sexta-feira, 13 de junho de 2014

Aurora: Capítulo 15 - Requianno


AURORA
CAPÍTULO 15: REQUIANNO

 De início, parecia apenas mais um estabelecimento abandonado à beira da estrada, escondido pelo pôr-do-sol que se alongava. Era grande, com três andares de pedras pálidas pontuados com dezenas de pequenas janelas de madeira, mas não parecia conter uma alma dentro de si. No entanto, uma pequena bandeira no topo da cobertura indicava algo mais. O símbolo de uma cruz azul em um fundo branco tremulava ao vento, e seu significado era especial. Aquele prédio era um porto seguro para membros de guilda, exauridos por suas batalhas e muito afastados de suas sedes. Requianno era o nome daquela espécie de edifícios na língua élfica, e poderia ser traduzido livremente como "local de descanso". E era naquele Requianno, precisamente o localizado no meio da Estrada Verde, que a Aurora se encontrava.

 Stella Alba, a mestra da guilda, saiu do estabelecimento com a mente nebulosa. Encarou seus companheiros que se rodeavam no lado de fora e seu coração apertou. Dos nove membros que haviam saído em missão para o prefeito, apenas dois estavam relativamente ilesos. Stella chamou sua filha Sasha, sua segunda-em-comando Lyra e Amanda, as únicas que não apresentavam ferimentos consideráveis. - Aqui estão as chaves dos quartos. - Disse, entregando um molho nas mãos da garota de cabelos roxos. - Consegui seis aposentos, então dividam-nos de forma adequada. Irei pagar o motorista. - Com isso, se separou das outras e andou até uma carroça estacionada na estrada, passando pelo restante dos membros da Aurora.

 Os feridos estavam sentados no chão de pedra ou nos bancos de madeira, cansados e com poucas palavras. Todos tinham curativos rudimentares de primeiros-socorros, passando de faixas enroladas nas costelas de Dominic a uma tala na mão enfaixada de Sophie. Stella suspirou, mal conseguindo encará-los. Havia sido ela quem aceitou as missões, e teve bastante sorte de todos ali terem voltado vivos. Muita sorte.

 Parou ao lado da carroça puxada por grandes canabéis, separando distraidamente os tens para pagar o motorista. Tentou se alegrar ao ver a quantidade de dinheiro em sua carteira. O abono nos impostos havia lhe dado segurança financeira, o suficiente para que pudesse garantir um atendimento médico competente para seus companheiros. No final, tudo havia dado certo, não? - Que horas amanhã? - Perguntou levianamente ao motorista. Ele deveria levá-los até o final da Estrada Verde, onde existiam vilarejos reptilianos que cuidariam melhor dos feridos.

 - Oito da manhã. - Respondeu o garoto sardento com a voz aguda e cantada. Assim que terminou de contar o dinheiro ele estalou o chicote, forçando os animais semelhantes a touros a seguirem estrada adiante. Stella ficou parada algum tempo, sentindo o vento fresco balançar seus cabelos, e quando se virou percebeu que o restante da Aurora já havia entrado no Requianno. Mais rápido do que eu pensei, admitiu, e caminhou em direção ao estabelecimento. Se pegou perguntando no que eles estariam pensando.

 - O que está fazendo, rapaz? - Perguntou Dominic assim que entrou em seu quarto no primeiro andar. O aposento era bem apertado, mobiliado apenas com duas camas e um armário. Dentro dele Koga estava sem camisa, fazendo flexões no chão de pedra. O garoto parou e se deitou de costas, suspirando enquanto limpava a testa suada com a palma das mãos.

 - Treinando. - Respondeu o rapaz, fitando o teto acima dele.

 - Agora? Você está em recuperação! - Exclamou o outro homem, adentrando o quarto. Koga ficou em silêncio, buscando as palavras.

 - Sabe o que eu estive fazendo nos últimos dois anos, Dom? - Perguntou o garoto, se apoiando com o cotovelo no chão. - Nada. Não treinei nada, não fiz quase nenhuma missão e passei o tempo inteiro dentro de Helleon.

 - Não é o único, acredite. - Admitiu o outro homem, deixando suas malas em cima da cama. - Agora, por favor saia do chão empoeirado. Você já passou mal em sua última missão, e tudo o que não precisa é ficar doente de novo.

 - Exatamente! - O garoto se levantou, se levantando. - Eu não fiz nada nessa última missão! Claro, a não ser que você conte ser pateticamente salvo por Sasha e Julie, mas esse é o ponto! - Se alongou até grunhir, e começou a fazer o mesmo com as pernas. - Elas ficaram muito acima de mim, e meu papel na missão se resumiu a cair de um barranco! - Ele encarou o outro homem com um olhar determinado. - Isso não vai acontecer de novo.

 Dominic ficou em silêncio, reconhecendo a verdade naquelas palavras. Tal verdade que se aplicava a ele também. - Tudo bem, mas precisa mesmo fazer isso antes de chegarmos ao vilarejo?

 - Passei dois anos de sacanagem. Já tive todo o tempo para me recuperar. - Respondeu o garoto, voltando às suas flexões. Dom sentou-se na cama, fitando distraidamente o companheiro absorvia o que ele havia dito. Estava agindo da mesma forma que Koga desde que Adam morreu, notou. Passou meses de inércia, bebendo no bar enquanto o restante da guilda se decompunha. Era aquilo que a Aurora precisava, em seu momento mais difícil?

 - Faça o que achar melhor, rapaz. - Avisou ele, se dirigindo à sua cama. - Assim que minhas costas se recuperarem, irei te acompanhar. - Koga sorriu, continuando com suas flexões. Era a hora de mostrar sua real importância na guilda.

 Do outro lado do prédio, no terceiro andar, Lyra estava sentada de pernas cruzadas em cima de sua cama, vestida com uma camisola e com o cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Avaliava os documentos das missões para a senhora Stella, e só cessou de olhar os papéis quando Amanda saiu do banheiro, enrolada em uma toalha grande enquanto enxugava o cabelo com uma menor. O vapor d'água a acompanhava em densas camadas, ocupando o teto do quarto.

 - Nem tive tempo para te perguntar. - Disse Lyra, recolhendo os papéis enquanto a amiga procurava uma roupa em sua mala. - Como foi com Dalan? Conseguiu resolver os problemas dele?

 - Com muito esforço, sim. - Respondeu a outra garota, balançando a toalha na cabeça com mais vontade. - Acredite, ele não é a pessoa mais inteligente do mundo, nem a mais perceptiva. Precisou de alguns empurrões. - Ela terminou de secar o cabelo e começou a desenrolar a toalha que cobria seu corpo.

 - Ainda não entendi essa sua fixação pelos problemas do garoto. - Comentou Lyra, estreitando os olhos com um sorriso provocador. Amanda sorriu e soltou o ar pelo nariz, girando os olhos. Era o sinal de que não iria continuar nesse assunto. A outra, por sua vez, adotou uma postura mais séria. - E quanto à Samuel? Já... superou a saída dele? - Estava falando do homem que havia abandonado a guilda no dia em que Dalan chegou. A garota mais nova estava colocando o pijama, e parou quando terminou de colocar a calça.

 - É claro que não. - Admitiu. Seus olhos ficaram marejados, e ela sentou-se na cama. - Ainda não consigo acreditar. - Confessou com a voz fraca, encarando o chão de pedras com os cotovelos nas pernas. - Sempre achei que todos nós éramos uma família, entende? - Perguntou, levantando a cabeça para fitar a outra, como se encontrasse alguma resposta em seu rosto. - Família não abandona família.

 Lyra sorriu e se levantou para ficar ao lado da amiga, abraçando-a. - Se quiser se alegrar, acho que todos os que sobraram na Aurora se consideram família. Até mesmo Dalan e Wieder. - Amanda sorriu de volta, esfregando os olhos nas costas da mão.

 - É uma forma de encarar. - Disse, mas não pareceu se conformar com isso. Continuou a se vestir enquanto que a companheira voltava aos papéis de Stella. Família não abandona família, refletiu repetidamente.

 No quarto ao lado, Julie estava com rolo de esparadrapos na mão sadia, e tentava enrolá-los desajeitadamente em torno da cintura da irmã. Sophie ficou calada, aguardando, até que a gêmea terminou a terceira volta. - Acho que está tudo bem agora. Obrigada. - Disse com a voz fraca.

 Julie mordeu a língua, observando seu trabalho recém-feito. - Eu devia ter ido com você. Não era pra você ter feito uma missão sozinha.

 - Não, tudo bem! Eu... não estava sozinha. - Se adiantou a irmã, mas ainda com a voz fraca. A outra garota fez um muxoxo e se levantou, caminhando até sua cama. Sophie abaixou a camisa e começou a torcer as mãos, encarando-as.

 - O que houve? - Perguntou Julie, retirando seus brincos.

 - Eu... - A irmã mordeu a boca por dentro. Tinha tantas coisas que poderia falar. Por exemplo, não sabia se Dalan era uma pessoa terrível ou o completo contrário. Não sabia se ele e Amanda teriam algo a mais, e como se sentia em relação a isso. No entanto, havia um desejo, muito mais antigo do que os outros, que se manifestou novamente em Thomas Galvan. - Eu queria ser mais forte. - Disse baixinho. Dalan e Amanda pareciam ter uma sincronia de alguma forma, e isso provavelmente era porque estavam no mesmo nível. Ninguém ligaria para ela por muito tempo, um peso morto, inútil a longo prazo. A outra garota estreitou os olhos e abriu um pouco a boca, pensando.

 - Sasha te disse alguma coisa? - Perguntou desconfiada. Sophie levantou a cabeça com os olhos arregalados em resposta.

 - N-n-n-não... não é isso. - Respondeu apressadamente, balançando negativamente a cabeça. Ela voltou à suas mãos, retorcendo-as lentamente. - Eu só... acho que queria fazer mais, sabia? Isso talvez... me ajudasse a me sentir melhor. - Não estava disposta em contar sobre as consequências que essa sensação de inferioridade causava, principalmente porque ainda não havia entendido direito seus sentimentos. Só sentia que a maior parte de culpa naquela situação era dela.

 Julie suspirou. - Você é parte vital da Aurora, Sophie. Não se menospreze desse jeito.

 - Não, mas... - Havia algo que a perturbava havia muito tempo. - Eu sinto que essa minha... essa minha fraqueza apenas puxa as outras pessoas para baixo. - Confessou com a mão no peito, se agitando. - Você poderia fazer muito mais na guilda se não fosse por mim! Nos últimos dois anos não pegou quase nenhuma missão! Se eu fizesse alguma coisa, você poderia...

 - Somos uma dupla, irmãzinha. - Interrompeu a outra, sorrindo pacificamente. - Se eu fiquei dentro da sede durante todo tempo, era para ficarmos juntas. - Sophie respirou fundo, sentindo o coração se apertar e os olhos marejarem. Então era verdade. A irmã havia sacrificado seu crescimento na Aurora para cuidar dela. Se sentiu mal, e deitou na cama com o rosto virado para o outro lado.

 - Obrigada. - Sibilou, e afundou o rosto no travesseiro. Julie conseguia enxergar a dor na irmã, mas o que poderia dizer? Se louvasse a garota demasiadamente, ela provavelmente se colocaria em situações bem mais perigosas nas missões seguintes, e poderia facilmente morrer. Deixá-la assim, por mais que quebrasse seu coração, era o único jeito de mantê-la segura. Seria Julie quem iria protegê-la enquanto procuravam o pai. Havia feito essa promessa há muito tempo.

 Havia acontecido alguma coisa com ela na última missão, concluiu Julie enquanto se deitava. Ela não estava assim antes, e não parecia disposta a contar o que houve. Se Sophie não confessasse, concluiu, teria que perguntar para seus companheiros naquele dia. Se perguntou se Amanda ou Dalan haviam feito alguma coisa.

 Dalan que, por sua vez, caminhava à frente da porta do quarto das garotas naquele exato momento. Assobiava distraído, procurando o tonel de água que supostamente estaria naquele andar. Sua sede estava angustiante, e isso o deixava bastante irritado. Pra quê esconder água, se perguntava. Como esperavam que ele ficasse sem um único copo antes de dormir? Ou percorrer um labirinto para achar algo tão básico? Passou por uma porta aberta que dava para o ar livre, e adentrou-a como se esperasse ver o tonel ali, rindo e se escondendo. Chegou em uma varanda, iluminada pela lua cheia acima, e olhou para os lados com raiva. Tal qual foi sua surpresa quando avistou duas figuras na semi-escuridão, e uma delas tinha um par de familiares maria-chiquinhas.

 O rapaz instintivamente voltou ao corredor, com as costas coladas na parede e o coração batendo forte. Aquela não parecia ser uma situação normal em que duas pessoas se encontravam. Não numa varanda de pedras, iluminada pela lua. Soava um pouco... romântico? Então quem estaria com Sasha? Dalan não resistiu à sua curiosidade, e esticou o pescoço para identificar a segunda pessoa. Para seu espanto, percebeu que era Marcus, o membro da Aurora que havia encontrado no bar Quatro Luas alguns dias atrás. Ele e Sasha? O que estava acontecendo ali? O garoto ficou quieto, tentando ouvir o que estavam falando.

 - ... está ficando mais difícil de controlar, sabe? - Dizia Marcus, encarando sua mão direita. - Isso quase comprometeu minha última missão. Se estivesse sozinho...

 - Você sabe o que deveria fazer. - Respondeu Sasha, apoiando as duas mãos na sacada de pedra cinza. O vento agitava seus cabelos, mas seu rosto era impassível. - Se continuar assim, alguém acabará morrendo. Precisa procurá-los.

 - Eles nunca me aceitariam de volta. - Disparou o garoto, ajeitando seu tapa-olho. - Sabe como são. Só preciso de um tempo para meditar e retomar meu equilíbrio. Consigo fazer isso sozinho.

 - Bem, se tem alguém nessa guilda que eu confio a tal ponto, é você, Marcus. - Dalan ajeitou o corpo, procurando uma posição para escutar melhor as palavras trazidas pelo vento. Isso estava ficando bom. - Apenas não postergue isso. Precisamos de você cem por cento.

 - Não se preocupe. - Respondeu o rapaz, se virando para ficar de costas para a sacada. Dalan recuou a cabeça, aterrorizado, mas não pareceu ser notado. O outro garoto apenas cruzou os braços e apoiou o pé esquerdo na fachada. - Agora, você me chamou aqui para...?

 Sasha ficou em silêncio, observando a floresta infinita à sua frente. Dalan estava quase se arriscando para ouvir melhor, achando que ela estava falando baixo demais, quando sua voz irrompeu pelo ar. - Eu precisava de seu pessoal para checar uma coisa para mim.

