sábado, 12 de outubro de 2013

Nuzlocke - Epílogo 3 (FINAL)

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN -
EPÍLOGO 3

 Os segundos que Kari passou no teleporte foram os mais bizarros de sua vida, compostos de brilhos fortes e sensações de enjôo. Ela se viu de repente em uma caverna ampla, iluminada com um brilho estranho e azul. Imediatamente se apoiou em uma formação rochosa ao seu lado, respirando fundo para não vomitar. Sentiu um peso estranho no bolso traseiro, mas estava zonza bastante para se importar. Fechou os olhos com o esforço, só abrindo quando teve certeza de que não iria despejar o almoço nas pedras.

 Em seguida, olhou ao redor. Estava em uma espécie de estrada de rochas, banhada pela esquerda e pela direita por córregos que seguiam seus cursos lentamente. Kari encarou a água, e percebeu seres estranhos grudados nas pedra. Pareciam massas disformes de cor rosa, mas se mexiam independentemente, chegando até mesmo a copiar a cor e forma das pedras ao redor. Ela observou por alguns instantes o ato curioso, até que sentiu o ar deslocar à sua frente. Quando levantou a cabeça, já estava de frente com Mewtwo.

  A garota caiu para trás, batendo com as costas nas pedras pontudas. Mewtwo continuou onde estava, levitando um pouco acima do chão, encarando-a com um olhar fulminante. Ela imediatamente sentiu o pavor crescer dentro de si, se manifestando em seu corpo através dos membros trêmulos e do estômago gélido. Estava na cara que não estava enfrentando um adversário normal, muito menos derrotável. Sua mão foi automaticamente até as Pokébolas no cinto, mas ela parou o movimento forçadamente. Colocar seus Pokémon para combater aquela... criatura seria um massacre. Assim, ficou apenas encarando o adversário com os dentes enfiados na língua, procurando avidamente uma saída daquela situação.

 - Humana. - Disse uma voz desconhecida em sua cabeça, mas Kari não precisava ser um gênio para adivinhar de quem era. - Se acha que poderá me derrotar em uma reles batalha, pense novamente. - Mewtwo avançou, e a garota tateou desesperadamente para trás. - Hoje você encontrará apenas a morte.

 Kari olhou ao redor, engolindo em seco. Precisava de alguma chance de fugir, e enquanto não achava necessitava urgentemente de uma distração. - Acho que conversar é algo muito rudimentar para você, não é? - Perguntou ela, encarando o Pokémon de relance.

 - Acha que não consigo sentir o cheiro de Mew em você? - Mewtwo elevou a voz na cabeça da garota e imediatamente seus olhos brilharam. Kari se sentiu levantada como se uma força invisível a agarrasse, sendo colocada na altura dos olhos do adversário. - Passei anos preso, enjaulado em um laboratório, sendo examinado e humilhado a cada segundo. Não me lembro de Mew ter movido um dedo sequer para me retirar dali, não é mesmo? - Ele trouxe a garota para mais perto com a força de sua mente. - Me diga, o que ele quer agora? O que o obrigou a mandar alguém em seu lugar? Hein? ME DIGA!

 Naquele momento, a garota sentiu uma dor enorme se originar do centro de seu cérebro e se expandir, cobrindo todos os seus sentidos. Ela não sabia se estava gritando ou não, nem mesmo se Mewtwo continuava falando em sua mente. Só havia a dor, aguda e afiada, penetrando em cada célula de seu corpo.

 Eis que, tão rápido quanto surgiu, a dor desapareceu. Kari arfou onde estava, ainda presa no aperto invisível, sentindo o sangue quente sair de suas narinas, orelhas e olhos. O que estou fazendo aqui, perguntou ela a si mesma. Estava brincando com níveis muito mais altos do que sua alçada permitia sonhar. Um pensamento assustador rondou sua mente, se fixando no crânio ainda dolorido. Iria morrer, e não havia nada que pudesse fazer quanto a isso.

 De alguma forma, conseguiu ouvir Mewtwo ainda falando em sua cabeça. - ... terei que arrancar seus membros em busca da resposta? Terei que fazê-la sofrer o mesmo que sofri em Cinnabar? Me responda: O QUE MEW QUER DE MIM? - No meio de toda aquele medo e desespero que Kari sentia, ainda havia um cerne firme que estava no limite, chegando ao ápice quando o adversário gritou em sua mente, fazendo as dores voltarem a reverberar. A garota rangeu os dentes, sentindo o peito aquecer com uma força interior. Se fosse mesmo morrer, concluiu, não iria em silêncio.

 - Ele quer que você suma. - Disse a garota com dificuldades, mas Mewtwo pareceu ouvir muito bem. Ele estancou onde estava, e Kari conseguiu sentir o aperto diminuir um décimo. - Você é uma ameaça ao equilíbrio. Kanto está em perigo com você à solta, fazendo o que lhe der na telha. - Ela piscou os olhos, sentindo o sangue molhar os cílios, e encarou o Pokémon furiosamente. - E eu vim aqui acabar com você.

 Por um instante, não houve resposta. No segundo seguinte, no entanto, a garota sentiu o corpo ser catapultado para longe, desintegrando uma formação rochosa no caminho. Ela caiu com força no chão, ofegando através da agonia. Respirar era incrivelmente dolorido, fazendo crer com que várias costelas estivessem partidas. A perna direita também estava quebrada, e doía tanto que chegava a tremer. Kari passou a mão trêmula nos olhos, procurando limpar o sangue que jorrava incontrolavelmente de um ferimento na testa. Parabéns, pensou para si mesma, conseguiu deixá-lo puto. E agora? Antes que conseguisse formular um plano, foi arremessada novamente pelos ares, desta vez caindo no riacho. A água se tornou imediatamente vermelha pelo sangue, e Kari procurou lutar contra o desfalecimento. Não posso partir assim, era tudo que conseguia pensar. Não sem luta.

 Acabou sendo levada pela correnteza até a borda do rio, onde parou de costas nas pedras. Um incômodo se originou de seu bolso traseiro, mas foi quase que completamente ofuscado pela miríade de dores que dançavam pelo seu corpo. Pelo canto do olho, viu Mewtwo se aproximando, levitando pelos ares. Como é que Mew achava que conseguiria lutar, pensou ela. Não tinha nada que conseguisse derrotar o clone. Não era possível que tivesse sido enviada tal como uma vaca para o abate.

 E naquele momento, uma luz preencheu sua mente. Levou a mão esquerda rapidamente à parte de trás do bolso, tateando de forma desesperada enquanto ainda tinha tempo. Não havia levado nada consigo quando saiu para procurar os Rockets, pensou enquanto ainda juntava conscientemente as peças do quebra-cabeça. E, de fato, não havia nada em seus bolsos quando entrou na caverna.

 Seus dedos encontraram uma pequena esfera de um material liso, e ela levou o objeto até seus olhos. Parecia com uma Pokébola, com uma cor roxa onde deveria ficar o vermelho, e um "M" rubro bordado na superfície. Já havia visto aquilo antes, e sua mente a levou momentaneamente até o hospital em que havia ficado depois de salvar Saffron dos Rockets. Se lembrou do presidente da Companhia Silph lhe entregando um protótipo da Masterbola, a Pokébola que possuía uma taxa de cem por cento de chances de captura. Era um dos únicos modelos existentes em todo o planeta, e algo tão impressionante que até mesmo Giovanni queria colocar suas mãos em um. E de repente, o motivo estava bem claro para a garota. Ele precisava da Masterbola para capturar novamente Mewtwo. E agora esse era o trabalho de Kari, a única coisa que a separava da morte.

 Apertou com força a esfera roxa, levantando a cabeça para encarar o adversário que se aproximava. Cambaleante, conseguiu se levantar, tomando cuidado para apoiar o mínimo possível na perna quebrada. Com os cabelos molhados por cima dos olhos, ficou esperando Mewtwo ficar mais próximo.

 - Humana. Seu fim chegou. - Ele estendeu o braço para levantá-la, mas desta vez Kari foi mais rápida.

 - Acho que não. - Respondeu ela. Em seguida, apertou um botão em uma Pokébola no cinto, e uma energia vermelha se manifestou na caverna. Em frações de segundo, Kenichi já estava fora, disparando contra o surpreso Mewtwo. A garota se desequilibrou, sentindo a perna quebrada gemer. Ao invés de retomar o apoio, ela sacou o resto de suas Pokébolas desajeitadamente e as jogou no ar, liberando o resto de sua equipe. Caiu na beira do rio em seguida, mas conseguiu virar o corpo para cima, enxergando Kenichi se degladiar contra o adversário no alto. - ACABEM COM ELE AGORA. - Gritou ela, apontando para os dois.

 Naquele momento, Sara saltou até eles, com as garras prontas para o ataque. Mewtwo abriu os braços com violência, arremessando a Sandslash e Kenichi para longe. Sophie aproveitou o momento e disparou um fino raio de gelo, facilmente desviado pelo clone. Ele contra-atacou com inúmeros projéteis brilhantes, que explodiram na superfície do rio, provocando uma chuva torrencial na área.

 - NÃO DEIXEM ELE DESCANSAR! - Gritou a treinadora por cima do caos. Zelda disparou para o alto enquanto Liz e Sophie descarregavam novos projéteis contra Mewtwo. Ele defletiu novamente os raios, mas não conseguiu desviar dos dentes afiados da Golbat, que foram enterrados profundamente em seu ombro. O clone a mandou para longe, grunhindo, no momento em que Sara aparecia do nada e o agarrava pelas costas. Mewtwo tentou se desvencilhar, mas não antes da vez de Kenichi surgir, atacando-o com suas garras. O Charizard em seguida agarrou Sara e se afastou, deixando Sophie e Liz acertarem o adversário com seus raios. Kari segurou a Masterbola nas mãos, esperando o melhor momento para agir.

 Infelizmente, não seria no futuro próximo. Mewtwo descarregou uma rajada psíquica por toda a expansão da caverna, destruindo rochas e jogando os combatentes para longe. Kari foi arremessada para trás, rolando várias vezes antes de bater com força em uma estalagmite quebrada. A perna agonizava e as costelas pareciam perfurar o pulmão, mas ela se manteve lúcida.

