mais rápido do que nunca, atraído pela esfera da morte.

 - Não... - Soltou o demônio, incapaz de aceitar a situação. Precisava de manter sua posição para não ser sugado pelo vácuo, mas aquilo o manteria na trajetória do garoto. Começou a se desesperar, o rosto virando em todas as direções em busca de uma saída.

 Marcus, por sua vez, estava revivendo um momento recente em sua mente, algo que não conseguia evitar em seus derradeiros segundos. - Eu vou enfrentar um demônio. - Dizia em sua memória, parado perto de um castiçal em um quarto escuro, com Sasha à sua frente. - Eu sei que eu escolhi meu adversário, mas as coisas podem sair do controle.

 - Você não sabe disso ainda. - Se enraiveceu Sasha. - Os outros já o derrotaram.

 - A situação é um pouco diferente. - Riu ele, um sorriso de canto de boca. - Vou dar o meu máximo, mas se as coisas parecerem irreversíveis, serei obrigado a retirar meu tapa-olho. - Sasha arregalou os olhos, o rosto imediatamente perdendo a cor.

 - Você não pode. - Conseguiu dizer com a voz fraca antes de explodir. - Você não vai fazer isso! Sabe que vai acabar morto!

 - Acabarei morto se não fizer nada também. - Respondeu o rapaz, sereno. - E me surpreende você dizer isso. Devemos sempre dar o máximo para defender a Aurora, não? Às vezes isso significa um sacrifício maior.

 A garota ficou o encarando com o rosto incrédulo, as lágrimas começando a se formar ao redor dos olhos. - Então pra quê veio falar comigo sobre isso? - Sua voz estava embargada, e ela abaixou o queixo para que Marcus não a visse chorar. - Se já fez sua mente, pra quê me contar? Hein? - Não houve resposta, o que a fez levantar a cabeça em fúria. - HEIN?

 - Eu... - Foi a vez do outro desviar o olhar, corando um pouco. - Aquela mulher me fez ver algumas coisas que eu não sabia sobre mim mesmo. Coisas que... - Ele parou, procurando as palavras. - Coisas que me fazem querer que você saiba. - Completou, voltando a encarar a garota. - Que você saiba o que eu vou fazer.

 Sasha ficou em silêncio, as lágrimas em cascatas e os lábios trêmulos. Ela deu um passo pra frente e abraçou o companheiro, mais de uma cabeça mais alto que ela. Aninhou o rosto em seu peito, os braços o segurando com força. - Por favor, não morra. - Pediu baixinho, a boca tapada pelas roupas do rapaz. - Você não. Eu não sei se conseguiria aguentar.

 - Conseguiria. - Disse o rapaz, passando a mão na nuca da garota. - Você é mais forte do que imagina, Sasha. Mais forte do que todos nós. - Ele abaixou o rosto, seu queixo apoiado no topo da cabeça dela. - Tenho certeza de que seu pai estaria orgulhoso. Assim como estou.

 Os dois ficaram mais alguns segundos parados como estavam, imersos na luz fraca do candelabro. E Marcus não conseguia tirar aquela cena da cabeça, mesmo enquanto o mundo se desintegrava ao seu redor. Pedaços do chão eram arrancados, o som de aspiração zunia como a fúria de um tornado, e Zaulin o encarava sem o que fazer.

 - AAAARGH! - Ele gritou, mais por reflexo do que por razão, mesmo incapaz de ser ouvido naquele pandemônio. Uma manga da sua camisa foi rasgada por uma pedra aleatória, e a marca da Aurora se fez vista. O único lugar que o havia aceitado, e agora ele retribuía tudo que recebera. Custe o que custar.

 Seu ombro acertou o estômago do demônio, arrancando-o do chão. Os dois foram aspirados pelo buraco negro, o membro do Culto Púrpura gritando a plenos pulmões. Já Marcus estava quieto. Estava sendo sugado de costas, e assim conseguiu enxergar o corredor destruído lá fora. E por um momento achou que conseguia ver uma garota ao longe, as maria-chiquinhas azuis esvoaçando como chicotes.

Me desculpa, pensou para Sasha, esperando que aquela mensagem chegasse à garota. De verdade. E assim ele caiu no buraco negro, que sumiu assim que engoliu seus últimos dois alvos. E com sua ausência, veio o silêncio.

 E em algum lugar, uma única lágrima caiu de um olho azul.

domingo, 16 de novembro de 2014

Aurora: Capítulo 40 - Por todos os sonhos


AURORA
CAPÍTULO 40: POR TODOS OS SONHOS

 Koga levantou a cabeça, observando a enorme torre de ébano que se esticava por entre os casebres vazios, um vulto negro destacado no céu nublado. Um raio cruzou as nuvens, iluminando-a em um clarão. Pequenas janelas pontuavam a extensão daquela construção, terminando em uma ponta achatada e murada. E era ali que deveria procurar seus companheiros.

 Olhou para trás, a ruela desolada o encarando de volta. Os sons da luta de Dominic haviam cessado, e um silêncio agoural se estendia como um manto naquela fortaleza flutuante, interrompido às vezes pelas ondas que batiam no perímetro. O rapaz voltou a se virar para a torre, engolindo em seco enquanto segurava com força seu bastão dourado. Sabia que Dom estava vivo, disso tinha certeza. Só que também tinha conhecimento de que não viria ajudá-lo. Julie estava do outro lado, ocupada com seus próprios problemas. Ele estava só. Inspirou fundo, procurando algum tipo de coragem naquele ar úmido e salgado. Que os deuses me ajudem, rezou.

 Passos trêmulos o trouxeram mais perto do grande portão de madeira da torre, cada um se tornando mais forte do que o anterior. Koga abriu a maçaneta, se surpreendendo por estar destrancada. A porta rangeu e ele entrou, preparado para qualquer ataque.

 Se viu em uma sala retangular, montada com as mesmas pedras escuras que formavam o restante da torre. Um tapete vermelho e dourado se estendia até a porta no outro lado, acompanhado por diversos castiçais bruxuleantes. Parecia estranhamente um convite. Deveria ter trazido um presente, pensou o garoto. Se virou para o lado para fazer aquela piada até que se lembrou que estava sozinho. Saco. Arqueou os ombros e continuou, caminhando na direção da porta. Uma escada o aguardava.

 O segundo andar era composto de um corredor de várias portas trancadas, assim como o terceiro. O quarto parecia apenas um depósito velho, enquanto que o quinto e sexto eram vazios e gotejantes. A cada lance de escadas as luzes diminuíam em quantidade, deixando os andares superiores escuros e frios.

 Koga chegou ao sétimo andar praticamente cego, o pé chapinhando em poças rasas. Apoiou a mão na parede para se localizar, e ao fazer isso sentiu barras de ferro. Olhou para a direita, e avistou um vulto com familiares maria-chiquinhas.

 - Sasha. - Sussurrou, procurando uma porta. Novamente se surpreendeu ao vê-la destrancada, mas estava mais preocupado com a companheira. Ela estava usando uma bata cinza e imunda, os olhos fitando o vazio. Se ajoelhou ao seu lado. - Sasha! - Tentou chamar, mas a garota não parecia ouvi-lo. O rapaz começava a se assustar quando uma luz branca e intensa veio do corredor, preenchendo todo o ambiente.

 Koga colocou a mão na frente do rosto, procurando se acostumar àquele brilho forte. Havia uma figura o encarando de fora da cela, uma mulher alta e delicada. Usava um simples vestido branco e rendado, os cabelos loiros e cacheados descendo até a cintura fina. Seus olhos azuis se destacavam no rosto redondo, tirando a atenção do nariz mirrado e a boca fina. Ela sorria, as pálpebras levemente levantadas em uma expressão de alegria serena. O membro da Aurora se levantou, o braço ainda tapando um pouco dos olhos.

 - Quem é você? - Perguntou, segurando o bastão com força.

 - Eu sou a Dama dos Sonhos. - Sua voz era angelical, cada palavra saindo naturalmente cantada de seus lábios. Parecia haver um coro quando falava, quase imperceptível. - Estou cuidando de seus amigos. - Koga olhou para trás dela, reparando nas outras celas. Marcus e Amanda estavam lá, a mesma expressão hipnotizada de Sasha em seus rostos.

 - O que fez com eles? - Perguntou o rapaz, abaixando o braço.

 - Realizei seus sonhos. - Ela sorriu, parecendo extremamente satisfeita consigo mesmo. Suas vestes se agitaram e ela pareceu flutuar até onde Amanda estava, passando a mão carinhosamente em seu rosto. - Essa aqui é tão bonitinha. Tudo o que quer é que seus amigos estejam juntos. - Riu, fechando os olhos. - Já aquele ali... - Apontou com a cabeça para Marcus. - Passou por tanta coisa, coitado. Fico feliz que esteja calmo agora.

 - Eu... não entendi. - Começou Koga, olhando de relance para Sasha abaixo de si. - São ilusões?

 - Pode-se dizer que sim. - Disse a Dama dos Sonhos, passando os dedos pelos cabelos castanhos de Amanda. - Fornecidas pelos próprios corações.

 - Solta eles então. - Ordenou o rapaz, caminhando forte para sair da cela. - Eles não merecem passar por isso. Está apenas enganando eles, e quando acordarem vão te matar. - A mulher ficou calada por alguns segundos, ainda brincando com a garota ao seu lado.

 - Ah, mas é simples para você, não? - Perguntou, se levantando. Os cabelos taparam a visão de seu rosto, inclinado para o lado. - Se preocupar com a diferença entre a realidade e um sonho. Não se importar com as realizações de seus amigos. Não esperava menos de você.

 - Você não me conhece. - Disse ele, nervoso. Queria entrar naquela cela e afastá-la de Amanda, mas temia ferir a amiga.

 - Ah, mas eu conheço. - Continuou a Dama, ainda sem se mover. - Eu e minha irmã nascemos com poderes, sabia? Podemos olhar na mente dos outros, identificar seus maiores medos e desejos. E você, querido Koga Sabin, é um livro aberto. E por isso sei o motivo de não se importar com seus amigos nesse momento. - Ela virou o rosto para ele, contorcido em um sorriso maléfico. - Diferente deles, você não possui um sonho.

 Koga ficou calado, inconscientemente dando um passo para trás. - Eu... não sei do que você está falando. - Grunhiu. Piscou e a mulher apareceu à sua frente.

 - Ah, mas você sabe. - Tentou passar a mão no rosto do membro da Aurora, que recuou. - Mas isso não é um problema. Você apenas não achou seu sonho ainda, é isso. - Ela olhou para baixo, parecendo genuinamente perturbada. - Só que seus amigos acharam, e agora eles estão vivendo o que sempre quiseram viver. Por que quer tanto destruí-los?

 - Eu não quero isso. - Se apressou o rapaz. - Eu quero que eles realizem seus sonhos, só que isso... isso não é certo. É uma mentira. - Ele olhou para Marcus, o único olho desfocado.

 - Mas quem disse que não é verdade? - Questionou a Dama dos Sonhos. - Para eles, é a mais pura realidade. Só parece uma ilusão para você, que está do lado de fora. Se a vida é feita de memórias, porque eles não estariam vivendo uma?

 - Olha, moça... - Koga estava cansado com a viagem até ali, a preocupação com os companheiros e toda aquela discussão. - Eu só sei que isso é errado. Então solte-os, ou eu farei isso sozinho. - Com aquelas palavras, a mulher ficou indecifrável por vários segundos. O rapaz tentou dar um passo para trás, mas naquele momento a Dama investiu contra ele, se tornando uma nuvem branca que o prendeu contra a parede. Um som de ossos se partindo subiu ao ar e Koga gritou, o braço esquerdo quebrado.

 - Se quer tanto ser um maldito egoísta, que seja. - Agora sua adversária estava com o rosto contorcido, a ira desfigurando sua expressão. - Não conseguirá passar por cima de mim. - Ela manteve o rosto em fúria até ver que o garoto estava rindo, um som abafado através dos dentes fechados. - O que foi?

 - Ah, eu achei que ia ter que te vencer com conversa. Não é meu forte. - Sua mão direita se fechou em torno de seu bastão, encoberto pela mesma névoa que o abraçava. - Já a porrada... - Ele girou o braço e acertou a arma no rosto da mulher, que caiu para trás, desfazendo o aperto. Koga caiu de pé desajeitado, mas seus olhos transpiravam vontade.