 Era só isso? Dalan revirou os olhos, se amaldiçoando por ter colocado suas expectativas tão altas. De qualquer forma, ainda curioso, voltou a ouvir a conversa. - Continue. - Pediu Marcus. Sasha desviou os olhos e pareceu arrependida de iniciar aquela conversa, mas seguiu em frente.

 - Minha missão se consistiu em prender um velho que estava ocupando um território não-permitido. - Começou Sasha, se abraçando. Era difícil dizer se era por causa do frio ou da história que contaria. - A questão é que ele havia ficado louco. E supostamente... supostamente era porque tinha avistado Zemopheus. Aqui. Deste lado da fronteira.

  Dalan ficou calado, sentindo o coração disparar. Não poderia ter ouvido certo. Certamente a garota havia dito outra coisa, e não o nome da encarnação do mal, o demônio que havia enganado deuses e provocado uma guerra cujo início se misturava com o início dos tempos. Marcus não reagiu da mesma forma, mas se virou na sacada e encarou a floresta, como se conseguisse enxergar através das árvores. - Você sabe que isso é completamente irreal, não?

 - Vindo de apenas uma fonte, sim. - Disse Sasha, virando a cabeça para também encarar a mata silenciosa. - Por isso queria que você checasse com os seus passarinhos. Preciso de confirmação. Da forma mais discreta possível, por favor.

 - Não sou idiota. É claro que farei isso por baixo dos panos. - Disparou Marcus, sem se mover. Os dois continuaram em silêncio por algum tempo, ambos imaginando o pior. - E se... for verdade? O que pretende fazer com essa informação?

 Correr seria um bom início, pensou nervosamente Dalan. A garota, por sua vez, descruzou os braços. - Então eu saberei. E isso já seria um pouco melhor.

 Ela começou a voltar para dentro do edifício, e o rapaz escondido ouviu seus passos se aproximando. Desesperado, ele tropeçou até o corredor interno, andando rapidamente até seu quarto em seguida. Ouviu um copo se quebrando na distância e se assustou, apressando o passo depois. Estava quase correndo quando chegou, e adentrou o aposento como um raio, batendo a porta atrás de si. Wieder, que estava deitado em sua própria cama, abaixou o livro que lia e encarou o garoto.

 - O que houve? - Perguntou o anão. Vestia uma touca de dormir branca, e estava coberto dos pés aos ombros. Dalan não respondeu, ainda extremamente nervoso pelo que havia acontecido, e rapidamente começou a vestir seu pijama. Estava motivado por uma confiança infantil de que nada poderia atacá-lo em sua cama. - Bem, eu vou fingir que seu comportamento é normal. - Declarou Wieder, de volta à sua leitura. - De qualquer forma, queria nos parabenizar.

 - Pelo quê? - Perguntou Dalan distraído, deitando na cama. Puxou as cobertas até o queixo, com o coração ainda batendo forte.

 - Por conseguirmos fazer as tais missões incrivelmente importantes. - Respondeu o anão, sorrindo de orelha a orelha. - Normalmente você tem um tempo até fazer algo marcante numa guilda. Estamos na Aurora há menos de uma semana, e já fomos essenciais. - Ele lambeu o dedo e virou a página. - Agora só falta um repórter para divulgar nossos feitos. Talvez eu arranje um quando voltarmos à Helleon.

 O rapaz não tinha muita vontade de conversar, mas Wieder estava tão mergulhado em seus sonhos de fama que nem percebeu. Dalan se revirou na cama, encarando de olhos bem abertos a parede cinza. Será que Zemopheus estaria realmente lá fora? Espreitando, fazendo planos? E se o maior inimigo de toda Aliança estava em território teoricamente seguro, o que estava acontecendo com o exército na Fronteira? Hein? O garoto se revirou nas cobertas, crente de que a noite seria longa.

 Sasha também acreditava nisso, e pelos mesmos motivos. Ela andava calmamente pelos corredores do hotel, se dirigindo ao seu quarto. As palavras de Marcus ecoavam em sua mente. O que faria se encontrasse Zemopheus? Ele era um adversário de um nível incapaz de ser imaginado. Não havia como derrotá-lo. E isso a enfurecia por dentro. Não havia nada a fazer caso o encontrassem. Apenas rezar para uma morte rápida.

- Feche a porta. - Pediu Stella. Sasha se assustou, percebendo que já estava no quarto. De forma quieta ela obedeceu, desabotoando a camisa em seguida para vestir o pijama. A mãe estava sentada na escrivaninha, iluminada apenas por uma lamparina e cercada por diversos papéis aparentemente oficiais.

 - O que é isso? - Perguntou a garota, retirando a camisa.

 - Nossas contas. - Respondeu a outra mulher, ajeitando os óculos em seu rosto. - Com o abono do prefeito por realizarmos as missões dele, temos um caixa sobrando. Estou pensando em qual dívida pagar primeiro.

 - Tem certeza de que não existe nenhuma pegadinha nas promessa dele? - Perguntou Sasha, ansiosa para afastar a mente dos terrores ocultos.

 - Só saberei quando comparecer à reunião do Conselho Regional, Sasha. - Respondeu a mãe, puxando uma dívida de mais de sete anos, ainda dos tempos em que seu marido era o líder da guilda. - De qualquer jeito, não é um problema para agora. Preciso que você descanse para me ajudar com a logística amanhã. Lyra deve passar a noite inteira lendo os contratos das missões que realizamos para o prefeito em busca de alguma falcatrua, e irei precisar de ajuda.

 - Tudo bem. - Respondeu a garota, terminando de vestir a camisola. Se deitou na cama, pensando se contava ou não à mãe sobre o que havia descoberto em sua missão. O terror inerente àquele assunto voltou a assombrá-la, e Sasha respirou fundo. Não adiantava perturbar a mãe sobre aquilo. Pelo menos não enquanto não tivesse certeza de que estavam sob perigo. Seu trabalho era proteger a guilda, e não causar confusões.

 De qualquer forma, a Aurora por inteiro já parecia estar repleta de problemas e temores para adicionar mais um à bandeja. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Aurora: Capítulo 14 - Paralelas


AURORA
CAPÍTULO 14: PARALELAS

 Sophie permanecia calada, apoiada em um tronco de árvore à beira da clareira. Abraçada às pernas com firmeza, observava Dalan desenhar padrões na lama, resmungando consigo mesmo. A garota apoiou o queixo no joelho, tentando novamente decifrar o rapaz à sua frente. A cada dia que passava ele agia de uma forma distinta. Quando o conheceu, parecia uma pessoa tímida que se soltava quando bebia. Dias depois, descobriu que ele agia de forma diferente com outras pessoas. No jantar na sede da Aurora ele se manteve em silêncio completo, e hoje havia combinado as atitudes dos primeiros dias e uma nova, a confiante e centrada! O que estava acontecendo ali? Era algum problema com ele? Com ela? A garota afundou o queixo entre os joelhos, ainda fitando o outro. Acho que Amanda sabe o que está acontecendo, concluiu, e esse pensamento por algum motivo a fez murchar um pouco.

 Dalan, por sua vez, se concentrava na formulação de seu plano. Tinha muito pouco com o que trabalhar, e o único jeito de saírem vivos dali era saber usar o que possuía à disposição. Ele havia pego um graveto em uma das árvores caídas, e tentava desenhar um mapa vagabundo da ilha. Tinha quase certeza de que estavam sendo atacados por Nero, o elfo fugitivo que vieram prender. E ele deveria estar na ilha de Thomas Galvan há meses. Os garotos estavam em seu território. Por isso, era natural que Nero tivesse alguma certeza de que eles não representavam ameaça. Dalan sorriu, fazendo um círculo no interior do desenho rudimentar da ilha. Era ali que estava sua vitória.

 - Sophie! - Chamou, com o esquema do plano em sua cabeça. A garota saiu de seu estupor com um susto, e levantou a cabeça. - Vou te explicar o que temos de fazer. 

 O vento voltou a se intensificar, balançando o topo das árvores enquanto a noite chegava. A membro da Aurora ficou fitando o desenho do companheiro, agora cortado por inúmeras setas, e sentiu o nervosismo começar a crescer dentro de si.

 - Você acha que consegue? - Perguntou o garoto, olhando de relance para seu mapa, como se houvesse algo oculto naqueles traços. Sentiu os ferimentos de flecha arderem, e se encolheu.

 - E... eu acho que sim. - Soltou ela, como se tentasse se convencer das palavras que acabaram de sair de sua boca. - Você acha que é o melhor plano que temos? - Perguntou, olhando para o outro com a expressão ligeiramente preocupada.

 - Com as circunstâncias atuais, não vejo nada que diga o contrário. - Comentou ele distraído, agora recobrando todas as etapas de seu planejamento a fim de recalcular todas as consequências. Sophie por sua vez soltou o ar da boca, focando sua visão em um ponto aleatório enquanto tentava se concentrar. Seria assim que sua irmã agia, se perguntou. De que forma engoliria seus medos para completar sua missão? A garota sentiu o coração bater mais forte e estômago se contorcer. Por alguns instantes rezou estar de volta à sede da Aurora, ilesa, mas balançou brevemente a cabeça para afastar esse pensamento. Não ajudaria a guilda em nada se continuasse daquele jeito. Precisava ser mais forte. Mais corajosa. Endureceu o maxilar e balançou as duas mãos em punho, tentando emular sua irmã. Dalan, alheio à tudo isso, se levantou de repente. - É melhor irmos antes que escureça ainda mais. - Disse, passando o pé em seus esquemas. A companheira engoliu em seco, desejando internamente apenas mais alguns segundos para se encorajar. No entanto, não disse uma palavra.

 Os dois caminharam pela mata fechada, procurando chegar às bordas da ilha. Havia uma espécie de estrada que seguiam, um estreito espaço vazio entre as árvores, que se retorcia e se alterava com a mínima alteração no terreno. Os membros da Aurora permaneciam calados, evitando até mesmo se olhar, cada um afundado em seus próprios pensamentos.

 Dalan enfrentava um debate em sua mente. Parte dele queria puxar uma conversa com Sophie, ansiosa para tentar limpar seu nome com a companheira. Outra preferia ficar quieta, sabendo que as chances de falar alguma besteira eram enormes. No entanto, não havia sido por causa de seu silêncio que a garota havia ficado irritada com ele, retrucou a primeira. Tinha resolvido que ia agir normalmente com as pessoas, mas isso não significava que tinha confiança em seu taco, respondeu a segunda. De repente, uma terceira voz entrou na disputa. Não era melhor continuar agindo do jeito que estava, e fazê-la se surpreender com sua concentração e seu plano incrível? As outras duas vozes murmuraram em concordância. Realmente, era a melhor escolha, e fez-se o consenso geral.

 Os pensamentos na cabeça de Sophie, por sua vez, eram mais organizados. Isso com certeza era culpa dela, assumiu. Se Dalan agia de forma diferente apenas com ela, tinha algo que havia feito. Mas o quê? Não se lembrou de nada de errado. Será que havia sido muito atirada quando se conheceram? Não seria surpreendente. No entanto, o que ele queria que ela fizesse? Havia entrado na Aurora derrotando Sasha, parecia simpático, era bonito... Sophie corou, temerosa de que seus pensamentos estivessem muito altos. Olhou de soslaio para Dalan, como se ele tivesse escutado, mas o rapaz continuava virado pra frente. Isso fez com que a garota se irritasse. Mesmo que ela tivesse feito algo errado, isso não o isentava de ser falso. Sabia disso. Ele tratava Amanda de forma diferente. A irritação se acumulou na cabeça dela, e quando percebeu já havia falado em voz alta.

 - E Amanda? - Perguntou sem pensar. O companheiro a olhou, um pouco assustado, e Sophie desviou imediatamente o olhar. Corava agora mais do que nunca, e quase tropeçou em uma raiz exposta. Isso não é coisa que se pergunte, censurou. Se ele gosta de Amanda, não era da conta dela. Não tinha que se envolver nisso.

 - Ah. - Soltou o rapaz. Realmente, a garota deveria estar preocupada. Estavam afastados por algum tempo, e em território hostil. É a sua hora de transpirar confiança e segurança, disse para si mesmo. - Não se preocupe, eu sei o que estou fazendo. - Nossa, isso nem soou convencido, pensou ironicamente.

 Sabe, questionou internamente Sophie, reacendendo a raiva. Sabia que estava sendo falso? Ou sabia que gostava dela e nada mais importava? Sabia? Sabia? - Você sabe? - Deixou escapar a garota. Se arrependeu imediatamente disso. Era melhor ficar calada. Estavam em uma missão, e picuinhas só trariam problemas.

 Dalan, por sua vez, se preocupou. Reviu o plano em sua cabeça, pensando pelo ponto de vista da companheira. Realmente, pareceria que ele estava pouco se importando com Amanda. Dê segurança para ela, gritou sua mente. Mas como? Sem nem mesmo refletir, ele passou os braços pelos ombros de Sophie, aproximando-a de si. - Não precisa se preocupar. Eu me importo com ela. - Nossa, isso soou bastante heróico. Se parabenizou com um sorriso. Parabéns pelo improviso. Sem dúvida, havia feito uma excelente impressão.

 O quê, quê, como, ele... QUÊ? Sophie gritava em sua cabeça, se enchendo de fúria. Dalan não tinha nem mesmo a pachorra de se manter sutil. Ele realmente gostava de Amanda, e agora vinha jogar em sua cara? Sério? Não conseguia acreditar no que tinha ouvido! E ainda a abraçava! Que... nossa! ARGH! Ela respirou fundo, se controlando para não explodir. Não demonstre nada para ele, repetiu internamente. Não cause mais problemas do que já causou. - Que... bom. - Respondeu com esforço.

 O rapaz sorriu, soltando-a. Não havia motivo para se preocupar, pensou consigo mesmo. Tudo havia ocorrido de forma perfeita.

 Continuaram caminhando por mais alguns minutos, desta vez conservando o silêncio. Perceberam que haviam chegado na beira da ilha quando avistaram uma forte onda bater na lateral de rochas da ínsula, espirrando água para o alto. Dalan se adiantou com cuidado, mantendo-se na proteção das árvores. O céu avermelhado do pôr-do-sol contrastava com o azul-escuro das águas, se propagando até onde a vista alcançava. Uma tempestade vinha do leste, e usava como batedor o vento forte e salgado. Seu sopro agitava as árvores e trazia consigo os sons dos trovões ao longe. O garoto se recolheu de volta ao interior de Thomas Galvan, ligeiramente assustado pelo perigo iminente.

 - Vamos lá? - Perguntou distraído à companheira, afastando uma folha de seu caminho enquanto voltava. A garota estancou, arregalando os olhos.

 - A-agora? - Balbuciou. Sentiu algo pesado e gélido descer pela garganta quando engoliu em seco. O plano agora parecia tão imaterial e impossível, que se surpreendeu por não ter percebido isso antes. Ela torceu as mãos, desviando o olhar e tentando juntar forças para seguir em frente.

