quinta-feira, 15 de maio de 2014

Aurora: Capítulo 12 - Garganta Cortada


AURORA
CAPÍTULO 12: GARGANTA CORTADA

 Um vento frio percorreu as montanhas de Tina, desviando dos picos e elevações diversas, até encontrar um imenso vale e descer como uma pedra. O vale separava duas regiões montanhosas, Felinyr e Gargabear, e era marcado pelo rio Venulis, uma imensa corrente abastecida por diversas cachoeiras adjacentes, que contribuíam para o ambiente desolado com uma forte névoa proveniente das quedas d'água. Lá embaixo, à beira do rio, uma vegetação rasteira ousava crescer rebeldemente. No entanto, ela não conseguia subir as montanhas, pintadas de um cinza fraco e morto, dando à região um ar de morbidez. Os humanos a chamavam de Vale das Cachoeiras, que como grande parte das montanhas de Tina, se dizia que era amaldiçoada, uma mancha pálida no meio de uma área de florestas tropicais. E era ali que três membros da Aurora caminhavam através de uma das muitas estradas serpenteadas, com uma missão nas mãos.

 O vento desceu a encosta rochosa de uma montanha, que dividia a elevação em uma descida grave e outra aguda, encontrando a voz de uma garota de cabelos azuis-claros e presos em longas maria-chiquinhas, que balançaram agitadamente pela lufada de ar. Ela vestia um apertado colante preto e azul, do qual possuía diversas cópias em seu guarda-roupa, e ralhava com os dois companheiros que haviam ficado para trás.

 - Se não se apressarem, deixarei vocês para trás. - Era o que havia alertado Sasha, do alto de uma elevação, mantendo o rosto impassível enquanto controlava sua raiva com os outros dois. Precisava manter a pose e o respeito, pensou, para que conseguisse completar essa importante missão sem falhas. E isso significava aturar Julie e Koga, dezenas de metros atrás dela.

 - Você poderia descer do seu pedestal e vir nos ajudar, sabia? - Retrucou Julie, balançando seus curtos cabelos loiros, franzindo o cenho e indicando Koga ao seu lado. Ela usava um vestido branco e longo que descia até os joelhos, acompanhado por uma calça negra por baixo e um echarpe vermelho enrolado no pescoço. O rapaz de longa trança negra, por sua vez, vestia um traje de peça única da mesma cor que a montanha cuja encosta caminhava, e da mesma cor de seu rosto pálido. Ele usava seu cajado para se apoiar no chão pedregoso, e levantou a cabeça pela primeira vez em longos minutos. - Você sabe que ele passa mal em regiões montanhosas, Sasha! - Gritou irritada. Já estava bastante estressada por sua irmã, Sophie, ter ido a uma missão perigosa sem ela por perto, e não tinha muita paciência sobrando para Sasha.

 - Então você vai ficar para trás enquanto que eu faço todo o trabalho? - Perguntou a outra garota, se virando para seguir em frente. - Faz bem o seu estilo, Julie. Se proteger enquanto outros se arriscam. - Alfinetou.

 Uma veia na têmpora da loira pulsou, e ela se adiantou com os punhos cerrados. - Não sabia que abandonar os companheiros era o seu estilo, senhorita líder perfeita! - Gritou com escárnio. Sasha estancou, e ela continuou com a voz um pouco mais baixa. - Digo, eu sabia desde o início que esse era seu estilo, mas achei que você estava tentando ser um exemplo para todos nós, meros mortais. - Terminou com a mão no peito, sarcástica. A garota de cabelos azuis ficou imóvel por alguns segundos, enquanto que o vento balançava seus cabelos, até que ela se sentou.

 - Venham logo. - Anunciou, com a voz impassível. Julie bufou e deu um tapa no pescoço de Koga, obrigando-o a se apressar.

 - É tudo culpa sua. - Disse irritada, apressando o passo enquanto que segurava o amigo pelo braço.

 Os três seguiram pela estrada acidentada, subindo e descendo a encosta da montanha enquanto que o rio corria agitado à direita. A paisagem permanecia praticamente imutável, com as rochas cinzentas e a ausência de qualquer ser vivo contribuindo para o clima mórbido. A única diferença era que a cada passo os membros da Aurora adentravam cada vez mais a névoa gerada pelas inúmeras cachoeiras no vale. O som delas ao longe, junto com o vento agitado, contrastava com o silêncio entre as duas garotas, que evitavam até se olhar. Koga ficava no meio delas, visivelmente incomodado pela situação.

 Eis que, ao olhar distraída para a encosta da montanha, Sasha subitamente parou e colocou a mão nos rostos dos companheiros, com o olhar fixo. - Calados.

 Julie, cujo coração só não havia pulado para fora do corpo pela palma de Sasha em sua boca, acompanhou o olhar da colega. Havia uma fresta discreta no leito montanhoso, disforme e alta, e um homem estava parado à frente dela. Sasha girou os braços e empurrou os outros dois para baixo pela nuca, derrubando-os no chão.

 - Qual é a droga do seu problema? - Perguntou Julie por entre os dentes, tentando se levantar. Sasha, no entanto, a segurou com mais força.

 - Quieta. Estamos muito destacados. - Ordenou a garota, tentando levantar a cabeça para enxergar o homem. Koga, por sua vez, preferiu continuar onde estava.

 - Claro que estamos muito destacados. Já olhou pra sua roupa? - Disse Julie com a voz entediada, girando os olhos para o outro lado. A outra, por sua vez, corou fortemente.

 - Ela é funcional. - Disse ela em voz baixa. O homem à frente se virou e voltou para a caverna, fazendo com que Sasha se levantasse, puxando os companheiros pelo colarinho. - Vamos. - Ordenou com a voz séria.

 Eles seguiram apressadamente em direção à caverna, saindo da estrada e percorrendo um caminho muito mais acidentado do que o que haviam estado antes. Em dois pontos precisaram apoiar as mãos no chão para subir paredões de rocha, procurando o percurso mais protegido caso o homem voltasse ao ar livre. Koga, suando em baldes, se esforçava para acompanhá-las, enquanto que Julie ficava um pouco para trás para ajudá-lo.

 Finalmente o trio chegou à encosta da montanha, escondidos atrás de uma rocha caída. Sasha inclinou o corpo para observar a área próxima à fresta, e se virou para os outros. - Acho que é esse o local que procuramos. A Garganta Cortada. - A caverna natural havia recebido esse nome por um caso de assassinato que ficara famoso dois anos atrás. Desde então a Aliança havia redobrado a atenção naquela área, com medo de novos crimes semelhantes.

 - Não é estranho? - Perguntou subitamente a garota loira, ficando na ponta dos pés para poder enxergar melhor a fresta. - A caverna da Garganta Cortada fica numa região anã. Porque enviaram uma guilda humana para resolver isso?

 - Não é da sua conta, e de nenhum de nós. - Disparou Sasha, e a veia na têmpora de Julie pulsou novamente. - Nós só temos que... droga!

 - O que houve? - Perguntou Koga, enquanto que a outra garota se recolhia à proteção da rocha. Os outros dois se esticaram, e perceberam que um homem havia saído da caverna. Ele tinha pele bem morena e vestia uma camisa verde e rasgada, assim como uma calça marrom. Uma bandana negra estava enrolada na cabeça careca, e um símbolo de uma águia voando com uma árvore nas garras servia como decoração. Vê-lo fez com que os olhos do rapaz da Aurora se estreitassem, e ele voltou a ficar escondido. - Eu os conheço.

 - Quem são eles? - Perguntou Sasha, dando mais uma olhada para ver se o homem vinha na direção deles.

 - São mercenários. Águias Obstinadas, como são chamados. - Mercenários eram organizações similares à guildas, mas que funcionavam de forma ilegal. Isso acontecia porque ofereciam serviços que iam contra as leis, tais como assassinatos, sequestros e afins. Julie se sentou, arqueando as costas.

 - São perigosos? - Perguntou.

 - São caros, se é que eu posso dizer alguma coisa. - Respondeu Koga, se sentando também. - Eu tinha um amigo que queria ser um mercenário, e ele pesquisou a fundo as diversas organizações. Pelo que sei, as Águias não recebem muitas missões pelo seu preço alto, mas costumam cumpri-las com perfeição.

 - Bem, hoje não será um bom dia na agenda deles. - Respondeu Sasha, se virando para o amigo. - Julie irá ficar com você para protegê-lo, enquanto que eu vou lá dentro e limpo a área. - Terminou, apontando com o polegar a Garganta Cortada.

 - O quê? - Disparou a outra garota, se levantando e inclinando na direção da colega. - Você acha que vai cuidar de uma dúzia de mercenários sozinha? É tão arrogante assim?

 - E acha que você vai me ajudar em alguma coisa? - Respondeu Sasha com os olhos arregalados. A tensão local subiu em níveis exponenciais, enquanto que o rapaz ficava mudo como as rochas do ambiente.

 - Você consegue ficar guardando pra ver se ninguém entra ou sai da Garganta Cortada, Koga? - Perguntou Julie, ainda sem tirar os olhos de Sasha. O garoto fez que sim, e ela sorriu. - Então ótimo. Vou dar cobertura a essa aqui enquanto nos infiltramos na caverna. Tudo bem? - Perguntou novamente, desta vez para Sasha, mas avançou sem esperar resposta.

 - Apenas não atrapalhe. - Grunhiu a outra, se apressando para ultrapassá-la. As duas correram silenciosamente até a fresta na montanha, conscientes de que o guarda de antes estaria bem próximo. Se inclinaram para o interior da montanha, e o avistaram vinte metros à frente, iluminado por uma tocha e andando calmamente pelo corredor apertado de rochas. As garotas, evitando sempre encostar uma na outra, o seguiram.

 Sete minutos depois, a caverna se expandiu em uma área circular de quase cinquenta metros de diâmetro. Era totalmente formada pelas rochas cinzas do exterior, que pareciam negras na escuridão natural. Tochas eram penduradas para combater o breu, e eram ou presas na parede, ou carregadas pelos mercenários das Águias Obstinadas. Ao total eram cinco, e dois deles estavam sentados em volta da fogueira central, onde um homem magro, de cabelos longos e brancos e roupas maltrapilhas, tremia violentamente. Sasha cutucou Julie e apontou para uma grande elevação na parte leste da caverna, razoavelmente protegida pela escuridão. As duas seguiram para o lugar estratégico, enquanto que o homem desatava a gritar.

 - PRECISAMOS DE MAIS GENTE! M-MAIS GENTE! PRECISAMOS... precisamos... - Ele sofreu um ataque de espasmos, e caiu de joelhos para socar com as duas mãos o chão rochoso. - E-e-e-ele está vindo. ELE ESTÁ VINDO! - Gritou, babando, em direção aos mercenários, que apenas cruzavam os braços. O homem voltou suas atenções ao chão, mesmerizado. - Não há lugar para se proteger. Não há lugar para se esconder. E-estamos t-todos mortos...

 - Senhor Lester, o senhor está seguro. - Disse um dos homens, bem grande e com o cabelo tosado. - Nós estamos preparando o abrigo que o senhor pediu. Em algumas semanas, poderemos...

 - SEMANAS? - Gritou ele, cuspindo na direção do mercenário. - P-PRECISAMOS DE... DE HORAS! MINUTOS! ELE ESTÁ AQUI, E PODERÁ NOS MATAR A QUALQUER MOMENTO! Z-Z-ZEM... - Ele se calou com as mãos na boca, parecendo aterrorizado demais para concluir a palavra. Todos os outros ali na caverna por um instante inconscientemente gelaram, como se, no fundo, soubessem de quem o velho Lester estaria falando. Julie quase escorregou na rocha, e Sasha a ofereceu um olhar tenso e reprovador.

 - Senhor, se acalme. - Pediu outro homem, se ajoelhando ao lado do velho. - Nós estamos aqui para defendê-lo.

 - Me defender? - Lester aproximou rapidamente o rosto do mercenário, que instintivamente recuou. - A Aliança... a Aliança inteira... todos os heróis que já possuímos... não conseguiram detê-lo. Desde o início dos tempos, tudo que fizemos foi afastá-lo. SÓ QUE ELE JÁ ESTÁ AQUI! - O velho tentou escavar a terra, como se quisesse se proteger no centro da terra. Julie engoliu em seco. Agora estava claro o que havia o aterrorizado - S-s-s-sabe de quem estou falando... garoto? - Grunhiu em voz aguda, apoiando a testa no chão.

 - Quando ele falar, faça seu ataque. - Disse Sasha no ouvido da companheira, que novamente sentiu o coração tentar saltar pela boca. Julie se virou para a outra garota, e percebeu que ela suava e tinha os olhos nervosamente arregalados. Ambas haviam descoberto o mistério.

 - HEIN? - Gritou o velho, segurando o mercenário mais próximo pelo colarinho. - SABE. DE. QUEM. ESTOU. FALANDO? - Julie se preparou, tentando se concentrar. Todos ali sabiam a resposta, mas ninguém se atrevia em dizer seu nome em voz alta. - SABE? - A garota sentiu que liberaria seu poder de forma involuntária com a revelação do homem, e esticou o braço levemente trêmulo no alto. Sasha desviou os olhos, apoiando seu peso em um joelho enquanto que espalmava as pedras abaixo de si. - RESPONDA!