 - Saia... daqui! - Gritou a Dama dos Sonhos, esticando a mão na direção do garoto. Uma torrente de nuvens brancas o cobriram, forçando para trás, mas ele prendeu o pé e se manteve imóvel, a trança esvoaçante atrás de si. - O que está fazendo? - Perguntou a mulher, aplicando mais força. O medo começou a tomar conta dela, que arregalava os olhos por cima do nariz sangrento. Não era uma lutadora como a irmã. - Você não tem um sonho! Não tem nada que anseia! Está vivo apenas por inércia! O que te faz ficar em pé e lutar?

 Koga demorou um pouco para responder, com o braço na frente do rosto enquanto se preparava para dar um passo. Sorriu. - Sabe, eu tinha o mesmo pensamento que você. - Disse alto, procurando ser ouvido através da tempestade à sua volta. Conseguiu colocar o pé para frente, firmando-o. - Eu via todos aqueles ao meu redor com planos e desejos, e tudo que tinha era um treinamento marcial e um medo de ir pra Fronteira.

 - Só que o tempo passou, e eu fiquei amigo deles. - Mais um passo. A ventania se intensificou, e Koga quase caiu para trás. Suas bochechas tremiam e as roupas o chicoteavam. - E as dificuldades vieram. Pessoas morreram e a Aurora parecia prestes a acabar. Eu e uma grande amiga decidimos nos esforçar para deixar-los tranquilos e felizes. - Conseguiu dar um novo passo, ainda maior que o anterior. - E isso inclui proteger os sonhos deles. E é algo que vou fazer agora.

 - F-fique longe! - A Dama tentou imprimir mais força, mas estava nervosa demais para isso. Tudo o que conseguia enxergar à sua frente era a nuvem branca, e dela veio um raivoso Koga, o bastão seguro pelo braço sadio. Ele desceu a arma na cabeça da mulher, batendo com tanta força que ela desmaiou antes mesmo do sangue espirrar do ferimento.

 As ilusões então se esvaneceram, e o corredor voltou a ficar escuro e silencioso. O membro da Aurora permaneceu onde estava, respirando com dificuldades, até que uma pequena mão pousou em seu quadril.

 - Koga? - Era Wieder, vestido com o uniforme cinza que todos ali usavam. Estava pálido e suado, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo. - O que... - Ele olhou para a Dama dos Sonhos no chão, derrotada, e para o rapaz que ainda segurava sua arma. - O que houve? Eu...

 - Imagino que tenha tido um sonho bom, não? - Perguntou o garoto, um pouco aliviado ao ver que o companheiro estava bem, soltando o ar que inconscientemente havia prendido. Apontou com a cabeça para a mulher aos seus pés. - Ela que fez isso. Tinha dominado vocês.

 - Então... não era verdade? - Ele desviou o olhar, engolindo em seco. Koga olhou por trás do ombro, percebendo os vultos que saíam cambaleantes das celas.

 - Não... desculpa, cara. - O anão fez que sim com a cabeça, perdido em seus próprios pensamentos. O rapaz pensou em dizer mais algumas palavras, mas foi interrompido antes de abrir a boca.

 - O que houve? - Disse a voz de Sasha, se apoiando nas barras metálicas. Ela tinha os olhos arregalados e os cabelos desentrelaçados, mas se segurava com força. - Por que estamos aqui, Koga?

 - Olha, eu não sei. - Disse o membro da Aurora, se virando para ela. - Só sei que vocês foram sequestrados e viemos te salvar. Eu, Dominic e Julie. - Um vulto atrás deles se agitou, mas Sasha não pareceu notar.

 - Certo, certo... - Ela parecia sem ar, olhando para os companheiros. Marcus, Sophie, Dalan e Amanda estavam saindo de suas prisões, todos extremamente abalados ao perceberem o que era real e o que não era. Sasha pigarreou, tentando recuperar a compostura. - Onde estamos? E temos uma rota de fuga?

 - Estamos em uma fortaleza flutuante, mas Dominic tinha um barco. Ainda deve estar flutuando. - O rapaz olhou de relance para Dalan, considerando contar que estavam sobre Gamora. Não parecia o melhor momento.

 - Então vamos. - Ela foi para o corredor, respirando fundo. - Seja quem for que tenha nos capturado, vai ser melhor se escaparmos sem luta. Koga, precisamos achar Dominic e Julie antes de sairmos. Talvez se... - Naquele momento a parede se desintegrou em um estouro, cobrindo-os em uma nuvem de poeira. Sophie gritou e os outros protegeram os rostos com os braços, a adrenalina catapultando em suas veias. Marcus foi o primeiro que conseguiu enxergar o rombo na torre, um buraco na lateral que dava para o lado de fora. E principalmente, o sexteto encapuzado que os encarava, flutuando no ar.

 - Desaad. - Disse Sasha, conseguindo reconhecer o homem no centro.

 - E o restante do Culto Púrpura. - Se adiantou Dalan, abaixando o braço. O mascarado Zaulin, o ente Rohr, a fada Jyll e a elfa Alana. Estavam todos lá.

 - E... tem mais um cara. - Acrescentou Amanda, apontando para o desconhecido. De fato, havia mais uma pessoa com os membros originais do Culto Púrpura, uma figura familiar.

 - Jones... - Sussurrou Sasha. Era James Jones, o ex-líder dos Libertadores, uma milícia de Wildest. Ele havia sido preso após uma missão da Aurora naquela cidade, mas claramente algum revés havia acontecido. Ele parecia maleficamente contente em suas novas vestes roxas e prateadas, o sorriso marcado em seu rosto enrugado. - Conseguiu os capangas que queria, Desaad? - Gritou a garota, dando um passo na direção do rombo na parede negra.

 O homem apenas encolheu os ombro, as mãos espalmadas. - Vocês poderiam estar no lugar dele se tivessem aceitado cooperar. Nos oferecendo a mão de obra que usamos para trazê-los aqui e proteger essa fortaleza. - Ao dizer isso ele franziu o cenho, expandindo o sorriso. - Só que, considerando as circunstâncias atuais, talvez tenha sido melhor que tenhamos traçado caminhos separados.

 - O que quer dizer com isso? - Sasha colocou a mão atrás do corpo enquanto falava, fazendo gestos para que os companheiros se aproximassem. Eles seguiram lentamente, observando o Culto Púrpura em busca de movimentos bruscos. - Pra quê nos sequestrou? O que quer?

 - Bem, vocês foram trazidos para um bem maior. - Começou ele, a capa esvoaçando através do vento forte. Um raio caiu no mar, seu estrondo atingindo a fortaleza flutuante. - Como sabem, nós temos o dever de resgatar nosso mestre da prisão que a Aliança o colocou. De nosso querido mestre, o salvador deste mundo condenado.

 - Mas antes eu poderei humilhá-los. - Era Jones quem falava, os olhos extasiados pela chance que tinha de ter sua vingança. - Ah, como eu fiquei esperando essa ocasião. Semanas na prisão, apenas pensando em como vocês...

 - Escolham um alvo. - Grunhiu Sasha enquanto o homem falava. - Koga está ferido, então são seis contra seis.

 - Eles parecem ter malhado. - Disse Dalan, também entre os dentes. - Que eu me lembre, não podiam voar antes.

 - Isso é trabalho do mascarado. - Se adiantou Marcus, o único olho franzido. - Posso derrubá-lo, e isso deve afastar os outros. Se quiser eu fico com ele, Sasha.

 - Certo. - Concordou a garota, sentindo o coração bater mais forte. - Eu fico com Jones. Temos... coisas a resolver depois de nosso último encontro.

 - E eu com Desaad. - Acrescentou Dalan, a boca seca.

 - ... e talvez eu arranque um de seus olhos, para que possam ver o que farei com suas carcaças, esmagadas pelos meus mais novos poderes... - Continuava Jones, mas ninguém parecia estar escutando. Nem mesmo os membros do Culto Púrpura.

 - Eu luto com o ente. Já fiz isso antes, ele não vai me surpreender. - Disse Wieder, nervoso. Haviam lhe retirado sua pulseira, mas não sentia medo. Havia acabado de ter sido manipulado por seus próprios sonhos, e não estava com vontade de deixar aquilo por barato.

 - Então eu fico com a elfa. Joana, Jelena, alguma coisa assim. - Soltou Amanda, respirando fundo. Alguns olhos se viraram para Sophie, que se assustou.

 - Ah, eu... - Ela olhou para o sexteto de encapuzados, uma gota de suor escorrendo pela têmpora. A fada sorriu para ela, parecendo entender o que estava acontecendo. - E-eu fico com a que sobrou, acho. - Engoliu em seco, os braços encolhidos perto do corpo.

 - Ao meu sinal, então. - Disse Sasha, e naquele momento Jones foi interrompido por Desaad.

 - Decidiram o que querem fazer? - Perguntou o homem, sereno. Os garotos se encolheram, os rostos nervosos. Ele conseguiu ouvir?

 - Sim. - Sasha foi a primeira a se recuperar, as mãos se fechando em punhos apertados. - Vamos acabar com vocês. Já fizemos isso e vamos fazer de novo, agora de uma vez por todas.

 - Vocês são realmente engraçados. - Riu Desaad, acompanhado por seus companheiros. - Só conseguiram nos... retardar por superioridade numérica. O que farão agora que estamos igualados?

 - A mesma coisa. - A garota se virou para Marcus, o sangue já pulsando em sua cabeça. - AGORA!

 O garoto se adiantou e esticou a mão, mirando o mascarado Zaulin. O ar se dobrou e explodiu, lançando o Culto Púrpura para longe. Não caíram muito separados, mas era uma oportunidade que os membros da Aurora não poderiam ignorar. - VÃO, VÃO, VÃO! - Gritou Sasha, os companheiros correndo para o andar inferior. - EU NÃO QUERO MEDO, EU NÃO QUERO HESITAÇÃO! SÓ QUERO QUE VOLTEM VITORIOSOS E UNIDOS! - Ela se virou para Koga, tão perto que poderia contar seus poros. - Aguarde uns segundos e vá. Preciso que junte Julie e Dominic e espere no tal navio.

 - Certo. - Respondeu o rapaz, e a garota correu para as escadas. Sophie apertou seu braço, chamando sua atenção.

 - Cuide da minha irmã, por favor. - Pediu ela, ainda tomada pelo medo e a adrenalina. Encolheu o lábio e seguiu os companheiros, deixando Koga sozinho. Ele olhou para o rombo, os raios se agitando à distância. Seus amigos se atropelavam nos degraus, a agitação tão grande que nem pensavam no perigo que passavam. Só havia a luta, e com ela só poderia haver a vitória. Gritavam para expulsar os medos, gritavam para unir suas forças.

 Começava a última batalha que travavam unidos. Os trovões agora chegavam à fortaleza, segundos após os raios.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Aurora: Capítulo 39 - O coração sempre diz a verdade


AURORA 
CAPÍTULO 39 - O CORAÇÃO SEMPRE DIZ A VERDADE

 Julie abriu a porta e a fechou atrás de si com um estrondo. A escuridão imediatamente a cobriu como um manto, mas ela não se importou. Arfava nervosamente, as duas mãos coladas à madeira às suas costas. Ao longe um trovão se fez ouvir, assustando a garota. Imediatamente seus olhos se encheram de lágrimas, forçadamente contidas para não se derramarem. Siga em frente, pensou ela com o rosto sofrido, tentando não pensar em Dom, seu companheiro. Abaixou um pouco a cabeça, trêmula, e buscou forças para continuar. Sophie ainda estava presa, se lembrou. E não seria salva se continuasse se recriminando. Assim, com muito esforço, Julie se descolou da porta, encarando o saguão à sua frente.

 Graças aos minutos lá dentro, seus olhos já estavam acostumados à escuridão do interior da torre. Conseguiu enxergar um aposento longo e vazio, composto de pedras negras imperceptíveis naquela iluminação e uma escada no fundo. De resto, não parecia haver mais nada. A membra da Aurora limpou as lágrimas com as costas da mão e avançou, sentindo a cada passo seus sentimentos mudarem de receio para o puro medo. Nenhum som se fazia na torre, exceto o abafado pisar na pedra. Lá fora, os trovões pareceram silenciar.