 Dalan, por sua vez, pôs as mãos no quadril e se virou para a floresta. Havia um estreito caminho à sua frente, que parecia tangenciar a borda da ilha. À direita ficava o mar, e à esquerda o restante da mata. Isso tem muitas chances de dar certo, considerou. Ele olhou de relance para o lado, notando finalmente o nervosismo de Sophie. Talvez precisasse repetir o plano, concluiu. - Você só precisa manter sua posição e ficar invisível. Se seguir isso e ficar de olhos atentos, tudo vai dar certo.

 - Certo... - Respondeu a garota, soltando o ar preso. Conseguia fazer aquilo. Era pouco. Olhou para o companheiro mais uma vez e desapareceu, se tornando apenas uma camisa e um vestido no ar. Passou as mãos nos cabelos esperando achar a boina, mas ela estava perdida em algum canto da floresta. Bem, pelo menos ficava mais discreta, assumiu. Sem mais uma palavra adentrou alguns passos na floresta, olhando ao redor em busca de algo suspeito. Era esse seu trabalho. Era fácil, repetiu para si mesma.

 Na estrada o rapaz começou a andar, esperando que fosse acompanhado de longe pelo outro membro da Aurora. A dor perto do quadril estava alta, e por um instante temeu que estivesse envenenada. Respirou fundo, procurando se acalmar mas dúvidas de seu plano começaram a surgir. Era um alvo, um treino de tiro ao alvo andando lentamente numa zona de terror. Engoliu em seco, tentando se acalmar. Tudo dependia de Sophie. Ela estava cobrindo sua retaguarda. Se perguntou, por algum momento, se a garota entendeu a responsabilidade que ele depositou nela. Era uma troca, pensou. Confiança por confiança. Se tudo desse certo, ela ainda iria agradecê-lo pela fé de ter colocado sua vida nas mãos dela.

 Oh céus, oh céus, oh céus, repetia Sophie internamente. Mas que droga, Dalan. Isso era muita responsabilidade para ela. Tinha que ficar de vigia enquanto andava, rezando que suas roupas se camuflassem na floresta escura, e sabendo que qualquer deslize provocaria a morte do companheiro. Por quê? Quem faria uma coisa dessas? Não haveria plano melhor? Ela olhou para cima, como se esperasse uma resposta dos deuses, e seu coração parou. Ela havia vindo.

 Havia um elfo apoiado em um galho grosso um pouco acima de sua cabeça, puxando uma flecha da aljava em suas costas. Ele tinha o rosto fino e membros longos, contribuindo para sua alta estatura. Seus olhos eram ligeiramente puxados, ainda que bem grandes, e o nariz era fino e longo. Sua orelhas eram pontudas, e se curvavam de forma caracteristicamente élfica para cima, apontando para o céu. Tinha cabelos longos e negros, que se encontravam emaranhados e sujos, tais como as roupas verdes que usava. Era a primeira vez que Sophie via um elfo de tão perto, e se surpreendeu com a leveza e suavidade que aquela raça naturalmente passava. A admiração passou, no entanto, no instante em que o suposto fugitivo Nero retesava o arco. Agora tinha que fazer o que fora instruída. Hesitou, com medo, por ligeiros décimos de segundo até que notou que o elfo havia acabado de mirar. A voz saiu de sua boca antes que ela percebesse. - NÃO! - Gritou, pulando para o galho. Nero se assustou com aquilo, e o momentâneo desconcertamento foi o suficiente para que Sophie conseguisse derrubá-lo de onde estava, caindo no chão.

 Na estrada, Dalan ouviu o grito. Estava longe, pensou aterrorizado, e disparou na direção do som.

 A garota por sua vez se jogou desesperadamente em cima do elfo para impedí-lo de pegar seu arco. Tentou roubar o arco, mas Nero grunhiu e desferiu uma cotovelada raivosa em seu rosto. A cabeça de Sophie foi impelida para trás, com o sangue voando do nariz em um arco, e ela caiu de costas para o chão. Tentou chutar o adversário, mas ele já havia rolado para trás para ficar de pé. A aljava, no entanto, havia caído. A jovem se atirou para se por entre o ofensor e sua munição, segurando a bolsa de flechas com um agarrão apertado. Nero chutou-a com força nas costelas, fazendo-a rolar na terra úmida. Por entre os olhos fechados de dor, notou o elfo se adiantando para pegar uma flecha. Tateou cegamente, batendo nas mãos élficas que tentavam recolher uma seta mortal. Um pé afundou em seu estômago, drenando suas forças e seu ar. Sophie arfou com os olhos bem abertos, e o elfo recolheu uma flecha, que prontamente preparou para o tiro final.

 - ARRGH! - Grunhiu Dalan saindo do meio das árvores. Ele jogou o ombro contra Nero, que foi impelido para longe. Sua flecha foi disparada sem direção, acertando um arbusto próximo. O membro da Aurora saltou por cima da companheira, procurando tirá-la do perigo imediato. O elfo por sua vez se adiantou, desferindo uma série de golpes no rapaz que tentava se defender como podia, especialmente as regiões feridas previamente. Ele é rápido, pensou assustado enquanto bloqueava os socos e chutes. Estava tão acuado que só conseguia se proteger. Infelizmente, era como lutar contra uma força da natureza. Nero atacava de forma insana, o que deixava seus golpes praticamente imprevisíveis. Dalan notou um soco vindo de sua esquerda, e levantou as duas mãos para se defender, procurando realizar o contra-ataque. O elfo por sua vez se jogou na direção de seu próprio golpe, trazendo consigo o braço esquerdo pelo outro lado. Um punho acertou o garoto no pescoço, que se desestabilizou. Foi o suficiente para que Nero socasse-o no estômago, fazendo com que ele caísse um pouco. Um pé surgiu em seu campo de visão em seguida, chutando-o na face e o jogando para o chão. Algo estalou no nariz, e Dalan caiu estatelado na terra molhada. O adversário correu para buscar suas armas, e o garoto considerou momentaneamente suas opções. Fez uma decisão de último segundo, e quando Nero já estava de pé com o arco retesado, o rapaz protegia Sophie, se pondo entre ela e as flechas.

 - Dalan... - Começou a garota, corando. Não sabia como agir naquela situação, mas instintivamente se moveu lentamente para trás do companheiro. Sua raiva havia sumido, e no lugar dela havia o medo terrível de Nero disparar qualquer flecha no garoto.

 - Não se preocupe. - Tranquilizou Dalan. Ele estava bem calmo, considerando que havia uma arma apontada para sua cabeça. - Tudo está indo de acordo com o plano.

 - O quê? - Sibilou a garota. Definitivamente, as coisas não pareciam estar de acordo com o plano. Nero permaneceu em silêncio, mas sua expressão demonstrava curiosidade. Dalan não percebeu isso, mas continuou a falar. Era tudo que lhe restava agora.

 - Bem, pra começar eu soube de onde viria o ataque de Nero. - Começou ele, falando de forma bem lenta e clara. Precisava ganhar tempo e a atenção do elfo. - Ele precisava de cobertura para soltar suas flechas, pois não queria um combate direto. Era mais fácil atirar de longe. Com isso, eu limitei a área de ataque. Se andássemos à beira do mar, só teria uma direção em que ele poderia atacar. E você estava cobrindo essa área. - Completou, virando o rosto para a companheira.

 - Ah... - Disse Sophie, olhando de relance para o elfo. Ele continuava calado, encarando-os com os olhos abertos e insanos, mas parecia interessado no que diziam. Precisavam continuar falando. - Só que isso não deu certo, né? Ele agora está no controle da situação.

 - Na verdade, não. - Disparou o rapaz, sorrindo para mascarar o temor que sentia no peito. Era agora ou nunca. - Existe uma quarta peça nessa ilha. E eu soube exatamente como atraí-la. - Nero arregalou ainda mais os olhos. Era como se perguntasse o que Dalan queria dizer. O garoto, por sua vez, apontou na direção do mar. - AMANDA, AGORA! - Gritou.

 O elfo olhou para a direção em que o membro da Aurora apontava, e as folhas se agitaram, anunciando a presença de outra pessoa. Só que do outro lado. Amanda surgiu da floresta, com gravetos no cabelo e roupas rasgadas. Ela gritou, conjurando o vento com sua mão direita. O sopro derrubou as armas das mãos assustadas de Nero, dando a oportunidade para Dalan. Ele se levantou em um salto, espalmando a mão direita. Girou o corpo e moveu o braço em um arco, segurando a face do elfo por entre os dedos e empurrando-a para baixo. No movimento de descida, concentrou seus poderes. Nero já estava com o rosto congelado na queda, e quando sua cabeça bateu na terra, desmaiou sem resistências.

 O rapaz se apoiou nos joelhos, sentindo o alívio causar uma queda vertiginosa na adrenalina. Uma mão suave tocou em seu ombro, e quando levantou a cabeça viu Amanda sorrir para ele. - Você tem uma sorte impressionante, sabia? - Disse ela.

 - Isso não é sorte. - Respondeu o garoto, também sorrindo aliviado. - Isso é meu planejamento. - Os dois soltaram o ar pelo nariz, ampliando os sorrisos. Dalan notou que Sophie ainda estava no chão, e se aproximou com a mão estendida.

 Quando a garota encontrou seu olhar, seus sentimentos entraram em pane. O mesmo rosto que a fazia sentir raiva pela falsidade e ignorância agora a tranquilizava por dentro. Corou, e ao perceber que estava vermelha, corou ainda mais. Procurou alguma palavra em seu vocabulário, consciente dos segundos silenciosos que se passavam. - É... - Depois disso, não conseguiu mais nada. Aceitou a ajuda para se levantar, mas desviou o olhar.

 - Você esperou eu terminar a frase para atacar? - Perguntou Dalan para Amanda. Não se lembrava da última vez em que esteve tão tranquilo. Seu plano havia dado certo, resolvera o dilema que havia o atormentado nos últimos dias, e tinha certeza de que havia feito uma boa impressão em Sophie. Não havia como ficar melhor.

 - Eu realmente gostaria de dizer que sim, mas o timing foi perfeito. - Respondeu a garota, cruzando os braços. Conseguiram fazer aquela missão sem que nada terrível acontecesse, e pelo visto não teria que se preocupar novamente com as idiotices de Dalan. Ele parecia ter finalmente compreendido o que ela tentara dizer.

Sophie, por sua vez, tentava entender seus sentimentos. Segurou as costelas com a mão direita, em silêncio enquanto observava os outros dois conversarem tranquilamente. Dalan e Amanda pareciam ter resolvidos os problemas que os assolaram durante o último dia, mas Sophie havia apenas aprofundado os seus.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Aurora: Capítulo 13 - A Ilha de Thomas Galvan


AURORA 
CAPÍTULO 13: A ILHA DE THOMAS GALVAN

 As ondas em alto-mar eram cortadas com suavidade, divididas pela proa afiada de um brigue de madeira que cruzava imponente o mar de Cellintrum, embelezado por suas águas escuras e profundas. A tripulação do navio, cerca de cem homens tatuados e sem camisa na maior parte, se agitava e gritava para abaixar as velas e aproveitar o vento que vinha do sudoeste. O capitão do Guia Eterno, um homem de longa barba e roupas leves, xingava seus marinheiros para que acelerassem a viagem, e sua voz alcançava cada tábua de madeira impregnada pelo cheiro de sal marinho, chegando até o escuro convés inferior. Nele, sentado em uma rede que balançava a cada toque das águas, havia uma das três razões da pressa do Guia Eterno. Dalan Glacius, um dos mais novos membros da Aurora, que encarava a longa cama de nuvens no alto do céu por uma pequena janela circular.

 O tempo nublado compartilhava de seu estado de espírito, servindo como um espelho para suas emoções. O rapaz se ajeitou na rede, observando agora um dos diversos pedaços de carne de porco pendurados no teto enquanto colocava as mãos atrás da cabeça, se distraindo da voz grave do capitão. Seus pensamentos, revoltos como as ondas lá fora, se encontravam e se chocavam. A razão de sua meditação era uma só, a indefinição de como agir com as outras pessoas. Ele sempre fora uma pessoa difícil e sem amigos, e havia tentado mudar isso quando entrou na Aurora. No entanto, esse método não estava funcionando, e ele estava ficando sem alternativas do que fazer.

 Enquanto pensava sobre isso, foi distraído por sons de tropeço vindo do outro lado do brigue. Dalan levantou a cabeça com as mãos, observando Amanda, uma garota de longos cabelos castanhos que naquele dia vestia uma camisa branca sem mangas e uma longa calça rosa, cambalear pelo convés. Ela se chocou com as carnes tentando se equilibrar e se aproximou do garoto com uma cara zumbificada, caindo em cima dele. - Eu vou morreeeeeeer... - Soltou com a voz fraca e grave, se segurando nos nós da rede.

 - Você pode morrer em outro lugar? - Perguntou o rapaz, tentando se soltar da companheira. Amanda havia passado mal desde que o Guia Eterno saiu do cais de Helleon, e piorado desde então. No momento em que Dalan tentava tirar o corpo dela de cima do seu, Sophie entrou no aposento onde estavam vestindo sua característica boina, desta vez azul, e uma camisa da mesma cor que deixava os ombros à mostra, completa com uma saia branca que chegava aos joelhos.

 - O capitão mandou dizer que estamos... - Começou ela, até que viu os dois companheiros embolados um em cima do outro. Seu rosto foi imediatamente preenchido por um vermelho forte, embora não conseguisse tirar os olhos da cena. - ... chegando. - Completou com a voz sumida. Desviou os olhos para o outro lado, e deu pequenos passos para trás para sumir de vista.

 - Não, espera... - Tentou começar o rapaz, mas ela já havia sumido. Dalan inspirou com força, sentindo a raiva se acumular, e empurrou com força Amanda. Ela se jogou para o outro lado da rede, ficando de boca aberta enquanto encarava o teto. O rapaz se levantou, ajeitando o traje negro que vestia. Se havia uma pessoa com quem não precisava se preocupar em como agir, era ela. - Qual o seu problema?

 - As ondas. O mar. As ondas. O mar. - Respondeu a garota de forma fraca, encarando fixamente o teto. Uma onda forte acertou o navio, e a garota fechou os olhos com violência. - Alguém avisa a esse bêbado que se chama de capitão que se eu soubesse que ia ter que pagar por isso, viria nadando.

 - Vou tentar. - Respondeu Dalan se levantando. Para ele, filho de um comerciante do mar e nascido em uma ilha, um navio era uma segunda casa. Não ficava enjoado no mar desde os quatro anos. - Enquanto isso, tente pegar um pouco de ar. - Sugeriu. Não houve resposta do outro lado, e o garoto deu de ombros. Passou os minutos seguintes procurando Sophie, mas a garota parecia ter sumido do Guia Eterno. Frustrado, ele se sentou no convés pelo resto da viagem.