 - TODOS ATRÁS DE MIM! - Gritou Kenichi, avançando à frente da equipe que ainda se recuperava do golpe. O corpo do Charizard brilhou em um vermelho vivo, e ele disparou uma enorme labareda de fogo, que engoliu Mewtwo e o resto da caverna, lançando uma névoa pesada aos ares. Todos ficaram em silêncio, esperando alguma resposta daquele golpe, todos torcendo pelo melhor.

 O melhor que, infelizmente, não aconteceu. A figura de Mewtwo se tornou visível na fumaça, brilhando em um tom roxo. Ele imediatamente disparou à frente, derrubando Kenichi com um gesto das mãos e Sophie com outro. Sara e Zelda se adiantaram, mas também foram jogadas para longe com um simples aceno mental. O clone encarou Kari, mesmo de longe, e seguiu em sua direção.

 - Se acha que essas meras distrações serão capazes de me deter, saiba que está brincando com um perigo muito maior do que consegue conceber. - Liz tentou ficar entre os dois, com os braços abertos, mas foi envolvida pelo aperto invisível de Mewtwo. - Vejamos como responde ao ver uma de suas combatentes destruída na frente de seus olhos.

 - NÃO! LIZ! - Kari tentou se levantar, com a Masterbola em mãos, mas um murro invisível a fez afundar de cara no chão. Seu nariz pareceu explodir no contato, estalando e jorrando uma quantidade absurda de sangue. A garota procurou se mover, mas era impossível. Ela ficou onde estava, sentindo o sangue quente molhar seus lábios.

 Eis que, de repente, a pressão sumiu. Kari levantou a cabeça, zonza, e avistou Kenichi segurando Mewtwo por trás, conseguindo manter o aperto com extrema dificuldade. O Charizard encarou a treinadora, ainda caída no chão.

 - KARI, SE FOR FAZER ALGO, FAÇA AGORA! - Gritou ele. A garota se levantou imediatamente, segurando a Masterbola na mão. Mewtwo encarou a esfera, e o arregalar de seus olhos deixava claro que ele sabia o que aquilo significava. O clone tentou se livrar desesperadamente do aperto do Charizard, mas Kari já havia se adiantado.

 - Essa é por todo o caos que você causou, seu imbecil. - Grunhiu a garota, batendo a Masterbola com força na testa de Mewtwo, que foi imediatamente absorvido pela esfera que em seguida caiu no chão. Kari também caiu, ficando de costas na rocha, exausta. - Acho que era isso. - Disse ela cansada para Kenichi.

 Naquele momento, no entanto, a Masterbola quebrou, liberando a energia vermelha que tomou a forma de Mewtwo. Kari ficou sem palavras, observando assustada o Pokémon se livrar da armadilha supostamente perfeita. Isso não fazia sentido nenhum, foi seu primeiro pensamento, e ela olhou com puro terror para o adversário. - O que está acontecendo aqui?

 - Oh. Não esperava que você possuísse uma Masterbola. - Disse uma voz atrás da garota. Ela se virou, e descobriu um vulto nas trevas. Estranhou o fato de não tê-lo visto até então.

 - Quem é você? - Perguntou ela. De fato, a voz era bastante familiar, embora não conseguisse se lembrar.

 - Quem eu sou não importa. - Continuou o vulto, muito afastado para que pudesse ser identificado. - Tudo que interessa a você agora é que sou o dono de Mewtwo. E é por isso que sua captura não funcionou.

 - Você... é o treinador dele? - Ela se virou, avistando o Pokémon atrás de si. De fato, Mewtwo parecia bastante constrangido pelo fato, e evitava o contato visual.

 - Bem... foi bom enquanto durou, não foi? - Ele estendeu a mão, mas antes que pudesse fazer algo Mew surgiu entre os dois, se conjurando através de um portal rosa.

 - Pare agora. - Disse a voz do pequeno Pokémon. - Está brincando com coisas que não consegue controlar. - O vulto não pareceu seimpressionado, pois não alterou a voz.

 - Mewtwo, você tem sua chance. Acabe com ele. - A apatia surgiu do clone, que atacou ferozmente seu original. Mew tentou se defender, mas foi jogado para longe antes de conseguir fazer alguma coisa. - Agora, a garota!

 Mewtwo se virou para Kari, que deu dois passos para trás. A garota conseguia sentir o ar se alterando, ficando cada vez mais quente enquanto um tom roxo se misturava na atmosfera.

 - Não! - Gritou a voz de Mew, e uma esfera rosa cobriu a treinadora. O roxo se chocou, se tornando vermelho e azul, brilhando forte até virar um branco forte. - Kari! Kari!

 A garota tentou responder. Tentou clamar por seus Pokémon, por Mew, por qualquer um que conseguisse ouví-la. Mas, em uma fração de segundo, só havia branco. A cor invadia sua audição, sua visão, até mesmo o olfato. De alguma forma, não existia nada, exceto o nada. Kari não conseguia esboçar uma reação, sentindo como se estivesse sendo arrancada do próprio corpo.

 E então ela perdeu os sentidos.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Nuzlocke - Epílogo 2

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN -
Epílogo 2

 A primeira coisa que Kari notou ao se aventurar do lado de fora do complexo em que estivera hospedada era o vento. Ventava bastante na praia por onde andava, empurrando suas roupas e seus cabelos em direção ao mar, tocando de forma gélida sua pele. A garota esfregou as mãos nos braços, lamentando não ter conseguido agarrar um casaco antes de escapar do edifício. Fora obrigada a fugir, evitando os guardas que faziam a segurança do perímetro, e só havia trazido consigo uma camisa leve e um short que não chegava a ultrapassar os joelhos. Mesmo assim, ela se mantinha em frente, seguindo na direção de uma caverna mais além, onde supostamente os Rockets estariam enfiados. Não arriscou liberar Kenichi e seguir pelo ar, com medo de ser avistada. Assim, caminhou solitariamente pela areia, se protegendo do vento barulhento.

 Enquanto andava, sentia o coração bater mais forte, pela primeira vez em semanas. O trabalho de um Campeão era tremendamente monótono, e um pouco de adrenalina era o suficiente para reviver o sangue em suas artérias. Além disso, estava curiosa. O que os Rockets pretendiam fazer sem seu líder? Essa pergunta seguiu ecoando pela sua mente enquanto continuava, até que finalmente chegou ao seu destino. Uma formação rochosa se elevava do chão, tão precária e inclinada que o simples fato de aguentar as ondas parecia um milagre. Kari engoliu em seco e adentrou a pequena fenda que marcava a entrada, se vendo em um cômodo escuro como o ébano.

 - EI! TEM ALGUÉM AÍ? - Gritou ela, e sua voz ecoou na caverna. Havia ficado tanto tempo sem ação que estava agindo de forma totalmente imprudente, mas nem se importou. De fato, não estava esperando que houvessem Rockets por ali, se escondendo atrás das pedras. Para sua surpresa, no entanto, uma voz a respondeu.

 - Sim. - Naquele mesmo instante, uma coletânea de luzes envolveu a garota, que protegeu os olhos. Seu coração imediatamente disparou, e seus dedos foram levados até o cinto. No entanto, não havia nenhuma Pokébola ali. - Perdão, mas... vamos evitar confusões desnecessárias. - Continuou a voz, tão calma quanto antes. Kari abriu os olhos lentamente, esperando ter armas apontadas contra si. Contudo, as luzes não vinham de lanternas, e sim estranhas criaturas que flutuavam ao seu redor, com estranhas formas negras e apenas um olho. A garota os encarou, espantada, enquanto tentava entender o que era aquilo. Alguns pareciam estranhamente com letras, mas nada além disso. 

 - É ela? - Perguntaram as formas, falando em apenas um único tom e sem expressão, fazendo com que a caverna ecoasse com a frase. 

 - Sim. - Uma nova luz surgiu no meio deles, desta vez de cor rosa, contrastando com o branco que reinava anteriormente. Kari observou assustada um familiar Pokémon se aproximar, com seu corpo pequeno e aparência frágil. A criatura que Fuji e Blaine haviam passado metade da vida procurando, e sonho de consumo de Giovanni e seus empregadores. Mew.

 - O que... - Começou ela, sem saber como continuar. Mew se aproximou, encarando-a com seus grandes olhos azuis. 

 - Receio que você tenha muitas perguntas a fazer. - Disse o Pokémon, e sua voz pulsava na mente da garota. - No entanto, deixe-me começar, por favor. Poderá nos poupar um tempo que não temos o luxo de gastar. 

 - Apresse-se, Mew. - Disseram as formas, em uma só voz. - O tempo é curto. Já esperamos a garota tempo demais.

 - Eu não entendo. - Interrompeu Kari, olhando ao redor. - Não haviam Rockets por aqui?

 - Sim, deveras. - Respondeu Mew. - Eles estão nessa ilha. No entanto, não são sua preocupação no momento. 

 - Como assim? - Perguntou a garota. - Se soubesse o que fizeram, você --

 - Sim, eu sei o que fizeram. - Desta vez Mew foi mais conciso, e Kari se calou em seguida. - Não questione o mal em seus atos, mas são males menores. Há algo muito mais ameaçador no horizonte, e a cada dia que passa se torna mais perigoso. Direi algo que já sabe, Kari, mas me responda: já ouviu falar de um ser chamado... Mewtwo?

 A atmosfera na caverna se tensionou instantaneamente, se tornando tão sólida que uma faca teria dificuldade de atravessar o ar. Os seres estranhos continuavam em silêncio, mas algo em seus únicos olhos havia mudado. Kari engoliu em seco, esquadrinhando suas memórias. 

 - Ele... era seu clone, não? - Respondeu ela.

 - Quase correto. Ele é meu clone, e ainda está à solta. - Os olhos azuis de Mew estavam frios, brilhando profundamente. - Mewtwo é a maior ameaça que já pisou em Kanto, e suas atitudes podem ser sentidas por todo o continente. Seu surgimento esteve ligado à ascenção dos Rockets, e sua fuga pôde ser sentida até mesmo em Viridian, como você mesma pode presenciar. - A lembrança do caos na floresta de Viridian se manifestou repentinamente na mente da garota, que engoliu em seco. O Pokémon místico continuou. - E seu exílio trouxe pandemônio. Os últimos meses foram sofridos para todos no continente, e isso não pode continuar assim.