 Conforme subia os degraus, mais imersivas pareciam as trevas. Era difícil se acostumar àquela ausência de luz, mesmo tanto tempo lá dentro. Pensou em usar seus poderes de luz, mas seria um chamariz para quem estivesse lá. Assim, Julie seguiu com a mão encostada na parede, sentindo que a escada fazia uma curva de cento e oitenta graus. Se viu em outro aposento, mais escuro que o anterior.

 Nervosamente, ela se descolou da parede e deu alguns passos para frente. Não era possível enxergar a um palmo à frente do nariz, e haviam tão poucos sons que era como se estivesse surda. Tossiu um pouco, apenas para ter certeza que mantinha a audição. Alguns instantes depois, teve mais uma prova.

 - Julie? - Disse uma voz extremamente familiar. Sophie.

 Julie estancou, conseguindo enxergar um vulto do outro lado. - Sophie? - Sua voz soou fraca, e iluminou o aposento com sua mão. A luz era uma visão tão díspar que teve de fechar os olhos com aquele brilho. Quando voltou a abri-los, não conseguiu enxergar ninguém na escada, mas ouviu passos correndo para cima. - SOPHIE! - Gritou, desatando a correr. Ela havia se libertado? Se sim, pra quê estava fugindo dela? Estava tão concentrada nisso que nem percebeu a nova escadaria, caindo e ferindo as canelas e os braços que usou para se proteger. Ouviu gritos mais acima, e a adrenalina preencheu seu sangue com tanta velocidade que seu coração quase explodiu. - SOPHIE! - Engatinhou e voltou a se levantar, uma mão colada à parede e a outra iluminando o caminho. A escada voltou a fazer um giro, e um novo aposento se abriu.

 A garota desacelerou ao subir o último degrau, o pescoço girando para todos os lados. Haviam janelas naquele andar, tornando seus poderes inúteis. Os desligou para conversar a energia, dando passos nervosos para frente. - Sophie? - Chamou novamente, e também não houve resposta daquela vez. Os gritos da irmã continuavam ecoando em seus ouvidos, acompanhados pelas arfadas que Julie fazia para recuperar a respiração. Aquela sala era mais longa que as anteriores, e parecia haver uma figura deitada no fundo. Algo no peito da membra da Aurora se apertou, e ela desatou a correr.

 Na metade do caminho escorregou em um líquido no chão, caindo dolorosamente. Sentiu o queixo agonizar e o segurou com as duas mãos, tentando ver no que havia derrapado. Seus olhos se arregalaram. Sangue. Por um instante pensou que tinha vindo dela, mas a poça era tão grande que não teria como estar viva. Era de outra pessoa. Virou lentamente a cabeça para atrás, enxergando o vulto caído.

 Se levantou como se fosse um sonho. Seus passos não mais ecoavam, e seu coração parecia ter parado de bater. Identificou a figura de longe, mas se recusou a acreditar. Não era possível. Não era... real.

 Pois era Sophie quem estava deitada junto à parede, um enorme rombo sangrento em seu peito.

 Julie caiu de joelhos, sua mente ainda trabalhando efusivamente em provar que aquilo não era verdade. Procurou uma forma de dizer que aquele rosto, quase idêntico ao seu, era na verdade de outra pessoa. Que aqueles olhos verdes não eram da irmã. E que, por desespero, que aquele ferimento no lugar que pertencia anteriormente ao coração não era fatal. Só que a realidade vencia suas preces. Aquele era Sophie, sua querida irmã Sophie, a doce e inocente Sophie, que jazia morta.

 Era como se o cérebro de Julie tivesse cessado qualquer tipo de pensamento. Sua mão tremia loucamente, se aproximando dos cabelos da gêmea. O sangue havia respingado por todo o seu rosto, ainda paralisado em uma expressão de terror. Tentou afastar os curtos fios loiros da testa, como havia feito tantas vezes quando eram crianças. No entanto, não conseguia controlar os movimentos. Lágrimas começaram a encher seus olhos arregalados, os dentes rangendo com o esforço de não desmoronar. Acabou puxando a irmã para perto, aninhando sua cabeça em seu colo e fechando as pálpebras com força. Não, era a única palavra que se formulava em sua mente. Por favor, não. Convocou seus poderes inconscientemente, como se a luz pudesse de alguma forma curar as feridas.

 E naquele instante o corpo sumiu.

 Iluminada por seu próprio brilho, Julie abriu os olhos. Lágrimas ainda se derramavam por suas bochechas, mas a face já não era mais de dor, agora petrificada em assombro. O que havia acontecido? Olhou para os lados, procurando o corpo de sua irmã. Não estava mais lá.

 - Oh. - Disse uma voz nova, suave e rouca. - Então eu estava certa. - Quando a membro da Aurora virou a cabeça para trás, avistou uma mulher parada no centro do aposento. Trajava um longo vestido negro, tão grande que se amontoava aos seus pés. Sua face era pálida, um total contraste com a cor das roupas. Os olhos eram verdes e o nariz ligeiramente arrebitado, com o cabelo montado em um coque mais parecido com uma colmeia. Os braços esqueléticos estavam cruzados na frente dos seios, um dos dedos tamborilando lentamente a pele. Ela olhava para Julie com uma expressão calma e convencida, a boca fina terminando em um sorriso ligeiro.

 - Quem é você? - Perguntou a garota, se levantando com o apoio de um dos joelhos. Desligou os poderes e passou os dedos para limpar as lágrimas, sentindo uma ira latente começar a queimar. - O que fez com minha irmã? - Grunhiu as últimas palavras.

 - Eu sou a Dama dos Pesadelos. - Anunciou a mulher, cerrando ligeiramente as pálpebras e abrindo o sorriso. - Quanto à sua irmã... ela estava morta, não? Espero que tenha sido convincente.

 - Sua... - Julie explodiu, correndo na direção da outra com o punho cerrado. Estava prestes a dar um soco quando Sophie apareceu no lugar da mulher, o rosto aterrorizado. Julie freou e parou o ataque, e sua irmã girou o braço em sua direção. Sentiu uma lâmina deslizar um pouco acima de seu seio direito e subir até sair de seu corpo, o sangue espirrando para o alto. A garota tropeçou para trás e caiu, segurando o corte. Era bem fundo, os músculos e ossos eviscerados. Olhou para cima e viu a figura de sua irmã se transformar na Dama dos Pesadelos, o rosto sorridente.

 - Mais fácil do que eu esperava. - Declarou suavemente. Julie cerrou os dentes, os olhos ardendo em ira. A mulher percebeu aqueles sentimentos, e o sorriso se expandiu. - Algum problema, querida?

 - Sua... vaca... - Respirar era um ato difícil, truncando as palavras. A garota tentou se levantar, mas voltou a cair de joelhos. A Dama dos Pesadelos olhou para sua adaga manchada de sangue, pensativa.

 - Talvez seja a hora de uma abordagem diferente. - Ela desapareceu, e levou consigo as janelas. O quarto voltou a ser tomado pelas trevas, e Julie rapidamente acendeu sua mão livre. Estava claro que estivera cercada por ilusões. Sua mente trabalhou rápido enquanto olhava para os lados em busca da adversária. Parecia que conseguia anular aquelas alucinações com seus poderes, e isto a acalmou. Não havia como ser enganada agora, concluiu. Foi sua vez de sorrir, um sorriso débil no rosto suado. O sangue continuava pingando por entre os dedos que seguravam o ferimento, fechados em dor. No entanto, ainda tinha esperança.

 A primeira coisa que notou foram vultos vindo em sua direção. Jogou sua luz na direção deles com o braço livre, e antes que sumissem suas identidades eram reveladas em uma fração de segundo. Sophie, Koga, Sasha, Dominic... Julie juntava toda a sua concentração para não pensar no rosto assustado de seus amigos, instantes antes de desaparecerem. Sua raiva ia aumentando a cada companheiro, os dentes rangendo de fúria. - ISSO NÃO VAI FUNCIONAR! - Gritou para o vazio, sabendo que seria ouvida. - PODE MANDAR TODOS ELES, SUA COVARDE! NÃO VAI ME DERROTAR ASSIM!

 - Ah, não? - Riu a mulher, sua voz ecoando pelas pedras negras do aposento. - E que tal assim? - De repente o recinto se transfigurou, tornando-se um local mais familiar. Era o quarto em que havia ficado no Requianno da Estrada Verde, notou a membra da Aurora. As paredes eram de madeira clara e o teto um pouco baixo. Duas camas estavam prostradas no canto norte, e em uma delas estava uma cópia de Julie usando um pijama e com uma das mãos enfaixadas. Na outra estava Sophie, também usando roupas de dormir. Elas conversavam, e a Julie real sabia o que estava por vir.

 - Você é parte vital da Aurora, Sophie. Não se menospreze desse jeito. - Disse sua cópia. As memórias se equiparavam àquela cena, prevendo cada palavra antes mesmo de serem mencionadas.

 - Não, mas... - Começou Sophie, parecendo um tanto quanto nervosa. - Eu sinto que essa minha... essa minha fraqueza apenas puxa as outras pessoas para baixo. - Ela apertou a mão no peito, parecendo se agitar. - Você poderia fazer muito mais na guilda se não fosse por mim! Nos últimos dois anos não pegou quase nenhuma missão! Se eu fizesse alguma coisa, você poderia...

 Lá vem. - Somos uma dupla, irmãzinha. - Interrompeu a outra Julie, sorrindo pacificamente. - Se eu fiquei dentro da sede durante todo tempo, era para ficarmos juntas. - Naquele momento Sophie respirou fundo, os olhos se marejando. A Julie real ficou com um aperto no coração, observando com uma careta a irmã se deitar na cama com o rosto virado para o outro lado. Sua cópia apenas se deitou, observando o teto.

 - Será que você sabia o quão dolorosa seria essa frase? - Perguntou a Dama dos Pesadelos, a cena à frente se esvaindo para que a escuridão retomasse conta. - Eu encontrei sua irmã quando ela veio para cá. Você quase a destruiu.

 - Eu não... - Julie fechou o punho, mordendo o lábio. Ainda segurava o ferimento, mas ele não parecia mais doer. - Eu só... só queria protegê-la.

 - Ah, querida... - A mulher veio de trás, passando a mão por seu rosto. A garota pensou em afastá-la, mas sua irmã continuava em seus pensamentos. - Eu sei de suas intenções. Sua mente é um livro aberto para mim, eu sei que você só queria protegê-la. - Ela parou o movimento, sorrindo. - Só que eu também sei o que se passa na cabeça de Sophie. E suas palavras naquele dia a quebraram. Era tudo que ela não precisava ouvir, e você, justamente você, as disse. - Julie começou a tremer, e a Dama dos Pesadelos se aproximou de seu ouvido. - E ela a odeia por isso.

 - Sai! - Gritou a membra da Aurora, virando o corpo com raiva. Sua adversária se esvaneceu como a névoa, mas suas palavras não eram ilusões. No fundo, Julie sabia.

 - Agir com raiva não irá te ajudar em nada. Apenas afasta seus companheiros. - Novos vultos surgiram ao redor da garota, desta vez parados. Sasha, Stella, Amanda, Sophie... todos a observavam com... pena? Antes que pudesse decifrar suas expressões, eles deslizaram para longe, sumindo nas sombras e deixando-a sozinha. Enquanto isso, a Dama dos Pesadelos continuava. - Mesmo aqueles que você considera verdadeiros amigos... não resistirão por muito tempo. Você sabe disso. - Foi a vez de Koga e Dominic aparecerem ao seu lado. Julie tentou esticar a mão para Koga, mas ele sumiu com um sibilo. Atrás dela, Dom fez a mesma coisa. - Você sabe que isso vai acontecer. É seu destino, afastar aqueles ao seu redor. Sua mãe. Seu pai. Sophie. - A garota sentiu os joelhos tremerem. Tentou argumentar na sua cabeça que aquilo era tudo mentira, mas não havia como. Sabia que era verdade. Temia isso desde sempre. - Você os perderá, e fará isso querendo protegê-los. É o futuro que te aguarda. - A Dama apareceu à sua frente, mas não havia mais vontade de lutar em Julie. Ela apenas deixou a cabeça pender, o rosto contorcido para segurar as lágrimas.

 - Eu... - Tentou começar, mas a mulher havia se aproximado. Não havia se coberto com uma ilusão, mas não precisava. Julie não esboçou resposta. Não reagiu nem mesmo quando foi chutada no ferimento, caindo para trás com um grunhido. A Dama dos Pesadelos enfiou o sapato em sua ferida ainda aberta e a garota ofegou, as lágrimas se derramando.