 Chegaram ao fim do trajeto ao entardecer, com o sol se aproximando do horizonte. A Ilha de Thomas Galvan era um oásis de quietude no meio do mar agitado, onde nenhum animal silvestre conseguia fazer casa. Ela era pequena e selvagem, com rochas pontiagudas protegendo-a de visitantes indesejados e navio desavisados. Um barco a remo se desacoplou do Guia Eterno e contornou os obstáculos até chegar a um paredão de rochas, onde deixou os três membros da Aurora.

 - Nós iremos buscá-los amanhã ao nascer do sol! - Gritou o marinheiro, se segurando com força em uma das pedras. O trio de garotos se equilibrava no topo do paredão, sentindo desconfortavelmente o vento aumentar e trazer enxurradas de sal e água, que tornariam as pedras ainda mais úmidas e traiçoeiras.

 - Tudo bem! - Respondeu Dalan, se virando para a ilha. Do ponto onde estava, Thomas Galvan se agigantava por cima dele, com várias sequências de paredões separando-os da mata fechada. Começaram a andar por uma pseudo-estrada que serpenteava pelos rochedos negros, se segurando por causa do vento. Sophie ia andando na frente, testando o terreno, seguida por Dalan e Amanda, que continuava se recuperar. O rapaz, distraídamente observando a garota da frente segurando tímida e firmemente a saia para que não voasse, se pôs a pensar. Sophie continuava parecendo irritada com ele, que ainda não sabia como agir em resposta. Deveria iniciar uma conversa ou ficar quieto? Continuaria meditando indefinidamente até que uma corrente particularmente forte de ar agitou de forma mais forte o tecido branco à frente, dando-lhe adrenalina para se adiantar. - O nome de nosso alvo é Nero Entho. Ele é um elfo acusado de diversos roubos, e que se escondeu nesta ilha para escapar das autoridades. Nossa missão é encontrá-lo e trazê-lo de volta ao continente.

 - Entendi. - Respondeu secamente Sophie, sem virar para trás. Uma risada abafada de trás fez com que Dalan corasse e fizesse uma nova investida.

 - E-estranho, não? - Perguntou, desta vez um pouco nervoso. - D-digo, mandarem a gente para prender um elfo. Geralmente questões raciais são bem restritas, não? - Dalan não conseguiu ver o rosto da garota, mas percebeu o silêncio incômodo que se seguiu à sua frase.

 - Talvez. - Ao dizer isso, apressou o passo em direção à mata fechada, deixando o rapaz para trás. Ele furiosamente tentou entender o que havia dado errado, quando um braço se jogou em seu pescoço.

 - Essa doeu um bocado. - Disse Amanda, se inclinando por trás do garoto. Ele tentou se afastar bruscamente, mas quase tropeçou no chão úmido. A companheira segurou sua mão, o ajudando a se apoiar. - Você não deveria andar assim. Sua cara está no chão em algum lugar. - Completou ela, sorrindo cansada. O enjôo ainda não havia passado de forma completa, mas isso não parecia a impedir.

 - Você não devia estar passando mal? - Perguntou o rapaz, se virando para seguir em frente.

 - Dalan, Dalan, Dalan. - Repetiu a garota, colocando as mãos cruzadas atrás de si e se inclinando novamente na direção dele. - É só eu me tirar os olhos do mar que melhoro. E além do mais, como eu poderia ficar passando mal vendo você agir assim?

 - Assim como? - Perguntou o outro, rabugento. Amanda puxou sua camisa, fazendo com que ele se virasse para ela.

 - Dalan, eu tive uma semana bem difícil, portanto preste atenção. - Começou a garota. Ela ainda tinha uma expressão animada, mas seus olhos estavam sérios e sua voz direta. - Eu tenho apenas quatro coisas que me irritam na vida, e você consegue cumprir dois desses requisitos: falsidade e burrice. - Completou ela esticando as sobrancelhas.

 - E-eu... - Começou o membro da Aurora, nervoso, mas Amanda colocou o dedo em seus lábios.

 - Presta atenção que eu só vou dizer isso uma vez. - Disse com os olhos arregalados e fixos. - Seja você mesmo. Por todos os deuses, seja você mesmo. - Com isso, ela recolheu o dedo e seguiu em frente, sem olhar de novo para o rapaz. Dalan ficou onde estava por algum tempo, até se apressar para acompanhar as duas companheiras. Se fosse tão fácil assim eu perceberia sozinho, pensou ele rabugento, mas sentiu que ela estava certa. Mesmo que nunca fosse admitir.

 Os três seguiam mata adentro quando a chuva começou. O céu escureceu rapidamente, trazendo consigo pingos finos que desciam de forma quase vertical, agulhando a pele dos garotos. Havia uma estrada sinuosa que serpenteava a extensão da ilha, tentando desviar das inúmeras árvores tropicais que se embaralhavam no chão enlameado, mas era tão acidentada e coberta com plantas caídas que eles rapidamente se perderam. Quando chegaram em uma pequena clareira, Dalan subiu em um tronco, limpando os pés da terra molhada e gosmenta, e olhou ao redor em busca da estrada perdida.

 - Saco. - Resmungou ele consigo mesmo, colocando a mão por cima dos olhos para tentar enxergar melhor. A chuva forte formava uma espécie de névoa, limitando o campo de visão de todos ali. O rapaz desceu cuidadosamente do tronco, se aproximando das companheiras. - Você não consegue cancelar esse vento? - Perguntou à Amanda. A garota olhou para os pingos descendo rapidamente, balançando a cabeça em seguida.

 - Está muito forte. Não posso fazer nada que vá alterar muita coisa. - Admitiu. Sophie segurou a boina com as duas mãos ao ser atingida por uma lufada de vento mais forte, fechando os olhos. Dalan pôs as mãos na cintura, mirando distraído as árvores à sua direita.

 - Acho que -- Começou a falar o garoto, mas foi interrompido por algo pequeno acertando a lama aos seus pés. Os três olharam para baixo, tentando identificar o que era. Amanda se apoiou em um joelho, manchando a calça rosa com o marrom gosmento, e identificou o que parecia ser uma pequena flecha.

 - Ei... - Disse ela, quando algo zuniu acima de sua cabeça. Seu cérebro ligou os fatos rapidamente, e ela se levantou aterrorizada. - CORRAM! - Gritou, jogando a mão para frente. Projetou uma surto forte de vento para cima, fazendo com que uma nova flecha fosse desviada, rodopiando furiosamente no ar. Dalan e Sophie também reconheceram o objeto, e antes dele afundar na lama os três corriam em disparada para a floresta.

 O rapaz imprimiu o máximo de suas forças nas pernas, rezando aos deuses para que protegessem suas costas. Os pingos de chuva pinicavam com ferocidade sua pele, ameaçando serem pontas de flecha mortais. O vento zunia e o chão escorregava, mas Dalan conseguiu se manter tropeçando em linha reta, correndo como nunca. Não conseguiu localizar as garotas ao seu redor, mas quando tentou olhar ao redor sentiu algo cortar seu quadril, e o ferimento ser exposto à chuva. Grunhiu, sentindo outra seta arranhar suas costas. Sua mente trabalhou com empenho desesperado, e ele esticou a mão à frente para congelar um trecho vertical de terra molhada. Se jogou com os pés para frente, deslizando no gelo marrom com o cotovelo direito acompanhando seu corpo e a mão esquerda ao lado dos pés, congelando o caminho à sua frente. Flechas se afincavam na lama gélida, e a floresta se aproximava.

 Quando ficou a meros passos da cobertura das árvores, Dalan usou o braço direito para se impulsionar para frente, ficando de pé de forma desajeitada. Saltou os últimos metros, mergulhando de cabeça nas raízes expostas. Bateu em várias, mas se levantou e desatou a correr, protegido pelas árvores tortuosas da chuva e das flechas. Seguiu em zigue-zague, com o cabelo molhado tapando sua vista e os ferimentos ardendo. Só parou quando tropeçou, caindo de cara no chão. Se virou de costas em um instante, com o sangue escorrendo do nariz, esperando ver a seta que iria findar sua vida. No entanto, não veio nada. Ele arfou com violência, esperando uma nova ameaça até que a adrenalina se esvaiu de seu corpo.

 Dalan jogou a cabeça para trás, deitando na terra molhada com os olhos fechados e ainda ofegante. Ficou alguns segundos parado, recuperando o fôlego, para se levantar com dificuldades em seguida. Limpou o sangue da boca com as costas da mão enquanto que segurava o corte no quadril. Era um pouco acima do osso, felizmente, mas havia sido profundo. O garoto apoiou o ombro em uma árvore, gerando uma fina camada de gelo em uma das mãos com a outra, esfregando-as rapidamente para limpá-las. Após isso, congelou novamente a palma e segurou o ferimento, trincando os dentes e esperando que a água derretida pudesse limpar o corte. Alguns instantes de dor depois ele seguiu em frente, consciente de que ficar no mesmo lugar não era a melhor idéia.

 Preciso encontrá-las, ordenou o garoto a si mesmo enquanto que avançava pela floresta densa. A chuva já havia parado, mas trovões ao longe indicavam um possível retorno. Dalan se sentia extremamente desconfortável, pois o que quer que tinha os atacado na clareira ainda estava por ali. Seria Nero ou outra ameaça? Qualquer barulho na mata o fazia se encolher, esperando uma flecha em seu peito. Contudo, continuava vivo, mesmo trinta minutos depois de se separar das companheiras da Aurora.

 Cansado, o rapaz se sentou no chão, suspirando com pesar. Com a vista distraída esquadrinhou a área em busca de qualquer ameaça. Era uma clareira, menor do que a última, coberta por folhas, roupas suspensas no ar e duas árvores caídas. Dalan aproveitou para esfregar os dedos nos olhos, até que algo o fez parar. Voltou a abri-los, vendo uma camisa tomara-que-caia azul e uma saia branca vindo em sua direção. No momento em que sua mente havia se convencido de que estava insana, Sophie se materializou nas roupas, saindo de um estado invisível para o visível.

 - Dalan! - Ofegou ela, se ajoelhando ao seu lado. A garota tinha o rosto sujo de terra e o cabelo desembaraçado, e um ferimento no couro cabeludo que escorria um filete de sangue na face e no curto cabelo loiro. Não havia sinal de sua boina. - Finalmente te encontrei!

 - Sim! - Respondeu o rapaz, ainda surpreso pelo surgimento da companheira. Realmente, não havia perguntado a ela quais eram seus poderes antes. Aceitou a mão da companheira para se levantar, e percebeu que ela tremia. - Você... encontrou Amanda? - Perguntou, um pouco desconcertado.

 - Não, mas precisamos encontrá-la. - Gemeu Sophie, apertando as mãos enquanto que desviava o olhar. - Eu consegui achar você, então vamos conseguir achá-la. - Disse em seguida, parecendo ser mais para si mesma do que para o companheiro. Dalan se adiantou para falar alguma coisa, mas se calou. Não daria certo. Havia algo em sua cabeça, irritantemente com a voz de Amanda, que o alertava. Ela está claramente com medo, dizia a voz, e não vai conseguir reconfortá-la pois ela não confia em você.

 O garoto estreitou minimamente os olhos enquanto que o cérebro ia finalmente juntando as peças. Confiança. Era isso que queria conquistar na Aurora, e era isso que não conseguia de nenhuma forma. Sophie, assim como os outros, precisavam de alguém que tivessem certeza de que conheciam, e Dalan, tentando ser o que não era, jamais conseguiria. O rapaz engoliu em seco, se adiantando. Precisava ser ele mesmo. Por Sophie, pela Aurora e por Gamora. Custe o que custar.

 - Vamos encontrá-la. - Disse Dalan com a voz firme, algo que a outra garota ouvia pela primeira vez. Ela se virou, vendo-o com o olhar determinado. - Eu tenho um plano. - Sophie ficou em silêncio, mas concordou minimamente com a cabeça enquanto o fitava com os olhos arregalados. Dalan, por sua vez, pensava atenciosamente. Era a primeira vez em que estava no comando de uma missão, sem Amanda, Wieder ou Sasha para tomar as rédeas. A sensação o fez sorrir, se animando mesmo com a situação em que se encontravam.

 Dessa vez, iriam seguir o seu plano.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Aurora: Capítulo 12 - Garganta Cortada


AURORA
CAPÍTULO 12: GARGANTA CORTADA

 Um vento frio percorreu as montanhas de Tina, desviando dos picos e elevações diversas, até encontrar um imenso vale e descer como uma pedra. O vale separava duas regiões montanhosas, Felinyr e Gargabear, e era marcado pelo rio Venulis, uma imensa corrente abastecida por diversas cachoeiras adjacentes, que contribuíam para o ambiente desolado com uma forte névoa proveniente das quedas d'água. Lá embaixo, à beira do rio, uma vegetação rasteira ousava crescer rebeldemente. No entanto, ela não conseguia subir as montanhas, pintadas de um cinza fraco e morto, dando à região um ar de morbidez. Os humanos a chamavam de Vale das Cachoeiras, que como grande parte das montanhas de Tina, se dizia que era amaldiçoada, uma mancha pálida no meio de uma área de florestas tropicais. E era ali que três membros da Aurora caminhavam através de uma das muitas estradas serpenteadas, com uma missão nas mãos.

 O vento desceu a encosta rochosa de uma montanha, que dividia a elevação em uma descida grave e outra aguda, encontrando a voz de uma garota de cabelos azuis-claros e presos em longas maria-chiquinhas, que balançaram agitadamente pela lufada de ar. Ela vestia um apertado colante preto e azul, do qual possuía diversas cópias em seu guarda-roupa, e ralhava com os dois companheiros que haviam ficado para trás.

 - Se não se apressarem, deixarei vocês para trás. - Era o que havia alertado Sasha, do alto de uma elevação, mantendo o rosto impassível enquanto controlava sua raiva com os outros dois. Precisava manter a pose e o respeito, pensou, para que conseguisse completar essa importante missão sem falhas. E isso significava aturar Julie e Koga, dezenas de metros atrás dela.

 - Você poderia descer do seu pedestal e vir nos ajudar, sabia? - Retrucou Julie, balançando seus curtos cabelos loiros, franzindo o cenho e indicando Koga ao seu lado. Ela usava um vestido branco e longo que descia até os joelhos, acompanhado por uma calça negra por baixo e um echarpe vermelho enrolado no pescoço. O rapaz de longa trança negra, por sua vez, vestia um traje de peça única da mesma cor que a montanha cuja encosta caminhava, e da mesma cor de seu rosto pálido. Ele usava seu cajado para se apoiar no chão pedregoso, e levantou a cabeça pela primeira vez em longos minutos. - Você sabe que ele passa mal em regiões montanhosas, Sasha! - Gritou irritada. Já estava bastante estressada por sua irmã, Sophie, ter ido a uma missão perigosa sem ela por perto, e não tinha muita paciência sobrando para Sasha.

