quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Aurora: Capítulo 6 - Coletivismo

AURORA
CAPÍTULO 6: COLETIVISMO

 - Definitivamente, esse não é um bom plano. - Disse mais uma vez Dalan, caminhando preocupado pelas galerias úmidas e rochosas do subterrâneo de Vertreit, iluminadas parcamente por tochas penduradas em suportes metálicos nas paredes. Amanda, andando bem mais leve ao seu lado, retrucou:

 - Eu não me lembro de você ter vindo com um melhor do que esse! - O que, para irritação do garoto, era verdade. Vertreit possuía duas áreas que funcionavam sob jurisdições diferentes, a humana e a anã. Na fuga dos policiais, os dois membros da Aurora haviam caído na área dos seres menores. Sair dali seria um enorme problema, visto que os anões eram conhecidos por serem bastante zelosos com suas terras, tornando a passagem entre as duas áreas uma enorme burocracia. E, para guardar essa burocracia, haviam diversos guardas, que seriam muito pouco amigáveis com os ilegais Amanda e Dalan. Não podiam nem mesmo voltar pelo rio, graças à força da correnteza jogando-os para o lado oposto. Estavam presos em terras anãs. E não eram bem-vindos.

 Dalan parou em uma esquina, de ouvidos atentos à qualquer aproximação. Amanda o acompanhou, chapinhando diversas poças d'água no caminho e fazendo uma quantidade de barulho tão tremenda que o garoto fechou os olhos e aguardou pacientemente uma multidão de guardas cair em cima deles. Como nada aconteceu, respirou um pouco aliviado, antes de se virar nervoso para a outra.

 - Você pode também gritar. Acho que seria mais eficiente pra dizer nossa posição. - Sibilou ele por entre os dentes, pontuando cada palavra com um aceno de cabeça irônico. Amanda, por sua vez, apenas sorriu calmamente.

 - Dalan, eu te conheço faz pouco tempo, mas... - Ela colocou a mão no ombro do rapaz, adotando uma expressão condescendente. - Você se estressa muito fácil. Tem que aprender a deixar a vida te levar, e só se preocupar quando as coisas realmente passam do limite. - Disse balançando a mão livre. E com isso ela seguiu em frente, fazendo ainda mais barulho do que antes.

 O garoto parou, fechou os olhos e contou até dez, esperando a fúria sair de dentro de si. Não sabia se era por causa do cansaço ou da presença caótica de Amanda, mas todo segundo que passava com ela o deixava mais perto de um ataque cardíaco. No momento em que a contagem cessou e ele tornou a abrir os olhos, no entanto, a garota derrubou uma das tochas, produzindo um imenso barulho metálico pelo suporte caído. Enquanto ela tentava rapidamente colocar o objeto no lugar, Dalan fez uma afirmação mental: definitivamente, o problema era Amanda. E recomeçou sua contagem.

 Alguns minutos de caminhada depois, em que o rapaz agradeceu imensamente por não terem sido descobertos, alcançaram seu objetivo. Um pequeno posto policial, construído no próprio leito da rocha, formado por uma pequena bancada de pedras de cor cinza e iluminado por duas lamparinas. Amanda e Dalan tomaram uma distância razoável do lugar, protegido por dois anões com roupas longas de tom azul-claro, e olharam um para o outro com alarmismo.

 - Bem, acho que você já sabe o que fazer! - Disse a garota, animada. Ela começou a andar na direção oposta, cantarolando consigo mesma. Dalan revirou os olhos e respirou fundo, esperando até Amanda estar praticamente fora de seu campo visual para admitir em voz relativamente alta:

 - Amanda... esse plano nunca vai funcionar. - Ele colocou as mãos nos bolsos e deixou as costas baterem na rocha fria, apoiando a cabeça na parede em seguida. - Eu não sou um bom mentiroso. Nunca vou convencê-los.

 - Então apenas diga a verdade, oras. - Respondeu a voz da garota, sem preocupação no tom. Passos apressados se seguiram, diminuindo até sumirem por completo. Dalan engoliu em seco, juntando cada fibra do seu ser para continuar. Bem, é melhor aparecer agora do que ser capturado depois, concluiu, dobrando a esquina enquanto inflava o peito.

 Os policiais anões imediatamente gritaram e andaram rapidamente em sua direção, pegando lanças de madeira penduradas na parede. Eles o cercaram rapidamente, apontando as armas para o garoto. Dalan soltou o ar pela boca, levantando lentamente as mãos.

 - P-policiais, meu nome é Dalan Glacius, e sou um membro de guilda. - Sua voz começou hesitante, mas foi adquirindo força com o passar da frase. Afinal, ele não estava dizendo nada além da verdade. Era um membro oficial, os documentos haviam apenas atrasado. Os guardas se entreolharam, resmungando algumas palavras no dialeto anão, antes de se virar novamente para o rapaz.

 - Prove. - Disse desconfiadamente o primeiro, um anão de um metro e trinta com uma barba ruiva que descia até seu umbigo. Dalan lentamente levantou a manga da camisa, revelando a Marca da Aurora. Os guardas baixaram minimamente suas armas.

 - Que guilda é essa? - Perguntou o segundo policial, medindo um metro e quarenta e possuindo uma barba relativamente curta, um véu negro que cobria apenas seu pescoço.

 - Aurora. - Respondeu o rapaz. - Somos uma guilda pequena em Helleon, uma cidade ao sul daqui, colada ao mar de Cellintrum. - Ele deu um passo nervoso para a frente, mas para o seu alívio os guardas não se movimentaram. - Um membro de sua comunidade solicitou a entrada em minha guilda. Seu nome é Wieder. Gostaria de realizar seu desejo.

 - Alto lá. - Ordenou o anão ruivo, brandindo a arma com firmeza. - Se é de uma guilda registrada, qual é o motivo de estar aqui sozinho? Nenhum membro de outra espécie pode entrar em nossas galerias sem permissão e acompanhamento de um oficial. - Ele estocou o ar com a arma, ameaçadoramente. - Onde ele está?

 - Ou sua certidão de entrada. - Disparou o segundo guarda, cerrando os olhos em desconfiança. - Ande, garoto. Temos permissão para matar qualquer invasor da superfície, não se esqueça.

 Dalan engoliu em seco, sentindo uma gota de suor solitária descer pela sua têmpora. Mentir definitivamente não era uma opção, considerou após recordar de sua péssima lábia. Restava apenas procurar a verdade certa para dizer. - Eu estava com um outro indivíduo. - Falou, finalmente. Sentiu as armas se aproximarem por centímetros, e correu para complementar: - Tenho razões de acreditar que ela se encontrou com o cliente de minha guilda, por isso peço para encontrá-lo.

 - Por acaso é maluco, humano? - Respondeu friamente o anão ruivo. - Acha mesmo que deixaríamos um invasor entrar em nossas prisões? - Ele se aproximou, estocando a lança perigosamente perto do abdômen de Dalan. - Hein? Acha que nosso povo é imbecil?

 - Não. - Se apressou em dizer o garoto, engolindo em seco. Agora sua testa inteira estava molhada, e sua coração palpitava com tamanha pressa que parecia um beija-flor. - S-se acha que sou um invasor, me diga: Por quê eu iria me entregar a vocês dessa forma? Vim até aqui por vontade própria! - O que era em partes verdade. Ele poderia seguir Amanda até os confins do subterrâneo anão.

 - Não disse que veio com mais alguém? - Perguntou o segundo guarda. - Isso me parece um truque para nos distrair enquanto sua cúmplice adentra nossos salões e rouba nossas riquezas! - Os dois começaram a se aproximar com suas lanças estendidas. Dalan recuou, com a mente a mil, pensando em alguma forma de escapar daquela situação. E, como um sinal divino, ela veio.

 - Eu sou um membro de guilda! - Disparou em voz alta, fazendo os oficiais pararem. - A Aurora é registrada e de acordo com a lei. Minha Marca é real, podem provar! Que tipo de pessoa eu seria, realizando uma ação criminosa e lhes dando de bandeja minha afiliação e endereço de meus companheiros? - O garoto percebeu a brevíssima entreolhada entre os policiais, e notou que estava em vantagem. Precisava aproveitá-la. - Pela Lei de Apoio Auxiliar, assinada por todos os representantes da Aliança, os oficiais devem cooperar com qualquer membro de guilda que procurar ajuda, mediante o fato de que o assunto em questão esteja na jurisdição deles. Então, senhores... - Dalan cruzou os braços, encarando os dois com a testa franzida. - Posso ver o cidadão que pediu para entrar na Aurora? Ou devo falar com alguém superior sobre o comportamento de vocês?

 Os dois guardas ficaram em silêncio, aparentemente considerando suas chances e seus direitos. Finalmente, o ruivo se virou para o companheiro. - Geraldo. Por favor vá aos andares inferiores e comunique que temos um fugitivo no subterrâneo. Irei levar esse aqui à detenção para que possa falar com quem deseja. - Dalan por um instante pensou em se manifestar, buscando proteger Amanda. Fora burro em confessar que ela estava ali. No entanto, não conseguiu pensar em nenhuma desculpa convincente, e ficou observando Geraldo se afastar, inutilmente. - Apenas tome cuidado! - Gritou o ruivo. - Estamos naquela época do ano, lembra? - O guarda de barba negra apenas acenou a mão em resposta. - Vamos, humano. - Chamou o primeiro guarda, puxando a barra da camisa de Dalan. - Temos uma longa caminhada pela frente.

Os dois seguiram andando, passando por diversos corredores de pedra negra, cada vez mais iluminados pelas tochas que decoravam as paredes. O guarda resmungava consigo mesmo em seu próprio dialeto, mas Dalan não prestava atenção, preferindo se preocupar com Amanda. Mesmo tirando-o do sério, ela agora estava sendo perseguida pela polícia anã em ambiente hostil. O garoto precisava libertar Wieder e correr para resgatá-la.

 - Chegamos. - Disse o anão ruivo, e Dalan saiu de seus pensamentos, estancando em resposta. Estavam em frente a um edifício construído no leito da rocha, composta de um material cinza e fosco. As paredes continham barras, e eram colocadas propositalmente altas em seus respectivos andares. Uma porta de madeira negra marcava a entrada, e o guarda se adiantou para abri-la, se virando para o humano. - No momento ele está em detenção provisória até que possamos julgá-lo. Você tem... o direito de conversar com ele. - A última frase foi proferida com uma voz que demonstrava insatisfação, mas o guarda deixou o garoto entrar sem mais empecilhos.

 Havia apenas um policial ali dentro, um anão de cabelos dourados e encaracolados que lia calmamente um livro, sentando em sua escrivaninha de madeira. Ele levantou os olhos para fitar Dalan, mas voltou à sua leitura assim que enxergou o guarda ruivo. Os dois seguiram adiante, adentrando nos corredores onde ficavam as celas. Aqui é bem vazio, disse o garoto para si mesmo, mas não se surpreendeu. Os anões tinham um forte senso coletivo entre eles, sem incentivos à individualidade e motivando o trabalho árduo. A educação necessária para que essa forma de sociedade funcionasse diminuía muito os crimes. Enquanto apreciava silenciosamente esse sistema, conhecido como coletivismo anão, ele percebeu algo estranho. Pelo coletivismo, um anão geralmente não se unia à guildas isoladas de sua própria espécie. Era algo quase que impensável. O que Wieder estava querendo? Dalan apertou o passo, curioso pela resposta.

 Finalmente chegou na cela, um quarto apertado de cinco metros quadrados, composta de uma cama, um banco e uma latrina cavada no chão. Havia um anão sentado no colchão, encarando cabisbaixo o piso. Ele parecia ter um metro e quarenta, com uma pele cor de bronze e uma grande barba castanha e trançada para formar um cone invertido, que descia até a cintura. Seu nariz grande e pontudo marcava sua face, quase que escondendo os olhos apertados e negros. Estava relativamente limpo, vestido com o uniforme dos presos, um manto longo e um capuz, ambos negros como o breu. O guarda abriu a porta da cela com chaves barulhentas e se afastou, deixando o garoto às sós com o prisioneiro.

 - Wieder? - Perguntou Dalan, entrando no aposento. O anão acenou positivamente com a cabeça, levantando a cabeça para encará-lo com seus pequenos olhos.

 - Wieder Henf. - Disse ele, com a voz um tanto quanto aguda para a espécie. - E você?

 - Meu nome é Dalan Glacius. - Respondeu o garoto, estendendo a mão. - Sou um membro da Aurora.

 Wieder soltou um suspiro aliviado e se levantou, caminhando até o humano. Os dois apertaram as mãos de forma firme, e o rapaz notou o braço imensamente peludo do anão. - Onde está a garota que havia me encontrado da primeira vez? - Perguntou o menor. O garoto se esticou para trás e olhou para fora da cela, temendo estar sendo espionado, mas o guarda ruivo estava muito longe. Se aproximou do outro, se ajoelhando.

 - Amanda está se escondendo até que eu consiga resgatá-lo. - Confessou o garoto, preocupado. - Assim que tirarmos você daqui, iremos atrás dela para sairmos todos desse lugar.

 - Entendo. - Respondeu Wieder, girando os olhos para cima enquanto pensava, coçando distraidamente a barba. - Bem, imagino que possamos contornar tudo isso. - Ele encarou Dalan, continuando a falar com uma voz monótona, como se estivesse explicando o óbvio. - Há um oficial de entrada que é um fã tão imbecil do coletivismo anão que desconfio que ele se corte todas as vezes que esbarra em um membro da espécie. Basta eu mentir dizendo que tudo havia sido um mal-entendido e confessando meu amor à raça que ele vai estender o tapete vermelho para que eu não machuquemos nossos pés nas pedras. Vai ser simples. Tão simples quanto convencer o babaca ali fora.

 Dalan arregalou os olhos e inclinou a cabeça um pouco para trás, surpreso com o jeito que o anão falava do coletivismo de sua raça. - Você... acha que isso vai funcionar?

 - Claro. - Disse Wieder, soltando um sorriso tranquilo. - É mais fácil enganar o sistema do que você acha, garoto. Especialmente um tão ignóbil quanto esse. - Ele saiu da cela assobiando, mas Dalan continuou onde estava. Não gostava daquela torção de regras que o ser menor estava sugerindo, mas preferiu não falar nada por enquanto. Com uma breve careta, seguiu o anão.