 - Não se preocupe. Se morrer agora, todos a lembrarão de forma doce. - Ela puxou sua adaga, ainda manchada de sangue. - Estou te fazendo um favor. Lembre-se de mim no lar dos mortos. - Julie fechou os olhos, sem energia. Me desculpa, pediu para Sophie. O rosto da irmã surgiu em sua escuridão. Queria apenas me despedir direito. Queria que estivéssemos juntas, e que tivéssemos mais tempo. Só que eu estou aqui e você... e você...

 Naquele instante, Julie abriu os olhos.

 A adaga já estava a centímetros de seu coração, mas ela deu um chute no estômago da Dama dos Pesadelos, a jogando para longe. A arma caiu nas pedras com um som metálico, e a garota se levantou com um esforço renovado. - Hoje não vai ser o dia que irei morrer. - Disse, a voz tomando força a cada palavra. Não encarava sua adversária, o queixo colado no pescoço e a mão segurando a ferida que voltara a sangrar. - Hoje não. - Repetiu.

 - Acha que vai conseguir fazer as pazes com sua irmã? - Grunhiu a mulher, caída de costas e limpando o sangue da boca. - Ela a odeia! E nada que faça vai mudar isso!

 - NÃO IMPORTA! - Gritou Julie, interrompendo a outra. Ainda de cabeça abaixada, ela cerrou o punho livre, os cabelos tapando os olhos. - Eu sei dos meus pecados. Eu... sei que talvez afaste todos ao meu redor, mas isso não importa! - Ela levantou o queixo, encarando a Dama dos Pesadelos com uma vontade tão ferrenha que seu olhar brilhava. - Sophie ainda está presa, e não vou descansar até que a solte! E você NÃO VAI ME IMPEDIR! - Sua mão brilhou com tanta intensidade que parecia mergulhada no próprio sol. A mulher gritou, tapando o rosto, mas Julie não precisava fazer isso. Não era mais incomodada pela própria luz.

 - Não, não... - Ela tentou gerar mais ilusões, mas eram destruídas pelo clarão branco antes que conseguissem tomar forma. Rapidamente tateou até sua adaga, segurando-a com força. - Isso não vai adiantar em nada! Você a humilhou! A destruiu! A...

 - CALA A BOCA! - Julie enfiou o punho no rosto da mulher, o brilho de sua mão se intensificando com tanta força que houve apenas o branco. Ele se manteve por alguns segundos, e quando se esvaiu o aposento pareceu ainda mais cheio de trevas do que antes. A figura da Dama dos Pesadelos estava no chão, desmaiada, e o vulto da garota se mantinha em pé, curvada com dificuldades. Ela arfou, e quando pareceu se acostumar com a escuridão, espirrou uma cascata de sangue da boca.

 Tateou trêmula até suas costelas, onde a adaga de antes estava encravada no lado esquerdo, tão funda que não era possível enxergar a lâmina. Julie tentou retirá-la, mas o esforço a derrubou no chão, vomitando mais sangue do que antes. Seus olhos se arregalaram com o temor, o brilho se esvaindo à medida em que a adrenalina sumia do corpo. Ela procurou puxar a arma mais uma vez, mas só conseguiu deixar a mão apoiada na bainha. A poça que seu próprio sangue fazia se tornava cada vez maior, um filete correndo até onde seu rosto estava deitado na pedra negra.

 Grunhiu, procurando formar palavras, mas não era possível puxar o ar. Soltou alguns sons agudos, a boca abrindo e fechando. Sophie, tentava dizer para se levantar. Você precisa salvar Sophie. Precisava garantir sua segurança, e depois iriam procurar o pai, e então tudo ficaria bem. Só dependia dela.

 Com todas as forças que conseguiu reunir, esticou a mão para frente. Cravou seus dedos na rocha e tentou se arrastar, o rosto em agonia. Por favor. Tenho que salvá-la. Com uma dor excruciante, se arrastou alguns centímetros para frente, deixando um rastro de sangue no chão. Mais, mais, repetia, até mesmo a voz de sua mente se tornando mais fraca. Deslizou mais um pouco, não conseguindo respirar.

 Seus dedos estavam dobrados na pedra, tremendo, mas não conseguia mais chegar até eles. Não haviam forças no braço, por mais que tentasse procurar. Sophie... Lágrimas preenchiam seus olhos. Piscou para limpá-las, a água salgada pingando no sangue. Estava presa. Não conseguia sair dali.

 O desespero começou a tomar conta dela. Dominic estava morto e ela logo o acompanharia. A única esperança era... Koga. Koga. Se lembrou do rosto dele, sempre alegre em meio à tudo. Queria que ele estivesse ao seu lado agora. Provavelmente lhe diria que tudo iria ficar bem, e acreditaria nisso. Julie fechou os olhos com força, não conseguindo conter as lágrimas. Queria ter o beijado antes. Agora parecia muito tarde. Muito tarde para todo o resto.

 Por favor, orou, esperando que suas palavras chegassem ao companheiro. Salve Sophie. Queria muito conseguir fazer isso, mas chegou ao seu limite. Se lembrou da promessa que havia feito quando criança, de que sempre protegeria a irmã. Tremeu.

 E com isso, ficou imóvel.

sábado, 1 de novembro de 2014

Aurora: Capítulo 38 - A Canção do Dever


 Um suave gotejar preenchia uma pequena poça, um acúmulo de água abrigado por uma suave depressão em um corredor de pedras cinzentas, não possuindo muito mais do que uma um centímetro de profundidade. Nela estava refletido um corredor úmido e sombrio, iluminado por uma distante lamparina trêmula. Aquele ambiente se manteve monótono e silencioso por longos minutos, interrompido apenas pelo som constante de pingos d'água, até que passos firmes e apressados ecoaram por suas paredes, chapinhando na poça rala. Refletidos pela água remanescente, dois homens caminhavam lado a lado, as costas cobertas por longas capas púrpuras e adornadas de prateado visíveis naquela escuridão. Ambos seguiram pela comprida galeria até chegarem a uma área de celas, onde vultos escuros se remexiam nas trevas.

 - Não tardará muito. - Disse uma das vozes, passando distraidamente o dedo pelas barras de metal enferrujado. - Só precisamos verificar os últimos passos da invocação, e logo terá o que anseia. - O primeiro homem pigarreou, colocando a mão fechada perto da boca. - Queria apenas agradecer pelo apoio que nos deu. Não sabe o quanto tentamos receber isso da Aurora.

 - Sou eu quem deveria agradecer. - Respondeu o outro, e um sorriso enrugado se manifestou em seus lábios. - Ver essa pequena agremiação de ofensores morrer é algo que desejo faz semanas. - Ele parou perto de uma das celas, a barra da capa agitando a água mais embaixo. - Ele foi um dos ladrõezinhos que invadiu minha casa, sabia? - Apontava para uma figura acorrentada, quase impossível de ser identificada naquela escuridão. Quase.

 - Ah, você já me contou dessa história. - Foi a vez do primeiro sorrir, se aproximando. - E é incrível como ele foi o elo que uniu nossos destinos. O meu, o seu, da Aurora... e daqui a algumas horas, do mundo. - Sua capa se agitou assim que ele se virou, voltando a andar pelos corredores fétidos. - Eu só espero que ele possa, antes do fim, compreender que sua existência condenou seus próprios companheiros. - O segundo homem também se afastou, deixando o vulto adormecer em sua cela. Uma porta à distância se abriu, revelando por uma fresta de luz o rosto desacordado de Dalan. Logo em seguida, as trevas voltaram a reinar.


AURORA
CAPÍTULO 38 - A CANÇÃO DO DEVER

 Um célere navio à vela corria pelo mar de Cellintrum, se inclinando e varando as ondas que encontrava no caminho. Ele tinha apenas dez metros de comprimento e dois apertados andares que não deixavam muito espaço para a tripulação, naquele dia consistente de apenas três pessoas: Julie, Koga e Dominic, que cuidava do leme para que aproveitassem ao máximo o vento favorável. Stella e os outros haviam pego uma embarcação para Helleon, deixando o restante com a missão mais urgente do resgate dos companheiros. O próprio céu parecia ter noção da gravidade daquela missão, apinhado de nuvens pesadas e trovões ao fundo, agitando o mar. Alguns raios de sol conseguiam atravessar as barreiras naturais e alcançar a água, onde formavam uma espécie de rota para o centro do que um dia fora Gamora.

 Dom permanecia pensativo diante de todos aqueles agouros, as mãos bem firmes no leme nervoso. Havia conseguido algumas peças de roupa, uma calça verde escura e um colete mais claro que deixavam os tatuados braços nus. Seus olhos estavam semicerrados e opacos, mergulhados em intuições diversas. Aquele homem fora um soldado na guerra, um combatente experiente que havia provado o suficiente da vida, recebendo em troca algumas poucas certezas. Uma delas era que sempre deveria confiar em seus instintos. O problema era que todos indicavam que algo terrível estava prestes a acontecer. Sua barriga se contorcia e os dedos tremiam levemente, sinais de que não voltaria igual daquela viagem. E o medo acompanhava esses augúrios.

 Após alguns minutos silenciosos, uma forma negra surgiu à distância. De início pareciam duas montanhas, separadas por um vale espinhoso com uma extensão de centena de metros. Contudo, conforme iam se aproximando, as formas ficavam mais definidas. Eram duas torres negras, densas diante do céu nublado, e entre elas havia uma miríade de pequenos casebres, todos moldadas da mesma pedra escura que dava forma àquela fortaleza flutuante. Mais atrás pareciam haver pilares espinhosos que saíam do chão e se dobravam como se fossem dedos, mas estavam muito cobertas para que pudessem ser plenamente vistas. No entanto havia uma vasta plataforma circular à frente deles, onde alguns navios estavam atracados. Dominic manobrou o leme, considerando suas opções com os olhos semicerrados. A prioridade deles era resgatar os membros capturados da Aurora, mas onde poderiam estar? O homem ficou em silêncio, formulando um plano em sua cabeça.

 - Koga! Julie! - Gritou assim que fez sua mente. - Venham até aqui! - Os dois garotos saíram do convés inferior e foram até o seu lado. Koga estava vestido com uma camisa azul e uma calça grená, assim como uma capa branca que cobria seu bastão. Julie por sua vez usava uma blusa azul-escura e uma calça marrom, ambas um pouco apertadas para seu corpo. Eles observaram a construção imponente à frente, e Koga ofegou.

 - Vou assumir que você tem um plano. - Soltou Julie sem olhar para Dominic, que murmurou positivamente.

 - Estão vendo aquelas torres? - Perguntou, apontando, mas era necessário muito esforço para não enxergá-las. - Desconfio que nossos companheiros estejam aprisionados em uma delas. Vou pedir para que cada um de vocês invada uma.

 - E você? - Foi a vez de Koga se manifestar. O rosto de Dom ficou sombrio antes de responder.

 - Eu vou chamar o máximo possível de atenção para que vocês tenham um caminho livre. - Os olhos dos garotos foram do homem até a plataforma mais à frente, os corações se encolhendo. Estava na clara que era um plano suicida.

 - Mas... - Tentou dizer Julie, mas foi interrompida pelo grande companheiro.

 - Não adianta torcer que consigamos invadir aquela fortaleza sem sermos vistos. Nem que todas aquelas casas estejam vazias. - Começou ele, um sorriso triste se manifestando em seus lábios. - Se quiserem fazer alguma coisa, sejam rápidos. Talvez dê tempo para me salvar. - Ele riu, mas não havia alegria naquele som. Julie procurou novamente dizer alguma coisa, mas Koga a segurou pela mão.

 - É melhor nos prepararmos. - Pediu, puxando-a levemente. A garota o obedeceu, dando uma olhada sofrida para Dom antes de descer as escadas do convés. Os dois foram até o andar inferior, onde Koga começou a flexionar os braços.

 - Ele foi um soldado, lembra? - Começou o rapaz, tentando acalmar a companheira que agora estava observando o mar através de uma das janelas. - Já esteve em situações piores do que essa. Vai dar tudo certo. - Nem mesmo Koga acreditou em suas palavras, e o silêncio os encobriu. O garoto se aquecia com truculência cada vez maior, o corpo tremendo ligeiramente. - Vamos precisar de sorte, não? - Grasnou, o queixo vibrando.