 - O-o senhor está falando de... - Tentou começar o mercenário, mas o velho calmamente colocou o dedo em seus lábios, parecendo extraordinariamente lúcido. Ele se aproximou do rosto do outro homem, sussurrando uma palavra tão baixa, mas que no entanto conseguiu ser ouvida por cada uma das nove pessoas ali.

Zemopheus.

 - AGORA! - Gritou Sasha, chamando a atenção dos outros para as duas membros da Aurora. Os mercenários, avidamente nervosos, olharam para a elevação em pânico enquanto que Lester afundava o rosto no chão. Julie soltou o ar preso e liberou todas as suas energias na palma da mão, que começou a brilhar intensamente. Era como se uma represa tivesse se rompido, sem controle, de forma que a luz branca preencheu completamente a caverna. Os mercenários caíram gritando com as mãos nos olhos, enquanto que Sasha os abria.

 - Vá! - Gritou Julie, exausta e com o antebraço colado nos olhos. A companheira disparou para baixo, célere como o vento. Ela começou saltando em um homem caído no chão, chutando seu rosto para apagá-lo. Virou o rosto e encontrou outros dois na mesma posição, e correu até eles para bater suas cabeças uma na outra. Havia algo querendo sair de seu peito, como um monstro alimentado pelo nervosismo de momentos antes. As Águias Obstinadas estavam desorganizadas, atacadas pela surpresa, e Sasha decidiu aproveitar o momento para capturar Lester.

 - S-SOCORRO! - Gritou ele, quebrando levemente o encanto de terror em seus contratados. A membro da Aurora, no entanto, estava rápida demais para que conseguisse reagir à qualquer coisa, e um dos homens, desesperado, se agitou cego e sem querer se colocou na direção da garota. Ela foi acertada no estômago por um cotovelo perdido, e estancou pelo golpe. Sua cabeça foi para frente, cuspindo saliva e sangue, e ela caiu de joelhos deslizando pelo braço do mercenário, segurando a região ferida. Imbecil, era tudo que conseguia pensar. Seu desespero havia a deixado inconsequente, e agora pagava um preço terrível. O homem, percebendo que havia acertado alguma coisa, atacou o ar em busca do alvo, desferindo acidentalmente um soco no rosto de Sasha, que caiu para trás. Seu nariz trincou audivelmente, e ela colocou a mão livre na face. Com a visão embaçada, viu Lester se levantar e correr histericamente em direção à saída, enquanto que os outros dois Águias se reorganizavam, ainda meio cegos.

 - Sasha! - Gritou Julie, deslizando para auxiliá-la. A companheira, por sua vez, recusou a ajuda.

 - Vá atrás dele! - Gritou Sasha, se forçando a ficar de pé, cambaleante. - O objetivo da missão é capturar Lester e impedir que ele volte aqui! Impeça-o de fugir! - Mesmo rangendo os dentes, Julie a obedeceu, correndo pela lateral da caverna e entrando em perseguição, deixando a outra cuidar do que restou das Águias, que mesmo com a visão prejudicada continuavam sendo ameaças. - Bem. - Começou ela, limpando o sangue do rosto. - Quem é o primeiro?

 A garota loira corria como podia, atravessando o corredor estreito em passadas largas. Conseguia enxergar seu alvo muito à frente, disparando com toda a força do desespero. Para um homem naquela idade, era uma velocidade realmente considerável. Ele conseguiu sair da Garganta Cortada antes que Julie chegasse à metade do trajeto, e agora seguia em direção à estrada. Ela começou a ficar apreensiva, e tentou apressar o passo. Se Lester chegasse ao rio Venulis, talvez nunca mais conseguiria ser encontrado.

 Eis que surgiu uma outra figura, correndo para impedir o homem de cabelos brancos. De início a garota não conseguiu identificar quem era, mas ao ver aquela trança tão familiar, não teve mais dúvidas. Koga havia visto o homem e se posto a persegui-lo, doente ou não. Ele o estava alcançando no momento em que Julie atravessou a fresta, um pouco mais calma. O amigo capturaria o alvo e tudo estaria resolvido.

 Infelizmente para os dois, o rapaz ainda estava muito abalado pela pressão atmosférica, e aquela corrida havia sido o suficiente para esvaziar seu fôlego. Ele diminuiu a velocidade ao chegar perto de Lester, que , tomado por uma histeria louca, socou com força o membro da Aurora na boca. O mundo de Julie pareceu parar por um instante, enquanto ela via o companheiro desabar e cair para fora da estrada, em direção ao Venulis.

 - KOGA! - Gritou ela, voltando a correr. Percorreu os últimos metros como uma bala, tropeçando, deslizando e se segurando. Pelo canto do olho viu Lester correr estrada abaixo, mas ele não era mais importante. A garota sentiu o desespero crescer a cada segundo, e se esforçava para continuar correndo. Alguém, por favor, alguma coisa, rogou aos deuses.

 Nesse instante uma mancha negra e azul se emparelhou com ela, ultrapassando-a em seguida. O coração da loira ficou imensamente mais leve, e ela diminuiu o passo. Sasha chegou à beira da estrada, e olhou para baixo na direção de onde o amigo havia caído. Em seguida, ela virou o rosto para observar a companheira, que continuava correndo, e girou para correr em direção à Lester, que seguia a estrada. Por um instante Julie quase parou em choque, mas se lembrou o que estava acontecendo e voltou a correr, gritando a plenos pulmões. - SASHAAAA!

 Alheia à qualquer resposta, ela chegou à estrada com forças redobradas. Olhou para baixo, para a encosta de quase setenta graus, vendo que o amigo estava alguns metros abaixo, salvo temporariamente por uma pedra irregular que o havia parado. Ele estava de olhos fechados, visivelmente em dor, e Julie saltou vale abaixo para salvá-lo. As pedras escorregadias quase a derrubaram também no primeiro passo, fazendo com que ela jogasse o corpo para trás para se apoiar. Caiu prendendo um braço entre as rochas, e um estalo de dor subiu dos dedos até o pescoço, mas ela continuou. Se impeliu para frente, cambaleando desajeitadamente até onde o amigo jazia.

 - Koga? - Perguntou esbaforida, sentindo os dedos quebrados pulsarem em agonia. O companheiro estava ofegante, mas aparentemente sem nenhum dano sério. A garota o puxou com a mão boa, e olhou ladeira acima para calcular a dificuldade de seu caminho de volta. Naquele instante a rocha em que estavam apoiados se soltou, começando a cair em direção ao rio. - Merda! - Praguejou Julie, enfiando os dedos quebrados na rocha para retomar o apoio. A dor quase a fez desmaiar, mas ela se prendeu. Contudo, isso era temporário, pois não tinha forças para se segurar junto com outra pessoa. Desesperadamente ela viu os dedos torcidos começarem a deslizar, e seu pé de apoio perder o suporte, fazendo-a cair de joelhos. Seus pensamentos foram para a irmã, que se encontrava tão longe. Não conseguiu pensar em palavras de despedida, pois a mão se soltou e ela começou a cair.

 Algo no entanto agarrou seu pulso, estancando sua queda. Julie olhou para cima, e viu Sasha segurando-a com os dois braços, suada e exaurida. - Se jogue para cima! - Ordenou ela. A garota mordeu a língua para segurar uma resposta afiada, mas obedeceu à ordem. As duas se apoiaram uma na outra, e com esforço conseguiram levar Koga até à estrada, onde Lester se encontrava desacordado. Deixaram o garoto no chão, descansando, e a garota de cabelos azuis colocou as mãos no quadril, respirando fundo. - Vamos descansar alguns segundos. Depois, iremos... - Nesse momento Julie foi até ela com os pés batendo forte, e os braços rígidos ao lado do corpo.

 - O que. Pensa. Que. ESTÁ. FAZENDO? - Esbravejou ela, gritando tão forte as duas últimas palavras que elas continuaram a ecoar no vale por longo segundos. Sasha arregalou os olhos, tentando recobrar a compostura.

 - O que foi desta vez? - Perguntou, tentando controlar outro ataque de nervos. Precisava mostrar o exemplo ali.

 - Você abandonou Koga! Você o deixou à morte. - Disparou Julie, lacrimejando fracamente e apontando o dedo no rosto da outra. - Você o viu, e deu às costas! Mesmo que não considere ele seu amigo, pouco importa! Koga é um membro da Aurora, sua duas-caras!

 - Eu não o abandonei. - Disse pausadamente Sasha, juntando todas as suas forças em seu auto-controle. - Eu vi que você estava chegando. Eu sabia que você iria salvá-lo à tempo. Por isso, decidi me focar em Lester, nosso objetivo!

 - Não, você correu atrás dele porque precisava ser a pessoa mais importante nessa missão! - Acusou Julie, dando um passo na direção de Sasha, que manteve a postura. - Você deseja tanto essa... essa maldita honraria que ignora tudo que acontece ao seu redor!

 - Eu não ignorei nada! - Cuspiu a garota, perdendo um pouco do controle e apontando para o peito da outra. - Eu analisei a situação e fiz o que era certo! Se saísse uma única vez da segurança da sede e fizesse alguma coisa de útil para a guilda, saberia disso! - A voz dela ficava mais aguda a cada palavra. Julie estreitou os olhos, absorvendo o que ouvia.

 - Talvez eu fique lá dentro porque lembro que existem pessoas na Aurora, e elas estão passando por momentos difíceis! - Respondeu ela, fechando o punho sadio. - Eu não evito problemas que não posso resolver com socos e pontapés, dando as costas quando as coisas ficam ruins!

 - Covarde! - Disparou Sasha, dando um passo à frente.

 - Arrogante! - Respondeu Julie no mesmo tom, também se aproximando.

 As duas ficaram se encarando, ofegantes ao extremo, com as testas extremamente próximas e olhares fixos sem piscar. O vento soprou diversas vezes, mas nenhuma delas arredava o pé. Foi apenas quando Koga tossiu forçosamente, de modo a chamar atenção, que o feitiço foi quebrado. Depois de mais uma longa encarada, Julie se encaminhou na direção dele, enquanto que Sasha virava as costas e cruzava os braços.

 - Temos vinte minutos para descanso, e depois iremos voltar à Helleon. - E dito isso, ela se afastou para voltar à Garganta Cortada. A outra garota se ajoelhou perto do amigo, verificando se ele estava bem. Não parecia haver nada irreversível ou grave, e ela suspirou em resposta.

 - Julie, eu... - Começou Koga, mas a garota apenas deu um tapa, um pouco mais leve do que o costume, em sua cabeça para se levantar em seguida.

 - É tudo culpa sua. - Disse de forma sombria, e se virou para conferir se Lester continuava apagado. O vento novamente soprou, passando pelos membros da Aurora e continuando seu trajeto, sem encontrar obstáculos até chegar no rio. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Aurora: Capítulo 11 - Bestas Ferozes


 - Foi um jantar excelente, senhora Alba. - Disse o prefeito Visandre, entrando educadamente na sala da líder da Aurora. Ele era um homem alto e bronzeado, com olhos castanhos e alertas por trás de seus óculos finos. Seu cabelo era curto, negro e penteado para trás, e seu rosto era longo e reto. Vestia um terno marrom por cima de uma camisa branca, perfeitamente alinhados no seu corpo magro. 

 - Fico agradecida por isso, senhor prefeito. - Respondeu Stella Alba, que usava um vestido preto por baixo do terninho azul-claro, da mesma cor que seus cabelos, que naquele dia estavam arrumados em um elegante rabo-de-cavalo. Ela manteve um sorriso simpático, mas por dentro estava aliviada pelo fim da refeição que haviam compartilhado com o restante da guilda. Foram duas horas de uma conversa extremamente entediante sobre economia e política, que seria prolongada pelos assessores do prefeito, para desespero dos outros membros da Aurora. - O senhor pode se sentar. - Disse ela, indicando com a mão sua mesa, no centro da sala. Stella havia passado quatro dias arrumando aquele aposento, que havia passado do puro caos para um recanto feminino e organizado. Haviam vasos de flores acima dos armários, e um cheiro suave de lavanda tornava-o ainda mais agradável. O prefeito se sentou de frente à mesa, enquanto que a líder ocupava seu lugar. - Bem, acho que podemos -- Começou ela, mas foi interrompida pelo aceno de mão do outro homem. 

 - Já sei o que irá me pedir, Stella. - Declarou o prefeito com a mão espalmada para a senhora Alba, enquanto revirava o paletó com a outra. - E já tenho minha resposta. - Ele espalhou três papéis na mesa. Stella puxou a caixa dos óculos, que finalmente havia achado no meio de sua arrumação, abrindo-a distraída. Colocou as lentes, puxando os três papéis. Notou imediatamente que as informações ali estavam arrumadas de uma forma bastante familiar. 

 - São... missões de guilda? - Perguntou ela, ajeitando os óculos enquanto franzia as sobrancelhas. Realmente, eram contratos de missões, todos preenchidos de forma condizente. No entanto, havia algo ali que se destacava do resto.

 - Sim, e são missões encaminhadas. - Se adiantou Visandre, parecendo saber onde os olhos da outra mulher estavam. Stella levantou a cabeça, encarando o prefeito com os olhos arregalados. Missões encaminhadas eram uma das maiores conquistas que a Aurora poderia conquistar. Por serem feitas especificamente para uma guilda, não haveria custo nenhum para aceitá-las, e recebê-las aumentaria o renome deles, pois indicaria extrema confiança do contratante. Stella engoliu em seco, com um pé atrás. Tinha que haver alguma pegadinha. Não eram tão grandes nem tinham um histórico recente de competência para receber uma missão encaminhada. Quanto mais três.