 Quando o encontrou novamente, Wieder estava conversando com o policial de cabelos dourados. - Quer dizer, Glober está contratando membros de guilda humanas para procurar bandidos em nossos próprios terrenos. - Disse o guarda, esparramado em sua cadeira. - Humanas! Acredita? - Ele olhou de relance para Dalan, exalando o preconceito de seus globos oculares.

 - Concordo. É um absurdo. - Wieder encolhia os ombros e sorria tranquilamente para o oficial. - E é por isso que estou indo para uma dessas guildas, Thorus. Preciso proteger os segredos de nossa raça, e para isso farei o sacrifício de me afastar de Vertreit. - Ele se apoiou na mesa, encarando o guarda. - Não podemos deixar que outras espécies tenham acesso livre em nossas terras e comecem a agir impunemente, sem dar nenhuma explicação à nós! - Thorus parecia concordar com ele, e Wieder ampliou o sorriso. - Entende o que quero dizer?

 - E-entendo. - Respondeu Thorus, mexendo em alguns papéis em sua mesa. - Não se preocupe, Wieder. Não há nenhuma papelada sua por enquanto, então posso liberá-lo de imediato. Apenas tente ficar fora de confusão da próxima vez.

 - Pode ter certeza. - O anão de cabelos castanhos se virou para o guarda ruivo, diminuindo o sorriso. - E quanto a você, Olik? Conheci seu irmão Olaf. Comi em sua casa. Você sabe, do fundo de seu coração, que eu jamais me envolveria com aquela criminosa.

 - E aquele ali? - Disparou Olik, indicando com a cabeça Dalan.

 - Ele também foi enganado. Sabe como garotas bonitas podem nublar a mente dos homens. - O rapaz corou, mas o guarda ruivo apenas riu.

 - Apenas dos homens, Wieder? Soube de histórias suas pelo meu irmão. - Ele descruzou os braços, se aproximando do ex-prisioneiro. - Inclusive sei de seus quase duzentos anos de serviço impecável. Sua dedicação ao nosso povo é admirável.

 Pela primeira vez desde que o encontrou, Dalan viu o rosto de Wieder perder a animação, ficando sombrio por alguns instantes. No entanto, uma piscada de olhos depois, lá estava ele sorrindo. - Não fale isso. Me faz parecer um velho.

 - Não foi minha intenção. - O tranquilizou Olif, estendendo as mãos. - Apenas me prometa que não irá se encontrar com aquela foragida. Já temos problemas demais do jeito que estão. É aquela época do ano em que as coisas ficam agitadas.

 - Não se preocupe. - Foi a vez de Wieder acalmar o outro. - Irei apenas pegar minhas coisas em casa. - Com isso ele pegou um saco de roupas que Thorus havia acabado de separar e começou a andar em direção à saída, com Dalan se apressando para segui-lo. Os dois outros anões ficaram mais carrancudos quando o humano passou por eles, mas segundos depois ele estava do lado de fora, seguindo um apressado anão pelas galerias subterrâneas de Vertreit.

 - Cidadãos exemplares. São sempre os mais fáceis de se dobrar nesse sistema falho. - Ele riu, o que não foi compartilhado pelo rapaz. Dalan pensou em argumentar, mas havia muitas perguntas em sua cabeça.

 - O que aconteceu com você e Amanda antes de eu encontrá-lo? - Perguntou o garoto, seguindo o anão por uma esquina e quase derrapando com o chão úmido. - Digo, vocês dois estavam sendo perseguidos pelos policiais, não foi? - O sistema não parecia tão falho agora, concluiu Dalan com um riso oculto nas sombras. Wieder parou por um instante para se localizar, e logo continuou a andar.

 - A garota fez um pouco mais de barulho do que era necessário. - No mesmo instante, o rapaz assumiu essa situação como bastante provável. - Eu queria vir sozinho, mas ela insistiu em me acompanhar. O problema era que as coisas ficariam muito mais complicadas se ela fosse presa aqui embaixo, então quando chamamos atenção o suficiente mandei-a correr de volta à superfície antes dos guardas chegarem. Imagino que tenha arrumado alguns problemas lá em cima também.

 - E o que vieram fazer aqui embaixo? - Estavam agora em um corredor tão baixo que o humano teve que se agacha para passar, mas o anão continuou como se nada tivesse acontecido. - Só vieram pegar suas coisas? - Mesmo no escuro, Dalan conseguiu ver o sorriso no rosto de Wieder.

 - Bem... minhas coisas e uma outra que não é exatamente minha. Por enquanto. - O garoto sentiu o rosto ferver.

 - Estavam indo roubar alguém? - Sibilou, fechando os punhos com tanta força que as unhas marcaram a palma.

 - Ainda estamos. - Respondeu casualmente Wieder. Dalan acabou estancando o movimento perto de uma tocha, se recusando a continuar.

 - Não me surpreende que Amanda quis segui-lo. Como pode fazer isso? - Disparou para o anão.

 Wieder se virou calmamente, e seu rosto impassível brilhou na iluminação bruxuleante das chamas. - Não, ela me seguiu porque já havia me considerado um membro da guilda, e não quis me deixar sozinho. Agora, sobre o "roubo". - Ele levantou as mãos e dobrou o dedo indicador e o médio sarcasticamente. - Não é um crime. Veja, pelo querido e sagrado coletivismo anão... - Sua voz pingava zombaria, percebeu Dalan. - Todo e qualquer objeto manufaturado por um membro da gloriosa espécie anã deve ser entregue ao representante local, para que ele possa tirar o maior proveito do objeto e assim preservar a ascensão de nossa raça. A questão é que a pulseira que procuro foi escondida das autoridades, claramente por ser um artefato muito impressionante para ser usado como moeda de troca pelos representantes dessa cidade. Um crime terrível, se não me engano. Portanto, quando eu... bem... pegar emprestado o item em si, não haverá ninguém a se queixar. Entende?

 Não, Dalan não entendia. - Não acredito que esteja torcendo as leis dessa forma. O coletivismo anão é uma das formas de governo mais admiradas de todas, assim como a república élfica. Deveria ter orgulho do que fez sua raça, e não tentar denegrir as bases da coisa toda para seu próprio proveito.

 - Primeiro de tudo. - Disse Wieder com a voz séria, embora houvesse um pequeno sorriso em seu rosto. - Elfos não conseguiriam ser admirados nem que pintassem todas as suas mulheres nuas e distribuíssem os quadros para os quatro cantos do planeta. Segundo. - Ele estendeu os dois dedos da mão. - Se acha que nossos sistema é tão perfeito assim, é porque claramente não vive nele. É uma lavagem cerebral, acredite, sem limites. Martelada na cabeça das crianças até terem idade o suficiente para martelar alguma coisa, e depois mais ainda. Aqueles que, por um acaso dos deuses, conseguem libertar sua mente, são enviados à frente de batalha para morrer na Fronteira e honrar sua raça. - O anão parou, dando tempo para o outro absorver suas palavras. - As coisas não são como parecem.

 - Ainda assim, não há motivos para fazer o que está fazendo. - Disparou o garoto, preferindo não acreditar no outro. - Dar um "jeitinho"... - Foi a vez dele dobrar os dedos das mãos. - ...nas regras e manipulá-las é tão ruim quanto a manipulação que você afirma sofrer.

 - Muito bem, garoto. - Ele cruzou os braços, e não havia mais um sorriso em seus lábios. - Me diga, pela lei humana, há um sorteio para definir os que serão mandados à Fronteira, e dizem que é muito mais provável você ser escolhido se tiver duas gotas de yullian em seu sangue. Se você entrou numa guilda, estatisticamente você tem yullian. Agora me diga, senhor certinho: - Ele franziu a testa, semi-cerrando os olhos. - Alguém mandou uma carta de recrutamento para sua casa?

 O rosto de Dalan, se possível, ficou ainda mais vermelho. Esperava esconder essa vergonha pelo resto de sua vida, mas o anão era mais perspicaz do que parecia. Mordeu a língua por alguns instantes. - Sim. - Disse finalmente por entre os dentes.

 - Não vejo você lutando por nossas vidas na Fronteira. - Acrescentou Wieder, levantando as sobrancelhas e voltando com o sorriso no canto da boca. - Me diga, você cometeu o terrível crime moral de torcer as regras?

 O garoto inspirou fundo, deixando o ar escapar lentamente pelo seu nariz. Não conseguiria mentir sem que Wieder percebesse. - Meu pai era um comerciante um pouco influente. Ele... aconselhou aos oficiais que eu não precisava ir.

 - Aconselhou com algumas maços de ten, não é? - Ele riu e se virou, continuando a andar. - Acredite, eu adoraria discutir ética com você, garoto, mas temos algo mais importante para fazer. - Dalan o seguiu, tentando controlar sua raiva. O outro tinha razão, não adiantava discutir isso ali. Mas que iriam conversar sobre o assunto, com certeza iriam.

 Andaram por mais longos minutos, em silêncio e sempre descendo longas escadarias de pedra. O ambiente começava a ficar mais apertado, e os ouvidos de Dalan começaram a doer. Seu companheiro, acostumado com o local, não reclamava. Continuaram andando até que chegaram em uma pequena porta de madeira, pintada da mesma cor que as paredes. De fato, se o anão não tivesse parado ali, Dalan teria passado sem perceber sua existência. Wieder puxou um pedaço de ferro de sua trouxa de roupas, se aproximando do buraco da fechadura com curiosidade.

 - Personalizada. Pode ser um pouco mais difícil do que eu achava. - Ele enfiou o ferro no buraco, torcendo e girando rapidamente, até que um estalo ecoou na caverna. - Ou não. - O ser menor sorriu, guardando o objeto na trouxa. Se virou para o garoto, ampliando o sorriso. - Vai querer entrar e cometer esse crime comigo?

 O humano apenas revirou os olhos e caminhou até o outro lado do corredor, encostando as costas na parede e cruzando os braços. O anão adentrou nas sombras do aposento, e sons metálicos se seguiram. Dalan começou a deslizar para baixo, preparado para se sentar no chão.

 Naquele momento, no entanto, o piso começou a tremer violentamente, chacoalhando a galeria por completo. Pequenos pedaços do teto imediatamente começaram a cair, e o garoto se levantou com um pulo. - Wieder, o que está acontecendo? - Gritou ele, tentando se apoiar nas rochas atrás de si.

 - Ah saco. - Praguejou o anão, escondido nas sombras. - Garoto! Fique encostado na parede! Haja o que houver, não saia! - Gritou ele, e o rapaz continuou a se agarrar nas rochas úmidas.

 - O que está acontecendo? - Houve mais um tremor violento, e ele quase foi jogado no chão. Conseguiu se agarrar com dificuldade em uma pedra pontiaguda no muro de rochas, e sentiu o sangue escorrer pela palma das mãos.

 - Vermes da montanha! - Wieder havia saído das sombras, e segurava os batentes da porta com as duas mãos. - É a época de acasalamento deles! E estamos em uma altura muito baixa! - Uma tocha caiu de seu suporte, e o fogo começou a consumi-la por inteira.

 - Pensei que anões construíam coisas que conseguissem durar a qualquer problema! - Gritou o garoto. Algo gigantesco passou por debaixo deles, e os dois quase foram ao chão. O piso, por sua vez, começou a desmoronar. Pequenos pedaços se desfizeram ou caíram no abismo, revelando algo carnudo e de cor branco-esverdeada, correndo assustadoramente rápido por debaixo deles. Dalan engoliu em seco, esperando pelo fim daquele pesadelo, até que os tremores diminuíram com a passagem do verme da montanha. Os buracos agora mostravam apenas o negro completo.

 - Não estamos em áreas civis. - Wieder suava e tremia, mas não saiu do lugar. - Isso aqui é reservado apenas para construtores extremamente experientes, que usariam os túneis criados pelos vermes da montanha para procurar os veios mais profundos de ronatto. - Os tremores recomeçaram, muito mais violentos do que antes, e o anão se prendeu com tanta força ao batente que seus dedos pareciam se enterrar na madeira cinza. - Não saia de perto das paredes! - Gritou ele, tentando se ouvir apesar do barulho do apocalipse que ressoava na galeria. - Elas são reforçadas! Aconteça o que acontecer, não saia daí!

 Dalan concordou com a cabeça, tenso demais para falar. O chão perto das pontas de seus pés começava a rachar, mas o garoto tinha medo de se mover para se afastar. Segurou com força as pedras da parede, tentando se acalmar enquanto o mundo tremia ao seu redor. Tudo bem, pensou. Se não saísse dali estaria seguro.

 Enquanto pensava nisso ouviu um grito com o canto da mente, proferido por uma voz familiar. Ele girou a cabeça para enxergar o restante do corredor, e com pavor frio viu que Amanda corria em sua direção, pisando bem no centro da galeria.

 - Dalan! Wieder! São vocês? - Ela parecia relativamente calma com a situação ao seu redor, pelo menos em comparação com o desesperado Dalan ou o incrédulo Wieder. Os dois viram a garota correr por alguns centésimos de segundo, sem conseguirem proferir uma só palavra. Eis que uma outra tocha caiu de seu suporte, e o feitiço se quebrou.

 - AMANDA, SAI DAÍ! - Gritou Dalan, acompanhado pelos gritos no dialeto anão do companheiro. A garota não desacelerou o passo mas os encarou, confusa e agitada.

 - Gente, está tendo um terremoto! Nós precisamos sair daqui! - Gritou ela em resposta. O chão debaixo dela começou a vibrar terrivelmente, e as pedras caíram em cascata. Amanda pulou para frente, com os olhos arregalados, mas não havia como escapar daquilo. Atrás da garota, as pedras do piso se arquearam e começaram a desabar, como se algo monumental estivesse passando por ali. O movimento de onda chegou em instantes nela, levantando-a no ar com facilidade, fazendo-a girar. Quando Amanda acertou o chão novamente, caindo de costas, seu peso foi o suficiente para que o suporte ruísse e ela começasse a cair.

 - AMANDA! - Gritou Dalan. A onda de rochas passou por ele, que sem pensar saltou na direção da garota, tentando segurar sua mão. Infelizmente o chão debaixo do rapaz também estava frágil, e se quebrou com o contato. Os dois começaram a deslizar nas pedras que começavam a cair, protegendo a cabeça dos fragmentos com os braços, girando descontroladamente no ar. O barulho de destruição era intenso, mas em algum canto impossível de ser triangulado, Dalan ouviu a voz irritada de Wieder, gritando alguma coisa em seu próprio dialeto.