 - Koga... - Começou Julie sem se virar, mas o outro não pareceu ouvi-la.

 - Quer dizer, nós nem somos os mais fortes da Aurora. - Cada palavra sua subia um tom enquanto que ele procurava avidamente manter a expressão tranquila. Seus olhos, no entanto, o traíam. - Mas acho que esse é um daqueles momentos em que os mocinhos viram o jogo, né? Contrariando todas as expectativas, eles conseguem... conseguem... - Não conseguiu continuar a falar, a voz se embolando em sua própria garganta. Ele apoiou o bastão no chão e o segurou com força, o coração batendo tal qual um beija-flor. Não percebeu que Julie estava ao seu lado.

 - Ei. - Chamou ela. O rapaz a encarou, seus olhos nervosos encarando mais abaixo o rosto sofrido da companheira. Os dois ficaram em silêncio, ambos procurando força no outro. Koga foi o primeiro a quebrar aquele momento, apoiando o queixo no peito enquanto soltava o ar pelo nariz com um sorriso no rosto.

 - Quer dizer, eu... - Naquele momento Julie o segurou pelo pescoço e o beijou, fechando os olhos com força e se apoiando na ponta dos pés. Koga apenas permaneceu com as pálpebras arregaladas, preso nessa expressão atônita até mesmo depois da companheira o largar.

 - Pra dar sorte. - Sorriu ela, se encaminhando até as escadas. O rapaz continuou parado ainda por alguns segundos, um turbilhão de pensamentos em sua cabeça, até que se virou agitado.

 - Eu acho que preciso de mais sorte! - Gritou ele, correndo para encontrá-la.

 Enquanto isso, o navio seguia na direção da fortaleza negra. Dominic sentiu que olhos já começavam a ser observados. Quando se aproximou o suficiente para atracar, deu o sinal para os companheiros. Koga e Julie foram cada um para um lado, saltando na água gelada. Eles nadariam em torno daquela plataforma circular, escondidos pelas ondas até conseguirem subir as pedras negras. E Dom os daria cobertura.

 Ele calmamente encostou o barco na mureta, jogando uma corda em um toco de madeira para firmar sua posição. Em seguida desceu as escadas e apanhou alguns objetos avulsos, tão tranquilo que poderia assobiar. Se lembrou de Wieder lhe dando um esporro na última missão que haviam feito juntos, cobrando sua total atenção. Sorriu. Havia se perdido naquele dia, mas o anão havia lhe dado o que mais precisava. Um motivo. E com o motivo vinha o dever. Havia aprendido isso no exército. E agora, após tantos anos, era hora de trazer o velho soldado de volta.

 Saltou na plataforma circular, trazendo consigo uma braçada de pedaços de madeira e cordas. Jogou-as no chão ao seu lado, girando o pescoço para averiguar a área ao seu redor. Era um local plano e sem nenhuma construção, se estendendo por centenas de metros de pedras negras. Dominic se ajoelhou e colocou a palma estendida em uma das rochas, buscando compreender aquele material. Concluiu que seus poderes não funcionariam ali, mas tudo bem. Haviam caminhos alternativos.

 Ouviu sons à distância e levantou a cabeça, observando duas sentinelas encapuzadas correndo em sua direção. Gritavam, mas o que diziam não era importante. Haviam chegado tarde demais.

 Dom pisou em uma das tábuas, jogando-a para cima em uma rotação frenética. Agarrou-a em pleno ar e girou o corpo, arremessando o objeto na direção dos guardas. A madeira amplificou seu tamanho no meio da trajetória, acertando os dois homens. Agora havia chamado a atenção.

 Mais gritos, dessa vez do nordeste. Eram quatro sentinelas. Dom agarrou a corda, cuja ponta estava amarrada em uma pedra, e a rodopiou no ar como se fosse um vaqueiro de Wildest. Jogou-a em cima de um deles, que desmaiou antes mesmo de acertar o chão, e puxou-a para esquerda para derrubar mais dois guardas. O remanescente saltou na água, temeroso de ser o próximo da fila, mas esse era o posto de um grandalhão que vinha do norte.

 Dominic pegou um pedaço do leme que havia partido e o arremessou, infelizmente errando o alvo. O homem ainda vinha correndo, mas era uma questão de tempo até que fosse derrubado. O membro da Aurora franziu o cenho. Aqueles sentinelas estariam tão desesperados assim para fazer um ataque suicida?

 Um respingar de água atrás de si o fez entender a armadilha. Se virou e viu um homem ruivo acima do mar, parecendo coberto por gigantescos tentáculos verdes. Uma segunda olhada revelou que eles saíam das costas dele, mas aí Dom já havia sido capturado. Os braços pegajosos o agarram pelas pernas e o pescoço, puxando-o para trás. Fincou os pés no chão, mas o grandalhão à frente parecia obstinado em terminar o serviço de arremessar Dominic no oceano. No entanto, o membro da Aurora estava tranquilo.

  Uma das coisas que se aprendia na Fronteira era que, por melhor que fosse a habilidade de se atacar à distância, uma hora o combate corpo-a-corpo viria. E para isso, era sempre sugerida uma arma. Era nisso que Dom estava pensando quando puxou uma faca brilhante do colete, cravando-a com ferocidade no tentáculo enrolado em seu pescoço. Sangue negro se destacou no céu nublado e o ruivo gritou, seu aperto se esvaindo. O sentinela à frente continuava sua corrida, ávido em derrubar o adversário. Só que já havia perdido a vantagem.

 Dominic dobrou os joelhos e impeliu o ombro contra o grandalhão, sua barba ruiva roçando nos olhos do homem tatuado enquanto era derrubado. Dom rapidamente chutou os objetos que havia recolhido do navio, jogando-os no centro da plataforma. Aquele era o lugar mais difícil de se defender, mas não podia mais confiar nas beiras e até agora quase todos os sentinelas haviam vindo dos casebres ao norte. Só lhe restava uma opção.

 Enquanto caminhava, os pensamentos foram até seus companheiros. Havia esperado acompanhá-los por ainda muitos anos. Quando tivessem problemas ou dúvidas, procuraria exercer de sua experiência e aconselhá-los, e quando tivessem sucesso, seria o primeiro a parabenizá-los. Gostaria muito de vê-los crescer, se casar e terem filhos. E agora, mesmo que esperasse sobreviver, sabia que suas chances de estar com o restante da Aurora no futura era ínfima. A calma vinda do dever era a única coisa que impedia suas lágrimas de se derramarem, presas em algum canto de sua alma junto com todos os medos e dúvidas. Pois ele tinha olhos apenas para sua missão, sua única missão em toda a vida.

 Proteger.

 Mais sentinelas vieram, desta vez uma onda raivosa e berrante. Dominic pegou a corda com a rocha na ponta e girou-a em torno de si, formando um círculo de dor onde os homens vinham ser derrubados. Um deles, mais esperto, puxou sua espada e cortou a corda, fazendo com que a pedra voasse para cair no mar e privando o membro da Aurora de sua melhor defesa. Paciência. Dom havia visto na arma um problema e jogou uma de suas tábuas no adversário, mas agora não podia manter os inimigos longe. E eles continuavam vindo.

 Em algum canto da fortaleza, Koga havia saído da água, tremendo e esfregando as mãos. Conseguiu ouvir os sons da batalha ao longe, virando a cabeça naquela direção. - Você consegue, cara. - Disse com a voz sofrida, esperando que seu encorajamento chegasse ao companheiro.

 Do outro lado, Julie caminhava através das ruelas vazias, o rosto franzido enquanto tentava ignorar a luta na plataforma. Queria desesperadamente voltar e ajudar Dom, mas Sophie continuava refém. Apertou as mãos com tanta força nos ombros que esteve à beira de rasgar a pele, tomada pela culpa.

 Pois o trio da Aurora estava sendo movido naquele dia pelo dever. O dever de proteger os irmãos, por mais terrível que fosse o sacrifício. E essa responsabilidade era manifestada em Dominic Weitern, ex-soldado da Aliança, o membro mais experiente da Aurora. Ele atacava e se defendia, girando o corpo em uma dança solene para derrubar seus adversários. Era um homem idoso, um homem que havia perdido seus sonhos, mas que queria proteger os dos companheiros. Era seu último desejo, sua última força.

 E assim, a canção de Dominic se aproximava do seu fim, lutando e derrubando e massacrando aqueles que encontrava em seu caminho. Eram muitos, quase que uma miríade sem fim, e eles o engoliram, tal qual uma onda se debruçando sobre um caranguejo perdido. E assim eles continuaram pelo que pareceram horas, os sons da batalha mortal se estendendo até os céus, onde um raio cortou as nuvens e caiu no mar que um dia fora Gamora.

 E com ele, veio o silêncio.

sábado, 25 de outubro de 2014

Aurora: Capítulo 37 - Promessa de Retorno


AURORA
CAPÍTULO 37 - PROMESSA DE RETORNO

 A primeira coisa que Lyra viu quando abriu seus olhos negros foi o céu estrelado. Uma miríade de pontos brilhantes a encarava do alto, manchas brancas em um fundo de ébano infinito. Ela piscou um pouco antes de se sentar com leveza, arregalando o olhar enquanto virava a cabeça para os lados. Estava no que parecia uma mata fechada, o chão coberto de grama verde e árvores torcidas formando uma clareira ao redor dela.

 - Pensei que não iria acordar tão cedo. - Era a voz de Kulela. A garota demorou um pouco para reconhecê-lo, de costas para ela e sentado na relva. Sua camisa branca estava rasgada, e diversos pontos rubros marcavam suas escamas.

 - O-o que aconteceu? - Perguntou, esfregando o dedo nas pálpebras.

 - Sofremos um acidente de navio. - Contou o reptiliano, ainda sem se virar. Lyra demorou alguns instantes para processar aquela informação, ainda acordando.

 - E os outros? - Sussurrou, imediatamente ficando alerta e esquadrinhando a área ao redor, como se encontrasse um companheiro escondido no meio dos arbustos.

 - Estão ali. - Apontou o curandeiro. Lyra se inclinou e avistou uma pequena fortaleza de madeira à frente, escondida por tantas árvores no caminho. Tochas acesas marcavam as paredes puídas, e um grande buraco rachado marcava a entrada, sem um portão a vista. Ao todo a construção era bem mirrada, mas cerca de seis guardas a esquadrinhavam de cima para baixo. A garota estreitou os olhos, tentando entender o que estava acontecendo.

 - O que é isso? - Perguntou assombrada.

 - Um forte esquecido no meio do Mar de Cellintrum. Você quase foi sequestrada hoje mais cedo, e supostamente seria levada para um navio. - Começou o outro. - Te resgatei e segui a embarcação até aqui, onde tenho a ligeira impressão de que estão trancafiando os membros da Aurora. - Lyra se aproximou, percebendo que aquelas manchas rubras eram na verdade feridas. - Tenho um plano que envolve--

 - Isso são queimaduras? - Interrompeu a garota, apontando para as chagas. O reptiliano olhou para baixo, parecendo ter se esquecido delas. 

 - Ah, não é nada. - Tentou desconversar. - Escute, nós--

 - Você disse que me resgatou, não foi? - Cortou a voz sofrida de Lyra, agarrando a grama que crescia ao lado de seus joelhos. - Isso aconteceu ao tentar me proteger?

 - Não é hora de entrarmos nesse mérito. - Disse firmemente o curandeiro. - Precisamos nos concentrar em salvar nossos companheiros. Não é mesmo? - Ele a encarou com rigidez, acentuando uma ferida bem entre seus olhos. A garota desviou o olhar, sentindo-se culpada.

 - Sim... - Concordou, passando a mão pelas pernas nuas. Usava apenas uma camisa branca e um short curto, as roupas que havia usado para dormir no Intrépida Saída. Não eram exatamente as vestimentas mais apropriadas para um passeio na mata. - Você disse que tinha um plano, não?

 - Fico feliz que tenha voltado ao assunto. - Comentou o reptiliano com um tom de sarcasmo na voz. Ele olhou para as chamas bruxuleantes da fortaleza, franzindo de leve o cenho. - Bem, como eu disse, desconfio que estejam aprisionando nossos companheiros naquele forte. - Apontou, como se fosse difícil localizar aquela construção. - Felizmente parecem haver poucos guardas, então um de nós pode atrair a atenção deles para fora enquanto que o outro resgata os presos.