 - Eu... não entendo. - Kair olhou ao redor, como se esperasse encontrar algo que fizesse sentido. - Onde... onde eu entro nessa história?

 - Apresse-se, Mew. - Repetiram os seres estranhos, e o outro continuou.

 - Tudo ao seu tempo. Antes disso, Kari, saiba uma regra extremamente importante de nosso mundo: para manter o equilíbrio de forças nesse plano, toda região suficientemente grande possuiu uma trindade. Eles são a base em que tudo pode existir. Essa é uma constante. Você pode viajar para qualquer área do planeta, e sempre existirão três. Fogo, gelo e trovão. Rubi, safira e esmeralda. Tempo, espaço e dimensões. Branco, negro e cinza. - Os olhos de Mew pareciam maiores, englobando a garota por inteiro. - E, para cada trindade, deve existir um Guardião. - Ele parou, parecendo prender a respiração para que Kari pudesse absorver tudo aquilo. - E eu sou o Guardião de Kanto. Articuno, Zapdos e Moltres constituem nossa trindade. Juntos, temos o dever de manter o equilíbrio de forças no continente, tão repleto de seres incríveis. No entanto... algo aconteceu.

 - Mewtwo. - Disse Kari, adivinhando o que vinha.

 - Sim. Mewtwo tem um poder bastante semelhante ao meu, o que desintregou o delicado equilíbrio. No instante em que ele explodiu sua prisão em Cinnabar, a trindade perdeu o controle. Fui obrigado a prendê-los para que não causassem um terrível mal, mas isso prejudicou ainda mais a balança. Eu não podia fazê-los voltar ao normal, não naquele nível de força que apresentavam. E de forma nenhuma cogitava destruí-los.

 - Não entendo. - Começou Kari. - Por quê não foi direto até Mewtwo? Digo, se ele havia causado todo esse desequilíbrio, porque não retirá-lo da equação?

 - Porque ele é parte de mim. Meus poderes não funcionam em sua fisiologia mutante, assim como não funcionam em meu próprio corpo e em nenhum dos Guardiões. Somos seres de equilíbrio, Kari, e não de combate. 

 - Este é o seu trabalho. - Disseram os seres negros. Kari olhou ao redor, assustaada.

 - O quê?

 - Veja. - Recomeçou Mew, atraindo novamente sua atenção. - Enquanto eu mantinha controle sobre os Pássaros, comecei a me perguntar o que faria em seguida. Precisava de alguém com força suficiente para combater Mewtwo, e de coração puro o bastante para que não sucumbisse à sua corrupção. Nesse momento, você entrou nos aposentos de Articuno, Kari. Pensei em impedí-la, mas antes que pudesse chegar até a caverna, você o havia derrotado. Imediatamente o controlei, mas fiquei extremamente curioso. Quem possuía força o suficiente para fazer aquilo? Precisava conhecer essa pessoa. Entrei em sua mente, e testemunhei seus feitos. Sua coragem e virtude ao derrotar os Rockets não passaram despercebidas, e logo vi que estava lidando com alguém verdadeiramente puro. No entanto, faltava-lhe o conhecimento. E eu ainda precisava de uma confirmação de sua força. 

 - Você me levou até o laboratório em Cinnabar. - Disse ela, se lembrando dos acontecimentos na mansão de Blaine.

 - Sim. Era a atitude mais apropriada. E logo em seguida, a coloquei no caminho de Moltres e Zapdos, onde você se provou novamente acima do esperado. Acompanhei sua jornada até a Liga, onde se tornou a Campeã. Para mim, não havia mais dúvidas. Havia encontrado minha Encarregada.

 - Encarregada? O que... o que quer dizer com isso? - Perguntou Kari, sentindo o coração bater mais forte.

 - Veja, cada Guardião possui alguém capaz de fazer algo que o próprio Guardião é incapaz de fazer. Por eras, evitei esse estigma, preferindo compartilhar meus pensamentos e decisões com a antiga Tribo dos Unowns, os seres que estão respeitosamente à sua volta. - A garota os olhou novamente, mas mesmo conhecendo seus nomes, não pareciam menos estranhos. - No entanto, finalmente me encontrei em uma situação que necessitava arduamente de um Encarregado. E você se mostrou digna, Kari. A única, de fato.

 - Você... quer que eu derrote Mewtwo, não? - Perguntou ela, encarando com seus olhos verdes o Guardião à sua frente. Mew acenou positivamente com a cabeça.

 - Sim. Conseguiu conter a Trindade por um tempo, com a sua ajuda, mas creio que não conseguirei fazer isso por muito mais tempo. Preciso combater o fruto dessa loucura, e ele tem nome. E só há uma pessoa capaz de enfrentá-lo. 

 Kari parou, encarando em silêncio seu próprio punho enquanto remexia seus dedos. Mesmo depois de um tempo, não sabia o que a havia feito responder tão rápido. Talvez fosse os Unowns ao seu redor. Talvez fosse o colossal tédio que angustiava seu coração. Ou talvez a idéia de um ser tão poderoso à solta, responsável indiretamente por todo o caos que havia acontecido em Kanto, fosse demais para ela. De qualquer jeito, a garota fechou o punho com força, levantando a cabeça em seguida.

 - Eu vou. - Os Unowns ao redor se dispersaram, e um brilho estranho começou a circular a garota. Ela sentiu o cabelo e as roupas balançarem, como se estivesse no meio de um tornado. A determinação em sua alma começou a se manifestar em seu corpo, liberando a adrenalina em seu sangue. Não se sentia viva em muitos dias. Com um sorriso, ela sumiu, deixando apenas Mew e os Unowns na caverna. Um dos seres negros, com o corpo parecendo curiosamente a letra D, se aproximou do Guardião.

 - Você sabe o que acontecerá, não? - Analisada de forma mais particular, a voz dos Unowns possuía um toque robótico, embora quase imperceptível. Mew o encarou, e seus olhos se encheram de tristeza.

 - Vocês me contaram. Ela conseguirá realizar seu trabalho.

 - A que preço? - Perguntou o Unown. Mew começou a se afastar, mas o ser negro continuou. - Ela sofrerá como jamais conseguiria imaginar. - Depois de um momento de silêncio, o Guaridão respondeu.

 - Cada um de nós tem um papel a desempenhar nessa teia cósmica. O dela foi permeado de momentos tristes e alegres, mas até agora tem sido predominantemente feliz. - Mew recomeçou a levitar, entrando na escuridão da caverna. - Infelizmente o que a espera é apenas a dor. Física, espiritual e emocional. Todos em níveis tão altos que eu... - Ele parou de falar, como se reconsiderasse suas ações. - Me perdoe, Kari. Espero que um dia consiga me perdoar por todas as trevas que sofrerá.

 E com isso, ele desapareceu, assim como os Unowns. A caverna imediatamente se tornou escura como o breu. Lá fora, na noite, as ondas batiam.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Nuzlocke - Epílogo 1

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN -
 Epílogo 1

 - Senhorita Campeã, por favor feche os olhos agora. - Disse Sasha, a maquiadora titular. Kari obedeceu, inclinando a cabeça para trás enquanto a outra mulher aplicava pó em seu rosto. Espero que ela consiga mascarar meu tédio, pensou a garota.

 A questão era que a vida de Campeão era completamente diferente do que a treinadora havia imaginado. Tivera dois dias de folga depois do fim do torneio para descansar, participar da cerimônia oficial e se recuperar da perda de Sakura, mas na manhã do terceiro dia já estava com suas tarefas oficiais, como diziam. O que significava viajar por todas as cidades recitando discursos pré-escritos e dando entrevistas específicas para centenas de redes de mídia. Isso sem falar da tonelada de papel que ela deveria assinar, todos requisitando autorização para bonequinhos, camisas, livros, programas de televisão e até mesmo processos de uso indevido de imagem, violados nas primeiras horas depois da luta contra Gary. 

 No momento estava na ilha Quinque, parte do arquipélago das ilhas Sevii. Como fora ordenada uma centena de vezes, precisava ser simpática e convincente no entrevista que daria hoje. O arquipélago era uma aquisição recente por parte do governo de Kanto, e precisavam de todo o apoio político para que o lugar não se tornasse isolado e recluso, como acontecera com Johto. E isso significava que Kari deveria passar uma semana lá, se encontrando com personalidades famosas e participando de jantares beneficentes. O que definitivamente não era parte do sonho que havia produzido. Sempre achou quer ser Campeã significava tratar da Elite dos Quatro e dos líderes de ginásio, mas havia mais. Muito mais.

 - Está pronta. - Disse Sasha, se afastando e pegando o vestido que Kari deveria usar naquele dia. A garota fez um muxoxo e pegou a roupa, deixando a maquiadora sair do quarto. Uma olhada melhor fez ver que não havia espaço para Pokébolas naquele vestido. De fato, sequer havia visto sua equipe em dois dias. Como os outros aguentavam aquilo, se perguntou enquanto se vestia.

 Um pouco mais tarde, ela estava em um palanque, tendo acabado de recitar o discurso. Os jornalistas já estavam sentados, e a garota pigarreou para continuar.

 - E é por causa disso que acredito que, juntos, poderemos firmar nossas relações, para que no futuro o arquipélago Sevii seja tão parte de Kanto quanto as cidades do continente. Obrigada. - Agora era a hora das perguntas. Kari se espreguiçou, no limite de parecer desleixada. Um homem alto se levantou, segurando um bloco de papel na mão.

 - Senhorita Campeã, tenho uma pergunta. Recentemente houveram casos de dissidência entre as regiões insulares e continentais de Hoenn. Você acha que há chances disto acontecer aqui também? - O conflito em Hoenn era bastante conhecido, mesmo em Kanto. Era visível a preocupação do mesmo acontecer em outros lugares.

 - Creio que não. Há diversos fatores externos que contribuíram para esse problema lá em Hoenn. - Comentou distraidamente Kari, remexendo em seus papéis. - Além disso, há recursos governamentais exclusivos para que o mesmo não ocorra. Mais uma pergunta? - Perguntou ela, levantando a cabeça.