 - Então você vai ficar para trás enquanto que eu faço todo o trabalho? - Perguntou a outra garota, se virando para seguir em frente. - Faz bem o seu estilo, Julie. Se proteger enquanto outros se arriscam. - Alfinetou.

 Uma veia na têmpora da loira pulsou, e ela se adiantou com os punhos cerrados. - Não sabia que abandonar os companheiros era o seu estilo, senhorita líder perfeita! - Gritou com escárnio. Sasha estancou, e ela continuou com a voz um pouco mais baixa. - Digo, eu sabia desde o início que esse era seu estilo, mas achei que você estava tentando ser um exemplo para todos nós, meros mortais. - Terminou com a mão no peito, sarcástica. A garota de cabelos azuis ficou imóvel por alguns segundos, enquanto que o vento balançava seus cabelos, até que ela se sentou.

 - Venham logo. - Anunciou, com a voz impassível. Julie bufou e deu um tapa no pescoço de Koga, obrigando-o a se apressar.

 - É tudo culpa sua. - Disse irritada, apressando o passo enquanto que segurava o amigo pelo braço.

 Os três seguiram pela estrada acidentada, subindo e descendo a encosta da montanha enquanto que o rio corria agitado à direita. A paisagem permanecia praticamente imutável, com as rochas cinzentas e a ausência de qualquer ser vivo contribuindo para o clima mórbido. A única diferença era que a cada passo os membros da Aurora adentravam cada vez mais a névoa gerada pelas inúmeras cachoeiras no vale. O som delas ao longe, junto com o vento agitado, contrastava com o silêncio entre as duas garotas, que evitavam até se olhar. Koga ficava no meio delas, visivelmente incomodado pela situação.

 Eis que, ao olhar distraída para a encosta da montanha, Sasha subitamente parou e colocou a mão nos rostos dos companheiros, com o olhar fixo. - Calados.

 Julie, cujo coração só não havia pulado para fora do corpo pela palma de Sasha em sua boca, acompanhou o olhar da colega. Havia uma fresta discreta no leito montanhoso, disforme e alta, e um homem estava parado à frente dela. Sasha girou os braços e empurrou os outros dois para baixo pela nuca, derrubando-os no chão.

 - Qual é a droga do seu problema? - Perguntou Julie por entre os dentes, tentando se levantar. Sasha, no entanto, a segurou com mais força.

 - Quieta. Estamos muito destacados. - Ordenou a garota, tentando levantar a cabeça para enxergar o homem. Koga, por sua vez, preferiu continuar onde estava.

 - Claro que estamos muito destacados. Já olhou pra sua roupa? - Disse Julie com a voz entediada, girando os olhos para o outro lado. A outra, por sua vez, corou fortemente.

 - Ela é funcional. - Disse ela em voz baixa. O homem à frente se virou e voltou para a caverna, fazendo com que Sasha se levantasse, puxando os companheiros pelo colarinho. - Vamos. - Ordenou com a voz séria.

 Eles seguiram apressadamente em direção à caverna, saindo da estrada e percorrendo um caminho muito mais acidentado do que o que haviam estado antes. Em dois pontos precisaram apoiar as mãos no chão para subir paredões de rocha, procurando o percurso mais protegido caso o homem voltasse ao ar livre. Koga, suando em baldes, se esforçava para acompanhá-las, enquanto que Julie ficava um pouco para trás para ajudá-lo.

 Finalmente o trio chegou à encosta da montanha, escondidos atrás de uma rocha caída. Sasha inclinou o corpo para observar a área próxima à fresta, e se virou para os outros. - Acho que é esse o local que procuramos. A Garganta Cortada. - A caverna natural havia recebido esse nome por um caso de assassinato que ficara famoso dois anos atrás. Desde então a Aliança havia redobrado a atenção naquela área, com medo de novos crimes semelhantes.

 - Não é estranho? - Perguntou subitamente a garota loira, ficando na ponta dos pés para poder enxergar melhor a fresta. - A caverna da Garganta Cortada fica numa região anã. Porque enviaram uma guilda humana para resolver isso?

 - Não é da sua conta, e de nenhum de nós. - Disparou Sasha, e a veia na têmpora de Julie pulsou novamente. - Nós só temos que... droga!

 - O que houve? - Perguntou Koga, enquanto que a outra garota se recolhia à proteção da rocha. Os outros dois se esticaram, e perceberam que um homem havia saído da caverna. Ele tinha pele bem morena e vestia uma camisa verde e rasgada, assim como uma calça marrom. Uma bandana negra estava enrolada na cabeça careca, e um símbolo de uma águia voando com uma árvore nas garras servia como decoração. Vê-lo fez com que os olhos do rapaz da Aurora se estreitassem, e ele voltou a ficar escondido. - Eu os conheço.

 - Quem são eles? - Perguntou Sasha, dando mais uma olhada para ver se o homem vinha na direção deles.

 - São mercenários. Águias Obstinadas, como são chamados. - Mercenários eram organizações similares à guildas, mas que funcionavam de forma ilegal. Isso acontecia porque ofereciam serviços que iam contra as leis, tais como assassinatos, sequestros e afins. Julie se sentou, arqueando as costas.

 - São perigosos? - Perguntou.

 - São caros, se é que eu posso dizer alguma coisa. - Respondeu Koga, se sentando também. - Eu tinha um amigo que queria ser um mercenário, e ele pesquisou a fundo as diversas organizações. Pelo que sei, as Águias não recebem muitas missões pelo seu preço alto, mas costumam cumpri-las com perfeição.

 - Bem, hoje não será um bom dia na agenda deles. - Respondeu Sasha, se virando para o amigo. - Julie irá ficar com você para protegê-lo, enquanto que eu vou lá dentro e limpo a área. - Terminou, apontando com o polegar a Garganta Cortada.

 - O quê? - Disparou a outra garota, se levantando e inclinando na direção da colega. - Você acha que vai cuidar de uma dúzia de mercenários sozinha? É tão arrogante assim?

 - E acha que você vai me ajudar em alguma coisa? - Respondeu Sasha com os olhos arregalados. A tensão local subiu em níveis exponenciais, enquanto que o rapaz ficava mudo como as rochas do ambiente.

 - Você consegue ficar guardando pra ver se ninguém entra ou sai da Garganta Cortada, Koga? - Perguntou Julie, ainda sem tirar os olhos de Sasha. O garoto fez que sim, e ela sorriu. - Então ótimo. Vou dar cobertura a essa aqui enquanto nos infiltramos na caverna. Tudo bem? - Perguntou novamente, desta vez para Sasha, mas avançou sem esperar resposta.

 - Apenas não atrapalhe. - Grunhiu a outra, se apressando para ultrapassá-la. As duas correram silenciosamente até a fresta na montanha, conscientes de que o guarda de antes estaria bem próximo. Se inclinaram para o interior da montanha, e o avistaram vinte metros à frente, iluminado por uma tocha e andando calmamente pelo corredor apertado de rochas. As garotas, evitando sempre encostar uma na outra, o seguiram.

 Sete minutos depois, a caverna se expandiu em uma área circular de quase cinquenta metros de diâmetro. Era totalmente formada pelas rochas cinzas do exterior, que pareciam negras na escuridão natural. Tochas eram penduradas para combater o breu, e eram ou presas na parede, ou carregadas pelos mercenários das Águias Obstinadas. Ao total eram cinco, e dois deles estavam sentados em volta da fogueira central, onde um homem magro, de cabelos longos e brancos e roupas maltrapilhas, tremia violentamente. Sasha cutucou Julie e apontou para uma grande elevação na parte leste da caverna, razoavelmente protegida pela escuridão. As duas seguiram para o lugar estratégico, enquanto que o homem desatava a gritar.

 - PRECISAMOS DE MAIS GENTE! M-MAIS GENTE! PRECISAMOS... precisamos... - Ele sofreu um ataque de espasmos, e caiu de joelhos para socar com as duas mãos o chão rochoso. - E-e-e-ele está vindo. ELE ESTÁ VINDO! - Gritou, babando, em direção aos mercenários, que apenas cruzavam os braços. O homem voltou suas atenções ao chão, mesmerizado. - Não há lugar para se proteger. Não há lugar para se esconder. E-estamos t-todos mortos...

 - Senhor Lester, o senhor está seguro. - Disse um dos homens, bem grande e com o cabelo tosado. - Nós estamos preparando o abrigo que o senhor pediu. Em algumas semanas, poderemos...

 - SEMANAS? - Gritou ele, cuspindo na direção do mercenário. - P-PRECISAMOS DE... DE HORAS! MINUTOS! ELE ESTÁ AQUI, E PODERÁ NOS MATAR A QUALQUER MOMENTO! Z-Z-ZEM... - Ele se calou com as mãos na boca, parecendo aterrorizado demais para concluir a palavra. Todos os outros ali na caverna por um instante inconscientemente gelaram, como se, no fundo, soubessem de quem o velho Lester estaria falando. Julie quase escorregou na rocha, e Sasha a ofereceu um olhar tenso e reprovador.

 - Senhor, se acalme. - Pediu outro homem, se ajoelhando ao lado do velho. - Nós estamos aqui para defendê-lo.

 - Me defender? - Lester aproximou rapidamente o rosto do mercenário, que instintivamente recuou. - A Aliança... a Aliança inteira... todos os heróis que já possuímos... não conseguiram detê-lo. Desde o início dos tempos, tudo que fizemos foi afastá-lo. SÓ QUE ELE JÁ ESTÁ AQUI! - O velho tentou escavar a terra, como se quisesse se proteger no centro da terra. Julie engoliu em seco. Agora estava claro o que havia o aterrorizado - S-s-s-sabe de quem estou falando... garoto? - Grunhiu em voz aguda, apoiando a testa no chão.

 - Quando ele falar, faça seu ataque. - Disse Sasha no ouvido da companheira, que novamente sentiu o coração tentar saltar pela boca. Julie se virou para a outra garota, e percebeu que ela suava e tinha os olhos nervosamente arregalados. Ambas haviam descoberto o mistério.

 - HEIN? - Gritou o velho, segurando o mercenário mais próximo pelo colarinho. - SABE. DE. QUEM. ESTOU. FALANDO? - Julie se preparou, tentando se concentrar. Todos ali sabiam a resposta, mas ninguém se atrevia em dizer seu nome em voz alta. - SABE? - A garota sentiu que liberaria seu poder de forma involuntária com a revelação do homem, e esticou o braço levemente trêmulo no alto. Sasha desviou os olhos, apoiando seu peso em um joelho enquanto que espalmava as pedras abaixo de si. - RESPONDA!

 - O-o senhor está falando de... - Tentou começar o mercenário, mas o velho calmamente colocou o dedo em seus lábios, parecendo extraordinariamente lúcido. Ele se aproximou do rosto do outro homem, sussurrando uma palavra tão baixa, mas que no entanto conseguiu ser ouvida por cada uma das nove pessoas ali.

Zemopheus.

 - AGORA! - Gritou Sasha, chamando a atenção dos outros para as duas membros da Aurora. Os mercenários, avidamente nervosos, olharam para a elevação em pânico enquanto que Lester afundava o rosto no chão. Julie soltou o ar preso e liberou todas as suas energias na palma da mão, que começou a brilhar intensamente. Era como se uma represa tivesse se rompido, sem controle, de forma que a luz branca preencheu completamente a caverna. Os mercenários caíram gritando com as mãos nos olhos, enquanto que Sasha os abria.

 - Vá! - Gritou Julie, exausta e com o antebraço colado nos olhos. A companheira disparou para baixo, célere como o vento. Ela começou saltando em um homem caído no chão, chutando seu rosto para apagá-lo. Virou o rosto e encontrou outros dois na mesma posição, e correu até eles para bater suas cabeças uma na outra. Havia algo querendo sair de seu peito, como um monstro alimentado pelo nervosismo de momentos antes. As Águias Obstinadas estavam desorganizadas, atacadas pela surpresa, e Sasha decidiu aproveitar o momento para capturar Lester.

 - S-SOCORRO! - Gritou ele, quebrando levemente o encanto de terror em seus contratados. A membro da Aurora, no entanto, estava rápida demais para que conseguisse reagir à qualquer coisa, e um dos homens, desesperado, se agitou cego e sem querer se colocou na direção da garota. Ela foi acertada no estômago por um cotovelo perdido, e estancou pelo golpe. Sua cabeça foi para frente, cuspindo saliva e sangue, e ela caiu de joelhos deslizando pelo braço do mercenário, segurando a região ferida. Imbecil, era tudo que conseguia pensar. Seu desespero havia a deixado inconsequente, e agora pagava um preço terrível. O homem, percebendo que havia acertado alguma coisa, atacou o ar em busca do alvo, desferindo acidentalmente um soco no rosto de Sasha, que caiu para trás. Seu nariz trincou audivelmente, e ela colocou a mão livre na face. Com a visão embaçada, viu Lester se levantar e correr histericamente em direção à saída, enquanto que os outros dois Águias se reorganizavam, ainda meio cegos.

 - Sasha! - Gritou Julie, deslizando para auxiliá-la. A companheira, por sua vez, recusou a ajuda.

 - Vá atrás dele! - Gritou Sasha, se forçando a ficar de pé, cambaleante. - O objetivo da missão é capturar Lester e impedir que ele volte aqui! Impeça-o de fugir! - Mesmo rangendo os dentes, Julie a obedeceu, correndo pela lateral da caverna e entrando em perseguição, deixando a outra cuidar do que restou das Águias, que mesmo com a visão prejudicada continuavam sendo ameaças. - Bem. - Começou ela, limpando o sangue do rosto. - Quem é o primeiro?

 A garota loira corria como podia, atravessando o corredor estreito em passadas largas. Conseguia enxergar seu alvo muito à frente, disparando com toda a força do desespero. Para um homem naquela idade, era uma velocidade realmente considerável. Ele conseguiu sair da Garganta Cortada antes que Julie chegasse à metade do trajeto, e agora seguia em direção à estrada. Ela começou a ficar apreensiva, e tentou apressar o passo. Se Lester chegasse ao rio Venulis, talvez nunca mais conseguiria ser encontrado.

 Eis que surgiu uma outra figura, correndo para impedir o homem de cabelos brancos. De início a garota não conseguiu identificar quem era, mas ao ver aquela trança tão familiar, não teve mais dúvidas. Koga havia visto o homem e se posto a persegui-lo, doente ou não. Ele o estava alcançando no momento em que Julie atravessou a fresta, um pouco mais calma. O amigo capturaria o alvo e tudo estaria resolvido.