 Sem conseguir enxergar o que estava acontecendo, o garoto caiu em cima de um corpo magro, e logo em seguida deslizou por uma superfície macia, gosmenta e em declive. Uma parte do seu cérebro que ainda funcionava supôs que aquilo era a pele do verde da montanha, mas o resto da mente ainda tentava se achar no meio daquela baderna. O corpo de Dalan começou a deslizar pela superfície gosmenta, rolando e se melecando, batendo em outros corpos e ouvindo-os gritar. Ele também gritava, sem saber o que estava acontecendo, apenas seguindo os seus instintos mais primais. Abriu os olhos, e não enxergou nada. Preferiu ficar de olhos fechados.

 De repente, se viu caindo. Seu corpo cortava o ar ao seu redor, e gritos ecoavam no vazio. O único pensamento de Dalan, arduamente lutando para ser ouvido naquele caos, tinha apenas sete palavras, que se perderam na queda livre.

 Aquele não estava sendo um bom dia.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Aurora: Capítulo 5 - Anões

AURORA
CAPÍTULO 5 - ANÕES

 - Agradeço pela ajuda, garoto! Não sei o que faria sem o seu apoio! - Exclamou Dom alegremente, carregando quatro caixas de madeira suja e grossa em seus braços. Dalan o acompanhava de perto, segurando apenas um pequeno baú de ferro. Desconfiava que Dominic conseguiria levar tudo aquilo sem problemas, mas havia se voluntariado a ajudá-lo de qualquer jeito no café da manhã, mesmo se sentindo um pouco inútil.

 No entanto, respondeu sorrindo. - Não tem de quê. - Estavam caminhando pelas mesmas pedras que Dalan havia cambaleado na noite anterior, mas desta vez iluminadas pelo sol forte. Dom estava vestindo apenas uma calça azul, mostrando o torso forte e tatuado. Já o garoto vestia uma simples camisa branca e uma calça de moletom cinza que Lyra havia lhe emprestado, visto que suas únicas roupas estavam lavando.

 - Você chegou tarde ontem, rapaz. Alguma... aventura noturna? - Perguntou Dom, sorrindo de forma zombeteira. Dalan imediatamente corou e quase derrubou o baú. Havia se portado de forma bastante patética na noite passada, sobretudo por ter sido com Sophie. Pelo que se recordava, havia sido arrastado até a Aurora, e ela havia lhe colocado na cama. O homem alto percebeu seu desconcertamento, e riu de forma tão explosiva que as caixas que segurava quase caíram. - Não precisa se preocupar, jovem! Eu até o parabenizo! Afinal, não é qualquer um que consegue arranjar uma garota bonita no primeiro dia na guilda!

 Nesse momento Dalan ficou ainda mais vermelho, tanto que o baú pareceu se aquecer com a proximidade de seu corpo. Ele se virou para Dom, gaguejando com os olhos abertos e o rosto suado. - N-n-n-não aconteceu nada! - Ele começou a falar cada vez mais rápido, tentando explicar tudo o que havia acontecido no menor intervalo de tempo. - Digo, eu estava passando mal, mas não era muito sério, digo, era um pouco sério, mas não algo grave, aí ela me ajudou a chegar na guilda, eu não me lembro de muita coisa, quer dizer, eu sei que não aconteceu nada...

 - Hah! - Exclamou Dom, e a voz alta dele fez com que o garoto se calasse. - Não se preocupe com isso. Deixarei seus assuntos amorosos em paz. - Ele conseguiu soltar uma das mãos e bagunçou o cabelo de Dalan, que quase caiu com o peso. O garoto suspirou, percebendo que não conseguiria convencer o outro homem.

 Caminharam de forma lenta até chegarem à praça que ficava em frente à sede. Dalan agradeceu silenciosamente pela proximidade, sentindo os ombros arderem e as pernas cambalearem. Não havia descansado direito na noite anterior, e a exaustão física começava a tomar conta de seu corpo. Tenha calma, pensou o garoto, passando a mão na testa para limpar o suor. Assim que chegasse em seu quarto, iria deitar e dormir. Enquanto ainda sorria com a ideia tranquilizante, avistou Stella parada à frente da sede. Ela vestia um longo vestido anil e usava seus cabelos azuis em um rabo de cavalo, segurando nas mãos uma bolsa pequena e preta. A mulher sorriu ao ver os dois se aproximando, e foi se encontrar com eles.

 - Dalan, estava procurando por você. - Ela retirou um envelope da bolsa e o estendeu para o garoto. - Preciso que você vá à Vertreit para mim.

 Vertreit era uma cidade localizado ao noroeste de Helleon, colada ao sul das montanhas de Tina. Diferente de Helleon, totalmente humana, Vertreit era mista, ou seja, povoada por mais de uma raça. No caso, anões e humanos conviviam pacificamente, unidos por razões econômicas. Havia uma rocha chamada ronatto, encontrada em abundância nas montanhas. Os anões mineravam e lapidavam o material, ao ponto em que os humanos vendiam os produtos e cuidavam da administração da operação. Por cerca de cento e cinquenta anos essa forma de organização funcionou, embora os resultados financeiros fossem limitados pela pobreza das regiões adjacentes.

 - Vertreit? - Repetiu Dalan, com os olhos arregalados e confusos.

 - Sim. - Stella fez um sinal com a mão para Dom, convidando-o a seguir até a sede. O homem deu de ombros e começou a andar, sem pressa. A mulher passou a mão pelo pescoço, com os olhos fechados e cansados, e se encaminhou com Dalan até a praça do relógio de sol, sentando em um banco rudimentar de pedra. - A questão é, Dalan, que a Aurora está em uma situação complicada. Estamos perdendo membros constantemente, e isso já começou a preocupar os assessores do prefeito. Como somos uma guilda pobre, precisamos muito de apoio governamental para nos auxiliar com pagamentos e aluguéis, e se perdermos essa ajuda... bem... - Ela apoiou o cotovelo no joelho e começou a esfregar os dedos nos olhos.

 Dalan, por sua vez, olhou de relance para a grande construção à sua frente. Realmente, no estado financeiro atual da Aurora, seria bem difícil manter um terreno tão grande, mesmo acabado e em uma cidade pobre. Era claro que a ajuda da prefeitura era vital.

 - Sinto que a saída de Samuel foi a gota d'água. - Retornou Stella, apoiando o rosto na mão direita e deixando dois dedos perto dos lábios. - Ele era um membro antigo e importante, e obviamente a cidade inteira está fofocando sobre sua demissão repentina. Marquei um jantar de emergência com o prefeito, e para isso preciso da presença total da Aurora, para mostrarmos que ainda estamos fortes. - Ela se virou para Dalan, abaixando a mão e encarando-o com seus olhos azuis. - E é aí que você entra.

 - E-eu? - Perguntou o garoto, surpreso.

 - Sim. - Ela se aproximou, ao ponto que o outro se afastou. - Preciso que você traga alguém pra cá. - Respondeu Stella.

 - Oh. - Dalan ficou um pouco desconcertado. Era claro, concluiu. Havia acabado de chegar na guilda. Não seria um dia que o transformaria em uma espécie de messias ali dentro. - Quem você quer que eu traga? Sasha?

 - Minha filha será... um pouco mais difícil de se encontrar. - Stella se reclinou na cadeira, passando as mãos nas têmporas - Tudo que posso fazer é rezar para que ela volte de sua missão a tempo. Seu trabalho é encontrar outra pessoa. O nome dela é Amanda Vresky. Tem mais ou menos a mesma idade de você.

 - Entendo. - Respondeu Dalan, ainda mantendo o olhar em Stella. - Ela... saiu da guilda?

 - Ah, não. - A mulher deu um sorriso com o canto da boca, e balançou a cabeça com os olhos fechados. - Ela é uma das pessoas mais ligadas à Aurora. Nunca sairia daqui.

 - Então... o que aconteceu com ela? - Questionou o garoto. Stella cruzou os dedos, batendo distraidamente os indicadores uns nos outros.

 - Mesmo antes de Samuel nos deixar, era claro que precisávamos de mais membros. Então Amanda se voluntariou a ir até Vertreit para iniciar um trabalho de recrutamento. - A mulher voltou a encarar a guilda, soltando um muxoxo. - A questão é que Amanda é uma pessoa no mínimo... bem, ela é uma pessoa única, isso eu posso dizer. - Soltou um risinho, e voltou a encarar Dalan. - Ela já está lá faz duas semanas, e as únicas notícias que temos são as contas do hotel que temos que pagar. Só que precisamos de todo mundo na sede para a visita do prefeito, e ela é um dos nossos principais rostos. É por isso que eu necessito que você vá atrás dela.

 - Certo, mas... - Havia algo incomodando o rapaz, que se esticou para a frente com os cotovelos nos joelhos. - Tem muita gente aqui que a conhece. Por quê eu tenho de ir?

 - Porque o prefeito ainda não sabe que você entrou na guilda. - Respondeu Stella, inclinando a cabeça um pouco para o lado. - Iríamos mandar seus documentos de registro na semana que vem, quando estivéssemos no Conselho Local, então uma viagem sua passaria despercebida por agora. - A mulher se aproximou dele, apertando as mãos. - Dalan, se qualquer um aqui saísse, seria considerado pela cidade mais um desertor, mesmo se tentássemos explicar que era apenas uma viagem. Não estamos em condições de tirar mais ninguém de Helleon. Você é o único que a maior parte da cidade não conhece, portanto é o único cuja saída não despertaria fofocas. E sinceramente? - Ela se afastou, continuando com os olhos tristes. - Estamos na corda bamba, e qualquer vento pode nos jogar pra fora. Entendeu?

 Dalan se calou, vendo a melancolia da líder. Se lembrou do momento em que chegou naquela praça no dia anterior, e a expressão cabisbaixa que Stella havia apresentado quando Samuel saiu. Era a mesma que se encontrava na frente dele agora. - Entendi. E-eu vou. - Disse, tentando oferecer um sorriso.

 - Ótimo. - A mulher soltou um suspiro feliz, passando a mão pelo cabelo. - Aqui estão as passagens e o hotel em que Amanda está. - Ela retirou da bolsa um envelope de papel pardo, e o entregou ao garoto. - Ela tem quase a sua altura, e tem longos cabelos castanhos. Se vir alguém arranjando alguma confusão, é lá que ela está. - Stella começou a sorrir, mas parou ao ver a expressão desconcertada de Dalan. - N-n-não que ela seja uma pessoa difícil! - Se apressou a responder, com as mãos balançando. - Apenas... bem, Amanda é Amanda. Quando a conhecer, vai entender o que quis dizer. Qualquer coisa, procure pelo símbolo da guilda no braço dela.

 - E-entendo. - Respondeu Dalan, olhando para o envelope em suas mãos. Stella se levantou, ajeitando a saia com as mãos. O garoto a acompanhou, sentindo um pesar quando se lembrou da cama, tão perto, mas ainda assim tão longe.

  Quatro horas depois, ele estava em um vagão no meio da estrada que subia até Vertreit, tentando se ajeitar na cadeira desconfortável. O comboio era espaçoso, com assentos para até vinte pessoas dispostas em duas fileiras paralelas. As quatro janelas mostravam um ambiente repleto de árvores tropicais e insetos, fazendo Dalan agradecer por estar protegido, mesmo com o calor abafado ali dentro. Havia apenas uma outra pessoa com ele, uma velhinha no outro canto do vagão, que se movia apenas para espirrar ou acordar assustada quando a carroça passava por um buraco na estrada. Tais buracos que impediam constantemente o sono do garoto, que se mantinha acordado com dificuldades. Mesmo com a velocidade lenta do veículo, puxado por dois Canabéis, animais semelhantes a touros com chifres longos e brancos, cada ferida da estrada era sentida com intensidade máxima dentro do vagão.

 Eis que a carroça cessou seu movimento, parando em um acostamento da estrada. Dalan se inclinou para ver o motorista recebendo um papel de uma figura pequena. Voltou a reclinar na cadeira, e um tempo depois dois anões entraram no veículo pela porta de trás. Eram o esteriótipo mais gritante que o garoto havia visto em sua vida. O primeiro era alto para sua espécie, medindo cerca de um metro e cinquenta. Possuía uma barba grande e ruiva, que cobria grande parte de seu rosto, do nariz de batata para baixo. Sua pele era clara e cheia de marcas de fuligem, indicando que ele passava muito mais tempo trabalhando embaixo da terra do que em cima dela. A anã que o acompanhava não tinha barba, como quase todo o  seu gênero, mas usava o cabelo ruivo e longo enrolado em volta do rosto, terminando em uma trança abaixo do queixo, emulando o mento. Ela também tinha a pele clara, embora fosse limpa, apontando que ela provavelmente trabalhava em uma área mais burocrática do que o companheiro. Os dois eram corpulentos, andavam de forma ligeiramente desengonçada, e vestiam roupas longas e coloridas, azul para o homem e vermelha para a mulher, para protegê-los do ambiente debaixo da terra e auxiliarem na hora de serem encontrados. Cintos, capas e inúmeros bolsos e bolsas de tecido negro completavam a vestimenta de ambos.

 Eles entraram em silêncio, andando até o fim da carroça. A velhinha que estava lá, receosa e subitamente acordada, se levantou e foi se sentar mais perto de Dalan. Os anões, por sua vez, não pareceram notá-la, preferindo se sentar alguns segundos antes do veículo seguir seu caminho. A mulher idosa encarou o garoto com os olhos arregalados, como se tivesse acabado de escapar de um perigo imenso e esperasse concordância do rapaz, mas o olhar não foi retribuído. A questão era que Dalan passou a infância navegando com o pai, conhecendo todas as raças da Aliança. Não havia preconceito em seu sangue, mas isso se devia à suas experiências pregressas. A grande maioria dos habitantes daquele lado da Fronteira vivia em bolsões de suas próprias raças, separados dos outros povos. Até mesmo cidade mistas eram isoladas uma das outras, e qualquer ser diferente dos que viviam ali seria visto com olhares de julgamento. Era necessária muita convivência para que o óbvio se enxergasse: as raças eram muito similares entre si.

 Os anões, por sua vez, não se incomodaram com os companheiros de viagem. Preferiram deitar e descansar, alheios às sacolejadas da carroça. Dalan tentou acompanhá-los, mas logo percebeu que era impossível.