 - Sobre o que elas são? - Perguntou a mulher de forma controlada, enquanto seus olhos liam atentamente o contrato e sua mente trabalhava furiosamente para associar todos os dados ali.

 - Três áreas nos arredores de Helleon foram ocupadas por arruaceiros. - Disse ele, puxando um frasco de dentro do paletó. - Para nós termos, ah... bom-relacionamento com nossos vizinhos, fiz com que sua guilda assumisse essas tarefas. - Visandre sorriu, se reclinando minimamente na cadeira enquanto que bebia um curto gole de uma substância amarela e pastosa. Quando terminou, seus olhos estavam afiados. - Sejamos sinceros, Stella. Não há forma de vocês recusarem meus presentes. A Aurora necessita reconquistar seu renome. - Ele esticou a mão, segurando os três contratos. - Esse é o jeito mais fácil. Além do mais, cumprir essas missões garantirá à vocês seis meses de impostos pagos pelo meu próprio bolso. - Ele se reclinou novamente, cruzando as mãos à frente do rosto. - O que me diz?

 Stella engoliu em seco, pressionada pelo jeito incisivo do prefeito. Ela apertou as mãos nervosamente e voltou a encarar os contratos, procurando algo fora do eixo. No entanto, os benefícios daquelas missões ocultavam sua mente. A Aurora estava numa posição financeira deplorável, e seis meses sem impostos lhes dariam uma chance de se reorganizar financeiramente. Só que estavam falando de arriscar a vida de seus membros... - Por quê a Aurora? - Perguntou ela, sem retirar os olhos das folhas. O prefeito se levantou, como se a conversa já estivesse terminada.

 - Nesses tempos em que vivemos, uma cidade é forte apenas se possuir uma guilda forte. Caso a prefeitura desejasse realizar uma tarefa, seria muito melhor se o dinheiro ficasse entre nossas divisas. - Ele se apoiou na mesa, encarando a mulher nos olhos. - Estamos nos ajudando, Stella. A questão é: a Aurora deseja ser ajudada? - A líder manteve o silêncio por algum tempo enquanto continuava encarando Visandre. Tudo aquilo estava muito suspeito, mas não havia opção. Era aceitar ou a falência. Pressionou os dedos com força, entregando os pontos.

 - A Aurora irá realizar essas missões. - Declarou, se levantando. - Irei mandar minhas melhores equipes. O senhor pode ter certeza de que seremos capazes disso.

 - Eu espero que sim. - Respondeu o prefeito, se virando para sair da sala e deixando Stella sozinha, atormentada pelos seus pensamentos inquietos.

AURORA
CAPÍTULO 11: BESTAS FEROZES

 - WIEDER! - Gritou com toda força Dom, correndo desesperado em direção ao companheiro. O anão olhou para trás e gelou ao ver a enorme aranha, grande como uma mesa e revestida de símbolos roxos berrantes em torno do corpo negro, se arquear para atacá-lo. Ele ficou imóvel, esperando o golpe fatal, quando um disco borrado do tamanho de sua cabeça zuniu ao seu ouvido, acertando a besta em cheio. O aracnídeo recuou, zonzo, e partiu desajeitadamente em disparada.

 - Santos deuses piedosos... - Ofegou o anão, quase caindo no chão. - No que nos metemos? - Ele se sentou em uma rocha lisa, recuperando o fôlego que havia sumido. Estavam em uma densa floresta tropical, chamada de Floresta de Hyannien. Ficava cinquenta quilômetros ao sul de Helleon, crescendo ao redor de uma curiosa cadeia montanhosa em forma de lua crescente, com o mar se ajeitando em uma baía no centro do meio-círculo. Dominic, cuja alta estatura contrastava com o pequeno corpo de Wieder, se sentou ao lado do companheiro de Aurora.

 - Acho que não deveríamos nos manter parados. - Alertou, mas estava quase tão cansado quanto o outro. Haviam corrido pela mata fechada durante horas, batalhando com metade da floresta para continuarem vivos enquanto que superavam o terreno inclinado. A camisa cinza do homem estava encharcada, e a mancha de suor descia até a calça verde-escura. Ele apoiou as costas na enorme rocha coberta de musgo que os dava cobertura, e arrastou as botas pela grama fofa e úmida. - Qualquer uma daquelas coisas pode nos emboscar aqui. Não seria a primeira vez hoje.

 - Dois segundos. - Pediu Wieder, retirando o gorro e o usando para secar a testa. O vermelho da peça se escureceu com o suor, combinando muito mais com a camisa molhada, que se escondia por debaixo de um macacão negro. O anão esticou o pulso à sua frente, contemplando a pulseira dourada. De acordo com os testes que havia feito na guilda, só teria forças para ativá-la duas vezes antes de dormir. E já havia a ativado mais cedo. Ele rangeu os dentes, amaldiçoando sua própria incapacidade. Se ao menos tivesse conseguido compreender melhor aquele artefato, talvez não estariam na situação em que se encontravam.

 Um farfalhar de folhas varreu os pensamentos e o cansaço dos dois, que imediatamente se levantaram. A mata fechada à frente deles balançou ameaçadoramente, escondendo o que parecia ser um vulto alto. Eles se retesaram, tensos, mas suspiraram de alívio ao ver a forma de Marcus se materializar.

 - Você nos deu um susto e tanto, garoto! - Riu Dom, pondo a mão grande nas costas do rapaz. Ele não reagiu a isso, preferindo os encarar com seu único olho.

 - As bestas os encontraram? - Perguntou ele, apoiando as costas em uma árvore, cruzando os braços enquanto que Dominic e o anão voltavam a sentar nas pedras. Marcus estava extremamente cansado, reparou Wieder, mas ele tentou se recompor de forma mais sutil.

 - Umas Aranhas Temerosas, mas conseguimos nos virar. - Respondeu o anão. - E você?

 - Encontrei nosso alvo. - Respondeu o garoto sem alterar a voz. Os outros dois se alertaram. Haviam viajado à Floresta de Hyannien em uma missão para desocupar a Torre de Marfim, uma construção branca e escondida no meio da mata, que havia sido invadida por arruaceiros. Quando chegaram lá, descobriram que a torre estava sendo transformada em um depósito ilegal de bestas selvagens, organizado por um humano alto e loiro chamado de Jamie. Infelizmente ele havia percebido a aproximação dos membros da Aurora e soltado suas criaturas em cima deles, que recuaram forçadamente. Desde então, não haviam conseguido encontrar o caminho de volta. Até agora.

 - Onde? - Perguntou Dom, se levantando. Wieder ficou de pé também, esfregando o suor da testa. Maldita umidade, pensou. Marcus, por sua vez, apontou para o norte.

 - Vinte minutos de caminhada até lá. No entanto, devemos nos preocupar. - Ele começou a andar, convidando os companheiros a o seguir. - Pelo que eu vi, ele usa uma Flauta de Letham para controlar suas bestas a nos atacarem. E mesmo que a maior parte delas tenha vindo em nosso encalço, ele mantém duas criaturas ao seu lado para proteger a Torre de Marfim.

 - Perfeito. - Resmungou Wieder. Os três seguiram floresta adentro, avançando pelo terreno acidentado, e o silêncio era apenas quebrado pelo farfalhar das folhas e zumbidos dos insetos. As Aranhas Temerosas na região afastavam qualquer forma de vida um pouco maior do que um polegar, afugentando os pássaros e outros animais silvestres. Isso dará um belo trabalho de contenção ambiental, pensou o anão enquanto escalava um tronco caído. Que bom que isso não era problema dele.

 Finalmente, chegaram à construção branca, localizada no meio da cordilheira em forma de lua crescente, oferecendo uma visão bastante impressionante da baía abaixo. Um posto de depósito durante a Guerra das Fronteiras, fora completamente abandonada nesses milhares de anos pacíficos na região. No entanto, a Torre de Marfim resistia bravamente ao tempo, muito pelo fato de ser protegida pelas montanhas atrás de si. Supostamente era um trabalho de fadas, embora não possuísse os característicos ornamentos e embelezamentos faéricos recentes. Era simplesmente uma torre de base redonda e baixa, com um portão de madeira e pequenas janelas ao redor de sua circunferência.

 Os membros da Aurora se aproximaram com cautela, observando os arredores. Haviam entrado antes por uma janela lateral, mas todos os orifícios ao nível do chão haviam sido selados de forma rudimentar com tábuas de madeira. Marcus se ajoelhou, estreitando o olho.

 - Vamos ter que passar pela porta. - Disse ele, se virando para os outros dois. - As janelas devem estar vigiadas depois da última vez.  Acho que só nos resta tentar o mais óbvio. - Wieder se mexeu em contragosto, mas não conseguia pensar em plano melhor. Assim, os três se puseram a caminhar de forma cautelosa até a entrada da torre.

 O anão sentia um temor crescer dentro de seu peito, andando sem proteção no meio da clareira. Aquela não era uma missão em que poderia morrer com glórias. Caso fracassasse ali, seria apenas uma nota no rodapé da Aurora, desconhecido por todos. Precisava sobreviver, para conquistar sua importância. Ele levantou a cabeça, encarando a Torre de Marfim, solitária no meio da floresta. Wieder já abaixava a cabeça, quando notou um brilho verde em uma das janelas superiores.

 - CUIDADO! - Gritou, mas já era tarde. A enorme fera saltou na direção dos membros da Aurora, revelando sua forma à luz forte do sol. Era parecida com um tigre, com quase três metros de comprimentos por um e meio de altura. Tinha pelos de um verde forte, com listras negras se espalhando pelo corpo. Suas garras pareciam adagas, e seus dentes eram brancos como as paredes da torre. Era um Tigre de Jade, e ele mirava o anão.

 Wieder segurou a pulseira de ronatto em um ínfimo de segundo, liberando sua energia. Seu corpo cresceu e se alongou, transformando-o em um golem de pedra amarelada. Ele imediatamente levantou as mãos à frente de corpo, se protegendo da fera que saltava em sua direção. O peso do tigre o fez cair de costas, sentindo as garras, de alguma forma, atravessarem o ronatto. No entanto, seus olhos continuavam fitando a janela da Torre de Marfim, pois nela estava sentando um homem alto e loiro, vestido de um traje vermelho com uma capa negra e um chapéu decorado com uma pena. Jamie, o contrabandista de bestas selvagens, estava tranquilamente apoiado no suporte, tocando uma flauta de madeira em suas mãos e liberando um som imperceptível aos ouvidos humanos.

 Naquele mesmo instante, as portas frontais se romperam quando uma forma esférica e roxa atravessou a madeira, rolando com violência na direção do restante da Aurora. Dom e Marcus saltaram para longe, escapando por um triz de serem atropelados, enquanto que a criatura dava meia-volta e se desenrolava. Parecia uma lacraia negra, também gigante, com uma carapaça púrpura e dura servindo como um exoesqueleto. Duas antenas, mais parecidas com chifres, saíam da cabeça da besta, que os encarava com seus olhos amarelos. O Venolípede sibilou, vibrando as antenas.

 - Shitto. - Praguejou Wieder em sua própria língua, segurando o Tigre de Jade. Pensou em jogá-lo para longe, mas isso apenas acrescentaria um novo problema à eles, visto que o anão não conseguia se mover com agilidade o suficiente para proteger os outros dois dos ataques da fera. Assim, se viu preso ao animal, esperando que os outros pudessem se livrar do Venolípede sozinhos.

 A criatura voltou a se enrolar, disparando na direção de Dom. Ele retirou um botão da roupa, segurando-o com firmeza até que ele se expandisse, ficando do tamanho de uma roda de carroça. O homem o jogou na direção da fera, mas o objeto foi destroçado com facilidade. - Dom! - Gritou Marcus, mas já era tarde. A lacraia acertou seu alvo em cheio, jogando-o para longe em um espirro de sangue. O garoto rangeu os dentes, encarando o flautista. Esticou sua mão, tentando focar em seu poder, mas a volta do Venolípede o fez pular para o lado, quebrando sua concentração. Enquanto isso, Wieder continuava segurando o Tigre de Jade.

 - Vai ter que ser você, então. - Resmungou Marcus, apontando a mão para a lacraia gigante. Um pequeno ponto ao lado da besta pareceu aspirar o ar ao redor, enquanto que o rapaz se concentrava. O ponto em seguida explodiu, liberando uma corrente de ar para todos os lados. O Venolípede caiu de costas, se retorcendo para voltar a ficar de pé. O garoto, por sua vez, respirou forçadamente enquanto limpava o suor da testa.

 Enquanto isso, Wieder tentava manter o Tigre de Jade em seu aperto, mas era em vão. A criatura conseguiu se balançar para longe, recuando até a beira da clareira. O anão em forma de golem rapidamente se apoiou em um joelho, ainda muito temeroso em ficar de pé com aquelas pernas longas. Ele não tirou os olhos da fera esverdeada, preparado para saltar em cima dela caso tentasse atacar seus companheiros.