 - Eu. - Uma mulher alta se levantou. - Gostaria de saber o que podemos esperar de Kanto sobre os Rockets em nossas ilhas. - Kari arregalou os olhos. Ela realmente tinha ouvido o que tinha acabado de ouvir?

 - Eu... - Começou ela, pensando em milhares de outras coisas. Ela havia acabado com os Rockets, não havia? Giovanni estava foragido, e todos aqueles que participaram do ataque em Saffron acabaram presos. O que estava acontecendo ali? - Perdão, mas você tem certeza?

 - Claro. - Disse a mulher. - Há registros visuais de diversos civis na região. A minha pergunta é: você irá fazer algo em relação a isso? Pelo que eu saiba, o governo ficou de braços cruzados quando isso aconteceu em Kanto.

 - Não, claro.. - Comentou Kari, mais distraída do que o costume. - Iremos fazer algo. Tenha certeza.

 O resto da entrevista ocorreu de forma natural, mas a garota continuava com a mente ocupada. Os Rockets ainda existiam. Isso não poderia acontecer de nenhuma forma. Quem sabe o que fariam depois da derrota em Saffron? Precisava detê-los. Assim, logo depois do fim da entrevista ela saiu correndo para seu quarto, preparando sua mochila. Iria perseguir os Rockets por conta própria.

 - Indo algum lugar? - Ela se assustou e olhou para trás. Lance estava parado na porta, encarando-a com um sorriso no rosto.

 - Encontraram Rockets na ilha. Vou até lá resolver isso. - Ela tentou sair, mas o membro da Elite dos Quatro não se moveu.

 - Esse é um assunto da polícia. - Disse ele, estendendo a palma da mão. - É uma questão muito pequena para a Campeã de Kanto.

 - Que eu me lembre, os Rockets quase tomaram conta do continente, enquanto você ficou olhando. - Ela apontou para Lance, sentindo a raiva crescer dentro de si. - Se acha que vou deixar eles se reerguerem, está muito enganado.

 - Vou repetir para você: isso não é um trabalho para a Campeã. - Disse ele de forma mais severa. Kari o encarou, sentindo as semanas de frustração com o posto finalmente chegarem no ápice.

 - Quando eu era criança, eu achava que ser Campeão significava ser um exemplo para os outros treinadores. Um líder, não um fantoche. Não um peão político. - Ela se aproximou de Lance até os dois ficarem cara a cara. - Agora eu sou a Campeã. E vou fazer o que eu acho que um Campeão deve fazer. Vou agir em prol dos treinadores. E eu vou acabar com os Rockets.

 Ela saiu com passos pesados, batendo o ombro no braço de Lance. O membro da Elite dos Quatro ficou parado onde estava, parecendo pensativo. No entanto, Kari não parou para ver. Tinha algo a fazer.

 Algo que mudaria sua vida.

sábado, 7 de setembro de 2013

RN Nuzlocke LG: 46 - Os Dois Rivais

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN -

CAPÍTULO 46: OS DOIS RIVAIS

 Kari se levantou com um salto, suando por toda a extensão de seu corpo e respirando delirantemente. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz do luar que escapava pelas cortinas fechadas. Ela ofegou incontrolavelmente, sentindo o peito subir e descer tal qual um foile por baixo de sua camisa do pijama. Engoliu em seco de forma forçada e se levantou, arrancando bruscamente os lençóis por cima de seu corpo. A garota atravessou o quarto tropeçando e foi até o banheiro, fechando a porta atrás de si. Se ajoelhou perto da privada e vomitou, tremendo fortemente em seguida. Com a mão direita trêmula, apertou o botão da descarga e se apoiou na caixa d'água, se levantando com dificuldades. Andou um pouco para o lado e apoiou as duas mãos na pia, sentindo a cerâmica gelada pela palma das mãos, que ainda não cessaram seu movimento. Inspirou com força, tentando se controlar, e levantou o rosto para encarar sua face no espelho. Estava encharcada de suor, e o cabelo pingava com o líquido. Seus olhos estavam arregalados e a pele estava pálida. Ela abriu a torneira e jogou um pouco de água no rosto, pressionando-o com as mãos enquanto a água chiava. Esperou um pouco, massageando os olhos cansados, até que se sentiu inquieta demais para ficar parada. Foi até o quarto e olhou para o relógio na cabeceira, marcando cinco horas e alguns minutos. Não vou conseguir dormir, pensou ela, indo até o armário. Pegou um casaco de lã e um chinelo no chão, vestindo-os enquanto saía do quarto.

 Andou sem rumo até parar do lado de fora do edifício, sentindo a madrugada fria abraçá-la. Torceu as mãos em busca de calor, mas seguiu em frente, consciente do frio que sentia nas pernas. Se aproximou da pedra em que Sara havia meditado algumas noites atrás e começou a subí-la desajeitadamente. Quando chegou no topo, começou a espanar as coxas e as canelas, limpando a pele da sujeita instalada. Uma luz tenuê captou seu olhar e ela inclinou a cabeça, observando o sol começar a surgir no oeste. Acabou parada, assistindo-o preencher o horizonte em silêncio, banhando as montanhas no limite do Platô Indigo. Quando ele fosse embora, haveria um novo Campeão em Kanto.

 O pensamento fez seu estômago se retorcer, e ela quase vomitou novamente. Inspirou com força o ar fresco, aguardando alguns segundos até voltar ao normal. Era estranho, pensou finalmente depois do enjôo passar. Havia sonhado com esse momento há anos, e mesmo assim era uma surpresa cada vez que se lembrava de que estava perto de realizar seu maior sonho. Não conseguia pôr em palavras. O nervosismo que sentia já era sinal suficiente. Nunca acreditou que chegaria tão longe, de verdade. No entanto, só sabia que deveria seguir em frente. Não poderia parar ou desistir, como muitas vezes fez. Daria o seu máximo para ser a Campeã, não importando o que acontecesse.

 - Acordada tão cedo? - Disse uma voz familiar, e Kari quase caiu de onde estava. Se equilibrou com dificuldades e virou o rosto, enxergando o professor Carvalho parado ao seu lado, com as duas mãos nos bolsos do jaleco branco. A garota sorriu, feliz em reencontrá-lo.

 - Você sempre usa essa roupa? - Perguntou ela.

 - O hábito faz o homem. E pelo menos estou vestindo algo mais decente do que você. - A garota corou e puxou o casaco para mais perto do corpo, ao ponto que Carvalho apenas riu. - Você não mudou nada, Kari. Desde que saiu de Pallet, continua a mesma garota. - Ele parou por um momento para fitar o sol nascente. - Agradeço que você tenha me escolhido para ser seu padrinho. Pode não parecer, mas significa muito para mim.

 - Você que me iniciou nisso, professor. É a escolha mais óbvia. - Disse a garota do alto da pedra.

 - Para alguns... para alguns. Sabia que Gary também me escolheu para ser o padrinho dele? - Perguntou o homem, se virando para ela.

 - Eu imaginei. -Realmente, não conseguia pensar em mais ninguém que Gary escolheria. Por mais que o garoto reclamasse, não havia outra pessoa que tivesse o apoiado de forma mais intensa em toda sua vida.

 - Sim. O que me impede de fazer um discurso particular para vocês, pois você sabe como Gary reagiria. Ele provavelmente diria que o seu foi melhor. - Carvalho se virou, sorrindo e com os olhos fechados. - Portanto, vou dizer algo que serve para os dois. Vocês são o orgulho de Pallet. Desde que eu nasci não tínhamos uma safra tão promissora. Ambos foram tratados como jóias por nós, porque sabíamos do potencial que tinham. Eram crianças incríveis, e logo vimos que poderiam colocar nossa pequena cidade no mapa. Podem não ter percebido, mas cada um de nós estava com vocês em suas jornadas, rezando de longe. Vocês são o fruto de toda uma cidade, e principalmente da força interior de cada um. Ter os dois nessa situação é algo mágico para nós. São excelentes treinadores e excelentes pessoas. E, por mais que apenas um seja sagrado Campeão, saibam que nunca poderíamos estar mais orgulhosos dos dois. - Ele parou, e Kari aproveitou parar enxugar as pequenas lágrimas do rosto. De fato, não conseguia imaginar o quanto ela e Gary significavam para a pequena Pallet, principalmente agora que Kanto inteira estaria assistindo a luta dos dois.

 - Obrigada, professor. - Disse ela com a voz fraca.

 - Nãos seja por isso. - O rosto dele continuava alegre como sempre, mas a garota percebeu um brilho em seus olhos fechados. - Agora, vou procurar por Gary. Devo-lhe contar tudo que eu te disse, ou ele me matará. - Kari pensou em avisá-lo sobre o envolvimento do garoto com a equipe Rocket, mas se controlou. Era uma verdade que ninguém precisaria saber.  - Agora, vá descansar um pouco. Terá algumas horas para a decisão. - Com isso, ele se afastou em direção ao complexo. A treinadora aguardou alguns minutos a mais, observando o sol nascer. Quando ele já era completamente visível no horizonte, a garota desceu da pedra e andou até o quarto, com uma chama ardendo em seu peito.

- SENHORAS E SENHORES, BEM-VINDOS AO ÚLTIMO DIA DO TORNEIO DO CAMPEÃO DE KANTO! - Gritou o auto-falante, transmitindo o locutor que berrava para a platéia. Kari estava com o lado do corpo apoiado na parede, aguardando no corredor que levaria até a arena. Ela entraria pelo lado normal, enquanto Gary viria pelo lado da Elite dos Quatro. No entanto, não era isso em que a garota pensava. Estava se lembrando da menina que saiu de Pallet, tão diferente do que era agora. Se ainda fosse a mesma pessoa, já teria fugido há muito tempo, como quase fez no primeiro dia. No entanto, agora possuía algo a mais. Uma vontade quente, ferrenha, que ardia em sua alma. Havia demorado um pouco para se manifestar, mas lá estava ela. Como no dia em que derrotara os Rockets em Saffron. Seus olhos também queimavam, encarando a luz forte que vinha do outro lado. O céu estava claro e limpo.