 Acabou por chegar em Vertreit no pôr-do-sol, exausto. Desceu da carroça com os anões, e viu pelo canto do olho a velhinha suspirar em alívio. No entanto, a visão da cidade à sua frente o fez se esquecer dela. Um mar de edifícios se estendeu diante dele, mostrando uma cidade muito maior do que a pequena Helleon. Os prédios eram claramente de origem anã, com formas geométricas simples, como paredes quadradas e telhados piramidais, e vários andares que iam diminuindo de tamanho conforme ascendiam. De vez em quando uma estrutura maior despontava no campo de visão, como uma longa construção no topo de um morro, de face pentagonal e paredes decoradas com grandes arcos elipsoides. Ao norte, uma enorme cadeia montanhosa delimitava a cidade, e vários túneis eram vistos no leito rochoso.

 Dalan havia parado para admirar aquela vista, e foi apenas o barulho da carroça se afastando que o fez sair de seu estupor. Seguiu uma estrada de pedra que o levaria da beira da floresta, onde se encontrava, até o coração da cidade, revirando os bolsos em busca do endereço do hotel. Havia também uns trocados que Stella havia lhe oferecido, e usou-os para comprar um mapa de Vertreit. Depois de alguns longos minutos se localizando e procurando o hotel, caminhando por ruas lotadas e barulhentas, se viu em uma praça deserta, aparentemente perdido.

 Ele abriu o mapa, procurando se reencontrar, quando ouviu um barulho de vidro quebrado à sua direita. Levantou a cabeça, e antes que percebesse havia uma garota de cabelos castanhos correndo ensandecidamente em sua direção, olhando para trás. O milésimo de segundo antes do contato foi apenas suficiente para que Dalan registrasse o acontecimento, antes da cabeça da garota acertar seus dentes, fazendo os dois caírem no chão.

 - Ai. - Foi tudo o que o garoto conseguiu dizer, antes de segurar a boca. A garota se levantou quase que imediatamente, passando a mão com força pelo cocuruto. Ela parecia um pouco baixa, tinha longos cabelos castanhos, e olhos grandes e negros. Sua boca era um pouco grande, e seu nariz curto completava a face. Parecia ter a idade de Dalan, e tinha o corpo atlético, embora não fosse definido. Vestia uma camisa branca e de tecido fino, sem mangas, assim como uma calça da mesma cor, que ia se alargando conforme se aproximava dos pés. Ela fazia uma cara de dor, e começou a falar com a voz alta e estridente.

 - Caraca! Que tipo de pessoa morde a cabeça dos outros, cara? - Ela se desequilibrou e caiu de joelhos no chão, segurando a região ferida. - Ai!

 - Eu não mordi! - Disse Dalan, com a voz abafada pelas mãos que ainda seguravam o dente. - Vo-você que veio correndo na minha direção! O que foi isso?

 - Eu não tenho culpa! - Reclamou a garota. - É difícil olhar pra frente quando você... cara, você mordeu a minha cabeça! - Ralhou ela, inclinando a cabeça para fuzilar Dalan com os olhos, enquanto as bochechas se inchavam e o rosto se contraía em um biquinho.

 - Eu já disse que... - Naquele momento, no entanto, o rapaz parou de falar. Notou a familiar marca no braço direito da garota, com as três curvas em "S" e a estrela solitária. - Você é da Aurora! - Soltou, retirando as mãos da boca. Se apoiou no chão para se levantar, estendendo a mão para ajudar a moça. - Amanda... Amanda Vresky, não é?

 Os olhos de Amanda foram imediatamente para o braço de Dalan, que dobrou a manga para mostrar a Marca da Guilda. Sua expressão mudou completamente, com suas pálpebras levantadas e boca aberta. - Você é da Aurora! Você é da Aurora! - Ela pulou no pescoço do garoto, envolvendo-o em um forte abraço. O rapaz, incomodado com todo o afeto repentino, afastou-a com dificuldade.

 - Sim. - Disse, inspirando com força. Segurou Amanda pelos ombros, tentando acalmar sua expressão abertamente feliz. - Agora, o que você...

 - Pelos deuses! - Ela se desvencilhou e olhou para baixo, esquadrinhando freneticamente o chão com as mãos estendidas. - Eles não podem saber que sou da Aurora! Nem que você é da Aurora! Precisamos de disfarces. Eu tinha um disfarce, agora onde ele foi parar?

 - O quê? - Amanda estava falando eletricamente, tornando a distinção das palavras um ato bastante difícil. - Eles quem? O que você está procurando?

 - Achei! - Anunciou ela, agachando e se levantando em décimos de segundo. Em suas mãos, havia um pedaço de pano sujo. A garota começou a enrolar o tecido desajeitadamente no braço enquanto olhava para trás com agitação. - Precisamos achar algo para cobrir sua Marca e depois... depois precisamos nos afastar mais ainda. Tipo, o bastante para eu pensar em alguma coisa. Quero dizer, não que eu não esteja feliz... - Ela virou o rosto rapidamente para Dalan, demonstrando sua expressão definitivamente feliz. - ... só que não temos muito tempo para ficar aqui!

 Dalan fechou os olhos e levantou a mão perto da cabeça, buscando pescar em sua mente as palavras que acabaram de sair da boca de Amanda. Então era assim que soava quando falava tão rápido, se perguntou. Precisava urgentemente acabar com isso. - Eles quem?

 - Ali está ela! - Gritou uma voz empostada mais à frente, e quando Dalan olhou percebeu quem eram os eles. Três humanos com fardas azuis de policiais, dois homens e uma mulher, se aproximavam rapidamente através de uma rua lateral. O garoto instintivamente abaixou a manga para esconder a Marca, e Amanda o puxou com força.

 - Temos que ir! - Ela começou a correr, e Dalan quase tropeçou ao tentar segui-la. Ouviu barulhos de passos pesados atrás de si, e imprimiu mais forças às pernas.

 - O que está acontecendo aqui? - Perguntou com a voz chorosa, dobrando esquinas fechadas e pulando por barris esparramados. Uma mão chegou a agarrar sua camisa, mas ele congelou o chão atrás de si sem sequer olhar. Um grito irrompeu, a mão o soltou e um baque foi ouvido, fornecendo a ele um segundo para poder respirar aliviado. - Amanda!

 - Eu sei, eu sei! - Gritou ela de volta, estendendo a mão para um estande de pequenos vasos coloridos de porcelana. Uma lufada de vento surgiu e os objetos caíram no chão, seguidos por gritos diversos. Dalan imaginou o prejuízo financeiro daquela ação, e correu com mais empenho. - Eu tenho uma idéia!

 - Qual? - Amanda de repente fez uma curva fechada e segurou a mão do garoto, e no momento seguinte os pés dos dois não encontravam mais apoio.  Estavam caindo um barranco, batendo na terra e um no outro, até que mergulharam no córrego que atravessava a cidade, espalhando água para todos os lados.

O policial que sobrou da perseguição parou com dificuldades, tentando identificar os dois fugitivos. No entanto, os meliantes seguiram a correnteza e caíram na pequena cachoeira que dava no subterrâneo da cidade. O policial deu de ombros, respirando com dificuldades. Dali não fugiriam.

 A noite caiu, banhando a superfície de Vertreit com um luar suave. Não que Dalan e Amanda soubessem, exaustos na margem do riacho, dezenas de metros abaixo das ruas da cidade. O rapaz cuspiu o último decilitro de água de sua boca no córrego, rezando aos deuses pela sua saúde. Respirou o ar úmido com demora, e se virou irritado para a garota. - Que tal me dizer agora o que está acontecendo?

 Amanda estava de pernas cruzadas, terminando de torcer a barra esquerda da calça e encharcando as pequenas pedras pretas abaixo de si. - É tudo parte de um grande plano meu. O improviso torna ele mais impressionante do que é. - Disse com o rosto comicamente sério, encarando Dalan com a cabeça inclinada para baixo.

 O garoto duvidava disso, mas perguntou: - E qual é esse plano brilhante?

 - Bem. Precisamos resgatar um anão que havia se voluntariado a entrar na Aurora. - Ela começou a torcer a barra da perna esquerda, aparentemente bastante entretida no processo. - O nome dele é Wieder. Parece ser um cara legal, mas é bem tarado. Digo, nós nos encontramos em um bar, e ele não parava de encarar uma garçonete que passava perto da mesa. E ainda era uma humana! Quer dizer, não que eu seja preconceituosa, mas você tem que admitir que...

 - O que aconteceu com ele? - Interrompeu o rapaz, tentando manter o foco da conversa.

 - Ele foi preso. - Disse ela com toda a naturalidade do mundo. - Wieder disse que precisava de um objeto antes de sair da cidade, e depois de muito, muito, muito tempo procurando, ele foi capturado ao tentar pegar o tal coiso. Eu quase fui presa, mas consegui fugir e acabei achando você, só que essa parte da história você conhece. E antes que você continue! - Ela estendeu o dedo em sinal de atenção, encarando-o com uma nova tentativa falha de mostrar seriedade. - Eu tenho um plano muito bom para salvá-lo!

 - Sério? - Disse Dalan, com a voz lenta e irônica. - E qual parte do plano envolvia pular em um rio e quase se afogar?

 - Como eu disse, o improviso torna ele muito mais impressionante. - Respondeu ela de bate-pronto.

 O rapaz apoiou o cotovelo na coxa, passando os dedos pela testa. - E qual é a próxima parte dele? - Perguntou por entre os dentes.

 - Me dê... - Ela revirou os olhos pelo teto com a expressão inocente. - ... cinco minutos para pensar e te direi o que faremos.

 Dalan se jogou para trás, deitando nas dolorosas pedras negras. Suspirou, se lembrando que poderia ter descansado o corpo exausto se não tivesse ido ajudar Dom. Nenhuma boa ação vinha sem punição. Fechou os olhos com força, esfregando os dedos nas pálpebras, enquanto Amanda resmungava consigo mesma. Tentou adormecer, nem que por um segundo, na busca incessante por repouso.

 Ao seu lado, estava a maior adversária de seus desejos.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

RN Nuzlocke Y - Capítulo 5: A primeira queda

RECINTO NERD NUZLOCKE - Y - 
CAPÍTULO 5: A PRIMEIRA QUEDA

 - Eu disse que deveríamos ter saído mais rápido da rota 2. - Disse Frog, segurando um pedaço de pão na pata. - Aprendeu agora?

 - Frog, se você falar mais uma palavra, quem vai pro fogo é você. - Reclamou Kari, carrancuda. Era noite, e o grupo estava reunido ao redor de uma fogueira, jantando as sobras do que havia na mochila da treinadora. Kari, Frog e Paola estavam acompanhados por Peter, o Pansage que haviam capturado na floresta, e Bob, um Burmy que havia se juntado à equipe naquele mesmo dia.

 - Nós podíamos ficar uma refeição sem brigar? - Perguntou Paola, mordiscando o pão, irritada. - Só uma vez?

 - Isso mesmo, gente. Um pouco de paz, por favor. - Disse Peter, bocejando. Ele reclinou na tora de madeira onde estava sentado enquanto Kari e Frog trocavam olhares ameaçadores. - Ei, novato! Você não vai comer não? - Ele se dirigia à Bob, que estava um pouco mais afastado, e sua comida, intocada.

 Como se tivesse acabado de sair de um transe, o Burmy se assustou, olhando ao redor. Quando viu o resto da equipe o encarando, ele começou a comer, embora se mantivesse afastado.

 - E então? O que faremos amanhã? - Perguntou Frog, terminando seu prato. - Não temos o suficiente para comer por nem mais um dia. Não pra todo mundo.

 - Teremos que nos adiantar. - Respondeu Kari, limpando a boca com as costas da mão. - Se tivermos sorte, poderemos recolher algumas frutas à beira da estrada.

 - É isso? - Estranhou o Froakie, franzindo a testa. - Em que época do ano você acha que estamos? Acabamos de sair do inverno.

 - Não vejo você dando uma sugestão. Que tal começar a fazer isso, ao invés de reclamar o tempo todo? - Disse a treinadora, ríspida. Paola e Peter se entreolharam, tensos.

 - Q-que tal um p-pequeno jogo? - Disse o Pansage, nervoso, tentando melhorar o clima. - Ou uma conversa saudável? Ou adivinhas? Caramba, adivinhas são... - Naquele momento o pequeno estômago do Pokémon roncou audivelmente, e ele se calou. - Oh, que coisa...

 Naquele momento, Kari ficou sombria. Ela levou o prato para mais perto da fogueira, se levantando em seguida. - Comam a minha parte. Perdi a fome. - Mesmo com os protestos de Paola, ela começou a se afastar para o norte, caminhando com passos firmes. Não parou até chegar a um barranco, de onde fitou o caminho que os aguardava. O céu imensamente estrelado cobria a estrada serpenteante, e um pequeno conjunto de luzes ao longe marcava o destino deles. Santalune.

 Kari se sentou, deixando as pernas ficarem soltas no desfiladeiro. As coisas definitivamente não pareciam promissoras. Mal tinham comida para passar a noite, que dirá o resto da estrada, pensou. Seu estômago vazio se retorceu, embora o motivo fosse muito diferente da fome. A quem queria enganar, se perguntou a garota. Tentou se forçar em uma aventura com um objetivo bastante tênue, e agora três vidas estavam dependendo dela, e a cada segundo os colocava mais em perigo. Burra, burra, burra.

 Envolta em seus próprios pensamentos, não percebeu a chegada de Paola ao seu lado.

 - Kari... você está bem? - Perguntou a Pokémon. A treinadora demorou para responder, com os olhos fixos no horizonte.

 - Eu juro que vamos chegar na cidade sãos e salvos. - Disse ela, sem saber para quem.

 - Nós sabemos. - Kari se virou para a Pidgey. - Ninguém ali duvida de você. Nem mesmo Frog. Digo, ele tem algumas... desavenças em relação ao jeito de liderar, mas se ele ainda não desistiu, é porque realmente te respeita.

 Kari soltou uma risada pelo nariz. - Acho que Frog não desistiu porque ele teria que me matar para conseguir fazer o que quer. E por enquanto isso daria um belo trabalho.

 - Bem, então de qualquer jeito todos estamos presos com você, não? - Riu Paola. - Vamos lá, Kari. A jornada acabou de começar, não adianta ficar depressiva com todos os pequenos obstáculos que encontrarmos. Afinal, temos motivos para sermos Campeões, não é?