 Contudo, haviam outros perigos naquele lugar. E o golem só se lembrou disso quando ouviu o som de terra esmagada atrás de si. Tentou se virar, mas conseguiu apenas sentir o golpe fulminante do Venolípede em suas costas. O ronatto rachou com um barulho de trituração, e um grito ecoou na floresta enquanto o anão caía de frente na grama.

 - Wieder! - Alertou Marcus, mas ele também havia se esquecido de que haviam outros adversários na clareira. O Tigre de Jade saltou para atacá-lo, fincando suas presas no braço indefeso. O rapaz gritou, sentindo o sangue espirrar em seu rosto, e conjurou um novo ataque com a mão livre. Outra explosão de ar agitou o local, mas pela proximidade acabou jogando o garoto e a fera, que rolaram para longe. O líquido vermelho acompanhou o membro da Aurora, que sentiu a cabeça continuar girando, mesmo depois de estatelar as costas na grama. Isso não parecia bom, pensou ele com a mente enevoada. De fato, parecia o fim.

 Enquanto que Marcus lutava contra o desespero, um assobio cruzou o ar. Ele se virou, ao mesmo tempo em que o flautista, do alto da torre, também olhou descontraído. O que eles viram, no entanto, fez com que apenas um gelasse. Dominic estava em pé, sem camisa e com as costas banhadas de sangue, enquanto que segurava algo estranho nas mãos. Parecia uma trouxa de tecido cinza, que havia sido enrolada de forma a embrulhar um objeto aparentemente pesado em uma das pontas. Marcus logo percebeu que era a camisa de Dom, esticada pelos poderes expansionistas do companheiro.

 - Tome o meu pagamento pela sua exibição, flautista! - Gritou ele, girando o braço para jogar o projétil embrulhado. Jamie conseguiu apenas arregalar os olhos antes de ser acertado em cheio no rosto, desequilibrando-o a ponto de cair da Torre de Marfim. O corpo do homem se estatelou no chão com um baque surdo, e as outras bestas imediatamente ficaram atônitas. - Rápido, antes que elas se recuperem! - Gritou Dominic.

 Como que ressuscitando de suas covas, Wieder e Marcus juntaram seus últimos cacos de energia para atacar. O anão se apoiou com os braços, tremendo fortemente até se jogar em cima do Venolípede. A carapaça se quebrou, e a besta morreu guinchando. O rapaz por sua vez levantou o braço sadio, concentrando todas as suas forças em uma grande explosão de ar, que lançou o Tigre de Jade barranco abaixo. A corrente foi tão forte que até mesmo Dom teve de se apoiar na parede da torre para não cair, mas ao término da agitação tudo estava terminado.

 - Bom trabalho, pess... - Começou ele, mas os outros dois já haviam desmaiado. Wieder havia até mesmo retornado à forma de anão, e jazia de cabeça para baixo, mergulhado no que havia sobrado de seu adversário. Dominic suspirou, mantendo seu apoio nos tijolos para não cair. Com a adrenalina baixando, o cortes nas costas estavam cobrando sua vitalidade, que jorrava das costas com o líquido vermelho. A visão dele ficou turva, e sentiu o lado esquerdo do corpo deslizar pelos tijolos da Torre de Marfim. Bem, conseguiu pensar ele antes de desmaiar. Ao menos, a missão estava cumprida.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Aurora: Capítulo 10 - Um humano e um anão entram num bar


AURORA
CAPÍTULO 10: UM HUMANO E UM ANÃO ENTRAM NUM BAR

 - Serão cinquenta tens. - Disse uma voz feminina, cortando o ar e fazendo Dalan acordar de seu estupor. Ele estava em uma loja de roupas, ligeiramente empoeirada e um tanto quanto vazia. O garoto levantou a cabeça, como se tivesse acabado de sair de um sonho, e encarou a vendedora loira à sua frente. Ela vestia um avental verde e prendia o cabelo em um rabo de cavalo caprichado. - Cinquenta tens, senhor. - Repetiu ela, inclinando a cabeça.

 O rapaz revirou os bolsos, procurando o resto de seu pagamento. Puxou uma nota de cinquenta, a única que restava, e a entregou rabugento à mulher. Ela agradeceu e em troca lhe deu uma sacola, que continha um conjunto de roupas baratas, o suficiente para que ele conseguisse aguentar mais uma semana. O garoto agradeceu e saiu da loja, fazendo com que o sino da porta soasse.

 Lá fora, a multidão da manhã começava a se dispersar. Transeuntes conversavam animados, segurando sacos plásticos repletos de alimentos de cheiro forte. Barracas começavam a ser desmontadas, enquanto seus donos contabilizavam os lucros do dia. Uma criança corria pelas pedras negras da rua, até que tropeçou e caiu. Seu choro se elevava acima de todos os outros sons, enquanto seus pais se apressavam para socorrê-la. No entanto, nada disso chamava a atenção de Dalan, que se sentou na calçada enquanto tentava meditar sobre os acontecimentos de mais cedo.

 As palavras de Amanda continuavam ressoando em sua cabeça no momento em que deixou a sacola cair no chão ao seu lado. Ele deveria continuar agindo do jeito que estava, fingindo ser o que não era, e arriscar magoar as pessoas ainda mais, ou deveria agir como sempre agiu e terminar sem nenhum companheiro ao seu lado? O garoto colocou as mãos na cabeça, sentindo o desespero crescer dentro de si. Haveria alguma forma dele se dar bem nessa?

 No meio de seu pesar, não reparou em uma figura pequena que se aproximava, até que ela o cutucasse no ombro. Levantou a cabeça, sentindo os olhos arderem, e percebeu que Wieder estava ao seu lado.

 - Quanto tempo, rapaz. - Disse o anão, sorrindo. Ele vestia um gorro verde que descia até seu pescoço, e uma camisa limpa e da mesma cor por cima da calça negra. Wieder estendeu a mão, convidando o garoto a se levantar. - Amanda me contou que você precisaria de ajuda.

 - Amanda? - Perguntou o rapaz, sentindo algo ferver em sua garganta. Agora ela queria ajudá-lo? Depois de tudo que ela havia causado? - O que ela quer?

 Wieder olhou em volta, parecendo descompromissado. Acompanhou uma mulher extremamente bonita caminhar pela calçada, e pareceu por um momento se perder no movimento. - Sabe, aprendi que a maior parte das respostas do mundo se encontram em um bar. - Disse finalmente, se recuperando como se nada tivesse acontecido. - Por isso é melhor conversarmos naquele ali. - Completou ele, apontando para o fim da rua. Dalan se virou e reconheceu o Quatro Luas, estabelecimento que havia visitado em seu primeiro dia em Helleon.

 - Um bar? - Perguntou o garoto, franzindo as sobrancelhas. - Não são nem doze marcas. E que tipo de resposta se encontra num bar? - Wieder apenas riu, balançando a cabeça.

 - Você ficaria surpreso, guri. - Dalan se levantou, acompanhando o anão até o bar. O Quatro Luas estava razoavelmente cheio, considerando que ainda não haviam chegado ao meio do dia, e continuava tão sujo e apertado quando o rapaz se lembrava. Sentaram em uma mesa bem próxima do balcão, tanto que estava encharcada do mesmo líquido cor-de-mel que preenchia uma das garrafas na bancada.

 Dalan olhou em volta, procurando a mesa que havia sentado na semana passada. Quando a encontrou, as lembranças de Sophie, Koga e Julie preencheram as cadeiras agora vazias, e o garoto sentiu uma pontada no coração. Era tão simples para os outros, agir normalmente e não se preocupar. Por quê não era assim com ele?

 - Parece preocupado, rapaz. - Disse Wieder, se esticando para pegar um vidro de alcaparras do balcão. Dalan o olhou de forma repreendedora, e o anão o retribuiu com um olhar entediado enquanto se aproximava da mesa. - Eu vou pagar, senhor certinho. - Disse ele, retirando um aperitivo do frasco.

 Dalan suspirou, se apoiando na mesa. - O quê Amanda queria comigo? - O companheiro coçou a barba distraidamente, se esticando para recolocar o vidro no balcão. Em seguida, ele sentou à mesa, se aproximando bastante.

 - Na verdade ela não disse exatamente o que era, mas imagino que tenha algo a ver com Sophie. - Respondeu ele, limpando as mãos em um guardanapo asqueroso que estava jogado na mesa. - Ela parecia bastante chateada quando a encontrei.

 Dalan afundou na cadeira, sentindo a depressão o envolver enquanto encarava seus joelhos. Estava confirmado, ele havia realmente magoado a garota. - Você... você a conhece? - Perguntou para Wieder, levantando minimamente a cabeça para encará-lo.

 - Eu jantei todos os dias até agora na guilda, e uma vez estava acompanhado dela e da irmã. - Agora ele havia se levantado para pegar uma garrafa abandonada na bancada, de cor vermelha e brilhante, mas o rapaz não se importou desta vez. - Conversei apenas com a irmã, Julie, naquele dia, já que a outra garota não abria a boca por nada. A única vez que falou foi para perguntar de você. - Ele deu um sorriso implicante, e em qualquer outra situação Dalan o retribuiria, mas naquele momento isso o fez apenas se sentir pior.

 O rapaz passou a mão pelos cabelos, apoiando o cotovelo na mesa. Até mesmo Wieder, que havia entrado depois dele, parecia mais enturmado. O garoto foi tomado imediatamente por lembranças ruins de sua infância. Será que iria se tornar cada vez mais isolado, até que os outros o ignorassem completamente, assim como antes?

 - Eu... não sei o que fazer, Wieder. - Soltou o garoto, pondo as mãos na cabeça. Talvez fosse pelo pensamento anterior, ou pelo péssimo estado de espírito em que se encontrava, mas decidiu se abrir para o anão. - Eu não sei como agir perto das pessoas. Eu não sei. Tenho a impressão de que irei novamente afastar as pessoas de mim, assim como fiz durante toda a minha vida! Vou acabar sendo expulso da Aurora se continuar assim!

 Wieder abriu calmamente a tampa da garrafa que havia pego e deu um longo gole, sem tirar os olhos do rapaz. Quando terminou, passou as costas da mão pela boca e se ajeitou na cadeira. - Dalan, a Aurora não tem condições nenhuma de expulsar alguém.

 - Você não sabe dizer isso. - Respondeu o garoto, se irritando um pouco. O anão havia entrado um pouco depois dele, e agia como se já conhecesse a guilda como ninguém. - Nós não temos tanta intimidade com os outros. Poderiam nos demitir sem nenhum problema.

 - Não, não poderiam. - Disse Wieder, reclinando a cadeira. - A guilda está à beira da falência. Acha que nós estamos convidando o prefeito para jantar lá na sede porque gostamos dele? Stella sabe que precisamos de apoio financeiro, por isso estamos preparando esse encontro há três dias, para sair perfeito. - Ele tomou mais um gole da bebida vermelha, deixando o rapaz absorver as informações. - Então, não, não iremos embora. Eles precisam de gente para fazer missões, e quanto mais melhor. Agora, a minha pergunta é bastante simples: Por quê se importa tanto com que os outros pensam de você?

 - O quê? - Perguntou o garoto desconcertado. Ele encarou a mesa enquanto balbuciava, avaliando o que iria dizer. Bem, se a torneira já estava aberta... - Eu preciso do apoio da guilda. Minha ilha, ela... sumiu. Gamora. Desapareceu do mapa. Nenhuma autoridade comentou sobre o assunto, e sinto que terei que bater de frente com a Aliança para obter respostas. Não sei se conseguirei sozinho.

 - Hmm. - Meditou o anão, voltando a se reclinar na cadeira. - Bem, não acho que seja tão difícil. Com o tempo, você acabará se enturmando.

 - Para você é fácil. - Disparou o garoto, sem nem mesmo pensar. Afinal, não estava vendo Wieder passar pelo mesmo que ele. - Parece que você não teve problema nenhum.

 - Realmente, tive muita sorte. -  Comentou distraído Wieder, balançando a garrafa e observando seu líquido chacoalhar. - Um anão em uma cidade predominantemente humana geralmente carrega um bocado de preconceito. Graças aos deuses eu não encontrei isso na Aurora.

 O garoto imediatamente corou, percebendo a besteira que havia falado. Realmente, o anão deveria ter passado um perrengue em Helleon. Se em cidades mistas o preconceito já era grande, fora delas era muito pior. Ele olhou em volta, percebendo que as outras dez pessoas que estavam no bar mantinham os olhos na mesa em que o rapaz estava, e ele tinha certeza de que não eram acompanhados de pensamentos agradáveis. - Me desculpe. - Falou ele em voz baixa. - Eu não pensei...

 - Já foi numa cidade não-humana, Dalan? - O interrompeu Wieder, encarando o garoto desta vez, que concordou com a cabeça. - Já percebeu que todo mundo fica te encarando, como se conseguissem prever que você vai fazer algum crime. - Outro aceno positivo com a cabeça, desta vez acompanhado de um rubor. O anão sorriu, quebrando o clima tenso. - Não se preocupe. Já vivi minha cota de anos, sei me virar.

 Dalan apoiou os braços na mesa e cruzou as mãos, fazendo uma careta enquanto pensava na melhor forma de perguntar algo que ele estava curioso há tempo. - Por quê você veio até uma cidade humana? Digo, não seria mais simples procurar uma guilda anã?