Seu nome foi anunciado, e ela começou a andar pelo corredor. Enquanto dava seus passos, memórias começaram a surgir em sua mente. Da rota 1 até a visão do Platô Indigo que tivera perto de Viridian. Do acidente na floresta e de Brock. Do monte da Lua e os Rockets, passando por Cerulean, a Ponte Dourada e a mansão de Bill. De Misty e da dor, Bernard e a perseguição contra o Rocket. De Vermilion, do S.S.Anne, de Gary e de Surge. Se lembrou da caverna escura e da cidade fantasma, assim como a grande Celadon. Erika e, novamente, os Rockets, assim como Fuji. Se recordou de Saffron, de Koga, de Sabrina, e de Giovanni. De Articuno, Zapdos e Moltres. De Blaine e Giovanni. Das ilhas Sevii e do Caminho da Vitória. E, finalmente, da Elite dos Quatro. Havia superado todos aqueles desafios, muito mais do que era esperado. Achou forças de onde achou que não tinha, dor de lugares que não esperava e valores do fundo de si. E conheceu companheiros. Os que haviam partido e os que haviam ficado.

 Olhou para o lado, acompanhada por sua equipe e pelos fantasmas dos que partiram. De Bernard, que mal tivera sua chance. De Nala, que havia salvado sua vida. De Felicia, um doce. De Wanda, que sempre provou seu valor. Também estavam com ela os vivos, os combatentes do dia. Sophie, a novata que não havia falhado uma vez. Sakura, o monstro hiperativo. Zelda, a cabeça-quente que não desistia nunca. Sara, a sábia. Liz, a calma. E Kenichi, o primeiro companheiro.

 Kari entrou com eles no estádio, sendo saudada pelas milhares de pessoas que se esperneavam. Do outro lado, Gary também adentrava o lugar. Os dois se encaminharam até o meio da arena, constituída de apenas uma marcação de cal no chão de terra e uma piscina no círculo central. Os filhos de Pallet se encararam, alheios à platéia gritando. Olharam um nos olhos do outro, vendo seus medos e sonhos refletirem. Não havia mais nada a dizer. Ambos sabiam o quão importante esse título era para o outro. Os dois precisavam provar seu valor, para os outros e para si mesmos. Apertaram as mãos, tentando quebrar os dedos do adversário, e se viraram para voltar aos seus respectivos lugares. Kari ouviu um sussurro de Gary, trazido pelo vento leve. Eu sou o melhor treinador de Kanto. E hoje irei provar. É o que veremos, pensou a garota. Também confiava bastante em seu taco.

 Quando finalmente se posicionaram, respiraram fundo em sincronia. Ao mesmo tempo, pegaram suas Pokébolas em movimentos espelhados. Juntos, começaram a batalha que iria decidir suas vidas.

 - Hermes. - Disse Gary, controlando cada timbre da voz.

 - Sara. - Disse Kari, imprimindo toda a vontade que tinha em suas palavras.

 Silêncio. Até a platéia diminuiu a algazarra enquanto os dois treinadores se encaravam, mesmo com a distância entre eles. O sol os iluminava, enquanto ambos reviviam o caminho e os embates que tiveram com o outro. Não chegariam até ali se não fosse pelo rival. Eram uma máquina, movidos pelo desejo de serem melhores do que o adversário. E hoje, finalmente decidiriam essa batalha que durava anos. Mais silêncio, e as Pokébolas tremiam em suas mãos. Então, o grito de guerra.

 - EU ESCOLHO VOCÊ! - Berraram, imprimindo tudo que tinham ao som e às Pokébolas, que conjuraram os primeiros combatentes. Suas mãos foram instintivamente até a Pokédex em seus pulsos, em um movimento tão natural e instintivo que nem precisava ser narrado. Os dois Pokémon avançaram, e Sara começou a retirar pedaços do chão com a garra enquanto corria. Naquele momento, no entanto, o Pidgeot bateu as asas, jogando areia nos olhos da adversária. Ela levou a mão ao rosto, lançando as pedras que havia retirado em uma direção aleatória, errando seu alvo.

 - Sara! - Gritou a treinadora, e mais uma vez Hermes jogou areia na Sandslash, que tentava esfregar o rosto rapidamente. Ela deve estar quase cega, pensou Kari, sentindo o coração apertar. No entanto, Sara retirou pedaços da arena novamente, desta vez acertando a asa direita do Pidgeot, que caiu no chão. A Pokémon aproveitou o tempo para limpar o excesso de areia nos olhos.

 - Sem descanso, Hermes! - Ordenou Gary, mas antes que o Pidgeot alçasse vôo, Sara já estava pulando em cima dele. O adversário não se intimidou e disparou contra ela, provocando um choque em pleno ar. Logo depois do impacto Hermes já estava novamente em cima, desta vez girando o corpo e fazendo cair uma chuva de penas em cima da Sandslash.

 O Pidgeot mergulhou, e Sara pulou para se chocarem mais uma vez, desta vez derrubando os dois no chão. A Pokémon de Kari tentou arrancar um pedaço do chão novamente, mas Hermes se recuperou antes, jogando-a para longe. Ela caiu perto do centro, e a treinadora sentiu algo estranho no ar. A Sandslash não aguentaria outro golpe. Olhou temerosa para ela, vendo-a se levantar com dificuldades. No entanto, um borrão no céu estava se aproximando.

 - SARA! - Gritou Kari, mas não havia tempo de reação. Hermes a acertou com força novamente, fazendo-a voar uma dezena de metros antes de cair, imóvel. Para a treinadora, o mundo parou. Não, pensava ela. Não, não, não, não. Não pode ser. O grito ficou apertado em sua garganta, e sentiu as lágrimas começarem a se formar no rosto. Por favor, Sara não, rogou ela a quem escutasse.

 Eis que a Sandslash se moveu um pouco, tremendo o braço direito. Kari estancou, observando-a se levantar com esforço. No entanto, Hermes voltava a mergulhar em sua direção. A treinadora pensou em gritar algo, mas Sara apenas girou o corpo, jogando os pedaços da arena embaixo de si no adversário. Ele foi atingido em cheio e caiu, também com extremas dificuldades de se manter em pé. A platéia rugia.

 A garota recuou Sara e colocou Sakura na batalha, enquanto que o rival curava seu Pidgeot. A Jolteon imediatamente despejou uma descarga elétrica gigantesca em Hermes, que desta vez caiu sem chances de se recuperar. Gary estava com um a menos, mas Sara estava muito ferida para ser utilizada novamente. Continuavam empatados.

 O treinador invocou seu Rhydon, e a garota rapidamente trocou Sakura por Liz. A Wigglytuff mal pisou no chão quando começou a invocar um pulso d'água em seus punhos, atirando-o contra o adversário. O Pokémon de Gary recuou com o impacto, mas depois começou a rir.

 - Era só o que me faltava. Uma fadinha querendo brincar com os garotos grandes. - Ele andou na direção dela, e o contraste em seus tamanhos se mostrou extremamente visível. A sombra do Rhydon cobriu a pequena adversária, que não se moveu. - Que tal você dar a volta e fugir, para que eu não tenha que te matar? - Kari rangeu os dentes, prestes a responder, mas sua Pokémon fez isso antes.

 - Peço perdão, mas creio que isso não vá ser possível. Minha treinadora deixou claro que confia em mim, e não irei falhar agora. - Com isso, Liz conjurou outro pulso d'água, atingindo o peito do Rhydon com o projétil. Ele caiu pesadamente no chão, derrotado. Agora Kari tinha a vantagem.

 Isso claramente não era agradável para Gary, que começava a ficar desesperado. - Merlin, vamos virar o jogo! - Gritou, invocando seu Alakazam. Se é para pegar pesado, pensou Kari enquanto recuava Liz, que seja. Assim, lançou outra Pokébola, e Kenichi entrou na partida.

 No entanto, desta vez foi a equipe de Gary que tomou a iniciativa. Merlin colocou as duas mãos na cabeça e um raio rosa foi disparado, atingindo o corpo do Charizard. Ele caiu no chão, grunhindo. Seu corpo tremeu momentaneamente, mas Kenichi abriu as asas, mascarando qualquer fraqueza. Em seguida disparou contra o adversário, derrubando-o com suas garras. Os olhos do Alakazam ficaram rosas, e Kari sabia muito bem o que era aquilo. Um golpe viria no futuro.

 - Kenichi, acabe com ele logo! - Gritou a garota, e o corpo do Charizard começou a brilhar em vermelho. Ele gritou e seu corpo explodiu em chamas, que envolveram o adversário. Quando elas cessaram, Merlin estava derrotado.

 - Titã! - Gritou Gary, e seu Pokémon inicial entrou em combate. Kari recuou Kenichi e lançou Sakura na arena.

 - Sakura, temos que acabar com isso rápido! - Ordenou a garota, com medo do ataque do Alakazam. A Jolteon tremeu, se concentrando para invocar uma pequena nuvem dos céus, que em seguida despejou um relâmpago. No entanto, o Blastoise pulou na água, escapando do ataque.

 - Acho que elas querem um pouco de chuva, Titã! Vamos ajudá-las! - Gritou Gary, e seu Pokémon começou a nadar de forma rítmica na piscina. Nuvens carregadas começaram a se formar ridiculamente rápido nos céus,  e uma chuva torrencial começou a cair. As gotas eram pesadas e doloridas, forçando Kari a proteger a cabeça com o braço esquerdo.

 - Ele está maluco. - Sussurrou ela para si mesma. Com aquelas nuvens, Sakura nunca iria errar seus golpes. - Acabe com ele, Sakura! - Gritou. A Jolteon invocou um trovão, desta vez com muito mais facilidade, que atingiu em cheio o rival. A treinadora se virou para o rival. - O que você pretendia fazer com esse movimento? - Gritou, tentando ser ouvida através da chuva forte.

 Naquele momento, algo frio desceu pelo seu esôfago. O sorriso de Gary apenas confirmou essa questão. Desesperada, a garota se virou para a piscina, rezando com todas as suas forças mentais. Para seu terror, no entanto, o Blastoise continuava em pé.

 - Sakura, você precisa...! - Já era tarde demais. Pokémon aquáticos tinham uma profunda interação com a umidade do ambiente, e a chuva aumentou exponencialmente essa ligação. Titã mirou seus canhões e disparou um jato torrencial, duas vezes maior do que o normal. O jato acertou a Jolteon em cheio, e ela foi arremessada contra a parede do estádio, que rachou com o impacto. O golpe passou do lado de Kari, que observou em transe um borrão amarelo no meio de toda aquela água. A treinadora se virou como num sonho, e correu até onde sua Pokémon havia caído.