 Infelizmente para os dois, o rapaz ainda estava muito abalado pela pressão atmosférica, e aquela corrida havia sido o suficiente para esvaziar seu fôlego. Ele diminuiu a velocidade ao chegar perto de Lester, que , tomado por uma histeria louca, socou com força o membro da Aurora na boca. O mundo de Julie pareceu parar por um instante, enquanto ela via o companheiro desabar e cair para fora da estrada, em direção ao Venulis.

 - KOGA! - Gritou ela, voltando a correr. Percorreu os últimos metros como uma bala, tropeçando, deslizando e se segurando. Pelo canto do olho viu Lester correr estrada abaixo, mas ele não era mais importante. A garota sentiu o desespero crescer a cada segundo, e se esforçava para continuar correndo. Alguém, por favor, alguma coisa, rogou aos deuses.

 Nesse instante uma mancha negra e azul se emparelhou com ela, ultrapassando-a em seguida. O coração da loira ficou imensamente mais leve, e ela diminuiu o passo. Sasha chegou à beira da estrada, e olhou para baixo na direção de onde o amigo havia caído. Em seguida, ela virou o rosto para observar a companheira, que continuava correndo, e girou para correr em direção à Lester, que seguia a estrada. Por um instante Julie quase parou em choque, mas se lembrou o que estava acontecendo e voltou a correr, gritando a plenos pulmões. - SASHAAAA!

 Alheia à qualquer resposta, ela chegou à estrada com forças redobradas. Olhou para baixo, para a encosta de quase setenta graus, vendo que o amigo estava alguns metros abaixo, salvo temporariamente por uma pedra irregular que o havia parado. Ele estava de olhos fechados, visivelmente em dor, e Julie saltou vale abaixo para salvá-lo. As pedras escorregadias quase a derrubaram também no primeiro passo, fazendo com que ela jogasse o corpo para trás para se apoiar. Caiu prendendo um braço entre as rochas, e um estalo de dor subiu dos dedos até o pescoço, mas ela continuou. Se impeliu para frente, cambaleando desajeitadamente até onde o amigo jazia.

 - Koga? - Perguntou esbaforida, sentindo os dedos quebrados pulsarem em agonia. O companheiro estava ofegante, mas aparentemente sem nenhum dano sério. A garota o puxou com a mão boa, e olhou ladeira acima para calcular a dificuldade de seu caminho de volta. Naquele instante a rocha em que estavam apoiados se soltou, começando a cair em direção ao rio. - Merda! - Praguejou Julie, enfiando os dedos quebrados na rocha para retomar o apoio. A dor quase a fez desmaiar, mas ela se prendeu. Contudo, isso era temporário, pois não tinha forças para se segurar junto com outra pessoa. Desesperadamente ela viu os dedos torcidos começarem a deslizar, e seu pé de apoio perder o suporte, fazendo-a cair de joelhos. Seus pensamentos foram para a irmã, que se encontrava tão longe. Não conseguiu pensar em palavras de despedida, pois a mão se soltou e ela começou a cair.

 Algo no entanto agarrou seu pulso, estancando sua queda. Julie olhou para cima, e viu Sasha segurando-a com os dois braços, suada e exaurida. - Se jogue para cima! - Ordenou ela. A garota mordeu a língua para segurar uma resposta afiada, mas obedeceu à ordem. As duas se apoiaram uma na outra, e com esforço conseguiram levar Koga até à estrada, onde Lester se encontrava desacordado. Deixaram o garoto no chão, descansando, e a garota de cabelos azuis colocou as mãos no quadril, respirando fundo. - Vamos descansar alguns segundos. Depois, iremos... - Nesse momento Julie foi até ela com os pés batendo forte, e os braços rígidos ao lado do corpo.

 - O que. Pensa. Que. ESTÁ. FAZENDO? - Esbravejou ela, gritando tão forte as duas últimas palavras que elas continuaram a ecoar no vale por longo segundos. Sasha arregalou os olhos, tentando recobrar a compostura.

 - O que foi desta vez? - Perguntou, tentando controlar outro ataque de nervos. Precisava mostrar o exemplo ali.

 - Você abandonou Koga! Você o deixou à morte. - Disparou Julie, lacrimejando fracamente e apontando o dedo no rosto da outra. - Você o viu, e deu às costas! Mesmo que não considere ele seu amigo, pouco importa! Koga é um membro da Aurora, sua duas-caras!

 - Eu não o abandonei. - Disse pausadamente Sasha, juntando todas as suas forças em seu auto-controle. - Eu vi que você estava chegando. Eu sabia que você iria salvá-lo à tempo. Por isso, decidi me focar em Lester, nosso objetivo!

 - Não, você correu atrás dele porque precisava ser a pessoa mais importante nessa missão! - Acusou Julie, dando um passo na direção de Sasha, que manteve a postura. - Você deseja tanto essa... essa maldita honraria que ignora tudo que acontece ao seu redor!

 - Eu não ignorei nada! - Cuspiu a garota, perdendo um pouco do controle e apontando para o peito da outra. - Eu analisei a situação e fiz o que era certo! Se saísse uma única vez da segurança da sede e fizesse alguma coisa de útil para a guilda, saberia disso! - A voz dela ficava mais aguda a cada palavra. Julie estreitou os olhos, absorvendo o que ouvia.

 - Talvez eu fique lá dentro porque lembro que existem pessoas na Aurora, e elas estão passando por momentos difíceis! - Respondeu ela, fechando o punho sadio. - Eu não evito problemas que não posso resolver com socos e pontapés, dando as costas quando as coisas ficam ruins!

 - Covarde! - Disparou Sasha, dando um passo à frente.

 - Arrogante! - Respondeu Julie no mesmo tom, também se aproximando.

 As duas ficaram se encarando, ofegantes ao extremo, com as testas extremamente próximas e olhares fixos sem piscar. O vento soprou diversas vezes, mas nenhuma delas arredava o pé. Foi apenas quando Koga tossiu forçosamente, de modo a chamar atenção, que o feitiço foi quebrado. Depois de mais uma longa encarada, Julie se encaminhou na direção dele, enquanto que Sasha virava as costas e cruzava os braços.

 - Temos vinte minutos para descanso, e depois iremos voltar à Helleon. - E dito isso, ela se afastou para voltar à Garganta Cortada. A outra garota se ajoelhou perto do amigo, verificando se ele estava bem. Não parecia haver nada irreversível ou grave, e ela suspirou em resposta.

 - Julie, eu... - Começou Koga, mas a garota apenas deu um tapa, um pouco mais leve do que o costume, em sua cabeça para se levantar em seguida.

 - É tudo culpa sua. - Disse de forma sombria, e se virou para conferir se Lester continuava apagado. O vento novamente soprou, passando pelos membros da Aurora e continuando seu trajeto, sem encontrar obstáculos até chegar no rio. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Aurora: Capítulo 11 - Bestas Ferozes


 - Foi um jantar excelente, senhora Alba. - Disse o prefeito Visandre, entrando educadamente na sala da líder da Aurora. Ele era um homem alto e bronzeado, com olhos castanhos e alertas por trás de seus óculos finos. Seu cabelo era curto, negro e penteado para trás, e seu rosto era longo e reto. Vestia um terno marrom por cima de uma camisa branca, perfeitamente alinhados no seu corpo magro. 

 - Fico agradecida por isso, senhor prefeito. - Respondeu Stella Alba, que usava um vestido preto por baixo do terninho azul-claro, da mesma cor que seus cabelos, que naquele dia estavam arrumados em um elegante rabo-de-cavalo. Ela manteve um sorriso simpático, mas por dentro estava aliviada pelo fim da refeição que haviam compartilhado com o restante da guilda. Foram duas horas de uma conversa extremamente entediante sobre economia e política, que seria prolongada pelos assessores do prefeito, para desespero dos outros membros da Aurora. - O senhor pode se sentar. - Disse ela, indicando com a mão sua mesa, no centro da sala. Stella havia passado quatro dias arrumando aquele aposento, que havia passado do puro caos para um recanto feminino e organizado. Haviam vasos de flores acima dos armários, e um cheiro suave de lavanda tornava-o ainda mais agradável. O prefeito se sentou de frente à mesa, enquanto que a líder ocupava seu lugar. - Bem, acho que podemos -- Começou ela, mas foi interrompida pelo aceno de mão do outro homem. 

 - Já sei o que irá me pedir, Stella. - Declarou o prefeito com a mão espalmada para a senhora Alba, enquanto revirava o paletó com a outra. - E já tenho minha resposta. - Ele espalhou três papéis na mesa. Stella puxou a caixa dos óculos, que finalmente havia achado no meio de sua arrumação, abrindo-a distraída. Colocou as lentes, puxando os três papéis. Notou imediatamente que as informações ali estavam arrumadas de uma forma bastante familiar. 

 - São... missões de guilda? - Perguntou ela, ajeitando os óculos enquanto franzia as sobrancelhas. Realmente, eram contratos de missões, todos preenchidos de forma condizente. No entanto, havia algo ali que se destacava do resto.

 - Sim, e são missões encaminhadas. - Se adiantou Visandre, parecendo saber onde os olhos da outra mulher estavam. Stella levantou a cabeça, encarando o prefeito com os olhos arregalados. Missões encaminhadas eram uma das maiores conquistas que a Aurora poderia conquistar. Por serem feitas especificamente para uma guilda, não haveria custo nenhum para aceitá-las, e recebê-las aumentaria o renome deles, pois indicaria extrema confiança do contratante. Stella engoliu em seco, com um pé atrás. Tinha que haver alguma pegadinha. Não eram tão grandes nem tinham um histórico recente de competência para receber uma missão encaminhada. Quanto mais três.

 - Sobre o que elas são? - Perguntou a mulher de forma controlada, enquanto seus olhos liam atentamente o contrato e sua mente trabalhava furiosamente para associar todos os dados ali.

 - Três áreas nos arredores de Helleon foram ocupadas por arruaceiros. - Disse ele, puxando um frasco de dentro do paletó. - Para nós termos, ah... bom-relacionamento com nossos vizinhos, fiz com que sua guilda assumisse essas tarefas. - Visandre sorriu, se reclinando minimamente na cadeira enquanto que bebia um curto gole de uma substância amarela e pastosa. Quando terminou, seus olhos estavam afiados. - Sejamos sinceros, Stella. Não há forma de vocês recusarem meus presentes. A Aurora necessita reconquistar seu renome. - Ele esticou a mão, segurando os três contratos. - Esse é o jeito mais fácil. Além do mais, cumprir essas missões garantirá à vocês seis meses de impostos pagos pelo meu próprio bolso. - Ele se reclinou novamente, cruzando as mãos à frente do rosto. - O que me diz?

 Stella engoliu em seco, pressionada pelo jeito incisivo do prefeito. Ela apertou as mãos nervosamente e voltou a encarar os contratos, procurando algo fora do eixo. No entanto, os benefícios daquelas missões ocultavam sua mente. A Aurora estava numa posição financeira deplorável, e seis meses sem impostos lhes dariam uma chance de se reorganizar financeiramente. Só que estavam falando de arriscar a vida de seus membros... - Por quê a Aurora? - Perguntou ela, sem retirar os olhos das folhas. O prefeito se levantou, como se a conversa já estivesse terminada.

 - Nesses tempos em que vivemos, uma cidade é forte apenas se possuir uma guilda forte. Caso a prefeitura desejasse realizar uma tarefa, seria muito melhor se o dinheiro ficasse entre nossas divisas. - Ele se apoiou na mesa, encarando a mulher nos olhos. - Estamos nos ajudando, Stella. A questão é: a Aurora deseja ser ajudada? - A líder manteve o silêncio por algum tempo enquanto continuava encarando Visandre. Tudo aquilo estava muito suspeito, mas não havia opção. Era aceitar ou a falência. Pressionou os dedos com força, entregando os pontos.

 - A Aurora irá realizar essas missões. - Declarou, se levantando. - Irei mandar minhas melhores equipes. O senhor pode ter certeza de que seremos capazes disso.

 - Eu espero que sim. - Respondeu o prefeito, se virando para sair da sala e deixando Stella sozinha, atormentada pelos seus pensamentos inquietos.

AURORA
CAPÍTULO 11: BESTAS FEROZES

 - WIEDER! - Gritou com toda força Dom, correndo desesperado em direção ao companheiro. O anão olhou para trás e gelou ao ver a enorme aranha, grande como uma mesa e revestida de símbolos roxos berrantes em torno do corpo negro, se arquear para atacá-lo. Ele ficou imóvel, esperando o golpe fatal, quando um disco borrado do tamanho de sua cabeça zuniu ao seu ouvido, acertando a besta em cheio. O aracnídeo recuou, zonzo, e partiu desajeitadamente em disparada.

 - Santos deuses piedosos... - Ofegou o anão, quase caindo no chão. - No que nos metemos? - Ele se sentou em uma rocha lisa, recuperando o fôlego que havia sumido. Estavam em uma densa floresta tropical, chamada de Floresta de Hyannien. Ficava cinquenta quilômetros ao sul de Helleon, crescendo ao redor de uma curiosa cadeia montanhosa em forma de lua crescente, com o mar se ajeitando em uma baía no centro do meio-círculo. Dominic, cuja alta estatura contrastava com o pequeno corpo de Wieder, se sentou ao lado do companheiro de Aurora.

 - Acho que não deveríamos nos manter parados. - Alertou, mas estava quase tão cansado quanto o outro. Haviam corrido pela mata fechada durante horas, batalhando com metade da floresta para continuarem vivos enquanto que superavam o terreno inclinado. A camisa cinza do homem estava encharcada, e a mancha de suor descia até a calça verde-escura. Ele apoiou as costas na enorme rocha coberta de musgo que os dava cobertura, e arrastou as botas pela grama fofa e úmida. - Qualquer uma daquelas coisas pode nos emboscar aqui. Não seria a primeira vez hoje.

 - Dois segundos. - Pediu Wieder, retirando o gorro e o usando para secar a testa. O vermelho da peça se escureceu com o suor, combinando muito mais com a camisa molhada, que se escondia por debaixo de um macacão negro. O anão esticou o pulso à sua frente, contemplando a pulseira dourada. De acordo com os testes que havia feito na guilda, só teria forças para ativá-la duas vezes antes de dormir. E já havia a ativado mais cedo. Ele rangeu os dentes, amaldiçoando sua própria incapacidade. Se ao menos tivesse conseguido compreender melhor aquele artefato, talvez não estariam na situação em que se encontravam.

 Um farfalhar de folhas varreu os pensamentos e o cansaço dos dois, que imediatamente se levantaram. A mata fechada à frente deles balançou ameaçadoramente, escondendo o que parecia ser um vulto alto. Eles se retesaram, tensos, mas suspiraram de alívio ao ver a forma de Marcus se materializar.