 - E eu perderia todas essas mulheres maravilhosas? Há! - Ele tomou um gole longo e inclinou a cabeça para trás, esperando Dalan rir com ele. No entanto, isso não aconteceu. Quando Wieder voltou à conversa, estava exponencialmente mais sério. - Dalan, eu tenho cento e oitenta e um anos. Sob todos os aspectos, já passei da metade da minha vida. Um dia eu estava no chuveiro, cuidando da minha própria vida como sempre, e de repente isso me bateu com força. - Ele apoiou os braços curtos na mesa, puxando a cadeira para ficar mais perto. - Eu notei que precisava fazer algo diferente. Não sei se você consegue compreender, é muito jovem ainda. Apenas imagine que... imagine que você seguiu toda a sua vida seguindo um padrão, e percebeu que, pelo restante dela, as coisas continuariam no mesmo padrão de sempre se não mudasse completamente.

 - Eu precisava mudar. Era como se eu já tivesse predito todas as minhas ações até a minha morte. Perguntei a mim mesmo o que queria fazer da minha vida, e... descobri que queria ser lembrado. Não queria ser mais um anão a viver nesse planeta. Parecia um desperdício de vida. Queria que as pessoas lembrassem do meu nome. - Ele levantou a cabeça, encarando o garoto. - Parece mesquinho?

 - Não. - Se apressou a dizer Dalan.

 - Bem, esse desejo limitou os lugares que eu poderia ir a partir dali. - Ele colocou a garrafa na mesa, brincando distraidamente com ela novamente. - Não tinha nenhuma habilidade especial para me destacar, então decidi ir para uma guilda. O problema é que guildas anãs compartilham do mesmo princípio de igualdade que o governo, então não valeria a pena. Quando soube que a Aurora estava contratando, bem... foi a escolha mais simples.

 Dalan cruzou os dedos, se sentindo um pouco mal vendo o esforço que o anão fazia para perseguir seus sonhos. - Eu... tenho medo de não conseguir recuperar minha ilha. É muita gente dependendo de mim. Às vezes eu nem consigo pensar nisso.

 - Se é sobre se relacionar com as pessoas, seja apenas você mesmo. - Respondeu simplesmente Wieder, como se a conversa já tivesse terminado. - É bem mais simples. - O rapaz ficou calado diante dessa proposta. Todos estavam dizendo aquilo. Deveria realmente deixar as coisas rolarem? Ainda não tinha resposta, mas no momento estava inclinando naquela direção.

 O garoto estava prestes a pedir alguma coisa para beber e tentar relaxar quando as portas do bar se abriram. Três humanos, no alto de seus vinte anos, entraram no estabelecimento gargalhando e tropeçando. Mesmo ainda sendo cedo, estavam claramente bêbados. O mais alto, um homem moreno e de cabelo espetado, visualizou Dalan e Wieder, sentados bem do lado do balcão.

 - OOOOH! - Gritou ele, quase caindo para trás. - O que temos aqui?

 - Não reaja. - Ordenou rapidamente o anão para Dalan. Ele estava sério, e segurava a garrafa com força. - Somos membros de guilda. Não podemos causar confusão com civis.

 - Um anão? - Perguntou o segundo homem, loiro e de cabelos longos e ondulados. Ele cambaleou até a mesa, deixando Dalan tenso. - O que faz tão longe, inferior? - Inferior era um dos piores xingamentos que podia se dar para um anão. Wieder segurou por um momento a garrafa com tanta força, que ela parecia prestes a explodir.

 - Acho que ele está perdido. - Grunhiu o terceiro, de pele clara e cabelo raspado. - Você sabe que inferiores não conseguem fazer nada sozinhos, né? Precisam de quatro amiguinhos apenas para abrir um mapa!

 - Isso é verdade, inferior? Você precisa de ajuda para achar o caminho de volta pra sua toca? - Perguntou o moreno, se curvando para encarar o anão nos olhos. Wieder não respondeu, apenas mordeu o lábio, e os outros riram. - Acho que ele precisa de mais dois companheiros só pra abrir a boca! - O loiro puxou a garrafa das mãos do anão, entornando todo seu conteúdo em sua cabeça.

 - Chama um companheiro pra te ajudar a limpar isso! - Zombou ele. Dalan trincou os dentes, se levantando com truculência. Wieder o encarou temeroso, mas o garoto apenas levantou a manga da camisa, revelando sua Marca.

 - Somos da Aurora. - Grunhiu ele, encarando os três badernistas com raiva profunda. - Sugiro que nos deixem em paz. - Por um instante, os rapazes pareceram assustados e Dalan soltou um pequeno sorriso, mas era tudo uma farsa. Eles caíram na gargalhada com vontade, apontando para o garoto.

 - Aurora? Aurora? Pensei que eles tinham acabado mês passado! - Ria o loiro, enquanto que o de cabeça raspada segurava a barriga.

 - Não se preocupe, eles estão salvos! - Anunciou o loiro, puxando o colarinho de Dalan. - Eles tem um inferior e um garotinho agora! Era tudo que faltava para conseguirem realizar suas missões de vital importância!

 - Ei, Aurora preciso que alguém limpe minha privada! - Disse o loiro, jogando um pouco da bebida no rapaz. - Vou pagar a vocês dois tens. Deve ser tudo que conseguiram em quatro meses, não é?

 - Aproveite e mande uma daquelas gostosas de vocês. - Disse o garoto de cabelo raspado. - Elas são um desperdício naquele chiqueiro que vocês chamam de guilda. Estariam melhor na minha cama! - Eles recomeçaram a rir e fazer gestos obscenos, e Dalan sentiu o rosto pegar fogo. A bebida que corria em sua face estava prestes a evaporar, e seus dedos se fecharam com tanta força que as unhas ficaram à beira de rasgar a pele. Quando estava prestes a socar um deles, as portas se abriram.

 A luz banhou o interior do Quatro Luas, mas foi um sujeito sombrio que entrou ali. Ele vestia um casaco púrpura e cheio de bolsos, mesmo naquele calor, e uma calça preta e pesada. Sua pele era clara e seu cabelo curto e negro era penteado para trás. Sua boca era um traço, e seus olhos eram verdes e puxados. Na verdade, um olho era verde e puxado. O outro estava coberto por um tapa-olho, que era preso por uma simples fita de pano ao redor de sua cabeça. O sujeito aparentava ter a mesma idade de Dalan, e olhou com calma e indiferença o princípio de confusão ali.

 - Algum problema, senhores? - Perguntou ele com uma voz. Silêncio. Dalan olhou ao redor, e viu que os badernistas haviam ficado tensos e suados. O garoto de cabelos raspados se adiantou, de repente sem um pingo de álcool no sangue.

 - N-n-n-não, senhor Marcus. Nós estávamos apenas... - Ele parou ao ver a mão esticada de Marcus, que levantou as sobrancelhas. - D-d-d-esculpe. Senhor Vastre.

 - Agora sim. Um pouco de respeito é tudo que precisamos, não? - Perguntou ele, franzindo a testa para encará-los de forma gélida. Outra rodada de silêncio. - Agora, saiam daqui e eu vou fingir que esse ataque à Aurora nunca aconteceu. - Os badernistas fugiram correndo, e Dalan se lembrou de onde tinha visto aquele homem antes. Era o membro da Aurora que vira uma vez, quando havia acabado de sair da sala da senhora Stella. Na hora, ele não havia conseguido enxergar o rosto, mas a fisionomia encaixava como uma peça de um quebra-cabeças.

 - Obrigado, Marcus. - Agradeceu Wieder, passando a mão pela barba para secá-la. - Mais dois minutos e aqueles três iriam voltar pra casa em potes para aperitivos.

 - Então foi oportuno eu ter chegado aqui. E mais oportuno ainda me lembrar da sua fixação por bares, Wieder. - Respondeu ele, ainda de forma impassível. Ele encarou Dalan com seu único olho à vista, e o garoto sentiu um arrepio passar pela espinha. - A senhora Stella pediu para voltarem à sede. Temos muitas tarefas a fazer para a chegada do prefeito.

 - Não se preocupe comigo. - Suspirou o anão, saltando da cadeira de forma cansada. Ele colocou alguns tens na mesa para pagar pelas alcaparras e a bebida, e andou em direção à saída. Dalan foi atrás dele, olhando de relance para Marcus, que agora encarava o resto do bar. Os clientes, que até então haviam observado em silêncio a confusão, se amedrontaram e voltaram à suas conversas como se nada tivesse acontecido. Marcus soltou o ar pelo nariz, e se virou para acompanhar os companheiros de volta à Aurora.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Aurora: Capítulo 9 - Vértices

AURORA
CAPÍTULO 9: VÉRTICES

 Dalan dormia profundamente, o que recentemente era uma visão completamente garantida. Sua cama, até então apenas uma vez usada, parecia agora fazer parte de seu corpo. Assim, semanas pareceram se passar, com vozes gritando do lado de fora, pessoas batendo na porta e chuva irrompendo na janela. Mesmo assim, Dalan continuava dormindo, cansado demais para até mesmo formular sonhos.

 Eis que, um certo dia, o sol iluminou o aposento em que o garoto estava, revelando as partículas de poeira dançando na luz matutina. O rapaz abriu os olhos pela primeira vez em dias, tentando focar sua visão enferrujada. Por um doce instante, imaginou-se em seu quarto em Gamora, e toda sua viagem até ali teria sido um sonho. Um breve sorriso surgiu em seus lábios, até que a realidade batesse com força, tal qual um soco. Os poucos móveis empoeirados contrastaram com suas lembranças, e a verdade se mostrou clara. Aquele não era seu quarto, ainda estava na Aurora e Gamora, sua ilha, continuava desaparecida.

 Com um leve ar depressivo, o garoto se sentou na cama, esticando todos os músculos que conseguia. Algo perto de sua costela começou a doer, e seu próprio cheiro invadiu suas narinas. Estava fedendo terrivelmente. Dalan deu mais uma forte espreguiçada e se dirigiu à pequena porta de madeira que indicava o banheiro.

 Alguns minutos depois, com a escova de dentes em sua boca, o garoto voltou ao quarto. O pó cobria quase todos os seus móveis, que se limitavam a um guarda-roupas baixo, uma escrivaninha bamba e a cama de madeira. Provavelmente havia ganhado alguma doença por estar ali, pensou, afinal havia dormido por... quantas horas? Não sabia. Sua única pista era seu estômago, que roncava dolorosamente. Dalan separou a única muda de roupa que restava das que Lyra havia lhe emprestado, voltou ao banheiro para guardar a escova, e saiu do quarto para tomar o café da manhã.

 Os corredores simples da Aurora estavam silenciosos, com exceção de um sibilar constante mais à frente. O garoto seguiu em direção ao salão, ainda se espreguiçando até conseguir estalar os ossos. Vestia uma camisa amarela, muito grande para seu corpo, e uma confortável calça branca de lã. Sentiu um cheiro agradável de ovos fritos, e quando adentrou o grande aposento, avistou Lyra atrás do balcão, cozinhando com um sorriso tranquilo.

 - Olha quem acordou! - Disse a garota de cabelos roxos, abrangendo o sorriso. Naquele dia ela usava um rabo de cavalo para prender seus longos fios, e vestia um vestido verde por baixo de um avental de cozinha azul. Lyra se esticou para pegar um prato, colocando-o à frente dela. - Espero que tenha aproveitado esses três dias dormindo! Bom dia!

 - Bom dia. - Disse Dalan corando, e em seguida se sentou na bancada. Lyra colocou um ovo estrelado no prato, e o garoto se esticou para pegar os talheres. - Eu dormi três dias?

 - Pelo menos foi o que conseguimos contar. - Respondeu a mulher, sorrindo para si própria. - Mas não se preocupe, pouca coisa aconteceu. - Ela pegou dois ovos da bancada acima de sua cabeça, quebrando-os na frigideira. - Seu amigo Wieder entrou na guilda, mesmo com Sasha sendo contra. Além disso, nós praticamente terminamos as preparações para a visita do prefeito hoje à noite. - Dalan se lembrou desse evento, ficando ainda mais envergonhado por ter dormido todos aqueles dias. Colocou um pouco do ovo na boca, mastigando lentamente a clara.

 - Sobrou alguma coisa para eu fazer? - Perguntou ele corado, levantando a cabeça. Lyra apenas riu, olhando-o de relance enquanto mexia nas panelas.

 - Não se preocupe, querido. Ainda tem algumas coisas se quiser se sentir... oh, bom dia! - Disse ela, sorrindo para a área atrás de Dalan. Ele se virou, vendo Sophie Helder se aproximar. Ela vinha com o cabelo bagunçado e esfregando os olhos, e vestia um roupão branco por cima de um pijama de flanela roxo, sem a boina do outro dia. No entanto, era fácil diferenciá-la da irmã gêmea, visto que a garota se encolheu e corou quando viu que Dalan estava ali.

 - Oh... bom dia. - Respondeu ela com a voz quase sumida, ajeitando distraidamente o roupão de forma a cobrir qualquer parte desnuda do tórax. Dalan, por sua vez, inconscientemente passou a mão pelos cabelos molhados, imediatamente se reprimindo quando tomou consciência de seus atos. Sophie se sentou ao lado dele, olhando-o de soslaio.