 Mesmo com suas ressalvas, Kari se viu obrigada a levantar. Paola tinha razão, se fosse ficar lamentando por cada erro que cometer, nunca chegaria ao final. - E qual é o seu motivo para seguir em frente, Paola? Digo, pra que ser Campeã?

 A Pidgey sorriu, voando até o ombro da treinadora. - É engraçado, mas um pouco vergonhoso. Talvez um dia eu te conte. - A garota seguiu pressionando enquanto andava de volta à fogueira, mas não obteve sucesso. De qualquer forma, o princípio de depressão havia sumido. Por ora.

 No dia seguinte, a equipe começou a descer a rota em direção à cidade de Santalune, ao norte. A estrada possuía diversas curvas e descidas íngremes, portanto Kari não esperava chegar ao seu destino ainda naquele dia. No entanto, suas reservas de comida estavam assustadoramente críticas, e a pressa era fundamental. Assim, eles seguiram com passo apertado, movidos pelo desejo de comida de verdade.

 O sol já estava se pondo no oeste, e o cansaço era plenamente visível neles. Kari tentava liderá-los, mas as pernas já não conseguiam caminhar sem ameaçar desabar.  Estava vestindo uma das duas únicas roupas que Shauna havia lhe dado, uma camisa preta e sem mangas, que se colava em seu corpo magro, e uma saia vermelha, presa perto do umbigo e que descia até um palmo acima dos joelhos. Não era exatamente uma vestimenta que agradasse à garota, mas não havia muita escolha. As outras roupas haviam se rasgado na floresta.

 Estava tão cansada que nem viu a patinadora chegar.

 - Cuidado! - Gritou Paola, mas já era tarde. Uma outra garota veio descendo pelo declive acima, e estava rápida o suficiente para evitar o choque. A Pidgey se jogou para proteger a treinadora, empurrando-a para o lado e a desequilibrando. Kari, exausta, acabou caindo no mato ao lado da encosta, se embrenhando no mato alto. Ela bateu a cabeça com força em uma pedra, e antes de desfalecer sentiu o sangue escorrer pelo ferimento enquanto o corpo rolava. Sem forças, não conseguiu exclamar um som.

 Acabou acordando poucos minutos depois, envolta de grama rasgada e terra revolvida. Se apoiou no cotovelo direito, colocando a mão na cabeça com cuidado, sentindo o sangue ainda úmido na testa. Suas pernas e braços doíam, e o vestido havia rasgado na coxa direita. Mesmo assim a adrenalina a fez levantar, olhando ao redor em busca de sua equipe.

 - Frog? - Gritou, alheia à dor. - Paola? Peter? - Ela girou em torno de si, aguardando uma resposta. O mato era quase de seu tamanho, e a única direção que tinha era o caminho que pelo qual havia caído,

 - Kari? - A voz de Peter conseguiu ser ouvida baixinha, quase que imperceptível. A garota se virou para os lados, tentando identificar de onde vinha. - Kari? - Esquerda. Com certeza. Ela correu, afastando as plantas que teimavam em impedir seu progresso. Conseguiu ver o familiar tom azul de Frog ao longe, e começou a correr mais rápido.

 Quando chegou à clareira, não percebeu que havia parado, nem que havia caído de joelhos. Pois à sua frente, envolta por um círculo composto do resto da equipe, havia o corpo de Paola. A Pidgey estava ligeiramente queimada, mas seus olhos estavam abertos, fitando o vazio.

 - O... o... - Kari não conseguiu completar a frase. Naquele momento uma outra cena brotou em sua mente, onde um Bellsprout jazia morto no chão. Ela levou as mãos à cabeça, e a cena mudou, indo para uma fuga corrida de uma caverna, e ela estava gritando. Gritou também no mundo real, e novamente a cena se alterou, e estava segurando uma Jolteon falecida em seus braços.

 De repente não havia mais nada em sua cabeça, mas ela não se levantou. Agarrou com força a grama, arrancando-a com truculência. Pois, mesmo prometendo que levaria todos de forma sã e salva até Santalune, ela havia mentido. Mesmo sabendo que Paola tinha um motivo para seguir em frente, nunca saberia. Mesmo com todos aparentemente confiando nela, havia cometido um erro.

 E seu erro havia custado uma vida.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Aurora: Capítulo 4 - Quatro Luas

AURORA
CAPÍTULO 4: QUATRO LUAS

 O beco era um lugar sujo e apertado. Paredes de tijolos negros se encontravam inconfortavelmente próximas uma da outra, presas a um chão ladrilhado e levemente irregular. Os prédios altos em volta impediam que a luz do sol chegasse com toda sua força, tornando a água fétida no piso terrivelmente gelada. Um pé pisou com força na poça, respingando as gotas fedidas por todas as direções. Dalan sequer se importou, correndo para não perder seu alvo de vista. Dobrou a esquina, apressado, mas acabou por perder o rastro do animal que perseguia. 

 Ofegante, ele se sentou na calçada para recuperar o fôlego, soltando os braços por cima dos joelhos. O centro da cidade de Helleon possuía os mesmos prédios altos altos da vizinhança onde ficava a sede da Aurora, mas esses eram pelo menos cheios de vida. Vida em sua maioria pobre e em grande quantidade. Todas as construções por perto eram feitas de tijolos, e as ruas eram ladrilhadas com pedras negras, constantemente pisoteadas por animais de carga e comerciantes barulhentos. Mesmo assim, a zona central de Helleon era onde a cidade pulsava, muito diferente do sudoeste, a área abandonada onde ficava a Aurora, e do norte, onde os poucos ricos e membros do governo moravam. O mar banhava aquela parte com grande força, e o comércio portuário mantinha a cidade em pé.

 Toda essa agitação acabava por atrapalhar a missão de Dalan. Havia aceitado a tarefa sob o pretexto de que iria procurar algo muito importante que uma mulher, chamada apenas de Senhora Cattuveis, havia perdido. Quando chegou em sua casa, ela revelou o que era: um gato malhado. Dalan havia gastado metade do dia procurando o felino, e finalmente o achou alguns minutos antes. Agora, no entanto, o havia perdido de vista. E o sol começava a se pôr no oeste.

 Deveria ter descansado, censurou o garoto a si mesmo. Havia passado dias na estrada antes de chegar em Helleon, e ainda lutara com Sasha de manhã. Parecia que esses acontecimentos estavam semanas longe um do outro, mas seu corpo sabia a verdade. Suas pernas estavam doloridas e o estômago ainda doía dos golpes da garota, principalmente depois de correr. Talvez seja melhor descansar antes de continuar, concluiu ele.

 Antes mesmo de fazer menção de se levantar, Dalan sentiu um corpo peludo e quente em sua bochecha direita. Se virou apressado e viu o gato malhado o encarando de forma mau-humorada, agarrado pela pele atrás do pescoço. Ele levantou a cabeça e percebeu que havia uma garota atrás dele. Reconheceu-a pela boina que usava como uma dos membros da Aurora.

 - Oh. - Disse ela, recuando um pouco pelo contato visual. Dalan se apoiou no joelho esquerdo e se levantou, tendo a oportunidade de analisar a pessoa agora à sua frente. A garota era baixa, com um metro e sessenta e poucos, uma cabeça de altura a menos do que Dalan. Era magra e bastante pálida, e aparentava possuir dezoito anos. Estava calçando uma bota de cor rubra e vestia uma calça negra e colada por baixo de uma saia vermelha presa por um cinto escuro. Também usava uma camisa branca e uma jaqueta vermelha, aberta no meio. Suas roupas pareciam torná-la menor do que realmente era. No entanto, o que mais chamava atenção era seu rosto. Tinha olhos grandes e verdes, juntos com um nariz pequeno e arrebitado. Seus lábios eram finos e com uma bela cor rosa natural. Seu cabelo era liso e loiro-sujo, assim como as sobrancelhas caprichadas, e desciam próximos do rosto até chegar ao queixo. Sua boina completava a visão, vermelha como a camisa. A garota pareceu assustada, desviando os olhos para o lado enquanto ajeitava uma mecha do cabelo para trás da orelha com a mão livre. - E-eu... você é o garoto novo, não é? - Perguntou ela com a voz suave.

 - Eu... sou! - Disse Dalan, recobrando a consciência, perdida com o rosto angelical da pessoa à sua frente. Ele pensou um pouco e estendeu a mão. - Meu nome é Dalan. Dalan Glacius.

 - Ah... Sophie Helder. - Ela segurou brevemente a mão do garoto e agarrou o gato com as duas mãos, segurando-o à frente de seu peito. - Você pegou a missão da senhora Cattuveis, não foi? - Ela levantou minimamente o gato até a altura do rosto, e apenas seus olhos eram visíveis através do felino.

 - Foi... era para pegar esse bichano. - Respondeu ele, apontando para o bicho. Quem diz "bichano" hoje em dia, se censurou Dalan imediatamente, franzindo levemente o rosto. Sophie esticou o animal até ele, que tentou segurá-lo. O gato se agitou e quase se soltou, mas o garoto o agarrou com os braços para impedir sua fuga. Sophie também agiu por reflexo, e acabou segurando o braço do rapaz. Ela rapidamente recolheu as mãos, ficando vermelha.

 - Eu... eu vi ele correndo pela rua, e imaginei que alguém da guilda estava procurando por ele. - Começou Sophie, desviando o olhar e ajeitando o cabelo. - Não é a primeira vez que a senhora Cattuveis pede por uma missão assim. Imaginei que... imaginei que você fosse precisar de ajuda... digo, não que eu não achasse que você precisar! - Acrescentou ela rapidamente, agitando as palmas para Dalan enquanto arregalava os olhos e ficava ainda mais vermelha. - É só que eu sou... sou boa com animais!

 - Na verdade eu provavelmente não conseguiria. - Admitiu o rapaz, cansado. - Tive uma semana longa, e esse gato corre muito rápido. - Ele inclinou minimamente a cabeça, franzindo o lado direito do rosto. Em suas mãos, o gato tentou uma nova fuga.

 - Ah. - A garota o encarou com seus grandes olhos. - Nós... nós estávamos indo jantar no bar Quatro Luas. Tivemos um dia difícil... - Ela voltou a encarar o chão, e Dalan se lembrou do homem que havia saído da guilda mais cedo. - .. mas... se quiser vir com a gente... - A voz de Sophie se tornou mais aguda conforme o fim da frase ia chegando, e o garoto notou que ela fez um meio círculo com a perna direita por trás da esquerda, apoiando-a com a ponta do pé.

 - Eu... eu posso. - Disse o rapaz, surpreso pelo convite. - Acho que eu vi esse bar quando passei pelo cais. É um pé-sujo no litoral, não é? - Parte dele esperou estar errado, considerando o estado deplorável do estabelecimento, mas Sophie concordou com a cabeça.

 - Então... estou indo para lá, tudo bem? - Ela girou o corpo, fazendo menção de ir. - Eu... digo, a gente vai estar te esperando lá. - Com isso ela saiu, andando apressadamente pela rua. Dalan esperou um pouco para ver se ela se virava, mas isso não aconteceu. Suspirou pesadamente e foi para o outro lado, em direção da casa de Cattuveis.

 - Não iria conseguir pegar o gato, não é? - Disse ele para si mesmo com a voz forçadamente aguda. - Que tal da próxima vez falar que não consegue dormir sem uma luz acesa? Isso iria impressionar as pessoas tão bem quanto. - Impediu o gato de fugir novamente e continuou seu caminho.

 Acabou chegando no bar meia-hora depois, com a comprovação de conclusão da missão no bolso e uma série de arranhões fundos nos braços. Era realmente um estabelecimento sujo e apertado, com diversas garrafas vazias decorando as paredes. Todos os móveis eram de madeira, e havia um odor impregnado de peixe e álcool em cada um deles. O bar estava razoavelmente cheio, e Dalan ficou procurando os membros da guilda. Eis que uma mão se levantou no meio das pessoas.

 - Aqui! - A voz não era conhecida, mas o rosto sim. Era uma das pessoas no saguão da Aurora, o rapaz com trança longa e comprida que descia por detrás de sua cabeça. Ele estava acompanhado em uma mesa redonda por Sophie e sua irmã gêmea, e as duas encaravam Dalan com sorrisos. Satisfeito, embora um pouco nervoso, o garoto desviou de pessoas e objetos para sentar na mesa. - Finalmente uma desculpa para sairmos desse assunto mórbido. - Completou o rapaz das tranças quando o outro se sentou. Ele estava vestindo uma simples camisa preta, que marcava seu corpo forte, porém magro. Seu rosto possuía um nariz um tanto quanto adunco, porém reto. Sua boca era grande e a pele era bronzeada, e para completar seus olhos eram grandes e negros. O cabelo, também da cor do ébano, era penteado para trás e enrolado para formar a já descrita trança, que descia longa por suas costas. Ele encarou Dalan com um sorriso alegre do outro lado da mesa.

 - Você acha tão fácil simplesmente ignorar o que aconteceu? - Perguntou a gêmea de Sophie, à sua esquerda na mesa. Ela não vestia boina, e usava uma camisa grossa da cor amarela, completa com pequenos botões brancos. De longe, parecia que a vestimenta era a única coisa que a diferenciava da irmã, mas um olhar mais atento revelasse a maior diferença entre as duas, a expressão. Enquanto Sophie tinha um olhar tímido e contido, sua gêmea mantinha uma expressão aberta, com um toque de severidade embora não fosse necessariamente ameaçadora.

 - Koga Sabin, ao seu dispor! - Disse o garoto das tranças, ignorando a outra garota. Ele se esticou por cima da mesa e estendeu a mão para Dalan, esticando as sobrancelhas enquanto aguardava com um sorriso.

 - Ah... - Se surpreendeu Dalan, olhando momentaneamente para a irmã de Sophie, que agora fuzilava Koga com os olhos enquanto ficava vermelha. O garoto notou um pouco de maquiagem borrada ao redor de seus olhos. - Dalan Glacius.

 - Dalan tem um ar... anão. - Disse Koga, virando o lado direito do rosto para o outro garoto com um sorriso e um franzir da sobrancelha. - E eu tenho certeza de que Glacius é élfico. De onde você veio, Dalan?

 - Você é impressionante. - Censurou a outra garota com um sussurro audível enquanto balançava minimamente a cabeça. - Qual é a sua incapacidade de demonstrar alguma emoção pela saída de Samuel? - Perguntou com um tom um pouco mais alto do que antes.