 - Você nos deu um susto e tanto, garoto! - Riu Dom, pondo a mão grande nas costas do rapaz. Ele não reagiu a isso, preferindo os encarar com seu único olho.

 - As bestas os encontraram? - Perguntou ele, apoiando as costas em uma árvore, cruzando os braços enquanto que Dominic e o anão voltavam a sentar nas pedras. Marcus estava extremamente cansado, reparou Wieder, mas ele tentou se recompor de forma mais sutil.

 - Umas Aranhas Temerosas, mas conseguimos nos virar. - Respondeu o anão. - E você?

 - Encontrei nosso alvo. - Respondeu o garoto sem alterar a voz. Os outros dois se alertaram. Haviam viajado à Floresta de Hyannien em uma missão para desocupar a Torre de Marfim, uma construção branca e escondida no meio da mata, que havia sido invadida por arruaceiros. Quando chegaram lá, descobriram que a torre estava sendo transformada em um depósito ilegal de bestas selvagens, organizado por um humano alto e loiro chamado de Jamie. Infelizmente ele havia percebido a aproximação dos membros da Aurora e soltado suas criaturas em cima deles, que recuaram forçadamente. Desde então, não haviam conseguido encontrar o caminho de volta. Até agora.

 - Onde? - Perguntou Dom, se levantando. Wieder ficou de pé também, esfregando o suor da testa. Maldita umidade, pensou. Marcus, por sua vez, apontou para o norte.

 - Vinte minutos de caminhada até lá. No entanto, devemos nos preocupar. - Ele começou a andar, convidando os companheiros a o seguir. - Pelo que eu vi, ele usa uma Flauta de Letham para controlar suas bestas a nos atacarem. E mesmo que a maior parte delas tenha vindo em nosso encalço, ele mantém duas criaturas ao seu lado para proteger a Torre de Marfim.

 - Perfeito. - Resmungou Wieder. Os três seguiram floresta adentro, avançando pelo terreno acidentado, e o silêncio era apenas quebrado pelo farfalhar das folhas e zumbidos dos insetos. As Aranhas Temerosas na região afastavam qualquer forma de vida um pouco maior do que um polegar, afugentando os pássaros e outros animais silvestres. Isso dará um belo trabalho de contenção ambiental, pensou o anão enquanto escalava um tronco caído. Que bom que isso não era problema dele.

 Finalmente, chegaram à construção branca, localizada no meio da cordilheira em forma de lua crescente, oferecendo uma visão bastante impressionante da baía abaixo. Um posto de depósito durante a Guerra das Fronteiras, fora completamente abandonada nesses milhares de anos pacíficos na região. No entanto, a Torre de Marfim resistia bravamente ao tempo, muito pelo fato de ser protegida pelas montanhas atrás de si. Supostamente era um trabalho de fadas, embora não possuísse os característicos ornamentos e embelezamentos faéricos recentes. Era simplesmente uma torre de base redonda e baixa, com um portão de madeira e pequenas janelas ao redor de sua circunferência.

 Os membros da Aurora se aproximaram com cautela, observando os arredores. Haviam entrado antes por uma janela lateral, mas todos os orifícios ao nível do chão haviam sido selados de forma rudimentar com tábuas de madeira. Marcus se ajoelhou, estreitando o olho.

 - Vamos ter que passar pela porta. - Disse ele, se virando para os outros dois. - As janelas devem estar vigiadas depois da última vez.  Acho que só nos resta tentar o mais óbvio. - Wieder se mexeu em contragosto, mas não conseguia pensar em plano melhor. Assim, os três se puseram a caminhar de forma cautelosa até a entrada da torre.

 O anão sentia um temor crescer dentro de seu peito, andando sem proteção no meio da clareira. Aquela não era uma missão em que poderia morrer com glórias. Caso fracassasse ali, seria apenas uma nota no rodapé da Aurora, desconhecido por todos. Precisava sobreviver, para conquistar sua importância. Ele levantou a cabeça, encarando a Torre de Marfim, solitária no meio da floresta. Wieder já abaixava a cabeça, quando notou um brilho verde em uma das janelas superiores.

 - CUIDADO! - Gritou, mas já era tarde. A enorme fera saltou na direção dos membros da Aurora, revelando sua forma à luz forte do sol. Era parecida com um tigre, com quase três metros de comprimentos por um e meio de altura. Tinha pelos de um verde forte, com listras negras se espalhando pelo corpo. Suas garras pareciam adagas, e seus dentes eram brancos como as paredes da torre. Era um Tigre de Jade, e ele mirava o anão.

 Wieder segurou a pulseira de ronatto em um ínfimo de segundo, liberando sua energia. Seu corpo cresceu e se alongou, transformando-o em um golem de pedra amarelada. Ele imediatamente levantou as mãos à frente de corpo, se protegendo da fera que saltava em sua direção. O peso do tigre o fez cair de costas, sentindo as garras, de alguma forma, atravessarem o ronatto. No entanto, seus olhos continuavam fitando a janela da Torre de Marfim, pois nela estava sentando um homem alto e loiro, vestido de um traje vermelho com uma capa negra e um chapéu decorado com uma pena. Jamie, o contrabandista de bestas selvagens, estava tranquilamente apoiado no suporte, tocando uma flauta de madeira em suas mãos e liberando um som imperceptível aos ouvidos humanos.

 Naquele mesmo instante, as portas frontais se romperam quando uma forma esférica e roxa atravessou a madeira, rolando com violência na direção do restante da Aurora. Dom e Marcus saltaram para longe, escapando por um triz de serem atropelados, enquanto que a criatura dava meia-volta e se desenrolava. Parecia uma lacraia negra, também gigante, com uma carapaça púrpura e dura servindo como um exoesqueleto. Duas antenas, mais parecidas com chifres, saíam da cabeça da besta, que os encarava com seus olhos amarelos. O Venolípede sibilou, vibrando as antenas.

 - Shitto. - Praguejou Wieder em sua própria língua, segurando o Tigre de Jade. Pensou em jogá-lo para longe, mas isso apenas acrescentaria um novo problema à eles, visto que o anão não conseguia se mover com agilidade o suficiente para proteger os outros dois dos ataques da fera. Assim, se viu preso ao animal, esperando que os outros pudessem se livrar do Venolípede sozinhos.

 A criatura voltou a se enrolar, disparando na direção de Dom. Ele retirou um botão da roupa, segurando-o com firmeza até que ele se expandisse, ficando do tamanho de uma roda de carroça. O homem o jogou na direção da fera, mas o objeto foi destroçado com facilidade. - Dom! - Gritou Marcus, mas já era tarde. A lacraia acertou seu alvo em cheio, jogando-o para longe em um espirro de sangue. O garoto rangeu os dentes, encarando o flautista. Esticou sua mão, tentando focar em seu poder, mas a volta do Venolípede o fez pular para o lado, quebrando sua concentração. Enquanto isso, Wieder continuava segurando o Tigre de Jade.

 - Vai ter que ser você, então. - Resmungou Marcus, apontando a mão para a lacraia gigante. Um pequeno ponto ao lado da besta pareceu aspirar o ar ao redor, enquanto que o rapaz se concentrava. O ponto em seguida explodiu, liberando uma corrente de ar para todos os lados. O Venolípede caiu de costas, se retorcendo para voltar a ficar de pé. O garoto, por sua vez, respirou forçadamente enquanto limpava o suor da testa.

 Enquanto isso, Wieder tentava manter o Tigre de Jade em seu aperto, mas era em vão. A criatura conseguiu se balançar para longe, recuando até a beira da clareira. O anão em forma de golem rapidamente se apoiou em um joelho, ainda muito temeroso em ficar de pé com aquelas pernas longas. Ele não tirou os olhos da fera esverdeada, preparado para saltar em cima dela caso tentasse atacar seus companheiros.

 Contudo, haviam outros perigos naquele lugar. E o golem só se lembrou disso quando ouviu o som de terra esmagada atrás de si. Tentou se virar, mas conseguiu apenas sentir o golpe fulminante do Venolípede em suas costas. O ronatto rachou com um barulho de trituração, e um grito ecoou na floresta enquanto o anão caía de frente na grama.

 - Wieder! - Alertou Marcus, mas ele também havia se esquecido de que haviam outros adversários na clareira. O Tigre de Jade saltou para atacá-lo, fincando suas presas no braço indefeso. O rapaz gritou, sentindo o sangue espirrar em seu rosto, e conjurou um novo ataque com a mão livre. Outra explosão de ar agitou o local, mas pela proximidade acabou jogando o garoto e a fera, que rolaram para longe. O líquido vermelho acompanhou o membro da Aurora, que sentiu a cabeça continuar girando, mesmo depois de estatelar as costas na grama. Isso não parecia bom, pensou ele com a mente enevoada. De fato, parecia o fim.

 Enquanto que Marcus lutava contra o desespero, um assobio cruzou o ar. Ele se virou, ao mesmo tempo em que o flautista, do alto da torre, também olhou descontraído. O que eles viram, no entanto, fez com que apenas um gelasse. Dominic estava em pé, sem camisa e com as costas banhadas de sangue, enquanto que segurava algo estranho nas mãos. Parecia uma trouxa de tecido cinza, que havia sido enrolada de forma a embrulhar um objeto aparentemente pesado em uma das pontas. Marcus logo percebeu que era a camisa de Dom, esticada pelos poderes expansionistas do companheiro.

 - Tome o meu pagamento pela sua exibição, flautista! - Gritou ele, girando o braço para jogar o projétil embrulhado. Jamie conseguiu apenas arregalar os olhos antes de ser acertado em cheio no rosto, desequilibrando-o a ponto de cair da Torre de Marfim. O corpo do homem se estatelou no chão com um baque surdo, e as outras bestas imediatamente ficaram atônitas. - Rápido, antes que elas se recuperem! - Gritou Dominic.

 Como que ressuscitando de suas covas, Wieder e Marcus juntaram seus últimos cacos de energia para atacar. O anão se apoiou com os braços, tremendo fortemente até se jogar em cima do Venolípede. A carapaça se quebrou, e a besta morreu guinchando. O rapaz por sua vez levantou o braço sadio, concentrando todas as suas forças em uma grande explosão de ar, que lançou o Tigre de Jade barranco abaixo. A corrente foi tão forte que até mesmo Dom teve de se apoiar na parede da torre para não cair, mas ao término da agitação tudo estava terminado.

 - Bom trabalho, pess... - Começou ele, mas os outros dois já haviam desmaiado. Wieder havia até mesmo retornado à forma de anão, e jazia de cabeça para baixo, mergulhado no que havia sobrado de seu adversário. Dominic suspirou, mantendo seu apoio nos tijolos para não cair. Com a adrenalina baixando, o cortes nas costas estavam cobrando sua vitalidade, que jorrava das costas com o líquido vermelho. A visão dele ficou turva, e sentiu o lado esquerdo do corpo deslizar pelos tijolos da Torre de Marfim. Bem, conseguiu pensar ele antes de desmaiar. Ao menos, a missão estava cumprida.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Aurora: Capítulo 10 - Um humano e um anão entram num bar


AURORA
CAPÍTULO 10: UM HUMANO E UM ANÃO ENTRAM NUM BAR

 - Serão cinquenta tens. - Disse uma voz feminina, cortando o ar e fazendo Dalan acordar de seu estupor. Ele estava em uma loja de roupas, ligeiramente empoeirada e um tanto quanto vazia. O garoto levantou a cabeça, como se tivesse acabado de sair de um sonho, e encarou a vendedora loira à sua frente. Ela vestia um avental verde e prendia o cabelo em um rabo de cavalo caprichado. - Cinquenta tens, senhor. - Repetiu ela, inclinando a cabeça.

 O rapaz revirou os bolsos, procurando o resto de seu pagamento. Puxou uma nota de cinquenta, a única que restava, e a entregou rabugento à mulher. Ela agradeceu e em troca lhe deu uma sacola, que continha um conjunto de roupas baratas, o suficiente para que ele conseguisse aguentar mais uma semana. O garoto agradeceu e saiu da loja, fazendo com que o sino da porta soasse.

 Lá fora, a multidão da manhã começava a se dispersar. Transeuntes conversavam animados, segurando sacos plásticos repletos de alimentos de cheiro forte. Barracas começavam a ser desmontadas, enquanto seus donos contabilizavam os lucros do dia. Uma criança corria pelas pedras negras da rua, até que tropeçou e caiu. Seu choro se elevava acima de todos os outros sons, enquanto seus pais se apressavam para socorrê-la. No entanto, nada disso chamava a atenção de Dalan, que se sentou na calçada enquanto tentava meditar sobre os acontecimentos de mais cedo.

 As palavras de Amanda continuavam ressoando em sua cabeça no momento em que deixou a sacola cair no chão ao seu lado. Ele deveria continuar agindo do jeito que estava, fingindo ser o que não era, e arriscar magoar as pessoas ainda mais, ou deveria agir como sempre agiu e terminar sem nenhum companheiro ao seu lado? O garoto colocou as mãos na cabeça, sentindo o desespero crescer dentro de si. Haveria alguma forma dele se dar bem nessa?

 No meio de seu pesar, não reparou em uma figura pequena que se aproximava, até que ela o cutucasse no ombro. Levantou a cabeça, sentindo os olhos arderem, e percebeu que Wieder estava ao seu lado.

 - Quanto tempo, rapaz. - Disse o anão, sorrindo. Ele vestia um gorro verde que descia até seu pescoço, e uma camisa limpa e da mesma cor por cima da calça negra. Wieder estendeu a mão, convidando o garoto a se levantar. - Amanda me contou que você precisaria de ajuda.

 - Amanda? - Perguntou o rapaz, sentindo algo ferver em sua garganta. Agora ela queria ajudá-lo? Depois de tudo que ela havia causado? - O que ela quer?

 Wieder olhou em volta, parecendo descompromissado. Acompanhou uma mulher extremamente bonita caminhar pela calçada, e pareceu por um momento se perder no movimento. - Sabe, aprendi que a maior parte das respostas do mundo se encontram em um bar. - Disse finalmente, se recuperando como se nada tivesse acontecido. - Por isso é melhor conversarmos naquele ali. - Completou ele, apontando para o fim da rua. Dalan se virou e reconheceu o Quatro Luas, estabelecimento que havia visitado em seu primeiro dia em Helleon.

 - Um bar? - Perguntou o garoto, franzindo as sobrancelhas. - Não são nem doze marcas. E que tipo de resposta se encontra num bar? - Wieder apenas riu, balançando a cabeça.

 - Você ficaria surpreso, guri. - Dalan se levantou, acompanhando o anão até o bar. O Quatro Luas estava razoavelmente cheio, considerando que ainda não haviam chegado ao meio do dia, e continuava tão sujo e apertado quando o rapaz se lembrava. Sentaram em uma mesa bem próxima do balcão, tanto que estava encharcada do mesmo líquido cor-de-mel que preenchia uma das garrafas na bancada.