 - Sophie, eu estava falando agora mesmo... - Lyra pegou mais um prato, servindo à outra garota ovos mexidos. - Precisávamos de peixe fresco para o jantar de hoje, mas eu estou muito atarefada terminando de arrumar a sede. Então me lembrei que o senhor Wieder havia dito que a família de Dalan costumava se envolver com negócios de pesca, e ia pedir pra ele comprar pra mim. - Ela se agachou para pegar uma frigideira, e quando voltou continuou a falar. - O problema é que ele não conhece bem a cidade... você se incomoda de levar ele até o cais?

 Se o garoto pudesse, teria sorrido tão forte que suas bochechas estourariam. No entanto, se forçou a ficar impassível, concentrando seus esforços no prato à sua frente. Ao seu lado, Sophie voltou a falar.

 - Bem, eu... podemos fazer isso. Quer dizer, se não for muito incômodo. - Se apressou ela a dizer. Não, definitivamente não era, pensou o garoto, mas respondeu de outra forma.

 - B-bem, eu não vejo nenhum problema...

 - Porque diabos esta gaguejando, Dalan? - Disse uma voz nova atras do balcão. O garoto, ainda sorrindo abobalhado, levantou a cabeça e encarou o rosto de Amanda, suado e desconfiado, o encarando. O sorriso de Dalan se manteve, no entanto seus olhos lentamente se arregalaram e suas sobrancelhas subiram, dando ao garoto um ar de maníaco. Ele abriu um pouco mais os lábios, respirando fundo enquanto o cérebro tentava entender o que estava acontecendo.

 - Amanda! - Disse ele finalmente, sem mudar a expressão. - O-o que esta fazendo aqui?

 - Estava ajudando Lyra a arrumar a sede. - Ela se esticou por cima do balcão, e Dalan recuou. - Agora responda a pergunta: Pra que tanto gaguejar? Esta com vergonha de alguma coisa?

 - Não! - Se apressou em dizer, mas o rosto corou em contraste. O garoto olhou de relance para Sophie, que encarava os dois de forma interessada. - N-não sei do que esta falando, Amanda. - Disse ele, sorrindo com os olhos fechados. A garota, por sua vez, estreitou os olhos.

 - Acho que estou com um sério problema de memória. - Disse ela lentamente. - Da última vez que nos encontramos, você era tão irritadiço e mal-humorado quanto um...

 - Amanda! - Exclamou em voz alta Dalan, ainda sorrindo, interrompendo a outra. - Me lembrei que eu... tenho que... algo pra te dar. - Ele se levantou, andando rapidamente até o outro lado do salão. A garota, bufando, o seguiu. Vestia um simples vestido branco, que a cobria até seus joelhos. - O que está fazendo? - Sibilou o rapaz quando teve certeza de que nem Lyra nem Sophie conseguiriam escutá-los.

 - O que eu estou fazendo? O que o senhor está fazendo seria a pergunta mais pertinente! - Disse ela, encostando o dedo no peito do rapaz e começando a falar rapidamente. - Gaguejando embaraçado? Sendo educadinho com todo mundo? O que houve, tem dupla personalidade? Ou tem um problema comigo?

 - Não! - Disse Dalan por entre os dentes, olhando de relance para as outras garotas, entretidas agora em uma conversa. - Escute, o que quer que você tenha entendido de mim naquele dia... esqueça. Não era o que eu vou ser.

 - Eu... não entendi. - Respondeu Amanda, inclinando a cabeça para o lado. - Aquele não era você?

 - Era, mas... - Dalan suspirou pesarosamente. Amanda já desconfiava demais. Tinha que contar para ela, mesmo que isso soasse bastante contra-produtivo. - Escute, eu preciso da confiança e apoio de todos aqui. Toda a minha ilha sumiu, e estou sozinho na busca por ela. Necessito muito do apoio de outras pessoas para encontrá-la. Só que... - Contar tudo isso para a garota, ou mesmo para qualquer um, definitivamente não estava nos planos dele, mas agora que a torneira estava aberta não podia mais fechá-la. - Eu nunca fui uma pessoa sociável. Sempre fui solitário, e tinha poucos amigos. - Admitiu ele, deixando a cabeça pender. - De alguma forma, eu consegui uma chance de começar de novo, e preciso fazer as coisas diferentes. Não é nem mais por mim, mas por minha família e todos os outros. - Ele levantou a cabeça, encarando os olhos castanhos da garota, esperando ver compreensão. - Entendeu?

 Amanda apoiou o queixo na mão, coçando-o de forma distraída enquanto pensava. - Você está querendo mudar sua personalidade apenas para ser amigo de todo mundo aqui?

 - Um pouco mais complicado do que isso, mas pode-se dizer que sim. - Ele passou a mão pela nuca, pensativo. - Todo mundo gosta de um cara educado, calmo e simpático. E é isso que eu preciso ser.

 - Isso não vai funcionar. - Disse prontamente a garota, colocando as mãos no quadril magro. - Ninguém consegue se passar por outra pessoa por tanto tempo.

 - Se você não contar pra ninguém, talvez eu consiga. - Disse o rapaz irritado por entre os dentes.

 - Ah, não precisa se preocupar com isso. - Respondeu Amanda, cruzando os braços com uma expressão tranquila e sorridente. - Você ira fazer isso sozinho. - E com essa frase, ela deu meia-volta e voltou a cozinha. Dalan se apoiou na parede, suspirando. De todas as pessoas, era justamente ela que sabia de seu segredo. Havia definitivamente cometido um grande erro.

 Uma hora depois, no entanto, ele estava distraído demais para pensar nisso. Estava caminhando pela região pobre da cidade, sozinho com exceção de Sophie ao seu lado. A garota havia vestido a boina, e usava um vestido florido, branco e laranja, para completar. Dalan tentava não olhá-la, com medo de não conseguir parar.

 Em seu bolso, haviam dois envelopes. O primeiro era o dinheiro necessário para pagar a quantidade de peixes e outros condimentos que Lyra havia pedido, e o segundo era seu pagamento pela missão que havia realizado dias atrás, quando ele perseguiu o gatinho de uma senhora por toda a cidade. A recompensa era bastante generosa, cerca de duzentos e cinquenta tens, o que dava ao garoto uma oportunidade de comprar roupas e outros bens que faltavam a ele.

 Subitamente, uma duvida irrompeu em sua mente: Sophie iria acompanhá-lo para comprar a comida. E depois? Iria acompanhá-lo em seus próprios afazeres? Isso não parecia educado de sua parte, nem divertido para ela. No entanto, ele iria apenas expulsar a garota? Deixá-la ir sozinha até a guilda? Dalan olhou para o lado, e teve certeza de que captou uma sombra andando por um beco. Não parecia seguro deixá-la sozinha, mas precisava comprar roupas urgentemente. O que faria?

 - Vamos por aqui. - Disse subitamente Sophie, puxando a manga de Dalan. Estavam caminhando aparentemente em direção à uma ponte de pedra bastante erodida, de quase dez metros de comprimento, mas a garota o levava até um caminho alternativo, que descia em direção à praia. - Há muitos assaltos naquela área.

 - Sério? - Perguntou o garoto, olhando ao redor. - Parece que estamos sozinhos.

 - Eles estão debaixo da ponte. - A garota diminuiu a voz, procurando esticar o pescoço para espiar por debaixo da construção que atravessava o canal fétido. - Pontes desertas são uma armadilha em regiões como a parte baixa de Helleon. Bandidos cercam as pessoas e roubam tudo que puderem, podendo até mesmo matá-las. - Ao ver que Dalan tentava avistar algum larápio, ela se adiantou. - E-eu morei por muitos anos nas ruas com a minha irmã. Já vi muitas vezes isso ocorrer.

 - Você o quê? - Perguntou o rapaz, se virando para Sophie, que começou imediatamente a corar. Dalan imediatamente se retratou, como se tivesse feito algo errado. - D-desculpa, mas... não me leve a mal, mas você não parece o tipo de pessoa que viveu nas ruas.

 - Tudo bem. - Respondeu a garota, encolhendo um dos ombros. - Faz algum tempo desde que entramos na Aurora. Antes disso, no entanto, vivemos quatro anos na rua... procurando... - Ela olhou para o chão, parecendo absorta em pensamentos.

 - E-essa cidade sempre foi assim? - Perguntou o rapaz, tentando manter a chama da conversa viva. - Digo, parece estranho que uma guilda tenha se firmado em uma região tão... problemática.

 - Quando eu e Julie chegamos, não era assim. - Admitiu Sophie, levantando a cabeça. - Só que... depois que o senhor Adam morreu, as coisas desandaram. A Aurora começou a encolher, e nem mesmo os bandidos da região nos respeitavam mais. - Ela ficou calada novamente, passando a mão no cabelo.

 - Ah. - Excelente, Dalan, pensou o garoto consigo mesmo. Um verdadeiro ás da conversação. Os dois caminharam mais alguns minutos em silêncio, até que chegaram à praia. A visão das ondas espirrando na areia branca fez o rapaz voltar ao passado, e foi a vez dele ficar refletindo. Assim, chegaram os dois no mercado sem trocar mais nenhuma palavra.

 O lugar, por sua vez, era barulhento e agitado. Dezenas de pessoas estavam apinhadas em duas ruas de pedra negra, que eram cercadas por barracas ocupadas por vendedores berrando e pelo cheiro variado dos alimentos. Crianças corriam gritando, e mulheres seguravam suas bolsas e suas compras. Homens tentavam pechinchar em voz alta, agitados, enquanto que o vento forte trazia os grãos de areia da praia, à qual as ruas do mercado cercavam. Dalan e Sophie se aproximaram instintivamente para não se perderem, enquanto procuravam pelo vendedor de peixes.

 Depois de dez minutos em que dois garotos que raramente se meteram em uma multidão tentavam se achar naquela baderna, eles se viram em frente ao balcão dos frutos do mar. Nele, fileiras de postas de peixe brilhavam ao sol, enquanto um homem gordo e bigodudo abanava as moscas com seu jornal. Dois baldes completavam a bancada, um cheio de tentáculos vermelhos que ainda se mexiam lentamente e outro composto do que pareciam pedras porosas, mas que Dalan sabia que eram abrigos de tatunos brancos, seres minúsculos que eram usados como tempero.

 - Você se lembra do que deveríamos comprar? - Perguntou Sophie, mas o barulho no lugar era tão grande que o garoto, mesmo ao seu lado, não conseguiu ouvir. Ela gritou para repetir sua pergunta, e imediatamente corou quando Dalan se assustou com o grito.

 - Eu acho que... - Começou a dizer o garoto, mas naquele momento algo se chocou contra suas costas, fazendo-o cair em cima da bancada. As postas de peixe voaram, e seu rosto foi afundado em um material viscoso e frio. Ele apoiou as mãos na madeira, procurando forças para se levantar, enquanto Sophie o puxava.

 - Dalan... - Disse ela em seu ouvido. - Acho que você precisa ver isso! - Quando o rapaz se levantou, a garota apontou para trás. Havia um princípio de confusão, totalmente despercebido pelo restante das pessoas no mercado. Dois homens fortes estavam cercando uma pessoa, e parecia que iriam chegar às vias de fato. Dalan inclinou o pescoço para ver quem era, e suspirou fundo ao descobrir. O destino parecia sacaneá-lo em todas as chances possíveis.

 - Sophie... fique aqui. - Disse Dalan para a garota, ignorando o vendedor que tentava arrumar sua bancada bagunçada. O rapaz foi até os dois homens, se esquivando dos transeuntes distraídos, e se entrepondo entre os valentões e sua futura vítima. - Senhores, posso saber o que está acontecendo aqui? - Perguntou ele.

 - Não é da sua conta, moleque. - Disse um deles, um homem musculoso, de pele cor de oliva e bigode cheio. Seu companheiro, de quase dois metros e pele cor de ébano, acenou em concordância. - Queremos só pegar a nossa grana dessa aí e iremos sair.

 Dalan olhou para trás enfurecido, encontrando os olhos de Amanda. A garota parecia extremamente tranquila, e quando o encarou ela fechou os olhos e soltou um sorriso sem dentes. O rapaz sentiu o sangue ferver, e voltou a se virar para os dois homens.

 - O que ela fez? - Perguntou ele, já retirando a carteira do bolso.

 - O quê, você é namorado dela agora? - Perguntou o negro. Pelos deuses, por favor não, pensou o garoto para si mesmo. - Ela nos empurrou e derrubou nossas compras. Duzentos tens jogado no lixo.

 - Imagino... - Comentou Dalan, separando o dinheiro de sua carteira. Haviam apenas duzentos e cinquenta tens ali, o que o deixou bastante melancólico. No entanto, separou o dinheiro. Entrar em uma confusão com aqueles homens no meio do mercado não parecia a atitude mais inteligente a ser tomada. Assim, o garoto os pagou e eles se afastaram, lançando olhares irritados na direção de Amanda. Algum tempo depois, foi a vez de Dalan fazer isso. - O que você pensa que está fazendo?

 - Eeeeu? - Perguntou ela de forma claramente sarcástica, colocando a mão no peito enquanto fazia cara de surpresa. - Eu não fiz nada! Que calúnia! - Naquele momento o rapaz se lembrou da conversa que tiveram na sede, e sentiu o sangue ferver.

 - Você está fazendo isso para me tirar do sério? - Perguntou por entre os dentes, se aproximando de Amanda para que ela pudesse ouvi-lo. - É esse seu plano?