 - Estou tentando dar as boas-vindas ao novato, Julie. - Disparou Koga, e sua voz sibilou enquanto ele encarava de forma séria a garota, mesmo com as sobrancelhas esticadas. - Que tal nós simplesmente deixarmos isso de um lado, apenas por alguns instantes, só para oferecer um pouco do velho acolhimento da Aurora? - Não houve resposta, apenas um olhar gélido e demorado por parte de uma cada vez mais vermelha Julie, mas o garoto não esperou resposta. Se virou para Dalan, voltando a mostrar uma expressão alegre. - Então, Dalan. De onde você veio?

 - Ah... - Dessa vez ele olhou de relance para Sophie, como se esperasse uma confirmação dela. A garota estava com o rosto virado para ele, mas os olhos pousados em sua irmã. De uma forma ou de outra o silêncio já parecia atingir níveis muito longos. - Sou de Gamora, uma ilha no mar de Cellintrum. Não sei a ascendência exata do meu nome, mas...

 - Gamora? - Disse Koga, se inclinando para trás até apoiar as costas na cadeira, cruzando os braços por detrás da cabeça. - Já ouvi falar, mas nunca cheguei nem perto. É verdade que é um recanto de bestas?

 - Um pouco. - Admitiu Dalan. - Elas normalmente ficam mais pro interior da ilha. Como eu morava no litoral, não cheguei a encontrar muitos deles. - Novamente, a lembrança de sua casa o fez ficar quieto, e Julie pareceu ter notado.

 - Eu... soube o que aconteceu. - Ela o encarou, e estava claro que estavam pensando no mesmo assunto. - Sinto muito. - Disse, esticando a mão para segurar a dele. Dalan sorriu constrangido, tentando parecer melhor do que se sentia.

 - Tudo bem. - Ele pensou em retirar a mão, mas o toque era extremamente agradável. - Foi por isso que entrei na guilda. Preciso saber o que aconteceu com minha casa.

 - Temos um problema mais ou menos parecido. - Disse a garota, recolhendo sua mão até o queixo, passando a encarar a irmã. - Queremos saber o que aconteceu com nosso pai. Ele desapareceu quando tínhamos sete anos, e desde então... - Ela ficou quieta por alguns segundos, encarando a mesa como se as respostas da vida estivessem talhadas na madeira. - ... desde então nós o procuramos.

 - Ah. - Disse Dalan. A atmosfera da mesa rapidamente esfriou, com as gêmeas parecendo melancólicas e Koga, incomodado. Parabéns, disse o garoto sarcasticamente a si mesmo. - Sinto muito.

- Não precisa se preocupar. - Respondeu Julie, tentando trazer a animação de volta à sua fisionomia. - Todos na guilda estão lá por algum motivo, não? É só seguir em frente então. - Koga se movimentou, e quando Dalan o encarou novamente ele já estava com um sorriso no rosto.

 - Cacete, gente. Qual a dificuldade de manter a depressão para longe hoje, hein? - Ele se reclinou na cadeira, virando o rosto para o bar. - Ei, Harold! Vê pra gente uns quatro Lunares Extravagantes, por favor! Caprichados!

 - Dois, Harold! - Gritou Julie, sorrindo com para Koga. - Você sabe muito bem que eu e Sophie não bebemos essa droga, seu animal.

 - O.K, mas o novato bebe, não é? - Ele se virou para Dalan, levantando uma sobrancelha enquanto soltava um sorriso provocativo. - Quer dizer, se quiser seguir o exemplo das garotas, sinta-se à vontade.

 - Tudo bem. - Disse Dalan, olhando de relance para Sophie. - Não pode ser mais forte do que as misturebas que fazem nos portos ao norte de Cellintrum.

 - Na verdade são. - Disse Sophie, sorrindo timidamente enquanto falava baixinho. - O Dom, lá da guilda, já rodou por todo o mar e disse que o Lunar Extravagante é a coisa mais forte que ele já bebeu.

 - Lembrando que Dom é um beberrão e que o bar é cheio justamente por causa dessa bebida em particular. - Acrescentou Julie, cruzando os braços enquanto sorria. - Não são sinais animadores, Dalan.

 - Tudo bem, não há problema. - Agora não havia como voltar. - Além do mais, eu sou forte com a bebida. - Mentira.

 - Então não tem o que temer. - Disse Koga. - Só vou avisando: não venha me processar depois. Está avisado de que essa bebida é bem pesada. - Ele colocou as palmas na frente do peito, como se estivesse se protegendo.

 - Agora é você que parece querer desistir. - Zombou Dalan, se inclinando na mesa. - Sophie e Julie olharam para os rapazes com sorrisos no canto das bocas.

 - Novato, considere isso seu trote. - Um homem barbudo chegou na mesa, depositando dois copos na madeira. Dentro deles havia uma substância azul com brilhos brancos, densa o suficiente para não ser transparente. - Só estou com medo de você não achar o caminho de casa pra Aurora.

 - Veremos. - Dalan pegou o copo e brindou com Koga, bebendo-o em seguida.

 Na cena seguinte, ele se viu em cima de uma substância irregular, cheia de pequenas pedrinhas que pinicavam seu corpo. Havia uma dor de cabeça que parecia furar seu crânio, e qualquer movimento parecia amplificá-la. Dalan levou a mão aos olhos, pressionando-os fracamente com os dedos.

 - Você acordou! - Disse uma voz baixa, e ele abriu os olhos com dificuldades. Demorou um pouco para focalizar o céu estrelado acima de si, e muito mais para notar o rosto sorridente de Sophie contra às luzes.

 - O... o que houve? - Perguntou ele com a voz grogue, tentando se levantar de forma lenta. A garota o ajudou a se sentar, e Dalan notou que estava em cima de areia. Uma olhada ao redor o fez perceber que estava em uma praia, e havia um baú ao seu lado.

 - Bem, você bebeu. - Disse Sophie, sorrindo com a cabeça inclinada. - Depois do primeiro copo veio o outro, e no quarto Koga e você decidiram caçar tesouros. Acho que tinha alguma coisa a ver com piratas. Cada um foi correndo pra fora do bar, e eu te encontrei aqui depois de algumas horas.

 - De onde veio o baú? - Perguntou ele, mas Sophie apenas deu de ombros. Ela continuava a sorrir abobalhada. - O que é tão engraçado?

 - Ah, nada! - Ela começou a corar, desviando o olhar. O sorriso, no entanto, se mantinha em pé. - Só que... bem, foi bastante engraçado. Geralmente Koga fica bêbado sozinho, e isso geralmente termina com ele chapado na mesa. Acho que uma pessoa a mais torna tudo mais divertido.

 - Imagino. - A dor de cabeça já começava a diminuir, mas Dalan continuava se sentindo fraco. - Onde ele está?

 - Não sei. Julie foi atrás dele, e eu fui te procurar. - Ela esticou a mão, ajudando-o a se levantar. Logo depois Sophie ficou vermelha, falando rapidamente. - Quero dizer, normalmente é Julie quem sabe por onde Koga se esconde, e achamos melhor garantir que você voltasse pra guilda, e...

 - Tudo bem. - Tranquilizou Dalan, cansado. - Foi a melhor coisa a se fazer. Agora, se não se importa, vamos pra guilda. - Eles começaram a andar pela areia, indo em direção à cidade. Quando voltaram a pisar nas pedras negras, Sophie parou, quebrando o silêncio.

 - Dalan, é verdade que você já foi um pirata? - Perguntou ela. Dalan se virou, percebendo o olhar de admiração dela, com as pálpebras esticadas. Por um momento o garoto pensou em conservar a mentira, mas a voz da consciência o fez repensar a ação.

 - Sophie, uma dica para o futuro: - Ele mostrou o indicador, como se a ação validasse suas palavras. - Nunca acredite em nada do que eu digo bêbado.

 - Ah. - Os dois recomeçaram a andar, duas figuras solitárias na rua vazia. O sol começava a subir, iluminando o caminho. Dalan quase tropeçou, sendo salvo pelo braço de Sophie, que o agarrou pelo pescoço.

 - Obri... - Ele a encarou, e percebeu seu rosto incrivelmente vermelho. No momento seguinte ela acabou o soltando, e o garoto caiu com a cara nas pedras.

 - Me desculpa, me desculpa, me desculpa! -  Repetiu Sophie, mas a consciência de Dalan voltou a se esvair. Não esperava que seu primeiro dia na Aurora fosse acabar assim, caído na sarjeta da cidade. Seu orgulho tentou buscar forças do além, bombeando energia para o corpo. No entanto, o cansaço finalmente o tomou, e ele desmaiou. Sophie, ao seu lado, continuava disparando desculpas. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

RN Nuzlocke Y - Capítulo 4: A Floresta de Santalune

RECINTO NERD NUZLOCKE - Y -
CAPÍTULO 4: A FLORESTA DE SANTALUNE

 A vegetação, de um verde vivo, crescia quase que selvagem, pressionando a estrada de terra de forma violenta, chegando até mesmo a invadi-la em determinados pontos. Um córrego corria à esquerda, separado por alguns metros de despenhadeiro da estrada. A região era normalmente tranquila, mas aquele não era um dia normal.

 - ESTOU DIZENDO QUE É PARA TREINARMOS AQUI ANTES DE AVANÇAR PARA A FLORESTA! - Gritou Kari, vermelha. A discussão já se prolongava por longos minutos, mas nem ela nem Frog pareciam estar cientes do tempo.

 - VOCÊ QUER FICAR AQUI PARA SEMPRE? ESTOU DIZENDO, JÁ DEVERÍAMOS TER SEGUIDO ONTEM! - Gritou de volta o Froakie.

 - Eeergh... - Começou Paola, a Pidgey. Ela havia sido capturada no dia anterior, e toda aquela explosão dos outros dois a deixava desconcertada. - Eu acho que -- Naquele momento, Frog e Kari a encararam com um olhar fulminante, e a pequena Pidgey se calou.

 -  Escute. - Começou Kari, tentando se acalmar. - Uma jornada dessas não é um simples passeio no parque. Precisamos nos preparar de forma adequada antes de arriscarmos nossas vidas.

 - E eu estou dizendo que há um limite para isso. - Respondeu Frog com a voz incisiva. - De quê adianta ficar treinando com peixes pequenos por tanto tempo? Nossos adversários precisam ser melhores para que possamos ser mais fortes ainda.

 - Gente... - Recomeçou Paola.

 - O QUE É? - Perguntaram Kari e o Froakie ao mesmo tempo, se virando para a Pidgey. Paola sustentou a encarada, mesmo engolindo em seco, e apontou a asa para trás deles.

 Os dois se viraram, bem a tempo de ver Calem e Shauna se aproximarem, conversando entre si. Shauna segurava uma Pokébola com as duas mãos, e parecia bastante feliz com o objeto. Kari imediatamente se arrumou, alisando com as mãos as roupas amarrotadas pelos dias na floresta. Percebeu que havia um pequeno galho em seus cabelos, e o arrancou com tanta violência que sentiu alguns fios indo junto.

 - Oh, vocês por aqui. - Disse Calem depois que levantou a cabeça. - Qual é a chance disso acontecer nessa estrada tão grande?

 - Kari! - Exclamou Shauna, se agitando. - Olha para isso, eu capturei um Pokémon! - Ela lançou a Pokébola ao chão, revelando um Skitty. - Ele deve ter se perdido, porque o hábitat dele é a Rota 4. Acho que foi meu dia de sorte! - Calem encarou Kari, e encolheu os ombros com suavidade.

  - Puxa! - Conseguiu dizer Kari, forçando um sorriso. A questão era que Skittys eram extremamente fracos, assim como sua evolução, Delcatty. Mesmo assim, Shauna parecia bastante satisfeita com sua captura. - Que bom, Shauna!

 A outra garota sorriu, mas parou ao ver Paola ao lado de Kari, adotando em vez disso uma expressão exasperada. - Você também conseguiu um, Kari?

 - É... - Na mente da treinadora, capturar Pokémon era um ato tão natural quanto respirar, mesmo com a amnésia bloqueando a origem do ensinamento. Era como se estivesse impregnado em seu ser. Shauna parecia não ter isso, ou era facilmente impressionável. Kari concluiu que era um pouco dos dois. - Fiquei acampando na Rota por algum tempo. Capturei-a ontem.

 - Uau... - A admiração dela já começava a assustar Kari, assim como Paola, que foi para trás da perna da treinadora. Frog ficou apenas a encarando com uma expressão séria no rosto.

 - Que tal entrarmos na floresta de Santalune? - Disse Calem, se colocando entre as duas. - Já estamos meio atrasados. Acho que Trevor e Tierno já estão muito na nossa frente.

 - O.K. - Concordou Kari, ao ponto que Frog a olhou exasperação.

 - Você só pode estar de saca -- Kari nesse momento lhe ofereceu um discreto chute, e começou a andar pela rota com os outros, enquanto as árvores ao redor ficavam mais densas. Paola voou para seu ombro, enquanto o Froakie os seguia mais atrás, resmungando.

 - Eu... vou tentar me esforçar. - Disse Paola no ouvido da treinadora. - Sei que você... adiou essa passagem porque eu não estava pronta.

 - Não precisa se preocupar com isso. - Disse Kari, girando a cabeça. - Realmente queria deixar vocês dois mais fortes antes de seguirmos... mas ficaremos muito para trás. Frog está certo.

 - Eu ouvi isso mesmo? - Gritou o Froakie atrás deles. A treinadora fechou os olhos e suspirou, tentando acertar um coice no Pokémon, sem sucesso.

 - Então, qual era o motivo de vocês terem demorado? - Perguntou ela para Calem e Shauna, se aproximando um pouco mais dos dois.

 - Acredite se quiser, mas alguém se perdeu em Aquacorde. - Disse Calem, sorrindo. - Procurei por essa pessoa por dois dias até achá-la choramingando perto da fonte.

 - Ei, não foi engraçado! - Reclamou Shauna enquanto o garoto mantinha o sorriso. - Eu só fui pra Aquacorde duas vezes. Como esperava que eu achasse o caminho certo?

 - Shauna, a cidade tem uma praça e duas ruas. Não é exatamente necessário um diploma em geografia para se localizar. - A garota amarrou a cara, e Kari soltou um sorriso também. Andaram até uma clareira, onde alguns Pokémon selvagens se encontravam. Um pássaro vermelho voou bem perto da cabeça deles, e se embrenhou na floresta.

 - Aquilo era um... - Começou Shauna, mas Calem a interrompeu.