 - Certo... - Começou Lyra, apoiando as mão na grama. - Eu grito e faço um escândalo para você--

 - Na verdade quem vai servir de isca vai ser eu. - Cortou Kulela. A garota ficou levemente boquiaberta antes de continuar.

 - Não. - Disse finalmente, colocando uma mão no peito. - Eu faço isso, você não precisa se arriscar assim.

 - Nós dois vamos nos arriscar. - Soltou ele, inclinando a cabeça na direção da companheira. - A questão é que você está mais preparada para lutar caso a fortaleza tenha mais guardas em seu interior.

 - Do quê está falando? Eu estou em recu... - Ela segurou o abdômen, e se surpreendeu ao ver que ele havia parado de doer. Levantou a camisa em descrença, percebendo que a cicatriz estava muito mais tênue do que antes.

 Quando ela levantou a cabeça, o curandeiro estava sorrindo de forma triste. - Eu produzi um composto enquanto você estava desacordada, o suficiente para te deixar em condições de lutar. - Ele encolheu os ombros. - Não é exatamente adequado para humanos comuns, mas podemos ignorar os avisos médicos nesses casos. - Lyra ficou calada, novamente olhando para as chagas no corpo de Kulela. Seus olhos começaram a marejar, mas esfregou-os com as costas da mão. Tinha que se concentrar em salvar os outros. Eram os únicos que poderiam fazer isso.

 - Certo. - Concluiu com a voz embargada. - Vamos logo então.

 - Era o que eu estava esperando ouvir. - O reptiliano se levantou, acompanhado pela garota. Ele se adiantou até ficar na beira da mata, observando a fortaleza mequetrefe atrás de uma grossa árvore. Virou os olhos para a direita, avistando um paredão de rochas nuas que se estendiam até o forte. - Vá para lá. - Pediu para Lyra, apontando na direção das pedras. - Fique escondida até que os guardas saiam em busca de mim. Depois disso, entre e salve os outros.

 - Eu vou ser rápida. - Tentou dizer ela, mas Kulela não pareceu precisar de incentivos. Apenas a apressou com a cabeça, fazendo com que a garota corresse por entre a mata. Seus movimentos não provocavam mais dores, mas o coração estava apertado. Tudo parecia estar caindo aos pedaços, agora que ela tinha algum tempo para entender a situação. A Aurora havia sofrido um ataque e seus membros haviam se separado, supostamente recolhidos e presos, mas não poderia ter certeza de que estavam todos ali. E se estivessem perdidos pelo Mar de Cellintrum? E se... estivessem mortos? Lyra se viu obrigada a parar, a ansiedade a corroendo por dentro. Apoiou a mão em um tronco e respirou fundo. Por favor, rezou aos deuses. Por favor, que estejam todos salvos.

 Após alguns segundos em que tentava controlar o desespero, ela engoliu em seco. Precisava guardar esses sentimentos como havia feito durante quase toda a sua vida. Kulela estava contando com ela, arriscando sua vida para que pudessem salvar os companheiros. Não podia deixar suas fraquezas ficarem no caminho da guilda. Devia se mostrar inabalável, assim como havia feito todos esses anos.

 Assim, respirou fundo e continuou. Lembre-se dos seus amigos, pensava a cada passo. Siga em frente e ignore tudo que te deixa pra baixo. Obedeceu esse mantra com dificuldade, conseguindo guardar no fundo do coração suas inseguranças e manter a cabeça erguida.

 Se viu no limiar da floresta, próxima ao paredão de rochas. Estava separada da fortaleza por um corredor desmatado que se originava da praia, dando aos defensores daquele local uma visão limpa da área ao redor. Lyra se escondeu do luar e aguardou sua deixa, mergulhada em um silêncio quebrado apenas pelos animais silvestres e pelas batidas de seu próprio coração. Tentou enxergar alguma forma de adentrar o forte de onde estava, mas as sombras escureciam seu perímetro. Lhe restava apenas observar as figuras dos guardas percorrendo a construção, se encolhendo cada vez que pareciam olhar em sua direção. A qualquer instante agora, pensava enquanto que os segundos se passavam lentamente. A qualquer instante...

 - EI! - Gritou uma voz ao longe, fazendo com que a garota se sobressaltasse pela adrenalina que começava a descer pelo seu sangue. Olhou à esquerda, vendo que Kulela estava perto da praia, balançando os braços na direção do forte. - Acho que esqueceram um membro da Aurora! - Lyra viu que alguns guardas se entreolharam, parecendo confusos. Gritaram algumas palavras entre si e um destacamento de cinco homens começou a trotar na direção do reptiliano, que correu para se esconder na mata. Sua companheira sentiu o coração bater mais rápido e olhou na direção da fortificação. Parecia vazia, mas era claro que as aparências enganavam. De qualquer jeito, não tinha opção. Engoliu em seco e disparou pelo corredor descampado, iluminada pela brilhante lua acima, o som dos passos engolidos pela relva alta.

 Quando se aproximou da parede, reparou que haviam pequenos buracos na madeira, resultado de anos de descaso e intempéries naturais. A garota olhou para os lados, temerosa de que estivesse sendo observada, mas a lua agora fazia o favor de encobri-la. Se virou novamente para o forte e começou a escalá-lo, aproveitando os rasgos para enfiar suas mãos e os pés descalços. O início foi fácil, mas quando estava se aproximando da metade do trajeto sentiu o abdômen arder e se encolheu em resposta, quase caindo. Ficou pendurada com uma das mãos, o coração batendo tão forte que era quase que como um alarme. Olhou para baixo, mas rapidamente voltou a esticar o queixo. Estava muito alta para se soltar. Engoliu os medos e seguiu em frente, esperando a todo momento uma cabeça se esticar por fora da murada mais acima.

 No entanto, nada aconteceu. Ela continuou a subir e alcançou a murada, jogando o corpo para frente para poder observar melhor o interior da fortificação. Era um espaço quadrado e escuro, com um grande vazio no centro que cortava os andares, demarcado por corredores de apenas dois metros de largura. Não havia um corrimão ou qualquer barreira virada para dentro, mas a visão era encoberta pelas trevas, com exceção de um pedaço da grama verde ao nível do mar. Onde ela estava, agora saltando para o piso interno, o cenário parecia uma bagunça. Haviam canecas de cerveja derramadas, pratos quebrados e... um arco.

 A garota arregalou os olhos. Na direção da praia, um arco e uma aljava se encontravam apoiados na mureta. Se aproximou rapidamente, segurando o objeto nas mãos. A madeira escura parecia um pouco quebradiça, mas as cordas estavam em boas condições. Uma passada pelas flechas a fez imediatamente descartar um punhado de quebradas, mas ainda assim haviam projéteis o suficiente para se defender. Ela suspirou, ganhando um pingo de segurança que não havia conseguido juntar desde o naufrágio.

 Infelizmente era temporário. Uma agitação à noroeste a fez levantar a cabeça, se agachando atrás da muralha. Avistou Kulela sendo jogado para a areia, sem esboçar reação. Ela ofegou, e naquele momento o quinteto de guardas saiu da mata, todos rindo e zombando.

 - Não está tão babaca agora, escamoso? - Gritou um deles, chutando a barriga do reptiliano. Lyra pôs a mão na boca, assustada. Foi até o arco, puxando uma flecha da aljava. - Hein? Quer tentar sacanear a gente de novo?

 Ele parecia irritado. A garota encaixou a flecha, puxando a corda até seu ombro com um ranger familiar. Fechou um dos olhos, procurando ter uma mira melhor. Conseguiu ver um dos homens puxando uma adaga que brilhou ao luar, e antes de pensar qualquer outra coisa já havia soltado o projétil.

 A flecha voou no braço do homem, que gritou em agonia. Cabeças se viraram na direção da fortaleza e dela vieram mais duas setas cortando o ar, atingindo o ferido e o companheiro ao seu lado. O estupor se quebrou e os remanescentes gritaram, disparando na direção da cobertura da mata.

 Lyra disparou mais duas vezes, errando seus alvos e atingindo a areia fofa. Conseguiu ouvir passos mais abaixo, pessoas correndo no interior da fortificação para saber o que estava acontecendo nos andares superiores. No entanto, a prioridade era defender Kulela. Ele estava caído e sob a mercê dos bandidos, e qualquer segundo que a garota gastasse se protegendo era uma oportunidade para que o matassem. Assim, correu na direção da esquina e atirou mais uma flecha, conseguindo derrubar o homem mais próximo da floresta.

 Vozes alertas à sua direita lhe diziam que já tinha companhia. Olhou de relance para o lado e viu um gordo barbudo correndo em sua direção, os braços abertos e a camisa verde manchada. Puxou a corda e atirou em sua perna, fazendo-o cair com um estrondo que rangeu as tábuas de madeira. Três companheiros vinham mais atrás, um deles segurando um ameaçador tacape.

 Ela levou a mão à aljava, conseguindo identificar três flechas. Voltou a virar a cabeça na direção da praia, vendo que um bandido corria na direção de Kulela. Um zunido cortou a noite fria e o homem caiu com as mãos no abdômen. Agora faltavam duas.

.Se virou para se defender, mas o tacape já estava sendo girado em sua direção. A arma acertou suas costelas, trincando audivelmente e impelindo-a até a mureta. Bateu de costas na madeira, perdendo o arco e arfando de dor. Grunhiu em resposta, sendo levantada pelo colarinho da camisa sem esboçar reação. - Piranha. - Conseguiu rugir seu adversário, agarrando-a pelo pescoço e batendo sua cabeça na parede. Lyra contorceu o rosto, incapaz de respirar. As mãos foram tateando até a aljava, meio caída em suas costas. - Eu juro que você terá um tratamento especial antes de te prendermos. Vou fazer questão de te... - Felizmente uma flecha censurou sua frase, encravada até o meio em suas costelas. O aperto se afrouxou e a garota o jogou para longe, recuperando o ar.

 Seus companheiros, porém, não lhe deram trégua. Um punho fechado disparou contra seu rosto, derrubando-a novamente no chão. O sangue encheu sua boca e suas narinas, a mão direita tentando contê-los. Novamente foi agarrada pela camisa, mas dessa vez foi arremessada na direção do vão central, onde sentiu o corpo ficar solto no ar.

 Seu coração quase parou, a gravidade a empurrando para a queda fatal. Esticou os dois braços à frente, onde bateram com força em uma superfície dura. Lyra girou e caiu de costas na grama, o corpo em agonia. Pareceu desmaiar por alguns segundos, os dentes rangendo de dor.

 A escuridão desapareceu ao abrir os olhos com dificuldade, o céu estrelado novamente piscando para ela. Levantou um pouco a cabeça e notou a saída da fortaleza à sua frente, o mar se agitando ao longe. Kulela, pensou ao se levantar imediatamente.

 Disparou para fora da fortificação o mais rápido que as dores nas costas permitiam, os passos abafados pela grama que já morria para dar espaço à areia. Já conseguia identificar o companheiro, e o coração se aliviou um pouco. Ninguém havia tentado matá-lo.

 Subitamente, seu ombro direito foi varado por um projétil, um buraco entre os músculos e os ossos. Sangue espirrou e Lyra caiu, os olhos arregalados de dor. Ao seu lado, uma flecha jazia no chão. A garota levou a mão trêmula até a região dilacerada, não percebendo os passos que se aproximavam.

 - Eu acho que te reconheço. - A voz era aguda, e a garota foi chutada para ficar de costas no chão. Um homem ruivo e imundo a observava de cima, o pé fincado em sua mão livre. - Você é a secretariazinha da Aurora, não? Uma nota de rodapé. - Ele a chutou novamente, jogando-a mais perto do mar. Suas costas encostaram em algo afiado, mas a dor no ombro a impedia de raciocinar direito. Conseguiu observar os outros dois bandidos saindo do forte através das pálpebras semicerradas, correndo na direção deles. - Engraçado. De todas as pessoas de sua guilda, a última esperança de vocês repousou na secretária e no médico. Vocês achavam que tinham chance? - Ele se aproximou, o hálito de cerveja infestando o ar. - Hein? Eu te fiz uma pergunta.