 - Eu não conseguiria tirar uma pessoa tão educada e calma do sério. - Respondeu ela, estreitando os olhos e ampliando o sorriso enquanto balançava negativamente a cabeça. - Conseguiria, Dalan? - O garoto suspirou, tentando se acalmar.

 - Não, você não conseguiria. - Se forçou a dizer. Ele virou a cabeça, vendo que Sophie ainda o esperava. - Agora eu vou comprar o que vim comprar e não te ver mais pelo resto do dia. Entendeu? - Amanda não respondeu, apenas cruzou os braços e continuou a sorrir. Bufando, Dalan se virou e pisou forte até a barraca de peixes, tentando se acalmar a cada passo.

 - Aconteceu alguma coisa? - Perguntou Sophie quando ele se aproximou. O rapaz se virou para trás, mas já era impossível de localizar a outra garota. Respirou fundo.

 - Não... nada. - Ele ainda sentia raiva, portanto preferiu ficar quieto para não dizer algo que se arrependeria depois. Assim, novamente em silêncio, os dois membros da Aurora fizeram suas compras e se puseram a caminhar de volta à sede da guilda. Dalan não falava nada, tentando imaginar o que Amanda tentaria fazer com ele e como se defender disso. Sophie, por sua vez, ficava cada vez mais sombria.

 Quando finalmente adentraram no saguão da Aurora, ela ajeitou o cabelo, pondo as compras em cima do balcão que separava o aposento da cozinha. - Eu... eu vou pro meu quarto, tudo bem? Foi uma manhã cansativa.

 - Tudo bem... - Começou a dizer o garoto, até que encarou o rosto da companheira, melancólico e cabisbaixo. - Aconteceu alguma coisa? - Perguntou.

 - O quê? - Exclamou ela, corando. - N-não... nada... - Ela ajeitou novamente o cabelo, se apressando em caminhar até seu quarto. Dalan ficou onde estava, tentando entender a expressão sombria da garota. Não percebeu as portas se abrindo atrás de si, até que uma pessoa se apoiou em seu ombro.

 - Seu dia não foi tão bom assim, né campeão? - Perguntou a voz de Amanda, colada em seu ouvido. Dalan se afastou com o susto, e a garota quase caiu sem o apoio. Ela se equilibrou, esticando as mãos. - Às vezes acho que você tem algo contra mim, sabia? Quase me fez cair!

 - Não estaria errada! - Disse o rapaz, se aproximando enquanto deixava as compras no chão. - Vou te perguntar pela última vez: o que está fazendo?

 - Te mostrando o quão contra-produtivo é fingir ser alguém que você não é! - Respondeu a garota, cruzando os braços e franzindo a testa. - E não sei se reparou, mas essa sua atitude acabou de te render uma garota magoada!

 - Quem, você? - Perguntou Dalan, não entendendo a frase.

 - Não, seu retardado, Sophie! - Exclamou Amanda, fechando os punhos e batendo o pé. - Sério, qual é o seu problema de entender o que está acontecendo ao seu redor?

 - O-o que houve com Sophie? - Perguntou o rapaz, olhando para a direção em que a garota havia sumido.

 - Ela passou o dia inteiro ao seu lado e você ficou nessa de tentar fingir ser alguém tímido, sensível e blá blá blá. - Amanda suspirou, indo se sentar em uma mesa e convidando com a mão Dalan a fazer o mesmo. - Preste atenção: imagine que você está andando com alguém durante o dia inteiro. Com você, essa pessoa não fala nada e se mantém tímida. Com os outros, é falante e cheio de atitude. O que pensaria? - Ela esperou dois segundos, enquanto o rapaz pensava. - Vou responder porque você claramente não é o tipo mais esperto: Você acharia que a pessoa não gosta de ti.

 - O quê? Eu não... você nos seguiu o dia inteiro? - Perguntou o garoto, indignado.

 - Isso não vem ao caso. - Se apressou a dizer Amanda. - A questão é a seguinte, Dalan: Você não é uma pessoa tímida e sensível. - Declarou ela, se esticando na mesa. - Ao tentar ser alguém assim, você acaba se fazendo passar por mal-educado. E isso vai totalmente contra o seu lema de fazer as pessoas gostarem de você para que a guilda fique ao seu lado e blá blá blá, não é?

 - Eu... - Não havia pensado nisso, concluiu o garoto. Enquanto tentava reunir seus pensamentos, Amanda se levantou, pondo a mão em seu ombro.

 - Você é meio lerdo e essa reflexão pode demorar algumas horas, então vou te deixar sozinho. - Ela deu três passos, antes de virar para trás. - Ah, e essa sessão terapêutica não foi de graça, tudo bem? Só que você foi uma pessoa tããão legal ao pagar o que eu devia para aqueles valentões, que irei te dar uma colher de chá dessa vez. - Dalan se virou indignado, mas a garota apenas apontou os dedos indicadores para ele, estalando a língua duas vezes, antes de se virar para a cozinha.

 O rapaz suspirou, se largando na cadeira. Por mais que odiasse admitir isso, Amanda estava certa. Não sabia ser essa pessoa que tentava passar, e isso acabaria causando mais problemas para ele. Se ela estivesse correta, havia acabado de magoar Sophie, e isso poderia ser apenas o começo. No entanto, iria arriscar e manter sua atitude normal que nunca havia lhe dado amigos? Seria esse o caminho certo a se seguir.

 Sua cabeça começou a doer, e se lembrou de que não havia comprado roupas novas. Um pouco de ar pode me fazer bem, concluiu, se levantando para voltar ao centro de Helleon, tomando duplo cuidado dessa vez para não cair em nenhuma armadilha de assaltantes.

sábado, 1 de março de 2014

Aurora: Capítulo 8 - O quarteto

AURORA
CAPÍTULO 8: O QUARTETO

 Sasha levantou a lamparina acima de sua cabeça, obtendo uma visão geral do corredor à sua frente. A galeria seguia para baixo, indo muito mais fundo do que a luz do extrato de Lune conseguia alcançar. Escadas moldadas em pedra negra desciam em espiral aparentemente até o infinito, e suportes de madeira continham a força da montanha, impedindo-a de avançar sobre o túnel. Engenhoso, pensou relutantemente Sasha, levando a mão até um dos suportes. Era sem dúvida um trabalho bastante impressionante. O que fomentava algumas dúvidas em sua mente: toda aquela engenharia não podia ter sido trabalho de simples contrabandistas. Era muito grande, e aquele grupelho de arruaceiros não parecia ser capaz de manufaturar e manter algo assim. Isso deixava Sasha com duas alternativas: Ou os bandidos eram um grupo muito maior do que aparentavam, o que tornaria a missão dela muito mais difícil, ou havia algo mais sinistro ali. A garota procurou se focar na primeira alternativa, evitando pensamentos que a afastassem de sua missão. Era melhor considerar os contrabandistas como inimigos mais formidáveis do que afundar em teorias conspiratórias.

 Atrás dela, ouviu a respiração cansada de Dalan, seu companheiro forçado de missão. Seu cenho se franziu levemente, embora ela não tivesse se virado para o garoto. Se sentiu surpresa por estar decepcionada com o garoto. Talvez tivesse esperado mais dele do que admitia, principalmente ao tê-la enganado daquela forma quando entrou na guilda. No entanto, ele ainda tinha muito a que aprender para ser um membro eficiente para a Aurora. Certos ensinamentos tinham que ser passados e um bom exemplo tinha que lhe ser oferecido. Ainda assim, ele havia acabo de entrar, se lembrou enquanto levantava a lamparina para se certificar de que estavam sozinhos. Se o ensinasse, talvez Dalan se tornasse melhor do que os outros relaxados da guilda. Um membro que não faria seu pai ter vergonha do que restou da Aurora.

 Dalan, por sua vez, não pensava muito. O cansaço era tamanho que todas as suas forças mentais estavam concentradas em fazê-lo andar e não tropeçar nos inúmeros degraus. Sabia que, como usuário de Yullian, quando fosse bombardeado com adrenalina as coisas ficariam mais fáceis, mas até lá cada passo seria uma batalha. O garoto seguiu as escadas em espirais de forma letárgica, e quase se chocou com Sasha, que havia parado subitamente.

 - Shh! - Sibilou ela, levantando o punho cerrado. Dalan olhou por cima do ombro da garota, curioso. A escada em espiral continuava descendo, mas agora ela adentrava um grande área aberta. Os degraus eram agora cercados por corrimãos altos, grandes blocos de um material cinza e liso, e terminavam no piso do que aparentava ser uma caverna natural, com a superfície formada por pedras negras. Dalan e Sasha ainda estavam um pouco acima do topo da caverna, e isso os impossibilitava de analisar por completo a área, com exceção do pequeno perímetro ao redor da escada. - Está vendo aquilo? - Sibilou a garota, apontando com o indicador. Haviam dois homens vestidos de negro, iluminados por lamparinas que carregavam nas mãos, caminhando calmamente pelo aposento abaixo até sumirem do campo de visão dos garotos. - Se essa não for a base deles, com certeza é um lugar cheio de contrabandistas. Precisamos de um plano para seguir em frente e resgatar Amanda.

 - E Wieder. - Complementou Dalan, sentando em um degrau. A adrenalina ia lentamente preenchendo suas correntes sanguíneas, e o cansaço foi sumindo. - Poderíamos atacar esses dois. Parecem estar sozinhos.

 Sasha se virou para o garoto, sentindo a irritação aumentar com aquela ideia simplista. - Você consegue enxergar mais do que um palmo lá embaixo? Parecer estar sozinhos não significa nada no esquema geral. - Sibilou. Ela se apoiou no joelho, aproximando o rosto do rapaz. Era isso, concluiu a garota ao fitar a expressão desconcertada de Dalan. Precisava ensiná-lo como as coisas funcionavam.

 - Escute. - Disse ela, terrivelmente séria. Sasha desceu alguns degraus para ficar de frente ao garoto, com seus olhos azuis no mesmo nível dos castanhos dele. Dalan engoliu em seco, intimidado. - Eu vou te dizer duas coisas, e que isso fique para sempre marcado na sua mente, entendeu? - Ela não esperou resposta. - Um: Nunca, em hipótese nenhuma, iremos deixar um membro da guilda sob ameaça. Se eles estão com reféns, nossa primeira atitude deve ser salvá-los, custe o que custar. Somos a Aurora, e não deixamos ninguém para trás. - Os garotos ficaram sem piscar, enquanto Sasha dava tempo para que o outro absorvesse suas palavras. - Dois: Não estamos brincando. Isso não é um passeio no campo, para depois voltarmos à guilda e tomarmos suco no jardim. É uma missão. E como missão, eu exijo total cuidado. Você pode muito bem morrer hoje, e tudo que você sonhou na vida irá por água abaixo. Então não subestime seu inimigo. Entendeu?

 Dalan acenou com a cabeça, incapaz de demonstrar outra reação. Ela estava certa, concluiu. Havia muito em jogo ali. Sua vida, a dela, e dos reféns. Não era uma simples missão de procurar um gato na cidade. Era vida ou morte. Precisava se ligar disso.

 Sasha limpou a garganta, olhando para trás para ver se não havia nenhum contrabandista por perto. - Preste atenção. - Ela virou o corpo, tentando se esticar para obter um campo de visão mais propício. - Vamos descer no maior silêncio possível, até chegar na base da escada. Depois disso, eu irei correr e procurar os reféns enquanto você fica me dando cobertura. Assim que conseguir resgatá-los, iremos subir e defender uma área mais fácil de proteger. Entendido? - Dalan acenou de forma positiva novamente, embora sua mente estivesse insegura. Sasha deixou a lamparina em um degrau próximo e começou a descer, se agachando para que o corrimão a cobrisse. O garoto a seguiu, nervoso.

 Sem a lamparina, era muito difícil enxergar qualquer coisa. Havia uma luz natural no ambiente, amarelada e tênue que parecia vir de rachaduras no teto da caverna, mas ainda assim era pouca. Quanto mais desciam na escuridão, mais cuidado precisavam ter na hora de descer os degraus. Eles seguravam os corrimãos para ter mais segurança, mas um passo em falso iria causar algo bem pior do que uma queda. Possivelmente alertaria todos os bandidos do local, então era aconselhável andar com bastante calma. Algo que Sasha fez questão de dizer quatro vezes para Dalan durante a longa descida.

 Finalmente, os dois chegaram na base. Sasha pisou no chão, encolhendo com o som das pedras se esmagando e raspando uma nas outras. Ela recuou o pé até o degrau e inclinou lentamente a cabeça para fora do corrimão, pela lateral. Avistou o verdadeiro tamanho da caverna, um aposento gigantesco em comprimento, embora a altura fosse um tanto baixa. Pilares naturais se erguiam nas bordas, deixando o centro vazio. Havia uma superfície elevada no fim, iluminada por doze lamparinas de Lune enfileiradas, e ali estavam Amanda e Wieder, amarrados de costas um pro outro. O problema era que haviam diversos contrabandistas ao redor, aparentemente em discussão sobre o que fazer com os reféns. Sasha contou quinze, mas a caverna estava tão escura que provavelmente haviam outros nas sombras. Recolheu a cabeça e se virou para Dalan.