 Quando chegou perto o suficiente, caiu de joelhos na lama. O pequeno corpo da Jolteon estava imóvel. Kari estendeu a mão trêmula, com as lágrimas misturadas com a chuva. Sakura, sempre tão animada e agitada, não se levantou. Seu mundo parecia incapaz de girar, até que uma voz cortou o ar e chegou até seus ouvidos. Uma voz agora odiosa.

 - Pronta para desistir, Kari? - Disse Gary, com a voz pingando de desprezo. A mão da garota fechou em um punho trêmulo, e os olhos voltaram a derramar lágrimas, mas ambas agora eram de raiva. Pura e profunda raiva. Virou a cabeça com truculência, sentindo os curtos cabelos molhados balançarem na chuva forte e os dentes trincados. Ela encarou o rival com todo o ódio que possuía dentro de si, levantando de uma vez.

 - Kenichi. Acabe com ele. - Disse ela entre os dentes, invocando novamente seu Charizard. Naquele momento, o golpe do Alakazam se manifestou e acertou o Pokémon, que nem se importou. Havia muito mais em jogo naquele momento.

 - Com prazer. - Disse o Charizard, disparando contra o Blastoise. Ele atravessou a chuva, tão rápido que era apenas uma mancha laranja. Titã tentou se preparar para disparar outro golpe, mas Kenichi foi mais rápido. Derrubou-o no chão apenas com sua garra, arrastando-o na lama por vários metros. No final, suas asas se abriram em vitória, enquanto o adversário continuava caído, derrotado.

 - NÃO! - Gritou Gary, invocando seu Arcanine, ao ponto em que Kari trocou Kenichi por Sophie. A treinadora não estava mais pensando, apenas reagindo ao ambiente. Seus punhos ainda tremiam pelo que acontecera, mas ela andava firme em direção ao seu lugar na arena.

 O Arcanine olhou ameaçador para a Lapras e soltou uma rajada de chamas que engolfaram a adversária. Sophie, por sua vez, aproveitou a umidade da chuva para disparar um possante jato d'água, que derrubou o Pokémon de Gary com apenas um golpe. Faltava apenas um.

 - Kenichi. - Disse Kari, substituindo Sophie pelo Charizard enquanto Gary lançava seu Exeggutor. - Vamos acabar com isso de uma vez por todas. Chega de mortes, chega de quedas. VAMOS SER OS CAMPEÕES AGORA! - Ela gritou do fundo de seus pulmões e Kenichi rugiu, se destacando na chuva que continuava a cair. A treinadora lançou um restaurador nele, enquanto que o Exeggutor disparava uma bomba. Ela atingiu o Charizard, que não se moveu. Naquele instante, o céu começou a se abrir, lançando um raio de luz em Kari e seu Pokémon. Ambos tremiam e trincavam os dentes, e os dois tinham um brilho forte no olhar, tão impressionante que era captado até mesmo na platéia, que estava estática.

 - Não, não... - Disse Gary, dando um passo para trás.

 - Kenichi... - Começou Kari, aumentando o tom da voz em cada palavra. - ... Por todo mundo que nos acompanhou até aqui... por todos aqueles que caíram e pelos que ainda estão conosco... vamos realizar o nosso sonho... agora. - O Charizard começou a brilhar em vermelho, iluminando todo o estádio. - KENICHI! EXPLOSÃO DE CHAMAAAAAS! - Ela continuava gritando quando seu Pokémon explodiu em labaredas, que preencheram toda a arena. Gary caiu para trás, assombrado pela magnitude do ataque, enquanto que Kari se mantinha gritando. Kenichi também gritava, e ambos entregavam tudo de si, explodindo o peito e liberando o que haviam guardado desde Pallet. O grito da vitória.

 No final, o Exeggutor estava no chão. Kari e Kenichi respiravam fundo, e nenhum dos dois parecia ter captado o que havia acabado de acontecer. Foi apenas quando a torcida explodiu e se tornou clara que ambos estocaram, arregalando os olhos. Eles se encararam, e a garota viu o pequeno Charmander estressado e agitado, e o enorme Charizard que estava à sua frente. O Charizard, por sua vez, viu a criança que saiu de Pallet, instável e explosiva, e a mulher que ainda continuava explosiva, mas havia conquistado a força interior. Os dois sorriram, e esse sorriso ficou ainda maior no momento em que o narrador anunciou pelos auto-falantes:

 - SENHORAS E SENHORES... TEMOS UMA NOVA CAMPEÃ DE KANTO!

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

RN Nuzlocke LG: 45 - O Dragão

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN - 

CAPÍTULO 45: O DRAGÃO

 Kari estava sentada em um banco, com mãos juntas e os dedos entrelaçados, apoiando o queixo de forma suave. Do outro lado, na arena, um treinador estava sendo massacrado por Lance. Lance Wayne, o Dragão. Era o membro da Elite dos Quatro que estava há mais tempo na formação, e por breves períodos de tempo atuou como Campeão Interino, inclusive naquele torneio. Não havia um rosto mais reconhecido ou idolatrado em toda Kanto, muito pelo fato de que Red, o ex-Campeão, fosse muito recluso. Isso contrastava com o carisma natural de Lance, que acabou se tornando a figura pública do Platô Indigo, apoiado por uma das equipes mais temidas de toda a Liga. No entanto, mesmo prestes a enfrentar um de seus maiores ídolos da infância, Kari não conseguia pensar nele. Sua mente estava divagando, em torno de um eixo chamado Gary.

 O garoto de Pallet havia derrotado Lance um pouco antes, e caso ninguém mais avançasse, ele seria consagrado o Campeão segundo as regras daquele ano.  E a única coisa que tinha chances de impedí-lo agora era Kari. De alguma forma, era bastante estranho, estar tão perto de seu objetivo quanto agora. Apenas duas batalhas a separavam do título. Seu estômago se contorcia lentamente, e seu coração quase escapava de sua boca. Não podia deixar seu sonho escapar. Principalmente para Gary.

 Ela demorou um pouco para perceber que seu nome estava sendo anunciado no auto-falante. Se levantou em um salto, andando com os passos firmes para a saída. Durante sua curta caminhada, balançou a cabeça com força. Nada adiantaria se fosse derrotada por Lance, portanto devia se concentrar em sua próxima luta. Afinal, não importando quem fosse o Campeão, a última batalha seria a dela. Com um sorriso no rosto, ela adentrou a arena.

 O sol naquele dia estava forte, mesmo enfiado entre as nuvens, lançando seus raios bem nos olhos da garota. Piscou forte para recuperar a visão, e quando voltou a enxergar encontrou a arena mais simples da Elite dos Quatro. Havia apenas oito figuras de mármore parecidas com dentes de dragão, cada uma em uma parte do estádio. Uma delas, inclusive, estava bem em frente à Kari, e uma pequena escada surgia de suas costas. A treinadora subiu pelos degraus até ficar no topo do dente curvado para a arena, mais ou menos três metros acima do chão. Ela encarou o campo de batalha propriamente dito, um mar de areia vermelha com um grande lago no centro. E do outro lado, Lance estava em pé e de braços cruzados, no topo de seu próprio dente de dragão.

 A torcida gritava ansiosa, no entanto dividida. Caso a garota passasse por Lance, haveria mais uma batalha, mas a idolatria pelo homem era tamanha que mesmo assim eles não conseguiam torcer contra ele. Ela esperou o membro da Elite dos Quatro começar seu discurso, esfregando nervosamente as mãos.

 - Eu tenho acompanhado suas lutas, treinadora. - Começou finalmente o homem, conseguindo calar a platéia facilmente, tamanho o respeito que tinham por ele. - E creio que tenha ouvido falar de mim. Meu nome é Lance. Lidero a Elite dos Quatro, e sou o Campeão Interino, pelo menos por mais alguns minutos. Domino a difícil arte de treinar dragões, os Pokémon mais ferozes e poderosos de todo o planeta. São virtualmente indestrutíveis, e aniquilarão qualquer coisa em sua frente. - Ele ajeitou os pés para trás, preparado para a batalha. Mesmo com aquela distância, Kari conseguiu sentir a aura feroz em volta do treinador. Ele estava em um nível completamente diferente dos outros membros da Elite dos Quatro. Essa pressão fez com que a garota acordasse de seu transe, se concentrando completamente na luta à frente. Um erro seria seu fim. - Preparada para perder? - Disse ele, encarando-a com seus olhos castanhos. - Sua caminhada na liga termina aqui!

 Os dois pegaram suas Pokébolas e lançaram seus combatentes ao mesmo tempo. O enorme Gyarados de Lance se agigantou no lago central, que mais pareceu uma piscina de criança com o tamanho enorme do Pokémon. Sua figura se contrastou terrivelmente com a pequena Sakura, que o encarava de baixo. A diferença de altura foi o suficiente para que a Jolteon desse um passo para trás, temerosa. Kari não podia dar essa chance.

 - Sakura, você só precisa de um ataque! - Gritou a treinadora do alto de seu pilar. A Pokémon firmou os pés na areia e conjurou uma enorme descarga elétrica de seu corpo, que acertou o adversário em cheio. Ele até tentou ficar em pé, mas a dupla vantagem que o golpe tinha era demais. O Gyarados caiu para trás, espirrando água para todos os lados, chegando a alcançar seu treinador.

 Lance, por sua vez, não deu trégua. Ele imediatamente lançou seu Dragonair, e Kari trocou Sakura rapidamente por Sophie. Os dois caíram na água, mas a luta durou apenas poucos segundos. A Lapras conjurou um raio de gelo da boca, não dando chance do adversário nem sequer mergulhar.

 A platéia gritava, e o membro da Elite dos Quatro ficava quieto. Ele chamou seu Aerodactyl, ao ponto que Kari voltava com Sakura. A Jolteon começou novamente atacando, desferindo uma descarga elétrica contra o adversário. No entanto, ao contrário do Gyarados, ele ficou em pé, e encarou a pequena Pokémon com um olhar assustador.