 - Um Fletchling! Esperem aqui enquanto o capturo! - Ele saiu correndo, retirando a Pokébola do cinto. Kari olhou para o lado, e reparou que havia um pequeno Pansage a encarando.

 - Falando em capturas... - Ela lançou Paola para atacar. A Pidgey voou, e se chocou contra o adversário. Ele caiu, mas Paola conseguiu manter o vôo, subindo enquanto Kari lançava a Pokébola. Três segundos depois, havia um novo membro em seu time. Ela guardou a Pokébola, sorridente, e quando se virou encontrou Shauna boquiaberta.

 - U-uau... isso foi... tão rápido. - A admiração fez Kari corar, e ela desviou o olhar.

 - Ah... talvez. Um pouco. Foi fácil. - Ela acariciou a própria nuca, sem jeito. Shauna engoliu em seco, ainda mantendo a expressão de assombro.

 - Kari, você... você é incrível! Consegue ser mais incrível do que Calem, e ele era o melhor treinador de Vaniville! - Ela se aproximou, e Kari deu um passo hesitante para trás. - Caraca, eu mal te conheço, mas... eu acho que você conseguiria fazer qualquer coisa! De verdade!

 Isso estava definitivamente passando dos limites que consigo aceitar, pensou a treinadora, corando fortemente. Felizmente Calem saiu da floresta um pouco depois, rompendo o silêncio enquanto ajeitava o casaco cheio de gravetos.

 - Senhoritas, desconfio que tenho um novo Pokémon para batalhar. - Ele levantou a cabeça, e encontrou Shauna ainda encarando Kari. - O que aconteceu?

 - Nada, nada! - Respondeu a garota, se afastando e dando um último olhar de admiração a Kari. - Acho que você tem uma verdadeira adversária, Calem!

 - O que você quer dizer com isso? - Pela primeira vez desde que o conheceu, Kari viu desconcertamento na expressão de Calem. Naquele momento, no entanto, um som veio de mais à frente, revelando Trevor e Tierno.

 - Eeeei! Olha quem encontramos aqui! - Gritou Tierno. Shauna correu para eles, e Calem deu uma longa olhada para Kari, que encolheu. Os outros dois garotos novamente quebraram a tensão, se aproximando do restante do grupo.

 - Quais eram as probabilidades? - Perguntou Trevor, sorrindo. Calem desfez sua expressão e adotou um sorriso tranquilo, passando a conversar com o garoto ruivo. No entanto, de tempos em tempos desferia um olhar atento a Kari, como se a garota fosse fazer algo diferente. Desconcertada, ela se pôs a conversar distraidamente com Tierno, embora ainda encarasse o outro garoto. O que era aquilo, perguntou a si mesma. Era como se outra pessoa estivesse na pele de Calem, pensou.

 Ainda absorta em seus pensamentos, ela notou vagamente que Shauna estava os apressando, apontando para o restante da floresta. Se puseram a andar, e Calem parou de prestar atenção em Kari, o que não foi um ato recíproco. Desde que havia saído do Caminho de Vaniville, era a primeira vez que a treinadora havia encontrado tamanha hostilidade em um olhar, e sobretudo de quem menos esperava.

 Ajeitou a bolsa no ombro, quase derrubando Paola de sua posição.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

RN Nuzlocke Y - Capítulo 3: Cabeças-Duras

RECINTO NERD NUZLOCKE - Y -
CAPÍTULO 3: CABEÇAS-DURAS

 - Qual é a sua? - Perguntou Frog subitamente, lançando um olhar mal-encarado a Kari. Os dois estavam andando pelo Caminho de Vaniville, cercados pela grama, pelas flores e pelas grandes árvores que tapavam o caminho do sol. A treinadora desviou os olhos e fez um muxoxo, começando a perder a paciência.

 - O que foi? - Perguntou a garota, devolvendo o olhar irritado com o canto do olho. Todo o estresse da perda de memória estava finalmente chegando ao auge, muito pelo fato da situação ter sido razoavelmente resolvida. Agora que ela tinha um objetivo a cumprir, as outras emoções além do medo conseguiram seu espaço.

 - Você não me parece confiável. E eu tenho olfato para esse tipo de coisa. - Respondeu o Froakie, estreitando as pálpebras.

 - Ah, sério? Seu olfato disse que eu não sou confiável? - Perguntou Kari, ajeitando a bolsa no ombro com a voz pingando ironia. - Era mais fácil dizer que era um sexto sentido, sabia? Não ia parecer tão imbecil.

 - Ei, qual é o seu problema? - O Froakie avançou e parou, ficando na frente de Kari. - Treinadores Pokémon não deveriam agir assim com sua equipe! - A garota apenas o encarou como se não acreditasse na situação.

 - E os próprios Pokémon deveriam ter alguma pingo de respeito pela droga dos treinadores. - Disse finalmente. Ela deu um passo à frente. - E, que eu saiba, você ainda é um mordedor de tornozelos azul com problemas de língua solta. Eu ainda posso te colocar em formas infinitas de castigo, tantas que você teria que passar dias contando.

 -  Quero ver você tentar. - Começou Frog, se colocando em uma postura de luta. - Eu sou o futuro Campeão de Kalos, e você nem -- O que ele iria falar nunca ouvido, pois Kari se adiantou e afundou seu rosto na grama, prendendo-o com a mão direita.

 - Oh, desculpe. - Disse ela calmamente enquanto o Froakie se debatia. - Você tem que ter uma altura mínima para -- Mais uma frase incompleta, pois Frog conseguiu soltar um jato d'água nos pés de Kari, que se desequilibrou e caiu. O Pokémon aproveitou o momento e pulou em cima dela, e ambos ficaram se degladiando no chão.

 - Porteiro de maquete! Carcereiro de gaiola! Alpinista de calçada! - Grunhiu a treinadora no meio da luta, girando o corpo para tentar prendê-lo.

 - Tábua! - Conseguiu dizer Frog, e algo estalou na mente de Kari, produzindo ainda mais raiva. Os dois ficaram rolando e lutando, até que uma voz rompeu o ar.

 - Ora, ora, o que temos aqui? - Os dois pararam e se levantaram a cabeça, bem a tempo de ver um enorme Rhyhorn quase em cima deles. No lombo do Pokémon havia uma mulher alta e magra, com cabelos castanhos curtos e um prendedor amarelo para decorá-los. Ela os encarava com uma expressão totalmente séria. - Acho que você tem uma carta para mim, garota. - Disse a mulher. Kari se levantou, ainda tentando compreender o que estava acontecendo.

 - V-você é a senhora Luco? - Perguntou a treinadora, limpando discretamente a terra que impregnava suas roupas. A mulher disse que sim com a cabeça, e Kari pegou atrapalhada a carta do bolso. - Isto é para você.

 Luco ficou a encarando, analisando-a de cima a baixo do alto do Rhyhorn. Ela se esticou para pegar a carta e guardou-a no bolso. - Escutem, vocês dois. - Começou ela, olhando para Kari e Frog com severidade. - O caminho de um Treinador Pokémon não é fácil. Para ninguém. Então, ou vocês aprendem a se respeitar, ou acabarão morrendo. Entendidos? - O Rhyhorn soltou um rugido, e os dois imediatamente acenaram positivamente com a cabeça. - Ótimo. - Respondeu Luco. - Avisem a Sycamore que eu mandei um oi. - E com isso ela deu meia-volta no Rhyhorn e começou seu caminho a Vaniville. Kari e o Froakie ficaram quietos, e se viraram para voltar a Aquacorde. Nenhum dos dois sequer olhou para o outro, muito menos falou.

 Estavam terminando de atravessar Aquacorde quando o silêncio foi interrompido. Frog parou perto da ponte que ligava a cidade à rota seguinte, que se embrenhava no meio da floresta. Havia um pequeno abismo à sua frente, e um rio que corria mais abaixo.

 - O que você quer fazer? - Perguntou ele. Kari suspirou, se abaixando para se sentar na beira do caminho.

 - Eu não sei. - Disse ela, cansada. - Só sei que a idéia de ser uma treinadora Pokémon me parece um caminho bastante familiar. E é tudo que eu tenho agora. - Ela acabou por recolher as pernas e segurar os joelhos, contemplando a floresta. Novamente o silêncio veio, e Frog o interrompeu pela segunda vez.

 - Imagino que você vá seguir em frente, então? Talvez... até a Liga? - Kari refletiu sobre isso. Não tinha a menor idéia se iria recuperar sua memória daquele jeito, muito menos quando isso aconteceria. No entanto, o caminho que iria seguir era bastante claro. E tinha um fim bem definido.

- Talvez. - Se limitou a dizer a garota. - Não sei o que vai acontecer comigo quando eu recuperar a memória. Posso ter outros objetivos, mas... vou considerar isso. Tudo bem? - Ela se virou para seu Pokémon, que voltou a encarar a floresta.

 - Acho que é o melhor que posso esperar. - Respondeu Frog.

 - Ei, pelo menos você tem um objetivo na sua vida. - Acrescentou a treinadora. - É muito mais do que eu posso dizer.

 - Realmente, estou muito melhor do que você. - Disse o Froakie, e no segundo seguinte Kari o empurrou contra o rio, fazendo-o cair quase cinco metros. Ele submergiu com ódio profundo, e começou a xingar a garota em voz alta. Kari, por sua vez, retribuiu no mesmo tom.

 E assim o céu ia se pondo no céu, e o primeiro dia de Kari em Kalos estava no fim. Para muitos pedestres que passavam perto da ponte de Aquacorde, a garota e seu Pokémon eram objetos mesclados ao ambiente. Muitos franziam a testa para o barulho dos dois, mas a maioria simplesmente os ignorava.

 Exceto uma pequena figura, que os encarava com interesse. Ela se mantinha nas sombras, e continuou onde estava mesmo quando Kari e Frog levaram sua briga até a ponte, indo em direção à Rota 2.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Aurora: Capítulo 3 - A Sede

AURORA
CAPÍTULO 3: A SEDE

 - Acho que é tudo que precisamos. - Disse Stella no momento em que Dalan terminava de rabiscar sua última rubrica. Ela recolheu os papéis do contrato, encarando os móveis de sua sala enquanto parecia procurar por algo. O garoto largou a pena e movimentou o punho, cansado da sessão de assinaturas.

 - E agora? - Perguntou ele, massageando a região dolorida. Stella se levantou e foi até um armário, bem próximo da peculiar corrente morfo cromática que havia atiçado Dalan anteriormente. Assim que a mulher abriu o armário, no entanto, uma nuvem branca saiu de dentro do móvel, rapidamente preenchendo a sala inteira.

 - MALDIÇÃO! - Praguejou o vulto de Stella, balançando as mãos com violência na tentativa de dispersar a névoa grossa. - Dalan, me faça um favor. Vá até Lyra lá embaixo e peça para ela te dar o passeio pelo prédio. Ela normalmente fica atrás do balcão. É a que tem cabelos roxos. Aproveite e peça para ela marcá-lo. 

 - Eu... - O garoto se sentiu um pouco receoso de descer sozinho. No entanto, quando ia proferir sua vontade um pássaro amarelo saiu do armário, piando e voando por toda a extensão do pequeno aposento. Stella começou a praguejar de forma mais intensa, deixando claro que Dalan não seria notado tão cedo. Assim, ele saiu da sala e encarou o salão.

 O aposento estava agitado, mesmo com tão poucas pessoas presentes. As duas gêmeas loiras estavam em uma das mesas no centro da sala, acompanhadas de um rapaz com longos cabelos negros enrolados em uma única trança. O homem semi-grisalho de outrora, por sua vez, tinha o rosto afundado no balcão do bar, no outro lado da sala. Roncava audivelmente, sentado de forma desajeitada em um banco alto enquanto segurava um grande copo de cerveja. Do outro lado do bar, a garota de corpo escultural de antes lavava animadamente um prato, cantarolando com os olhos semi-abertos e um sorriso no rosto.

 Conforme descia os degraus de madeira e ia se aproximando da mulher de cabelos roxos, Dalan ia notando sua beleza. Só era possível enxergar de sua cintura para cima, mas era claro que seu corpo, cuidadosamente esculpido em formato de ampulheta, era invejável. Ela era curvilínea onde era necessitado, e delicada no restante. Seu rosto tinha a forma de uma gota de cabeça para baixo, e nele haviam grandes olhos negros, um nariz mirrado e uma boca com lábios finos. Seus cabelos eram suavemente ondulados e desciam até os ombros. Dalan percebeu que estava vermelho assim que chegou no balcão, e as palavras engasgaram em sua boca. A moça continuou a cantarolar, guardando graciosamente o prato na pia de pedra lixada e desligando a torneira enferrujada. Perto deles, o homem grande continuava a roncar.

 - Bem-vindo à Aurora! - Disse ela com a voz doce e animada. Dalan se sobressaltou, muito pelo fato de estar encarando o decote no vestido simples verde da mulher, descoberto ao notar o colar de prata que ela usava. O garoto ficou ainda mais vermelho, e cambaleou um pouco para trás.

 - Gaah. - Grasnou ele, imediatamente se arrependendo do som que fez. Pelo menos a mulher havia fechado os olhos em sua frase, inclinando a cabeça para o lado enquanto esperava docemente a resposta, assim não pôde ver o rubro que manchava o rosto pálido de Dalan. - Ah... obrigado. - Disse o jovem, rapidamente.

 A mulher abriu os olhos e aumentou o sorriso, estendendo rapidamente a mão por cima do balcão. - Meu nome é Lyra Nilla, e sou a ajudante da senhora Stella. Muito prazer! - Ela voltou a fechar as pálpebras e inclinar a cabeça, enquanto esperava o movimento do outro rapaz.

 - Ah... obrigado. - Respondeu ele, apertando a mão dela. - Meu nome é Dalan Glacius. O p-prazer é todo meu. - Isso parecia o correto a se dizer, pensou ele na hora. Lyra soltou sua mão e se apoiou no balcão para se aproximar. Os olhos de Dalan quase correram de volta para o decote, mas ele suportou bravamente a tentação.

 - Devo te dizer, você deu uma nova injeção de ânimo aqui! Estávamos em um belo clima fúnebre antes de você chegar. - Ela saiu detrás do balcão, revelando o resto de seu vestido que alcançava os joelhos. - Stella deve ter me pedido para te mostrar a guilda, não é? - Dalan concordou com a cabeça, ainda chocado pela tamanha beleza de Lyra. - Bem, venha por aqui. - Ela o chamou pela mão enquanto andava para trás, atravessando uma porta dupla de madeira.