 Lyra abriu a boca levemente e suspirou algumas palavras. O homem se aproximou, a orelha bem próxima para poder ouvir o que estava sendo dito. Seu sorriso zombeiro permaneceu até escutar o que a garota tinha a dizer, uma frase que ecoou em sua mente enquanto caía, pois Lyra havia cravado a adaga que fora usada para ameaçar Kulela em seu estômago, retirando-a em uma cascata de sangue. Somos o suficiente, havia dito ela.

 A garota se levantou cambaleante, encarando os outros dois bandidos que haviam diminuído o passo ao ver o companheiro caído. Estava trêmula, respirava debilmente e o braço ferido pendia inutilmente ao lado do corpo, mas os olhos queimavam de raiva. - Vocês nos sequestraram. - Começou a dizer, tomando pausas entre as frases para recuperar o fôlego. - Deram o máximo para acabar... conosco. Só que não vamos deixar. Eu... não vou deixar. - Ela trincou os dentes, notando que Kulela havia se levantando e caminhado até ficar ao seu lado. Sorriu para ele antes de continuar. - Não vou deixar a Aurora morrer. Se quiserem... tentar nos derrotar... venham. - Abriu o braço sadio. - Passaremos por cima de vocês e vamos resgatar nossos amigos! Vamos para casa. - Acrescentou debilmente, se lembrando de Helleon e dos dias tranquilos que pareciam tão longe. - Vamos para casa.

 Os dois homens se entreolharam, nervosos. O discurso de Lyra parecia ter funcionado para amedrontá-los, isso e a enorme quantidade de corpos ao redor deles e a faca ainda segura pela garota. Deram alguns passos para trás. - Nós... nos rendemos. - Disse um, e o outro acenou positivamente com a cabeça. Lyra quase caiu de alívio, mas o reptiliano a segurou.

 - O que estamos esperando? - Perguntou ela, se forçando a manter as pálpebras levantadas. Foram encaminhados até a fortificação, onde uma sala nos fundos os aguardava. Um dos bandidos abriu a porta, revelando um aposento escuro. Quando o outro acendeu uma vela, foi revelado que Dominic, Koga e Julie estavam lá, amordaçados e acorrentados à parede, ainda vestidos com seus pijamas.

 Kulela e Lyra imediatamente correram na direção dos companheiros, e quando Koga foi libertado ele avançou no pescoço de um dos captores, prendendo-o à parede enquanto tirava a mordaça de sua boca. - Eu poderia matar vocês, sabia? - Rugiu com ferocidade enquanto que o outro homem se afastava, temeroso. - Sabia disso?

 - Acalme-se, Koga. - Pediu Dom, colocando a mão em seu ombro. Tão logo que o garoto o obedeceu, o homem mais velho agarrou o bandido pelo colarinho, levantando-o. - Agora, eu poderia ficar aqui horas espancando vocês por nos emboscarem e nos prenderem. - Disse friamente, o suor do outro pingando em seu rosto. - Mas vamos nos ater às questões mais urgentes. Onde estão os nossos companheiros?

 - Eles não estão aqui? - Perguntou Kulela alarmado, ajoelhado ao lado de Julie enquanto verificava a extensão dos ferimentos dela. O bandido livre gaguejou, apontando para uma porta à sua direita.

 - T-tem outra lá. - Lyra e Julie seguiram naquela direção, mas o restante ficou para o interrogatório.

 - Faltam alguns, não? - Grunhiu Dom, levantando sua presa ainda mais alto.

 - Vocês capturaram todos? - Se adiantou Kulela.

 - E-exceto vocês, sim... - Gaguejou o que estava sendo levantado, se encolhendo. - S-só que... alguns já fora levados.

 - Para onde? - Questionou Dominic, empurrando-o contra a parede com raiva.

 - E-e-eu mostro no mapa! - Guinchou o outro, temeroso pelo companheiro. Koga o olhou com raiva, fazendo com que ele corresse até uma escrivaninha e puxasse um papel manchado, o qual estendeu para os membros da Aurora. - A-aqui. - Apontou para um ponto no meio do mar. Dom soltou o outro bandido, que ficou caído no chão.

 - Eu conheço essas coordenadas... - Concluiu em voz baixa, franzindo a testa. - Gamora ficava aqui.

 - A ilha de Dalan? - Perguntou Koga, também se inclinando para ver o mapa. Havia algo de errado ali. - Só tem mar aqui. Tem certeza disso?

 - Morei anos no Mar de Cellintrum. Mesmo se eu estivesse errado, a ilha ainda estaria nesse quadrante. - Se agitou ele. E era verdade. Não havia sinal da enorme massa de terra que um dia fora Gamora. Sabiam que ela havia sumido, de acordo com Dalan, mas aquele mapa era antigo demais para ter sido atualizado. Dom puxou o papel, virando-o para o bandido. - O que há aqui?

 - Não sei. Uma fortaleza flutuante, acho. - Se encolheu o homem.

 - Se ele não sabe... - Começou uma voz nova, vindo da porta que havia sido apontada antes. - Então as coisas são piores do que eu pensei. - Os quatro se viraram, vendo que era Stella quem passava pelo portal escuro, acompanhada de perto por Julie, que carregava Lyra pelo ombro.

 - O que quer dizer? - Perguntou Dominic, o rosto uma mistura de alívio imediato e preocupação futura.

 Stella demorou alguns segundos para responder, puxando o mapa para si. - Há um tempo, quando Dalan entrou na Aurora, eu comecei a procurar informações sobre Gamora. - Ela esquadrinhou as informações ali contidas, o cenho franzido enquanto pensava. - Ninguém me respondia, então achei que havia uma conspiração. Só que é mais do que isso. - Ela pegou o papel e o mostrou para o bandido, confuso como nunca. - Você não vê nenhuma diferença aqui? Não parece ter algo estranho?

 - N-não. - Gaguejou o homem, suando enquanto encarava os outros. - Deveria?

 - Magia. - Sussurrou a líder da guilda, apertando as pontas do mapa com força. - E está ficando mais forte. Nossas percepções devem estar se alterando a cada segundo.

 - Como nós lembramos e outras pessoas não? - Perguntou Dominic. - E para quê isso? Qual é a vantagem de esconder Gamora do mapa?

 - Sem querer incomodar... - Se adiantou Julie, deixando que Lyra sentasse em um banquinho próximo. - Mas acho que nossa prioridade é resgatar os outros. Independente de onde estejam.

 - Julie tem razão. - Concordou Koga, dando alguns passos para frente. - Embora eu ache que, quem quer que tenha nos atacado, sabe sobre Gamora. Seria muita coincidência, não? - Os outros não responderam, preferindo se ater a seus próprios pensamentos. Uma sombra gelada passou pelo coração de Stella, que respirou fundo. Sabia o que estava acontecendo.

 - Será que Tom Burstin teve algo a ver com isso? - Perguntou Julie, desconfiada e encolhendo os ombros. - A viagem era paga por ele.

 - Não acho. - Respondeu Stella, ainda pensativa. - Desconfio que ele tenha sido apenas algum bode expiatório. É um homem muito grande para ser manipulado. - Ela se virou para o bandido, que recuou. - Para quem vocês estão trabalhando?

 - Não sabemos. - Disse, virando o pescoço para observar seu companheiro agora caído. - Só fomos contratados para recolher qualquer náufrago e entregá-los. Apenas nosso líder se encontrou com eles.

 - Mercenários, imagino. - Cuspiu Dominic, se virando para os outros. - Temos que ir para lá. O mais rápido possível.

 - Preciso ir à Helleon. - Disse Stella. Um silêncio se seguiu, um pouco confuso. - Preciso ir buscar algumas coisas. Não irei ficar de fora da luta dessa vez. - Se explicou ela. A compreensão passou pelos olhos de Dom.

 - Não pode estar pensando em... - Começou ele, mas foi impedido pela líder.

 - Acho que já deu a hora, Dom. - Proclamou ela, melancólica. - Faria isso contra o Culto Púrpura se não tivesse sido sequestrada. Só que não posso aguentar que minha filha e os outros sejam reféns sem que eu faça nada. - O silêncio voltou a predominar, desta vez quebrado por Kulela.

 - Então, o que faremos?

 - Você e Lyra vem comigo para Helleon. Caso alguém esteja na sede, serão meu apoio. - Ordenou a líder, não encontrando resistência entre os companheiros. - O restante vai até essas coordenadas que nos apontaram. Salvem todos, e saibam que eu estarei a caminho. Entendido? - Koga, Dominic e Julie se entreolharam, acenando a cabeça.

 Era hora do contra-ataque.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

LEMBRETE


Olha só, que bonito. Vocês por aqui.

Bem, se estão pensando em ler Aurora, não temam. Existe um PDF bonitão aaaaaaaaqui. Tudo remasterizado, corrigido e ajeitado. Lindo, não?

Aproveitem e curtam a nossa página do Facebook. Espero que tenha um post amanhã.

Beijinhos. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Aurora: Capítulo 36 - O Náufrago Verde


AURORA
CAPÍTULO 36: O NÁUFRAGO VERDE

 Regressus era mais uma das centenas de ilhotas que se espalhavam pelo Mar de Cellintrum, tão pequena que nem chegava a aparecer em certos mapas. Mal possuía quinhentos metros quadrados, e embora parecesse um pequeno paraíso por suas praias de areia fina e branca e densa floresta tropical, não recebia um visitante há anos. O máximo que chegava à sua costa eram destroços de naufrágios e caixas que se perdiam, todas atoladas na areia até que a próxima tempestade as levasse para outra residência.

 No entanto, isso havia de mudar. Pois em uma limpa manhã após uma noite de tumulto no céu, uma alma viva se encontrava em Regressus. Era um reptiliano de crina negra, vestido com uma esfarrapada camisa branca e uma calça marrom, deitado de costas na orla. Seu nome era Kulela, e era um membro da Aurora. A maré alta havia o levado até a beira da praia, deixando-o encharcado porém aparentemente vivo. Seu rosto se contorcia no sol da manhã, preso em um pesadelo contínuo de corredores submersos e giratórios. Uma onda vinha em sua direção, tão forte que o arremessou para fora do navio, onde as trevas do mar o abraçaram e o levaram para longe...

 - AH! - Berrou ele, se levantando com um salto. A luz o incomodou em resposta, fazendo com que ele esticasse o braço na frente dos olhos. Seu coração batia com firmeza, bombeando o sangue aquecido pelo sol. Olhou ao redor, percebendo a praia suja de destroços que se aglomeravam ao seu lado. Sua mente fez a associação que não queria fazer. Não havia sido um pesadelo.

 - EI! - Gritou para o vazio, esperando ser respondido. Sem sucesso. Se levantou e sentiu uma pontada no abdômen. Rangeu os dentes e olhou para baixo, mas não havia nenhum corte visível. Provavelmente foi apenas uma pancada, concluir ao tatear a região. Voltou a encarar ao redor, procurando seus companheiros, mas estava sozinho. Sozinho em um lugar desconhecido, com apenas o que tinha no corpo.

 Arregalou os olhos e apalpou o peito, percebendo com alívio uma tira de couro coberta por bolsos que envolvia seu tórax. Costumava guardar seus ingredientes mais raros consigo com medo de perder o restante em algum tipo de acidente, o que surpreendentemente tinha se tornado realidade. Só que eles não fariam nada sozinhos. Eram apenas catalisadores, dependentes de substâncias que recheassem o bolo, por assim dizer. Não o ajudariam ali, em uma terra perdida pelos deuses.

 Kulela, percebendo que estava exausto, se sentou na areia tomando cuidado com o ferimento. Suspirou, pensando no que faria em seguida. Só lhe restava rezar que alguém da Aurora estivesse vivo, mas seria muita ingenuidade achar que o achariam ali. Deu uma olhada na ilha atrás de si, com sua mata selvagem e vazia. Duvidava que aquele lugar fosse sequer catalogado, que dirá uma rota de navios. Por um momento se viu desejando estar de volta às florestas Cellintrunianas. Podia ser um eremita, mas pelo menos tinha a situação sobre controle.

 Um vento quente soprou do mar, agitando sua crina em direção à mata. Observou as árvores desarrumadas, desfocando a visão enquanto que pensava em suas opções. Não adiantaria de nada ficar ali e lembrar de dias mais fáceis. As primeiras tribos de reptilianos haviam conseguido gerar civilizações em florestas fechadas, portanto ele deveria ser capaz de pelo menos garantir uma semana de suprimentos, supôs enquanto que conscientemente ignorava o fato de que não havia nenhum registro de uma tribo alojada em ilhotas minúsculas.