 - Sakura, mantenha sua posição! - Gritou Kari. Lance jogou um restaurador para seu Pokémon, que disparou contra a adversária. A Jolteon ficou aguardando até o último momento, quando conjurou um relâmpago do céu. O raio caiu em cima de seu próprio corpo, e a descarga consequente acertou o Aerodactyl. Ele acabou caindo no chão, desacordado.

 Lance pareceu ter perdido um pouco de seu controle, e novamente invocou um Dragonair, que foi derrotado da mesma forma que o anterior por Sophie. Agora só restava um dragão.

 - Acho que você soube encontrar minhas falhas. - Disse ele, recuperando um pouco de sua respiração serena. - Já entrei em muitas batalhas para saber o que vai acontecer agora. No entanto, não irei deixar as coisas mais fáceis para você. - Ele lançou sua última Pokébola, e um enorme Dragonite foi invocado na arena. Sophie o encarou sem piscar. - Dragonite, se proteja! - Gritou o treinador.

 O Pokémon franziu o rosto e uma camada brilhante circulou seu corpo, protegendo-o de um congelamento por parte dos golpes da Lapras. No entanto, Sophie não precisaria disso. Ela conjurou seu raio de gelo, que derrubou o Dragonite dos céus com apenas um golpe. Nas arquibancadas, a torcida rugia. O título de Campeão seria decidido por dois participantes da pequena cidade de Pallet, que  segundo os jornais haviam começado suas jornadas no mesmo dia. Parecia algo saído de algum livro. Kari se virou e desceu os degraus com o corpo leve. Havia derrotado Lance, seu ídolo de infância, quase sem dificuldades. Enquanto ela andava até a porta, com os pensamentos a mil, foi parada por uma mão em seu ombro. Se virou, vendo o membro da Elite dos Quatro ao seu lado, e não conseguiu controlar o rubor em seu rosto.

 - Ouvi sussurros de Koga e Sabrina... sobre uma garota que derrotou a Equipe Rocket quase sozinha. E a descrição dela batia com o que estou vendo agora. - Com o rosto ainda mais vermelho, Kari acenou discretamente a cabeça, fazendo Lance sorrir e cruzar os braços. - Embora eu não possa fazer nada oficial, queria agradecê-la. Infelizmente estive preso aqui, resolvendo questões políticas, por isso não pude ajudar. No entanto, sua coragem e valor não passarão despercebidos por mim. Se existe algum favorito meu para a disputa de amanhã, com certeza é você. - Com essa frase ele saiu, deixando a garota parada, sem entender direito o que havia acabado de acontecer. Lance havia expressado gratidão e admiração por ela? Em que planeta estava. Não conseguiu controlar um sorriso, que se espalhou abertamente pelo seu rosto.

 No entanto, quando se virou para a saída, seus lábios encolheram. Gary estava apoiado na parede, encarando-a com raiva controlada. Pelo visto ele estava preparado para ser consagrado o Campeão naquele mesmo dia, mas a garota novamente o impediu disso. Ele se virou com truculência, voltando para os aposentos dos treinadores. Kari ficou onde estava, fechando os punhos com força. Estava quase lá. O título de Campeã nunca esteve tão perto, mas o mesmo podia ser dito para Gary. Os dois orgulhos de Pallet se enfrentariam pela última vez, e as apostas nunca estiveram tão altas.

 Porque amanhã alguém realizaria seu sonho.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

RN Nuzlocke LG: 44 - Fantasmas

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN - 

CAPÍTULO 44: FANTASMAS

 Kari estava perto da porta de entrada, andando em círculos nervosamente. Do outro lado, na arena, um treinador estava sendo massacrado por Agatha. Apenas duas pessoas haviam passado até agora, uma delas Gary, o que não era um retrospecto animador. A garota sentia o coração na boca, e o estômago repleto de algo pesado e gelado. Desde que se lembrava, havia temido Agatha Johnson. A membro da Elite dos Quatro abusava de golpes de hipnose e absorção, fazendo com que um erro significasse o torneio. Havia avisado sua equipe sobre esse problema, mas desconfiava não ser o suficiente. Seu nome foi chamado no auto-falante, fazendo-a saltar. Engoliu em seco e avançou, encontrando um dia mais nublado do que os anteriores.

 A primeira coisa que percebeu foram os túmulos. Natural de Lavender, Agatha já estava acostumada com a decoração macabra, mas pouquíssimos treinadores estariam. A arena era delimitada por lápides brancas, e em cada uma havia o nome de um treinador que havia caído nessa luta. Kari temeu que seu nome estivesse ali no ano que vem, e desviou o rosto, nervosa. A torcida ainda gritava, mas em níveis muito mais baixos do que os dois primeiros dias. Era como se Agatha os amedrontasse.

 Ao desviar o rosto, Kari percebeu que a membro da Elite dos Quatro estava bastante próxima dela, aparecendo tal qual um fantasma.

 - Olá, querida. - Disse ela, estendendo a mão. - Meu nome é Agatha, e serei sua adversária hoje.

 - Ah... oi. - Grasnou Kari sem jeito, apertando a mão dela. Para uma mulher tão velha, ela tinha um aperto firme. 

 - É um ano interessante, não? Os dois pupilos de Carvalho competindo para serem Campeões. - Falou ela de forma lenta, estendendo o olhar até a platéia.

 - A senhora conhece o professor Carvalho? - Perguntou a garota incrédula. Nunca havia ouvido falar nisso.

 - "Professor"... - Algo em sua voz exalava o desprezo, Kari percebeu. - Ele era um excelente treinador, sabia? Carvalho, digo. Quando era jovem e bonito. Tinha o Tauros mais feroz que já vi em toda a minha vida. Por muitos anos, muito antes do torneio da Elite dos Quatro, era cotado para ser o melhor treinador de Kanto. Só que a guerra o fez mudar. - Os olhos dela se desfocaram, como se estivessem revivendo memórias antigas. - Depois disso, ele desistiu das lutas. Um desperdício, se quiser ouvir minha opinião. Tinha potencial para muito mais.

 - Eu... - A garota não sabia o que falar, hesitando na escolha das palavras. Naquele momento, Agatha a encarou com o olhar firme, fazendo a mulher mais jovem recuar.

 - No entanto, ainda mantemos contato. E ele falou muito bem de você. - Kari sentiu o rosto corar. - Uma excelente treinadora, disse ele. Com o maior potencial que ele já presenciou. Isso é o que veremos. - Um estranho brilho ardeu nos olhos da membro da Elite dos Quatro. - Vou te mostrar como uma treinadora de verdade luta. 

 Ela se virou, começando a caminhar até seu posto. Kari respirou fundo, sentindo algo crescer dentro de si. Até então estava muito nervosa para juntar auto-confiança, mas as palavras do professor Carvalho a deram força. Não podia decepcioná-lo. Assim que Agatha se posicionou, as duas sacaram suas Pokébolas. 

 - Gengar. - Disse a treinadora mais velha pelo microfone, e seu Pokémon foi invocado. Diferente de Bruno, ela gostava de começar as batalhas com força total. Do outro lado, Kari também.

 - Liz, acabe com ele. - A Wigglytuff mal pisou na arena quando o adversário atacou. O Gengar começou a tremer e se dividir, fazendo com que suas cópias preenchessem um círculo em volta de Liz. Era a mesma tática que Surge havia usado no ginásio de Vermilion, e embora tivesse sido Sara quem derrotou as cópias, a treinadora tinha confiança de que seus outros Pokémon pudessem fazer a mesma coisa.

 E a confiança se provou acertada. Liz encarou as cópias e levou as mãos à cabeça, liberando um raio de energia psíquica contra uma delas. O Gengar foi jogado para trás, e todos os outros clones desapareceram de uma vez só. Do outro lado, Agatha bateu o cajado de madeira que usava com força no chão.

 - É isso que te ensinei? Seja mais condizente ao status de membro da Elite dos Quatro! - Gritou ela para seu Pokémon. O Gengar se levantou e também levou as mãos à cabeça, soltando uma onda roxa que produzia um som agudo. Liz quase caiu para trás, se desequilibrando desajeitadamente. Era um raio de confusão.

 - Você está bem? - Perguntou a garota, percebendo a abertura que a confusão fornecia. O adversário logo avançou para atacar, mas Liz balançou a cabeça e se recuperou por alguns instantes, o bastante para atacar o Gengar novamente com o raio rosa, milésimos de segundo antes de ser atingida. Ele caiu longe, destruindo um dos túmulos. Havia sido derrotado.

 - Não fique petulante. - Disse Agatha, liberando sua Arbox. Kari substituiu Liz por Sara, que se viu quase embaixo da enorme adversária. A Arbok sibilou, e mesmo de onde estava a treinadora conseguiu sentir a intimidação. Não era um Pokémon comum.

 Só que Sara também não era. Antes que a membro da Elite dos Quatro fizesse alguma coisa, a Pokémon de Kari bateu os dois braços no chão, provocando um novo terremoto localizado. A Arbok caiu em um buraco, guinchando na direção da Sandslash. No entanto, o deslizamento de terra conseguiu desestabilizar seu equilíbrio, fazendo com que também errasse. Sara aproveitou o momento para atacar novamente com o terremoto, retirando mais um Pokémon de Agatha da partida.

 A mulher mais velha tentou contra-atacar rapidamente com uma Golbat, mas Kari já havia substituído Sara por Sakura, que eletrocutou o adversário quase instantaneamente. A platéia entrava em delírio, superando o clima fúnebre, e Agatha ficava em fúria.

 - Haunter. Acabe com isso. - Cuspiu ela, parecendo querer controlar cada palavra que saía de sua boca. Kari colocou sua última estreante no torneio, Zelda, para enfrentá-lo. A Golbat começou na ofensiva, mordendo o fantasma, que foi derrubado. Enquanto ele estava no chão, a Pokémon de Kari atacou com suas asas, jogando-o para longe.

 O Haunter se levantou, lançando um olhar fulminante para Zelda, que ficou ainda mais irada. Ela avançou, mas não antes de Agatha lançar uma poção para seu Pokémon. No entanto, isso não impediu a Golbat de golpeá-lo duas vezes com suas asas, lançando-o ao chão novamente. Os olhos do Haunter começaram a brilhar em rosa, e Kari sabia muito bem o que aquilo significava. Hipnose. Torceu os dedos, esperando que Zelda se lembrasse o que fazer. Felizmente, isso aconteceu. A Golbat recuou, girando o corpo em velocidade para escapar das ondas hipnóticas. Por outro lado, Agatha novamente curou o membro de sua equipe.