 - Essa é a cozinha. - Disse ela assim que Dalan entrou no aposento. O local era apertado e coberto de azulejos brancos, muitos deles cobertos de gordura e outros resquícios alimentares. O garoto teve a impressão de que a cozinha era ampla, mas haviam tantos objetos pendurados nas paredes que era difícil ter certeza desta afirmação. Armários de madeira se espalhavam de forma aparentemente aleatória, e panelas sujas se equilibravam nas duas pias, embora estivessem peculiarmente ajeitadas. Havia uma grande abertura na parede para o salão, e perto do homem grande havia um barril aparentemente vazio. - Ah, esse é o Dom. - Disse de forma alegre Lyra, percebendo o olhar de Dalan. - Esse é o lugar favorito dele, então já deixo um barril de cerveja separado. Quando ele acordar irei te apresentar. - Pelo ronco forte, o garoto teve a impressão de que não seria apresentado tão cedo. - Você pode vir aqui comer na hora que quiser, mas em determinados horários do dia eu preparo uma refeição mais completa. São três por dia, se quiser saber. - Percebeu Lyra se afastando, e se virou para acompanhá-la.

 Voltaram ao salão principal, e a mulher se virou para a direita em direção a um corredor repleto de portas. - Me diga, Dalan, você veio de onde? - Perguntou ela na mesma voz animada. O garoto sentiu um aperto no coração ao se lembrar de sua casa, mas a alegria contagiante de Lyra fez a sensação durar pouco.

 - Sou de Gamora. - Respondeu ele. Lyra se virou, e ele rapidamente colocou um meio-sorriso no rosto.

 - Gamoriano? Nossa, é a primeira vez que vejo um aqui no continente. - Ela ampliou o sorriso, e Dalan sentiu o rosto corar ardentemente. Lyra voltou a olhar pra frente no momento em que atravessavam o portal do corredor. - E quantos anos você tem?

 - Dezenove. - Estavam atravessando o corredor naquele momento, passando por várias portas de madeira.

 - Ah, eu sou um pouco mais velha. Tenho vinte e um. - Isso não era um problema, pensou espontaneamente a mente de Dalan. À sua frente, Lyra estancou subitamente, e o garoto quase a acertou. - Essas portas dão para nossos aposentos particulares. Inclusive, este é o seu. - Ela retirou um molho de chaves do bolso e começou a procurar por uma específica. Enquanto isso, o rapaz encarou a porta de madeira puída. 016, dizia o símbolo de metal enferrujado no topo. - Ah, achei.

 A garota abriu a porta, revelando um pequeno quarto quadrado de três metros e meio. Ele entrou, notando o estado de abandono no lugar. A poeira pintava de cinza os poucos móveis, e teias de aranha eram vistas nos cantos superiores. O armário de madeira era grande, ocupando toda uma parede, mas uma das portas estava estranhamente bamba. Do outro lado do quarto, uma janela grande oferecia a luz do sol. Um criado-mudo e uma cama terminavam a sequência de móveis, e em cima da última havia um colchão magro e descolorido. Não haviam lençóis nem mesmo travesseiros.

 - Eu vou emprestar algumas coisas do meu quarto enquanto você não comprar o que precisa, tudo bem? - Disse Lyra, percebendo o olhar desolado de Dalan. O garoto se virou tão rápido que quase caiu, novamente com o rosto em chamas.

 - V-v-v-você não precisa! - Gaguejou ele, arregalando os olhos. A garota apenas sorriu, voltando a inclinar a cabeça com os olhos fechados.

 - Claro que eu preciso. Acha mesmo que eu iria te deixar dormindo nessas condições? Afinal, somos companheiros de guilda agora. - Ela começou a vasculhar o molho de chaves novamente, procurando uma cópia da que havia aberto a porta. - Devo separar alguns lençóis e travesseiros hoje de noite. - Ela olhou para cima, encarando Dalan através da cabeça abaixada. - Se te faz sentir melhor, encare como se fosse meu trabalho na guilda. O que não deixa de ser verdade.

 - O que você faz? - Perguntou o garoto, ainda chocado de existir uma pessoa tão perfeita quanto a que estava à sua frente. Lyra deu de ombros.

 - Ah... eu sou a segunda em comando da senhora Stella. Ou seja, mantenho toda a infra-estrutura da Aurora. - Ela retirou a chave, estendendo-a para Dalan. - Tudo o que a guilda precisar, lá estarei eu para fazer. Cozinhar, arrumar, servir como tesoureira ... esse tipo de coisa. - Ela andou até a porta, e o garoto a acompanhou. - Não sobra tempo para fazer nenhuma missão, mas procura ajudar da maneira que consigo.

 - Entendo. - Disse Dalan, ainda desconcertado com a boa-vontade da garota. Os dois caminharam até um corredor perpendicular ao que estavam, e viraram para a esquerda. O rapaz procurou alguma coisa para preencher o silêncio, ávido na esperança de manter a outra falando. - Nessas horas a resistência extra da Yullian ajuda, não?

 - Ah, eu não sou uma Yulliana. - Respondeu Lyra, abrindo uma porta de madeira no fim da galeria, um pouco maior do que as anteriores. - Esse é um dos motivos de eu procurar ajudar a guilda do jeito que faço.O mundo lá fora não é tão... seguro para humanos comuns.

 - Oh. - Burro, burro, burro, censurou-se Dalan. - M-me desculpe. - Lyra, ainda absorta em sua procura pela chave correta, balançou a cabeça para acalmá-lo.

 - Não precisa se preocupar. Não ter a Yullian em meu sangue não significa que não sei me virar na hora do aperto. - Ela finalmente abriu a porta, revelando um aposento mais amplo, de quase cinco metros de comprimento por oito de largura. Ele tinha as paredes pintadas de negro, e diversos equipamentos de musculação rudimentares se espalhavam pelo recinto. Alguns halteres estavam encostados no canto, juntos com dois bastões e uma pilha de colchões finos. Dois bancos enferrujados se espalhavam no centro do quarto, junto com um tatame verde. - Essa é a sala em que treinamos a forma física. Normalmente ela não fica fechada, portanto você pode vir na hora que quiser.

  A garota não estendeu seu tempo na sala, preferindo avançar até uma porta no canto direito. Diferente das outras, esta estava aberta, e assim os dois saíram para os fundos do prédio, local mais familiar para Dalan.

 - Aqui nós temos uma pequena oficina, mas infelizmente ela está fora de uso desde que nosso mecânico saiu da Aurora. - Os equipamentos enferrujados pareciam estar imóveis há meses, com camadas e mais camadas de pó por cima deles. Lyra se aproximou do pequeno quiosque de ferramentas, retirando um grande arco de madeira lustrado. - E é com isso que eu me viro. - A arma tinha quase dois metros, e possuía as pontas recurvadas para dentro, acentuando a barriga no centro. A garota puxou a corda fina e negra, apontando com um sorriso para o chão.

 - Maneiro. - Elogiou Dalan, e Lyra guardou o arco, parecendo desconcertada.

 - Não é grande coisa. - Acrescentou ela rapidamente, enrolando o dedo no cabelo. - Só o suficiente para me virar quando for necessário. - Pelo visto falei a coisa certa, parabenizou Dalan a si mesmo. Com um sorriso, ele continuou a falar.

 - Escuta... eu procurei essa guilda por causa de um homem que veio até Gamora há alguns anos, mas... - Lyra levantou a mão para interrompê-lo, e grande parte da alegria pareceu ter fugido de seu rosto.

 - Deixe-me adivinhar. - Disse ela com a voz calma e um sorriso amarelo, embora o tom parecesse cansado. - O nome dele eram Adam, não era?

 - S-sim. - Respondeu Dalan, sentindo que havia tocado em um assunto delicado. Lyra andou cabisbaixa até um banco perto da parede, convidando o garoto a se sentar, ainda com o sorriso triste.

 - Ele era o Mestre de Aurora desde o início da guilda. - Recomeçou ela quando Dalan se sentou ao seu lado. Ela se inclinou para frente e começou a brincar distraída com seus próprios dedos. - Era marido da senhora Stella e pai de Sasha. Faz dois anos que ele morreu.

 - Ah. - O rosto de Dalan se avermelhou novamente. Pra quê foi perguntar sobre esse assunto? - M-me desculpe. - Gaguejou ele. Lyra virou a cabeça para encará-lo.

 - Tudo bem. - Ela fitou o horizonte por alguns segundos, envolta em pensamentos. Suspirou. - Ele era um bom homem, sabia? Costumava resgatar crianças abandonadas que encontrava em suas missões. Dos dez membros da guilda hoje, incluindo você, seis foram... adotados por ele. Talvez seja por isso que não abandonamos Aurora quando as coisas começaram a ficar ruins depois da morte de Adam.

 - Faz dez anos desde o dia em que vim para cá. - Continuou ela. - Era uma criança pobre em Savarat, uma cidade ao sul daqui. Adam me resgatou e me trouxe para a Aurora. Desde aquele dia decidi retribuir aquele ato, e comecei a trabalhar aqui. Depois da... morte dele... - Ela inclinou a cabeça para baixo. - ... fiz de tudo para ajudar a senhora Stella. Faço isso até hoje.

 Um silêncio incômodo surgiu entre eles, enquanto Dalan procurava avidamente algo para dizer. No entanto, quem quebrou o comedimento foi Lyra, se ajeitando na cadeira e se virando para o garoto. - Nossa, que fúnebre, não? Vamos pular essa parte, afinal você acabou de entrar e isso é um motivo de comemoração! - Seus olhos continuavam tristes através do sorriso, mas Dalan procurou fazer o que ela pediu.

 Os dois se levantaram e voltaram até o edifício, adentrando em um corredor que os deixava no saguão de entrada. Lyra apontou para o andar superior. - Ali ficam as salas de administração, como a tesouraria e o escritório da senhora Stella. Ela e Sasha também moram ali. - Dalan inclinou a cabeça para cima, e só percebeu que a outra garota tinha se afastado quando ela já estava do outro lado do saguão, perto do bar.

 - Dom, eu deixei o carimbo da guilda com você, não foi? - Perguntou a garota. O homem resmungou, se levantando do balcão com dificuldade. Seus olhos castanhos estavam vermelhos por cima do nariz pontudo e por baixo da grande testa. Ele se espreguiçou sem dizer uma palavra e piscou com vontade, encarando Dalan.

 - Ah, o novato está aqui! - Disse ele com a voz esganiçada. Dom se levantou cambaleante e se pôs à frente do garoto. Ele era definitivamente gigante, com quase dois metros e um corpo musculoso e tatuado que acentuava seu tamanho. Sua veste verde não cobria o peito nu, e era acompanhada por uma calça de tecido negro e uma faixa branca na cintura. Seus cabelos eram bem curtos e se alteravam entre negro no topo e grisalho nas laterais. Ele estendeu a mão para Dalan, sorrindo abertamente. - Dominic Weitern, garoto. Pode me chamar de Don, se quiser.

 - Dalan Glacius. - Respondeu o garoto, apertando a mão. Por um instante pensou que seus dedos seriam estraçalhados, mas o aperto teve uma força normal. Dom se virou então para Lyra, retirando um objeto do bolso.

 - Aqui, garota. - Ele jogou o objeto para Lyra, que o segurou com as duas mãos enquanto agradecia.  Dalan percebeu que ele era parecido com um carimbo, do tamanho de sua mão. Dom voltou a se sentar perto do balcão, e a garota se aproximou do garoto, girando o suporte do carimbo.

 - O braço direito, por favor. - Pediu ela, e Dalan retirou o braço da capa, estendendo-o para Lyra. Ela pressionou o objeto contra a pele, produzindo um brilho roxo e azul por alguns segundos. Quando ela recuou o carimbo, havia uma tatuagem na pele do garoto. Ela era composta por três linhas de cor verde, roxa e azul, todas em formato de "S", e uma estrela branca de quatro pontas no canto inferior esquerdo. - Essa é a Marca da Aurora. - Disse a garota. - Agora você é um membro oficial da guilda. Essa marca irá te identificar para qualquer pessoa, como se fosse uma identidade.

 - Entendi. - Disse Dalan, entortando o braço para poder ver a marca. Sua pele formigava por debaixo da tinta, mas não chegava a doer. Lyra começou a andar até o outro lado do saguão, e o garoto a acompanhou.

 - Por último, vou te mostrar um dos lugares mais importantes daqui, o Mural de Missões. - Ela indicou um painel de tecido amarelo, preso na parede. Haviam dois papéis de cor cinza colados na superfície, pregados por uma tachinha roxa. - Cada uma das missões contém os detalhes necessários, como o pagamento, o Tempo de Contrato e a descrição do trabalho. Assim que escolher uma, vá até mim no balcão e eu a aprovo para que você possa cumpri-la. Receberá o pagamento no início da semana, quando eu for até o Conselho Local comprar novas missões com a senhora Stella. - Ela colocou as mãos no quadril, parecendo satisfeita consigo mesma. - E é isso! O seu pequeno tour acabou. Agora faça-se em casa!

 - Ah. - Disse Dalan, surpreso com o fim abrupto. Lyra sorriu com os habituais olhos fechados e cabeça inclinada, e se virou para voltar ao balcão.

 O garoto ficou onde estava, sentindo a realidade descer sobre si. A parte fácil de sua missão havia terminado. Entrou na Aurora, e agora precisaria fazê-la crescer. Sua família e todos os que conhecia estavam contando com ele. Gamora estava em suas mãos.

 Um plano se formulou em sua cabeça. Estava claro que, nas condições atuais da Aurora, não conseguiria nunca descobrir o que havia acontecido com sua ilha, e duvidava que teria condições de entrar em uma guilda maior. Assim, precisava dar o máximo de si para que a Aurora crescesse. Teria que realizar o máximo de missões que conseguisse, e se aliar com todos ali dentro. Afinal, não saberia quando o apoio deles seria importante em suas próprias ambições.

 Sentiu o corpo cansado e dolorido, resquícios da viagem longa até Helleon e da luta contra Sasha. Uma voz em sua cabeça o mandou descansar, mas outra o lembrou de sua missão. Não havia ninguém que pudesse descobrir o que aconteceu com sua ilha, exceto ele. Não poderia perder o foco, principalmente agora que estava bem encaminhado.

 Pegou uma missão do Mural e se encaminhou até Lyra.