 Dalan olhou em volta, procurando a mesa que havia sentado na semana passada. Quando a encontrou, as lembranças de Sophie, Koga e Julie preencheram as cadeiras agora vazias, e o garoto sentiu uma pontada no coração. Era tão simples para os outros, agir normalmente e não se preocupar. Por quê não era assim com ele?

 - Parece preocupado, rapaz. - Disse Wieder, se esticando para pegar um vidro de alcaparras do balcão. Dalan o olhou de forma repreendedora, e o anão o retribuiu com um olhar entediado enquanto se aproximava da mesa. - Eu vou pagar, senhor certinho. - Disse ele, retirando um aperitivo do frasco.

 Dalan suspirou, se apoiando na mesa. - O quê Amanda queria comigo? - O companheiro coçou a barba distraidamente, se esticando para recolocar o vidro no balcão. Em seguida, ele sentou à mesa, se aproximando bastante.

 - Na verdade ela não disse exatamente o que era, mas imagino que tenha algo a ver com Sophie. - Respondeu ele, limpando as mãos em um guardanapo asqueroso que estava jogado na mesa. - Ela parecia bastante chateada quando a encontrei.

 Dalan afundou na cadeira, sentindo a depressão o envolver enquanto encarava seus joelhos. Estava confirmado, ele havia realmente magoado a garota. - Você... você a conhece? - Perguntou para Wieder, levantando minimamente a cabeça para encará-lo.

 - Eu jantei todos os dias até agora na guilda, e uma vez estava acompanhado dela e da irmã. - Agora ele havia se levantado para pegar uma garrafa abandonada na bancada, de cor vermelha e brilhante, mas o rapaz não se importou desta vez. - Conversei apenas com a irmã, Julie, naquele dia, já que a outra garota não abria a boca por nada. A única vez que falou foi para perguntar de você. - Ele deu um sorriso implicante, e em qualquer outra situação Dalan o retribuiria, mas naquele momento isso o fez apenas se sentir pior.

 O rapaz passou a mão pelos cabelos, apoiando o cotovelo na mesa. Até mesmo Wieder, que havia entrado depois dele, parecia mais enturmado. O garoto foi tomado imediatamente por lembranças ruins de sua infância. Será que iria se tornar cada vez mais isolado, até que os outros o ignorassem completamente, assim como antes?

 - Eu... não sei o que fazer, Wieder. - Soltou o garoto, pondo as mãos na cabeça. Talvez fosse pelo pensamento anterior, ou pelo péssimo estado de espírito em que se encontrava, mas decidiu se abrir para o anão. - Eu não sei como agir perto das pessoas. Eu não sei. Tenho a impressão de que irei novamente afastar as pessoas de mim, assim como fiz durante toda a minha vida! Vou acabar sendo expulso da Aurora se continuar assim!

 Wieder abriu calmamente a tampa da garrafa que havia pego e deu um longo gole, sem tirar os olhos do rapaz. Quando terminou, passou as costas da mão pela boca e se ajeitou na cadeira. - Dalan, a Aurora não tem condições nenhuma de expulsar alguém.

 - Você não sabe dizer isso. - Respondeu o garoto, se irritando um pouco. O anão havia entrado um pouco depois dele, e agia como se já conhecesse a guilda como ninguém. - Nós não temos tanta intimidade com os outros. Poderiam nos demitir sem nenhum problema.

 - Não, não poderiam. - Disse Wieder, reclinando a cadeira. - A guilda está à beira da falência. Acha que nós estamos convidando o prefeito para jantar lá na sede porque gostamos dele? Stella sabe que precisamos de apoio financeiro, por isso estamos preparando esse encontro há três dias, para sair perfeito. - Ele tomou mais um gole da bebida vermelha, deixando o rapaz absorver as informações. - Então, não, não iremos embora. Eles precisam de gente para fazer missões, e quanto mais melhor. Agora, a minha pergunta é bastante simples: Por quê se importa tanto com que os outros pensam de você?

 - O quê? - Perguntou o garoto desconcertado. Ele encarou a mesa enquanto balbuciava, avaliando o que iria dizer. Bem, se a torneira já estava aberta... - Eu preciso do apoio da guilda. Minha ilha, ela... sumiu. Gamora. Desapareceu do mapa. Nenhuma autoridade comentou sobre o assunto, e sinto que terei que bater de frente com a Aliança para obter respostas. Não sei se conseguirei sozinho.

 - Hmm. - Meditou o anão, voltando a se reclinar na cadeira. - Bem, não acho que seja tão difícil. Com o tempo, você acabará se enturmando.

 - Para você é fácil. - Disparou o garoto, sem nem mesmo pensar. Afinal, não estava vendo Wieder passar pelo mesmo que ele. - Parece que você não teve problema nenhum.

 - Realmente, tive muita sorte. -  Comentou distraído Wieder, balançando a garrafa e observando seu líquido chacoalhar. - Um anão em uma cidade predominantemente humana geralmente carrega um bocado de preconceito. Graças aos deuses eu não encontrei isso na Aurora.

 O garoto imediatamente corou, percebendo a besteira que havia falado. Realmente, o anão deveria ter passado um perrengue em Helleon. Se em cidades mistas o preconceito já era grande, fora delas era muito pior. Ele olhou em volta, percebendo que as outras dez pessoas que estavam no bar mantinham os olhos na mesa em que o rapaz estava, e ele tinha certeza de que não eram acompanhados de pensamentos agradáveis. - Me desculpe. - Falou ele em voz baixa. - Eu não pensei...

 - Já foi numa cidade não-humana, Dalan? - O interrompeu Wieder, encarando o garoto desta vez, que concordou com a cabeça. - Já percebeu que todo mundo fica te encarando, como se conseguissem prever que você vai fazer algum crime. - Outro aceno positivo com a cabeça, desta vez acompanhado de um rubor. O anão sorriu, quebrando o clima tenso. - Não se preocupe. Já vivi minha cota de anos, sei me virar.

 Dalan apoiou os braços na mesa e cruzou as mãos, fazendo uma careta enquanto pensava na melhor forma de perguntar algo que ele estava curioso há tempo. - Por quê você veio até uma cidade humana? Digo, não seria mais simples procurar uma guilda anã?

 - E eu perderia todas essas mulheres maravilhosas? Há! - Ele tomou um gole longo e inclinou a cabeça para trás, esperando Dalan rir com ele. No entanto, isso não aconteceu. Quando Wieder voltou à conversa, estava exponencialmente mais sério. - Dalan, eu tenho cento e oitenta e um anos. Sob todos os aspectos, já passei da metade da minha vida. Um dia eu estava no chuveiro, cuidando da minha própria vida como sempre, e de repente isso me bateu com força. - Ele apoiou os braços curtos na mesa, puxando a cadeira para ficar mais perto. - Eu notei que precisava fazer algo diferente. Não sei se você consegue compreender, é muito jovem ainda. Apenas imagine que... imagine que você seguiu toda a sua vida seguindo um padrão, e percebeu que, pelo restante dela, as coisas continuariam no mesmo padrão de sempre se não mudasse completamente.

 - Eu precisava mudar. Era como se eu já tivesse predito todas as minhas ações até a minha morte. Perguntei a mim mesmo o que queria fazer da minha vida, e... descobri que queria ser lembrado. Não queria ser mais um anão a viver nesse planeta. Parecia um desperdício de vida. Queria que as pessoas lembrassem do meu nome. - Ele levantou a cabeça, encarando o garoto. - Parece mesquinho?

 - Não. - Se apressou a dizer Dalan.

 - Bem, esse desejo limitou os lugares que eu poderia ir a partir dali. - Ele colocou a garrafa na mesa, brincando distraidamente com ela novamente. - Não tinha nenhuma habilidade especial para me destacar, então decidi ir para uma guilda. O problema é que guildas anãs compartilham do mesmo princípio de igualdade que o governo, então não valeria a pena. Quando soube que a Aurora estava contratando, bem... foi a escolha mais simples.

 Dalan cruzou os dedos, se sentindo um pouco mal vendo o esforço que o anão fazia para perseguir seus sonhos. - Eu... tenho medo de não conseguir recuperar minha ilha. É muita gente dependendo de mim. Às vezes eu nem consigo pensar nisso.

 - Se é sobre se relacionar com as pessoas, seja apenas você mesmo. - Respondeu simplesmente Wieder, como se a conversa já tivesse terminado. - É bem mais simples. - O rapaz ficou calado diante dessa proposta. Todos estavam dizendo aquilo. Deveria realmente deixar as coisas rolarem? Ainda não tinha resposta, mas no momento estava inclinando naquela direção.

 O garoto estava prestes a pedir alguma coisa para beber e tentar relaxar quando as portas do bar se abriram. Três humanos, no alto de seus vinte anos, entraram no estabelecimento gargalhando e tropeçando. Mesmo ainda sendo cedo, estavam claramente bêbados. O mais alto, um homem moreno e de cabelo espetado, visualizou Dalan e Wieder, sentados bem do lado do balcão.

 - OOOOH! - Gritou ele, quase caindo para trás. - O que temos aqui?

 - Não reaja. - Ordenou rapidamente o anão para Dalan. Ele estava sério, e segurava a garrafa com força. - Somos membros de guilda. Não podemos causar confusão com civis.

 - Um anão? - Perguntou o segundo homem, loiro e de cabelos longos e ondulados. Ele cambaleou até a mesa, deixando Dalan tenso. - O que faz tão longe, inferior? - Inferior era um dos piores xingamentos que podia se dar para um anão. Wieder segurou por um momento a garrafa com tanta força, que ela parecia prestes a explodir.

 - Acho que ele está perdido. - Grunhiu o terceiro, de pele clara e cabelo raspado. - Você sabe que inferiores não conseguem fazer nada sozinhos, né? Precisam de quatro amiguinhos apenas para abrir um mapa!

 - Isso é verdade, inferior? Você precisa de ajuda para achar o caminho de volta pra sua toca? - Perguntou o moreno, se curvando para encarar o anão nos olhos. Wieder não respondeu, apenas mordeu o lábio, e os outros riram. - Acho que ele precisa de mais dois companheiros só pra abrir a boca! - O loiro puxou a garrafa das mãos do anão, entornando todo seu conteúdo em sua cabeça.

 - Chama um companheiro pra te ajudar a limpar isso! - Zombou ele. Dalan trincou os dentes, se levantando com truculência. Wieder o encarou temeroso, mas o garoto apenas levantou a manga da camisa, revelando sua Marca.

 - Somos da Aurora. - Grunhiu ele, encarando os três badernistas com raiva profunda. - Sugiro que nos deixem em paz. - Por um instante, os rapazes pareceram assustados e Dalan soltou um pequeno sorriso, mas era tudo uma farsa. Eles caíram na gargalhada com vontade, apontando para o garoto.

 - Aurora? Aurora? Pensei que eles tinham acabado mês passado! - Ria o loiro, enquanto que o de cabeça raspada segurava a barriga.

 - Não se preocupe, eles estão salvos! - Anunciou o loiro, puxando o colarinho de Dalan. - Eles tem um inferior e um garotinho agora! Era tudo que faltava para conseguirem realizar suas missões de vital importância!

 - Ei, Aurora preciso que alguém limpe minha privada! - Disse o loiro, jogando um pouco da bebida no rapaz. - Vou pagar a vocês dois tens. Deve ser tudo que conseguiram em quatro meses, não é?

 - Aproveite e mande uma daquelas gostosas de vocês. - Disse o garoto de cabelo raspado. - Elas são um desperdício naquele chiqueiro que vocês chamam de guilda. Estariam melhor na minha cama! - Eles recomeçaram a rir e fazer gestos obscenos, e Dalan sentiu o rosto pegar fogo. A bebida que corria em sua face estava prestes a evaporar, e seus dedos se fecharam com tanta força que as unhas ficaram à beira de rasgar a pele. Quando estava prestes a socar um deles, as portas se abriram.

 A luz banhou o interior do Quatro Luas, mas foi um sujeito sombrio que entrou ali. Ele vestia um casaco púrpura e cheio de bolsos, mesmo naquele calor, e uma calça preta e pesada. Sua pele era clara e seu cabelo curto e negro era penteado para trás. Sua boca era um traço, e seus olhos eram verdes e puxados. Na verdade, um olho era verde e puxado. O outro estava coberto por um tapa-olho, que era preso por uma simples fita de pano ao redor de sua cabeça. O sujeito aparentava ter a mesma idade de Dalan, e olhou com calma e indiferença o princípio de confusão ali.

 - Algum problema, senhores? - Perguntou ele com uma voz. Silêncio. Dalan olhou ao redor, e viu que os badernistas haviam ficado tensos e suados. O garoto de cabelos raspados se adiantou, de repente sem um pingo de álcool no sangue.

 - N-n-n-não, senhor Marcus. Nós estávamos apenas... - Ele parou ao ver a mão esticada de Marcus, que levantou as sobrancelhas. - D-d-d-esculpe. Senhor Vastre.

 - Agora sim. Um pouco de respeito é tudo que precisamos, não? - Perguntou ele, franzindo a testa para encará-los de forma gélida. Outra rodada de silêncio. - Agora, saiam daqui e eu vou fingir que esse ataque à Aurora nunca aconteceu. - Os badernistas fugiram correndo, e Dalan se lembrou de onde tinha visto aquele homem antes. Era o membro da Aurora que vira uma vez, quando havia acabado de sair da sala da senhora Stella. Na hora, ele não havia conseguido enxergar o rosto, mas a fisionomia encaixava como uma peça de um quebra-cabeças.

 - Obrigado, Marcus. - Agradeceu Wieder, passando a mão pela barba para secá-la. - Mais dois minutos e aqueles três iriam voltar pra casa em potes para aperitivos.

 - Então foi oportuno eu ter chegado aqui. E mais oportuno ainda me lembrar da sua fixação por bares, Wieder. - Respondeu ele, ainda de forma impassível. Ele encarou Dalan com seu único olho à vista, e o garoto sentiu um arrepio passar pela espinha. - A senhora Stella pediu para voltarem à sede. Temos muitas tarefas a fazer para a chegada do prefeito.

 - Não se preocupe comigo. - Suspirou o anão, saltando da cadeira de forma cansada. Ele colocou alguns tens na mesa para pagar pelas alcaparras e a bebida, e andou em direção à saída. Dalan foi atrás dele, olhando de relance para Marcus, que agora encarava o resto do bar. Os clientes, que até então haviam observado em silêncio a confusão, se amedrontaram e voltaram à suas conversas como se nada tivesse acontecido. Marcus soltou o ar pelo nariz, e se virou para acompanhar os companheiros de volta à Aurora.