 - Ah, que saco! - Gritou Zelda, avançando furiosamente. Ela mordeu duas vezes o Haunter com raiva, no entanto ele já começava a se preparar para a hipnose novamente. Kari gritou, sentindo o coração apertar, prevendo a falha da Golbat. Não havia espaço para esquivar do ataque.

 Só que, novamente, Zelda tinha tudo sobre controle. No curto espaço de preparação do Haunter, ela avançou em vez de recuar, mordendo-o antes que ele pudesse completar o golpe. O Pokémon desmaiou com esse último golpe, significando que Agatha estava em seu último membro.

 O que não significava que o perigo tinha passado. A membro da Elite dos Quatro liberou seu outro Gengar, muito mais forte do que o primeiro. Kari recuou Zelda e decidiu também apelar com seu peso-pesado, invocando Kenichi para a luta. No entanto, desta vez foi o Pokémon de Agatha que tomou a iniciativa. Ele disparou seus raios hipnóticos, e se não fosse pela velocidade de reação de Kenichi, ele teria caído nessa. Felizmente o Charizard conseguiu se proteger, avançando para desferir um golpe com suas garras.

 O Gengar, desesperado, tentou hipnotizar o adversário novamente, mas Kenichi já havia se afastado, juntando forças para lançar seu principal golpe, explodindo em chamas. As labaredas engulfaram a arena, e quando se aquietaram, o resultado estava claro. Kari havia avançado.

 Desta vez não recebeu nenhuma conversa, visto que Agatha se afastou irritada. Enquanto a torcida delirava, Kari não conseguiu evitar a animação. Estava quase lá. Apenas Lance estava em seu caminho.

 O título de Campeã parecia alcançável pela primeira vez na vida.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

RN Nuzlocke LG: 43 - O Mestre Lutador

RECINTO NERD NUZLOCKE - LEAF GREEN - 

CAPÍTULO 43: O MESTRE LUTADOR

 A torcida fazia a festa enquanto Kari entrava na arena, bem mais tranquila do que no dia anterior. Havia conseguido até mesmo uma boa noite de sono. O fato era que seu próximo adversário era a menor das preocupações dela na Elite dos Quatro. Assistira a várias batalhas dele para perceber que o treinador era um pilar de força bruta, mas não possuía tanta estratégia quanto os outros. De qualquer jeito, não podia se desconcentrar. Um vacilo iria destruir suas chances de ser a Campeã.

 A arena hoje era bastante simples, composta de areia e cal para delimitar as marcações, além de quatro pilares brancos e imponentes, cada um em um canto da arena. Bruno Blaustein, o segundo membro da Elite dos Quatro, Lutador Mestre, estava sentado do outro lado, com as pernas cruzadas e olhos fechados, até que Kari entrou em seu lugar.

 - Eu treinei a minha vida inteira para entrar na Elite dos Quatro. - Começou ele, levantando lentamente. - Cada Pokémon meu chegou ao limite. Kari! - Ele a encarou, e mesmo do outro lado da arena ela pôde sentir o olhar determinado. - Nós vamos te esmagar!

 Isso é o que veremos, pensou a garota enquanto pegava uma Pokébola. Tinha passado a noite inteira revisando sua estratégia, mas ela ainda precisava de uma boa dose de sorte, não importava o que pensasse. Afinal, era um membro da Elite dos Quatro, não havia forma garantida de vencê-lo. Estava entrando no clássico embate cérebro contra músculos. 

 - Onix! - Começou Bruno, e o enorme Pokémon ocupou quase toda a metade da arena. Kari soltou um sorriso e liberou Sophie, que desta vez não reclamou da ausência de água no lugar. 

 - Sophie, você sabe o que fazer! - A Lapras esticou o pescoço para trás e lançou uma enorme torrente d'água em forma de onda, englobando quase todo o adversário. O Onix caiu pesadamente, visivelmente desacordado. Bruno ainda tentou surpreendê-la, lançando outro Onix que avançou em velocidade, mas foi derrotado da mesma forma que o anterior. A torcida rugiu e fez a festa, mas Kari sabia que as coisas só haviam começado agora.

 Bruno lançou seu Hitmonchan, ao passo que a garota trocou Sophie por Sara. Era ali que a sorte entrava em jogo. - Sara, quebre tudo! - Gritou.

 A Sandslash imediatamente obedeceu, batendo com as duas mãos na arena. O chão começou a ruir na direção do adversário, que caiu na fissura que foi causada. O estrago foi tão grande que um dos pilares se inclinou, ameaçando cair. Bruno, no entanto, nem sequer se moveu. A treinadora por sua vez respirou um pouco melhor. O Pokémon dele estava preso.

 Quem dera. O Hitmonchan surgiu do chão, acertando um soco extremamente potente, de baixo para cima, no queixo de Sara. Ela voou no ar bem alto, parecendo desacordada. Kari ficou com o coração na boca, principalmente quando o Pokémon de Bruno saltou para continuar seu ataque. - Sara! - Gritou a garota.

 Quando o Hitmonchan se aproximou, no entanto, Sara girou no ar, acertando-o na cabeça. Os dois caíram em seguida, mas apenas a Sandslash saiu acordada. Kari respirou um pouco mais aliviada.

 O Mestre Lutador, do outro lado, avançou com seu Hitmonlee. Sara girou a cabeça, e seu olhar pareceu se fixar em um dos pilares. Ela imediatamente correu, se abaixando para desviar da perna elástica do adversário. Quando se aproximou de seu objetivo, começou a subir a estrutura vertical, novamente se esquiando de um ataque. Quando atingiu a altura certa ela saltou de encontro ao Hitmonlee, acertando-o com as garras quando caiu. A platéia rugiu.

 O Hitmonlee, no entanto, não estava derrotado. Ele usou suas pernas retráteis para atacar Sara, lançando-a verticalmente para o céu. Kari esticou o pescoço para cima, vendo sua Pokémon subir cada vez mais alto. Olhou para baixo e viu o adversário dela girar o corpo, mais uma vez prestes a desferir um golpe. Pensou em gritar, mas algo fez com que sua voz entalasse na garganta. Sara havia escapado de situações muito mais perigosas do que essa. De alguma forma, a treinadora confiava no que a Sandslash iria fazer.

 A perna retrátil do Hitmonlee subiu aos céus, mas ao invés de ser acertada por ela, Sara novamente girou o corpo, segurando o calcanhar do adversário. O Pokémon de Bruno pareceu entender o que ela queria fazer, e se desdobrou para fazer com que a perna caísse em ângulo, mirando uma das pilastras. A Sandslash, no entanto, esperou o momento certo para saltar no ar, mirando o Hitmonlee que agora não tinha como escapar, com apenas seu pé de apoio para lhe dar agilidade.

 Sara acabou acertando-o em cheio, derrubando-o com tanta força no chão que uma pequena cratera foi formada. E, novamente, a Sandslash foi a única que saiu dali em pé.

 A platéia entrou em festa enquanto Kari sorria. De fato, entre todos os seus Pokémon, Sara era a que lutava mais elasticamente, um deleite para o público. No entanto, ela já estava bem ferida, e necessitava ser substituída. O melhor de Bruno ainda estava por vir.

 Ele lançou seu famoso Machamp, um Pokémon bem maior do que os outros de sua espécie. Para o contra-ataque, Kari também lançou o seu melhor. Kenichi foi invocado, e abriu as asas com imponência. Os dois se encararam, analisando um ao outro, até que o Charizard avançou.

 - Kenichi, é para acabar com tudo de uma vez! - Gritou a treinadora, e seu Pokémon lançou o golpe que havia treinado por tanto tempo. Ele começou a brilhar e a envolver o corpo em chamas, até que pareceu explodir, lançando as labaredas por toda a arena. A torcida rugiu, e se animou ainda mais quando viu que o Machamp continuava em pé. - Oh, não. - Sussurrou Kari.

 O Pokémon de Bruno encarou o adversário com um olhar assustador, que fez com Kenichi recuasse. Infelizmente o Charizard não pôde fazer mais nada, visto que a explosão de fogo havia consumido todas as suas forças por um tempo.

 O Machamp avançou, derrubando Kenichi no chão. Enquanto segurava seu pescoço com duas mãos, ele utilizou as livres para fazer um movimento cruzado, acertando com força o rosto do Charizard.

 - Kenichi! - Gritou Kari, vendo seu Pokémon ser atacado no telão. O Machamp novamente atacou, desta vez acertando o pescoço. Isso pareceu irritar o Charizard, que abriu conseguiu abrir as grandes asas. Ele cabeceou o Pokémon de Bruno, dando uma chance para que conseguisse voar. O adversário, no entanto, ainda se segurava, fazendo com que Kenichi subisse ao ar, realizando uma meia-lua para começar a cair, girando o corpo com a intenção de impactar o corpo do adversário no chão. Os dois caíram e a poeira levantou, mas apenas um Pokémon saiu de lá. O Charizard abriu as asas e rugiu, vitorioso, levando a platéia ao delírio. Kari e sua equipe haviam avançado no torneio.

Enquanto a garota respirava de forma mais tranquila, enxergou Bruno se aproximando. Ele estendeu a mão, apertando com força a mão da garota. Seus ossos pareceram se quebrar, mas ela tentou não demonstrar a dor. De perto, Bruno parecia bem mais forte.

 - Eu perdi. Portanto, não tenho o direito de dizer nada. - Ele parecia genuinamente triste, mas Kari sabia o porquê. Lorelei havia eliminado dois participantes do torneio, e o homem à sua frente não havia conseguido nenhum. A garota sorriu em resposta. No entanto, seu sorriso diminuiu um pouco ao se lembrar do adversário do dia seguinte. O fato era que ela tinha uma estratégia contra cada membro da Elite dos Quatro, mas não contra a próxima. Kari tinha membros de sua equipe que poderiam derrotar qualquer Pokémon do torneio, mas não serviriam muito contra fantasmas.

 Agatha, a terceira membro da Elite dos Quatro, a aguardava.