 Talvez alguns frutos ou uma poça de água da chuva o aguardassem, se esperançou enquanto que ficava de pé. Poderia ser o suficiente para sobreviver até que montasse um barco ou algo parecido, mas primeiro precisava garantir sua sobrevivência,

 Deu uma volta no bosque da ilhota, recebendo boas e más notícias. Não haviam animais nem frutos comestíveis ali, mas Regressus possuía um pequeno valão que havia armazenado a água da chuva. Além disso, Kulela notou um cardume de peixes passando bem próximo da ilha ao sair da mata pela primeira vez. Decidiu cortar um galho grosso e usar como lança, assegurando assim seu alimento do dia-a-dia.

 Além disso, conseguiu achar alguns materiais bastante interessantes. Havia um conjunto de árvores ali chamadas de guerrilheiras, cujas folhas largas eram um excelente componente de medicamentos. Sua casca avermelhada também tinha propriedades especiais, no entanto serviriam de forma mais ofensiva. O reptiliano separou o que conseguia da guerrilheira magra e torcida, guardando-os em seus bolsos livres. Talvez pudesse já preparar um remédio, considerou ele enquanto colhia as folhas. Só os deuses saberiam o que aconteceria naquela ilha, e se prevenir nunca era demais. Já as cascas exigiriam quase toda a água doce que ele tinha ali, portanto decidiu guardá-las.

 Se pôs rapidamente a trabalhar, triturando as folhas com as mãos e misturando-as com água e um pouco de pó amarelo que havia trazido consigo. O cheiro do composto começou a ficar forte, enchendo o ambiente do odor semelhante ao de um gato molhado. Kulela buscou um pouco de areia, improvisando a farinha que precisava. Toda aquela atividade o fez se lembrar de seus dias de treinamento, isolado em alguma floresta avulsa enquanto passava os dias recolhendo ingredientes e formulando experimentos diversos.

 Riu com o canto da boca ao se lembrar de seu supervisor, um reptiliano velho e meio senil que se recusava a atender outras raças devido a todo o preconceito que sofreu em sua vida. A maior parte do corpo docente o considerava apenas mais um excêntrico, mas Kulela se fascinou pelo que ele dizia. Fora como se sua mente tivesse se aberto, percebendo a situação de merda que sua raça passava e que não podia mais aceitar aquilo. Se perguntou o que seu mentor diria ao encontrá-lo hoje. Membro de uma guilda humana. Realmente, os deuses gostavam de brincar com as vidas dos mortais.

 Após algumas horas o remédio estava pronto. Kulela o guardou em um dos seus bolsos, se levantou e esticou as costas, sentindo os ossos estalarem. A dor nas costelas havia passado, mas o estômago gemeu, ansioso por se alimentar. Talvez conseguisse pescar alguns peixes para o resto do dia, considerou enquanto pegava sua lança improvisada. Estava quase saindo da floresta quando notou que não estava mais sozinho.

 Havia um pequeno barco à beira de Regressus, uma simples canoa de madeira que balançava a cada pequena onda que passava por perto. Perto dela, na praia, um homem de longos cabelos brancos e acolchoadas roupas negras caminhava calmamente. Sua mão estava presa aos cabelos roxos de uma garota que era arrastada de rosto para baixo na areia, aparentemente desacordada. Ela vestia uma encharcada camisola branca, e mesmo com a face oculta era bastante familiar ao reptiliano. Lyra.

 Kulela voltou instantaneamente às sombras da mata, arregalando os olhos enquanto que respirava fundo. Sua mente paranóica trabalhava em velocidade, atenta à qualquer som oriundo da praia. Aquilo não parecia uma missão de salvamento. O homem estava sequestrando sua companheira. E o que faria depois? Se tinha a encontrado tão rápido, com certeza sabia do naufrágio do Intrépida Saída. Aquilo fora arquitetado? Estavam atacando a Aurora? O coração do reptiliano batia com vontade em seu peito, temendo pelo pior.

 Respirou fundo e inclinou minimamente a cabeça para trás, procurando o homem vestindo negro. Para sua surpresa, não havia nenhum movimento em sua direção. Ele parecia satisfeito com a garota em suas mãos e caminhava de volta para seu barco, assobiando baixinho. Os olhos de Kulela se arregalaram. Não estavam procurando por ele.

 Voltou a se ajeitar atrás da árvore, suspirando aliviado. Havia acabado de entrar na guilda, não era mesmo? Mesmo que fosse um ataque, muito provavelmente iriam se esquecer dele. Estava salvo. Era só aguardar mais alguns minutos e poderia estar em segurança, podendo concentrar todos os seus esforços em sair dali. Talvez voltasse às Florestas Cellintrunianas, considerou. Voltar à vida calma,sem humanos. Fechou os olhos, sorridente.

 O rosto de Lyra se destacou em sua escuridão particular. Haviam conversado um pouco durante as constantes sessões médicas, não? Aprendeu a gostar um pouco dela. Poderia dizer o mesmo de Stella, mesmo que a mulher fosse bastante distraída. Deu uma risada com o canto da boca ao se lembrar de quando caçou Dalan e Sophie por metade de Helleon, bufando a cada passo...

 Não, pensou ele abrindo os olhos, cortando o restante das lembranças em sua mente como uma faca. Sabia como aquilo ia acabar. Não, não, não, ele não devia nada à eles. Havia curado seus ferimentos e era só, não tinha que fazer mais nada. Eram apenas conhecidos, e agora seus caminhos se desencontrariam. Afinal, era um reptiliano orgulhoso. Havia sido ensinado a não se rebaixar às outras raças da Aliança. Todos racistas. Todos...

 ... exceto a Aurora. Não havia sido tratado mal durante seu tempo na guilda. Claro, haviam desavenças, mas elas nunca pareciam motivadas por preconceito. Pelo contrário, desde o início eles foram calorosos, cada um à seu próprio jeito. Não era mesmo? Ele apoiou a nuca na árvore, olhando com dúvidas para o céu. O que seu mentor faria? Ele havia sido tratado com desprezo durante toda a sua vida, chegando rancoroso aos seus anos finais. Só que... será que as coisas teriam sido diferentes caso ele tivesse encontrado uma Aurora? Será que o próprio Kulela agiria de forma diferente após essa experiência?

 Saco.

 -EI! - Gritou o mais alto que podia, saindo da mata com uma expressão obstinada no rosto. O homem se assustou de início, mas voltou a se acalmar assim que viu o reptiliano.

 - Desculpa te incomodar, senhor selvagem. - Disse como se estivesse falando com uma criança. Ele largou Lyra e juntou as mãos, se reclinando na direção de Kulela. - Eu juro que vou sair daqui e nunca mais voltar, tudo bem? Irei te deixar fazer fazendo rituais tribais ou qualquer coisa que sua raça faça para passar o tempo.

 O reptiliano sorriu, ainda com o coração batendo forte. Pelo menos o homem havia tornado sua decisão um pouco mais fácil. Iria adorar bater nele. - Acredito que você esteja procurando por alguém, não é? - Perguntou, levantando a manga e mostrando a Marca da Guilda. O sequestrador demorou um pouco para compreender aquelas informações, e quando fez isso Kulela já havia voltado a se embrenhar na mata.

 - VOLTE AQUI! - Gritou, deixando sua presa jazida na areia. Fechou a mão em um punho e preparou o braço para desferir um soco no ar.

 Kulela estava correndo pela mata quando uma enorme corrente de ar o atingiu pelas costas, arremessando-o para longe. Bateu em uma árvore com o rosto e esteve bem próximo de perder os sentidos. O que aconteceu, perguntou enquanto se recuperava. Olhou para trás a tempo de ver o homem estender o punho em sua direção. Uma nova rajada de força o atingiu, impelindo-o com força através das folhas e dos troncos.

 O reptiliano tentou elaborar um contra-ataque, mas já era tarde. Sem nem ter aberto os olhos foi jogado para o lado, se arrastando na areia. Ouviu passos e tentou reagir, jogando seu rabo na direção dos sons. Aparentemente foi inútil, pois se viu arremessado para o ar. Conseguiu abrir as pálpebras e perceber que estava muito acima da ilha. Naquele momento o homem de cabelos brancos se impeliu ao ar em sua direção, usando seus próprios poderes para gerar impulso. Ele sorria, um riso maníaco e cheio de dentes.

 Em um instante o adversário agarrou o pescoço de Kulela e girou o corpo, atirando-o para a mata. A velocidade era tão grande que apenas a queda foi notada, um estouro no meio da pequena floresta que derrubou as árvores mais próximas e gerou uma pequena cratera. E no meio dela, jazia o membro da Aurora.

 Kulela tossiu, cuspindo o sangue que enchia seus pulmões. Preciso fazer alguma coisa, pensou desesperado. Conseguiu ouvir o homem aterrizar na praia à distância e se arrastou para trás, se forçando pelos braços. Seus dedos mergulharam na poça d'água que havia encontrado antes, e um plano surgiu em sua cabeça em um estalar de dedos.

 Rapidamente ele desamarrou a faixa de couro em seu peito, arranhando sua própria pele na confusão. Eu vou me arrepender disso profundamente, concluiu enquanto arrancava a bolsinha onde estava o composto de cura e jogava o restante do acessório na poça. Passos agora se aproximavam, o som se misturando com o fervilhar grosseiro da água perto de sua cabeça. As cascas avermelhadas estavam em decomposição, soltando um cheiro acre. Vamos, vamos, vamos, implorou enquanto tentava abrir a bolsinha.

 Infelizmente uma nova corrente de ar o atingiu, o separando da valise e o jogando por cima da poça até cair na grama, onde os respingos esvoaçados o encontraram. A pele ardeu de forma insana onde foi atingida, mostrando que o pequeno experimento havia funcionado. Que maravilha, pensou o reptiliano enquanto que rangia os dentes. Tentou se apoiar para elaborar um contra-ataque, mas seu tempo já havia acabado. Os pés do homem se encontravam à sua frente, apenas um pouco à frente da poça ainda sibilante.

 - Acho que não chegamos a nos apresentar. - Disse ele, sorrindo de forma tranquila e estendendo a mão na direção de Kulela. - Meu nome é...

 O membro da Aurora não era muito religioso, disso tinha certeza. Costumava se preocupar mais com seus afazeres do que louvar aos deuses, mas naquela noite reservaria um tempo especial para rezar. Afinal seu adversário havia decidido começar a conversar logo ao lado do composto que havia preparado. Um milagre, motivado pela estupidez.

 Kulela rugiu e balançou o rabo, derrubando o homem para trás. Ele caiu bem em cima da poça d'água, e seus olhos se arregalaram um ínfimo de segundo antes de começar a gritar, um berro moldado pelo mais puro desespero. O reptiliano colocou as mãos nos ouvidos, procurando ignorar a agonia do outro. Aquele não era um composto normal. De fato, mal sabia o que havia criado, pois ninguém nunca havia testado aquela combinação de ingredientes. Pelo visto faziam mal. Iria anotar isso mais tarde.

 E assim, alguns segundos de desespero depois, o silêncio tomou conta de Regressus, sendo quebrado apenas pela distante quebra das ondas na praia. O homem sem nome continuou onde estava, com os olhos virados e rosto contorcido. Kulela se levantou e jogou a cabeça para trás, sentindo o vento salgado agitar sua crina negra. Um cansaço sobrenatural tomou conta de seu corpo enquanto a adrenalina se esvaziava, quase o derrubando. O reptiliano tropeçou e avistou o pacote do medicamento que havia preparado mais cedo, através dos olhos semicerrados.

 Pegou-o com alívio e estava prestes a ingeri-lo quando se lembrou de Lyra. As dores do corpo se aprofundaram como uma forma de protesto, mas não havia indecisão. O membro da Aurora rapidamente se pôs a correr na direção da praia, encontrando a garota virada para baixo na areia.

 Se ajoelhou ao seu lado e abriu o pacote, olhando para frente distraído. Avistou um barquinho balançando nas ondas um pouco à direita, mas o que chamava a atenção era um grande navio em alto-mar, curiosamente parado perto da ilha. A mente de Kulela trabalhou com as possibilidades. Talvez existisse uma relação entre o sequestrador e aquela embarcação. Talvez fosse o resgate, ou algo completamente alheio à situação deles. De qualquer jeito, só havia um caminho a se tomar.

 Para frente. Sempre para frente.