 - Eu vou agora. Lembre-se da cobertura. - E, antes que o garoto pudesse dizer algo, ela saiu da escada e adentrou as sombras. Dalan ficou observando a plataforma elevada, esperando por qualquer sinal da companheira.

 Sasha, por sua vez, se aproximava rapidamente dos reféns. Precisaria apanhá-los de uma vez, e sair dali antes que os ladrões entendessem o que estava acontecendo. Preferiu ir pelas sombras, se locomovendo na escuridão quase que absoluta enquanto esperava não fazer tanto barulho. Estou quase lá, pensou a garota, a menos de dez metros da plataforma. Quase lá.

 Naquele momento, algo agarrou seu pé, e ela imediatamente tombou. Primeiramente não entendeu o que estava acontecendo, apenas se tocou quando o chão já estava muito próximo. Estava tão rápida que rolou vários metros incontrolavelmente, sofrendo cortes e outros ferimentos pelas dezenas de pedras afiadas, que relutantemente cessaram seu movimento. Sasha ficou inerte por alguns segundos, captando as inúmeras dores que brotavam de seu corpo. De repente, sentiu seus braços sendo levantados, e o rosto sair do chão. Um de seus olhos estava encharcado de sangue que jorrava da testa, então ela abriu o outro. Vários homens se postavam diante dela em semi-círculo, enquanto apenas um se encontrava diretamente à sua frente.

 - Olha só quem caiu na rede. - Disse o homem, aparentemente o líder daquele bando. Ele era alto, com cabelos vermelhos que desciam compridos por debaixo do capuz negro que usava. O contrabandista agarrou a manga de sua roupa, rasgando o tecido. - Ah, quem diria. Mais uma membro de guilda. - Sasha tentou se mover, mas mãos fortes seguravam seus braços. Foi recompensada com um forte soco em seu rosto. Sua cabeça tombou para o lado, cuspindo sangue.

 - Lucius, aqui está. - Disse uma voz masculina, e a garota levantou minimamente a cabeça para enxergar o que estava acontecendo. Lucius, o líder, segurava uma corda fina e transparente nas mãos. Sasha sentiu o rosto ficar vermelho. Era aquilo que a havia capturado?

 - Acho que podemos começar uma série de perguntas, não? - Perguntou Lucius. Ele tinha uma voz suave, que contrastava com sua brutalidade. - De que guilda você é?

 - Vá para o inferno. - Conseguiu dizer a garota. Não iria delatar a Aurora, disso tinha certeza.

 - Não conheço. - Declarou Lucius, levantando as pálpebras. Ele desferiu mais um soco na garota, desta vez no estômago. Sasha tossiu, se curvando para frente. - Eu não tenho tempo para brincadeiras, menina. Conte de onde veio e poderá manter os olhos. - Ele sacou uma faca do bolso, a aproximando do rosto da garota. - De. Que. Guilda. Você. É?

 - Vá... - Começou a dizer Sasha, mas naquela hora ouviu sons de contato atrás de si, e as mãos que a prendiam sumiram. Sem nem pestanejar, ela usou uma das mãos livres para segurar a faca de Lucius, puxando-o para baixo, e em seguida com a outra soltou um forte soco em seu atônito rosto. A garota deu um passo para trás, sentindo alguém ao seu lado. - Havia esquecido da cobertura. Você demorou. - Proferiu.

 - Vocês estavam muito longe. - Disse Dalan, fechando as mãos em punhos. - E de nada.

 - Não há tempo para isso. Os reféns! - Disse ela, disparando para as duas pessoas amarradas enquanto limpava o sangue do rosto. Gritos ferozes e raivosos se proliferaram pela caverna, enquanto os contrabandistas se recuperavam do estupor. Sasha se aproximou de Amanda, que assistia tudo com os olhos arregalados, e começou a desamarrar as cordas que a prendiam. Dalan chegou na plataforma elevada logo em seguida, derrubando um dos pilares de madeira. A lamparina que ficava em cima se chocou contra o chão, despejando todo o seu conteúdo nas pedras. O extrato de Lune brilhou, iluminando com sua luz branca as duas dúzias de ladrões que corriam na direção dos garotos.

 - Vocês três! - Gritou Sasha, terminando de soltar os reféns. - Mantenham o terreno e batam com força! - Um dos ladrões mais apressados pulou na plataforma, e uma pedra voou na direção de sua cabeça, fazendo-o cair. Amanda se agachou para pegar mais duas, e as jogou contra os contrabandistas, que agora invadiam em peso a superfície elevada.

 - Preciso da minha pulseira, Dalan! - Gritou Wieder, pulando para trás para desviar do chute de um homem de cabelos negros Amanda jogou mais uma pedra no rosto do bandido, e o anão o finalizou com um soco no estômago. - Vou ser uma inutilidade sem ela!

 - Vou pensar... no seu caso... - Grunhiu o garoto, tentando se livrar de um bandido que o segurava pelo pescoço. Sasha surgiu e socou o ofensor na nuca, mas agora era ela que era atacada por mais dois homens. Dalan pulou por cima dela, chutando um adversário na boca. Amanda, por sua vez, se afastava do centro da batalha, segurando várias pedras contra si com o braço esquerdo. Ela jogava os projéteis improvisados, acelerando o movimento com seus poderes de vento. O problema era acertá-los.

 Sasha se agachou para desviar de uma das pedras jogadas pela companheira, chutando um homem no baixo ventre. Ele caiu gritando fino, e a garota se levantou para socar seu rosto. Em seguida sentiu seu braço ser puxado para trás, mas Wieder apareceu para golpear o adversário com uma rocha.

 - Wieder, onde estão suas coisas? - Perguntou Dalan, se jogando em cima de um homem que corria na direção de Amanda. Eles caíram no chão, e o garoto deu uma cotovelada nos pulmões do contrabandista, fazendo-o arfar.

 - Do outro lado! - Gritou o anão, em um raro momento livre. O garoto olhou na direção em que os dedos do companheiros estavam apontando, e avistou a trouxa de roupas que Wieder havia pego antes de caírem. Ele imediatamente disparou em direção ao saco, mas dois contrabandistas se colocaram em seu caminho, abrindo os braços e grunhindo.

 Uma pedra voou da escuridão e acertou a cabeça de um dos bandidos, fazendo-o desmaiar antes de cair. Dalan aproveitou a momentânea surpresa do outro para se impelir contra um dos pilares de madeira. O objeto caiu facilmente, e a lamparina em sua ponta acertou a cabeça do ladrão. O extrato de Lune explodiu para todos os lados, iluminando a área em uma profusão de luz branca. O garoto passou pelo homem que ainda estava caindo e agarrou a trouxa de roupas, se sentindo um pouco mais calmo.

 Infelizmente, algo se chocou contra suas pernas, fazendo-o cair no chão. Dalan se virou para cima, bem a tempo de ver uma adaga indo em direção ao seu pescoço. Ele instintivamente agarrou a mão que o atacava, vendo agora que era um homem de pele morena que tentava matá-lo. - Wieder, pega! - Gritou o rapaz, jogando a trouxa de roupas para longe para se concentrar na luta.

 A bolsa voou, e Amanda usou seus poderes de vento para desviá-la em sua direção. À sua esquerda, Sasha impedia que um contrabandista atacasse a outra garota, socando suas costelas.

 - A pulseira está aí dentro! - Gritou Wieder, correndo de dois bandidos. Amanda abriu a trouxa, desviando o olhar com cara de nojo enquanto vasculhava seu conteúdo.

 - Eca, eca, eca, eca, ECA! - Gritou, remexendo nas roupas sujas. Ela finalmente achou o objeto circular, arrancando-o das roupas com violência e se afastando de costas da bolsa enquanto balançava freneticamente as mãos e saltitava nas pontas dos pés, fazendo uma careta. Do outro lado, Dalan conseguia dar uma joelhada no homem que brandia a faca em sua direção, jogando-o para longe em seguida.

 - Jogue isso para Wieder, Amanda! - Gritou ele, correndo de volta para o centro da confusão. A garota jogou o objeto para o anão com agitação, mas Lucius surgiu da escuridão, chutando o ornamento para longe.

 - Filho da -- Tentou gritar Wieder, mas os homens que o perseguiam se jogaram contra ele, derrubando-o no chão. Dalan correu e chutou um deles no rosto, enquanto o anão se desvencilhava do segundo. Enquanto isso a pulseira, de um amarelo sujo porém brilhante, rolava pelas pedras da caverna. Sasha se adiantou e agarrou-a, mas um contrabandista estendeu o braço em sua direção, acertando seu pescoço e a fazendo cair para trás.

 - Pega! - Gritou ela, jogando novamente o ornamento para longe. Ela mirou na direção do anão, mas Lucius novamente surgiu, se colocando no caminho da pulseira.

 - Não! - Gritou Dalan, muito longe para impedir. Ele olhou para frente, desesperado, e avistou Amanda na direção oposta, também distante para alcançar a surpresa. Um plano nasceu instantaneamente na cabeça do garoto, que esticou a mão na direção do objeto. - Amanda, vento! - Gritou ele, e a garota pareceu entender o que ele queria.

 O rapaz se concentrou e disparou uma camada de gelo, expandindo-a de forma a cobrir a distância entre o ornamento e Wieder, que aguardava sem reação. A pulseira rolou pela superfície gelada, adquirindo um movimento mais uniforme. Amanda, por sua vez, impeliu-a com uma lufada de ar, aumentando sua velocidade em níveis consideráveis. O objeto disparou, ultrapassando um atônito Lucius e chegando em Wieder.

 - Finalmente. - Soltou o anão, colocando a pulseira em seu pulso direito. Um brilho pálido e amarelo envolveu sua mão, cobrindo seu corpo por inteiro. A luz aumentou de intensidade, expandindo sua área em um centésimo de segundo. Gás cinzento circulou a região, e uma forma gigante se destacou. Era composta por centenas de pedras de cor amarela suja, que se uniam em um modelo humanoide, de quase três metros. As mãos eram desproporcionalmente grandes, e os pés pareciam botas, sem dedos e maiores do que o resto da perna. O rosto era quadrado, com a boca formada por uma linha negra demarcada por pontas afiadas, e os olhos eram pequenos e de um vermelho forte. Os contrabandistas e os membros da Aurora pararam, atônitos pelo golem de ronatto que se encontrava diante deles. - Oh. Era melhor do que eu sonhava. - Disse a voz de Wieder pela boca da criatura, olhando para suas mãos. -  Beeem melhor do que eu sonhava.

 - R-recuar! - Gritou a voz de Lucius, tropeçando para trás. - S-salvem-se quem puder!

 - Dalan, Amanda! - Disse Sasha, derrubando um contrabandista apavorado. - Precisamos impedir que eles fujam!

 - Deixem comigo! - Gritou Wieder, correndo de forma desengonçada atrás dos ladrões. Eles, amedrontados e distraídos, corriam em bando, enquanto o restante da Aurora capturava os desgarrados. O anão se aproximava rapidamente do grupo, que gritava. - Pernas longas são... estranhas, não? - Perguntando ele, parecendo sorrir. - Talvez eu precise de um tempo para... ugh!

 O golem havia tropeçado sozinho, esticando os braços para frente. Por um acaso feliz do destino, ele caiu em cima dos contrabandistas, que soltaram um último grito de terror que ainda ressoava pela caverna no momento em que eles foram esmagados. Wieder tentou se levantar, mas caiu novamente.

 - Oh, céus. - Resmungou Sasha, capturando o último dos ladrões enquanto Dalan e Amanda corriam para ajudar o anão. Teria um longo trabalho com aquele ali, pensou, mas já estava mais calma. Olhou para os lados, conferindo se não havia mais nenhum desgarrado. Foi apenas quando teve certeza que relaxou, sentando nas pedras. Sua missão havia acabado.

 Horas depois, estavam na carroça que os levaria de volta a Helleon. Sasha estava com o comprovante de missão em suas mãos, adquirido ao chamar as autoridades até a caverna dos contrabandistas para recolher os bandidos. Wieder havia recolhido seus pertences, e girava a recém-adquirida pulseira em suas mãos. Amanda dormia profundamente, se esparramando por cima de quatro bancos, e Dalan tentava acompanhá-la, sentado e com os olhos fechados. Enquanto seu corpo relutava adormecer, conseguiu ouvir Sasha conversando com Wieder.

 - Não ache que irá simplesmente entrar na Aurora desse jeito fácil. - Disse a voz séria da garota. - Ainda teremos muito o que discutir sobre você e sua estranha vontade de se afastar do resto de sua raça.

 - Imagino que eu vá discutir isso com a líder de sua guilda. - Bocejou o anão. - E não com você. - Dalan, mesmo de olhos fechados, conseguia sentir que o rosto de Sasha havia ficado vermelho.

- Vai aprender que não é tão simples assim. - Sibilou a garota. - Só estou te deixando ir para a sede por causa de sua pulseira. Portanto, quando descobrirmos que você não está nos espionando ou algo similar, é bom que treine. A Aurora não tem mais espaço para pesos mortos.

 - Pode anotar isso. - Respondeu Wieder. O silêncio se seguiu à conversa, interrompido apenas pelos costumeiros barulhos da carroça e dos animais silvestres do lado de fora. Dalan se ajeitou na cadeira, exausto demais para se mover novamente. E com isso, finalmente adormeceu.